A grave regressão no ensino médio, por Altamiro Borges

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Em mais um gesto autoritário, o usurpador Michel Temer assinou nesta quinta-feira (22) uma Medida Provisória que altera o conteúdo do ensino médio no Brasil. Sem passar por discussão ou votação no parlamento e sem qualquer diálogo com a sociedade, a MP extingue várias disciplinas fundamentais à formação dos estudantes brasileiros – como sociologia e filosofia. A iniciativa evidencia, mais uma vez, a visão retrógrada dos golpistas que assaltaram o Palácio do Planalto. Para a elite, a escola não é para estimular o senso crítico, mas sim para adestrar os jovens para o mundo do trabalho. O anúncio da medida ditatorial, que tem força de lei, já gerou as primeiras reações negativas.

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Alimentar o mundo, por Evaristo de Miranda

 

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Com tecnologia, sustentabilidade, competência e competitividade,

o Brasil terá capacidade de alimentar mais de 2 bilhões de pessoas.

EVARISTO DE MIRANDA, insigne cientista e patriótico defensor dos interesses nacionais é um grande amigo, bastante frequente nas páginas deste Blog. Paulistano, agrônomo,

O artigo abaixo foi divulgado hoje em OESP e o reproduzo para todos e todas vocês.

 

Divida a produção de grãos de um país pelo seu número de habitantes. Se o resultado ficar abaixo de 250 kg/pessoa/ano, isso significa insegurança alimentar. Países nessa situação importam alimentos, obrigatoriamente. E são muitos os importadores de alimentos vegetais e animais em todos os continentes, sem exceção. O crescimento da população, da classe média e da renda, sobretudo nos países asiáticos, amplia anualmente a demanda por alimentos diversificados e de qualidade, como as proteínas de origem animal.

O mais vendido refrigerante do mundo define sua missão como a de “saciar a sede do planeta”. A missão do Brasil já pode ser: saciar a fome do planeta. E com os aplausos dos nutricionistas.

Em 2015 o Brasil produziu 207 milhões de toneladas de grãos para uma população de 206 milhões de habitantes. Ou seja, uma tonelada de grãos por habitante. Só a produção de grãos do Brasil é suficiente para alimentar quatro vezes sua população, ou mais de 850 milhões de pessoas. Além de grãos, o Brasil produz por ano cerca de 35 milhões de toneladas de tubérculos e raízes (mandioca, batata, inhame, batata doce, cará, etc.). Comida básica para mais de 100 milhões de pessoas. Continue lendo

Desafios e rumos da esquerda democrática no pós-golpe

Não é suficiente resistir ao projeto liberal-conservador representado pelo governo golpista. Apesar de necessária, a denúncia e a resistência não conquistarão “coração e mente” dos brasileiros se a esquerda não demonstrar qual tipo de sociedade defende e com quais medidas pode alcançá-la

Guilherme Santos Mello*

É inegável que o golpe parlamentar-jurídico-midiático abalou os planos do campo democrático popular. Também é verdade que, mesmo antes do golpe ser concluído, o ministério do segundo governo Dilma já anunciava a derrota, em particular na economia. Por fim, é preciso reconhecer que apesar dos inegáveis avanços sociais e econômicos, algumas políticas e escolhas econômicas dos governos Lula e Dilma não condiziam com uma estratégia de esquerda.

Apesar disso, o campo democrático popular de esquerda parece estar longe do aniquilamento, como desejariam seus adversários. Através de grandes mobilizações sociais em âmbito nacional, uma imensa força jovem e transformadora tomou conta das ruas, mesmo que de maneira pouco articulada e planejada.

Diante deste quadro, é preciso garantir um sentido estratégico para as ações políticas a partir deste novo cenário, reagrupando as esquerdas e promovendo uma reflexão crítica, com o objetivo de superar as eventuais divisões e dinamizar as mobilizações. Este texto busca elencar quatro temas que deveriam ser enfrentados para atingir tais objetivos.

1 – Realizar uma análise crítica dos governos Lula e Dilma.

A esquerda será incapaz de dialogar com o resto da sociedade se não apontar os erros dos governos Lula e Dilma, em particular em sua fase final. É fundamental defender as importantes conquistas do período, mas é preciso explicar as causas da crise atual.

Responsabilizar apenas a crise internacional e a irresponsabilidade da oposição golpista é insuficiente como narrativa. Se quiser ser ouvida e elaborar novos projetos, a esquerda precisará refletir criticamente sobre os limites de atuação e os erros que cometeu nos últimos anos.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer as insuficiências. A ausência de reformas profundas (como a tributária, política, dos meios de comunicação etc.) foi indevidamente justificada em nome da estabilidade de um sistema político fracassado.

A manutenção do tripé econômico, mesmo que flexibilizado, se mostrou contraditório com o objetivo de mudança estrutural da economia, ao se valer de juros altos e câmbio valorizado. No campo do Estado, a manutenção de uma estrutura político-burocrática corrompida, classista e politicamente conservadora, além de enfraquecida por décadas de liberalismo, trouxe limitações ao avanço do investimento público e partidarizou alguns setores de controle e investigação.

Por fim, é preciso reconhecer os equívocos: As alianças espúrias com partidos conservadores visando garantir a governabilidade; a adoção de uma estratégia econômica liberal com vistas a aplacar a sanha do mercado; a cooptação e falta crescente de diálogo com os movimentos sociais. Em suma, a ideia de transformação estrutural sem conflito político enfraqueceu a capacidade de resistência e mobilização do campo popular, que se viu engolido pela onda conservadora já nas manifestações de 2013.

2 – Construir e propor um novo projeto de país.

Não é suficiente resistir ao projeto liberal-conservador representado pelo governo golpista. Apesar de necessária, a denúncia e a resistência não conquistarão o “coração e mente” dos brasileiros, caso a esquerda não consiga demonstrar qual tipo de sociedade defende e por meio de quais medidas podemos alcançá-la.

As propostas concretas devem derivar dos valores deste campo, como a defesa dos direitos sociais, da igualdade de oportunidades, da democracia efetiva e do desenvolvimento econômico/social ambientalmente sustentável.

A defesa da ampliação e melhoria dos serviços públicos pode ser o coração da estratégia, dialogando com as manifestações de 2013. A política econômica e as estruturas de Estado (devidamente reformado) devem sustentar estes objetivos, ao incentivar mudanças na estrutura produtiva e social.

Por fim, o conjunto das propostas deve ser perpassado pelos novos temas colocados pela sociedade, como a igualdade de gênero, racial, a liberdade sexual, a sustentabilidade ambiental, o direito à cidade etc.

3 – Garantir sentido estratégico para suas propostas e ações.

Nesta nova quadra histórica, a esquerda precisará se valer de estratégias de diálogo que disseminem seus ideais pelo conjunto da sociedade. Esta tarefa precisa ser enfrentada com mente aberta ao diálogo, sem purismos precipitados, pois é impossível para a esquerda avançar em uma sociedade dominada por valores preconceituosos e economicamente liberais.

Neste sentido, garantir sentido estratégico para a ação significa disputar (com unidade) os valores e ideais políticos da sociedade.  As lutas deste campo devem reforçar as ideias de solidariedade social, liberdades civis e do Estado de bem-estar, se recusando a atuar conjuntamente com forças políticas que não compartilhem desses valores fundamentais.

4 – Fortalecer as novas formas de organização social e mobilização.

A mobilização e organização política ganharam novos contornos a partir de junho de 2013. Atualmente, a maior parte das mobilizações contra o golpe é convocada pelas redes, através de grupos temáticos e sem a participação direta dos partidos ou sindicatos. Coadunar a força das tradicionais organizações sociais dos trabalhadores/estudantes com a energia da juventude mobilizada nas redes e periferias é o grande desafio da esquerda democrática.

Neste sentido, a criação de “frentes” de esquerda, como a Frente Brasil Popular ou a Frente Povo sem Medo, são bem-vindas. A organização na academia, através do Fórum 21, também atende a necessidade de organização das esquerdas.

No entanto, é preciso garantir a sinergia destes movimentos, sem recriar protagonismos indevidos e sem descaracterizar a luta temática de cada grupo, evitando rupturas e garantindo a aproximação com os grupos temáticos não abarcados por estas frentes.

O desafio de unificar o campo é a tarefa mais importante para a esquerda nos anos vindouros. Apenas assim será possível aproveitar a nova energia trazida pela juventude para dentro da luta estratégica do campo democrático popular.

Conclusão

Obviamente, os desafios e rumos da esquerda democrática não se encerram nestes quatro pontos sugeridos. A discussão do papel dos partidos políticos, por exemplo, não foi abordada neste texto. Apesar de tais insuficiências, os temas aqui tratados não podem ser desconsiderados caso a esquerda queira transformar a atual energia social em ações políticas efetivas. No seio da denúncia do golpe pode surgir uma nova esquerda mais forte e unida.

*É professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON-UNICAMP).

Marilena Chauí: ‘Liberdade é afastar as paixões tristes’

Para Espinosa a liberdade exige que se saia desse ‘imaginário passional (passivo), sem abandonar a vida afetiva’: eis a chave para a potência de existir.

Tatiana Carlotti

Tatiana Carlotti

Há trinta anos, o Núcleo de Estudos e Pesquisas da Funarte promovia um curso livre intitulado “Os Sentidos da Paixão”. O sucesso foi tamanho que o curso se transformou em um ciclo de várias conferências, gerando 800 ensaios, sob a coordenação do filósofo Adauto Novaes. Continue lendo

Não é uma campanha despolitizada

jandira-feghaliA Folha de São Paulo hoje, sábado a uma semana das urnas, analisa os resultados do Datafolha sobre a eleição na capital de São Paulo, cruzando dados para captar a definição de voto dos indecisos, o quanto o voto em determinado candidato é consolidado ou não e, mais, para quem migrariam os votos não consolidados.

haddadEm São Paulo, 39% ainda são indecisos, sem contar os votos indicados mas não consolidados: 51% dos entrevistados que declararam voto em Marta afirmaram que ainda podem mudar de ideia; são 37% os que titubearam sobre Doria, 38% sobre Haddad, 39% sobre Russomanno e 45%, Erundina. Ou seja, a eleição está em aberto, a uma semana das urnas.

Marta tem uma barreira que é a desconfiança sobre sua migração partidária, o eleitor quer entender melhor isso; Russomano, pela sua inconsistência, declarações desencontradas e furadas e falta de sustentação.

Por outro lado, uma recente qualitativa de bom gabarito em importante capital brasileira, indica que porcentagem substancial da sociedade brasileira tem posição contra o golpe, algo em torno de 35-40% dos eleitores. Nada a ver com Dilma ou com o PT, mais propriamente contra o trauma político do golpe na democracia. Estão incomodados com a radicalidade do confronto entre a turma do golpe e do Fora Temer, e desiludidos ou abalados pela situação do PT que se tornou alvo seletivo dos golpistas. A maioria quer ver se isso se confirma e onde vai dar, há muitas coisas em aberto. Mais importante: testadas, os grupos pesquisados reconheciam em boa medida os campos políticos entre os candidatos da disputa municipal.

Uma conclusão é que é um engano dizer que esta campanha é despolitizada. Há um componente político subjacente à opção do eleitor, para além de propostas para a cidade.

O eleitor, as pessoas – talvez, quase certamente –, não queiram ter um debate público sobre sua posição a respeito da cena nacional, mas não deixam de ter opinião que subjaz à apreciação que fazem dos candidatos, seus apoiadores e suas propostas. E as levam em conta ao definir o voto.

Convenhamos que a situação dos eleitores é, compreensivelmente, de muitas incertezas quanto aos acontecimentos e perspectivas. Não quer ser ludibriado, nem quer se enganar ao votar e se arrepender no futuro. Não se pode culpá-lo, está bem difícil definir o voto e as regras de campanha tornaram isso ainda mais difícil.

Mas não é uma campanha despolitizada. Há uma recusa surda da bipolaridade que comanda a vida política há mais de vinte anos, uma tendência de mudança e não de continuidade, o que fragmentará os resultados eleitorais em termos de legendas partidárias. Fala muito disso o fato de o PRB evangélico estar liderando por ora nas duas maiores cidades do país. A direita política, com o golpe, de fato lograram construir uma corrente de voto de opinião, baixa mas generalizada no país. Fazem o gênero da anti-política, mas não enganam nem aos incautos: são políticos profissionais e corporativos. Mas o que se fiam no exemplo de sua vida, não há como esquecer o governo Lula e as melhorias sociais introduzidas, apesar do anti-petismo em ascenso.

Isso indica que para vencer não bastaria demarcar campos do ponto de vista nacional tanto quanto não bastaria só apresentar propostas para a cidade. O eleitor está exigente, como sempre, não despolitizado, precisa ser capturado num fio narrativo, pela racionalidade e ainda mais pelo ideário e emoção, que dão base à sua sustentação e propostas.

Propostas são condições necessárias porém insuficientes para vencer a disputa na campanha. Não bastam, se não se sustentarem também na identidade de campos sobre a cena nacional, produzindo identidade de campos políticos, bem tratados sob o ponto de vista do ideário médio do eleitor.

Sobretudo nos grandes centros urbanos como São Paulo e Rio, é de se esperar que esses fenômenos sejam mais nítidos. Jandira no Rio, por exemplo, disputa palmo a palmo sua entrada no segundo turno contra a máquina do governo municipal, acertando no ponto de combinação entre identidade de campo político, no plano nacional, referido aos campos em disputa na cidade, e suas propostas. Tanto assim que levou Dilma e Lula à campanha. Assim, tende a ultrapassar Freixo do PSOL e sua boa mensagem.

Haddad, prefeito e candidato à reeleição em São Paulo, não encontrou esse bom ponto. Foi travado graças a certa invisibilidade de suas realizações e persona política e, quanto à identidade de campo, pela má situação do PT. Suas propostas são as melhores, suas realizações são realmente boas e importantes, mas não bastarão se não se combinarem com alguma contundência e emoção sobre os polos políticos em disputa na cidade referidos aos acontecimentos nacionais. Ele tem moral para a contundência, apelar ao eleitorado para levar essa quase metade da população contra o golpe ao segundo turno e até para fazer a defesa do PT, como partido que legou muitas transformações positivas ao povo e que quer se reformar, aprender com os erros, tarefa na qual Haddad joga grande papel. Na dúvida, lembrar sempre que mais de 80% rejeitam o governo Temer e, até nas manifestações pró-golpe, uma ampla maioria manifesta de público rejeição massiva a Alckmin, Aécio e Serra, por exemplo.

Uma outra conclusão é que, se para ganhar as duas condições são necessárias, para perder deve-se sempre ter em mente o saldo que fica: pode-se ter uma derrota eleitoral sem necessariamente uma derrota política. É o que se chama “cair de pé”, com reforço da imagem e representação de campos políticos nítidos. Porque não há vitórias irreversíveis, nem derrotas definitivas.