Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

Movimento das Mulheres: moderno sem abrir mão de seus objetivos

A conversa.com de hoje é com Drica Madeira. Tem 31 anos, é mãe de três filhos, formada em Letras- Português Literatura – pela Universidade Católica de Petrópolis, feminista, militante do PCdoB desde 2000, faz parte da Direção Estadual do PCdoB/RJ desde 2006. Coordenou o Centro de Referência e Atendimento a Mulher – Tia Alice de 2006 a 2008 e hoje é Coordenadora Executiva da Superintendência dos Direitos da Mulher do Governo do Estado do Rio de Janeiro.

Drica Madeira

Drica Madeira, na inauguração do
PAC social em Manguinhos – Casa da Mulher

Drica, tenho dito e temos discutido que há um fato histórico singular na vida da humanidade, que é o papel das mulheres, desde o segundo pós-guerra. Algo bem contraditório e deformado, todavia, mas sem dúvida um avanço histórico. E no sentido mais conjuntural, particularmente no Brasil dos últimos anos, um novo sentido desse movimento. Como você vê isso?

Estamos de fato vivendo um momento singular no movimento geral pela emancipação das mulheres, eu diria um momento de retomada, numa perspectiva de gênero, que envolve a todos e não só as mulheres, mesmo reconhecendo suas especificidades.

Olhar para o mundo e perceber as mazelas ainda sofridas faz também refletir sobre o quanto avançamos. Surgem em vários pontos do globo movimentos pelos direitos humanos das mulheres, que vão desde a reafirmação da reivindicação ao direito ao corpo até as pressões sobre governos para que cessem com a barbárie dos apedrejamentos e das mutilações, para que combatam tráfico internacional de mulheres dentre outros. Ou seja, estamos vivendo um momento de elevação geral de consciência, em níveis diferentes entre as distintas nações e culturas, sobre o papel das mulheres e seu direito à civilização.

No Brasil em particular, o Governo do Presidente Lula é um marco. Dentro de suas limitações, ofereceu condições para avanços significativos, exemplos como a criação da Secretaria Especial de Política para as Mulheres com status de ministério e o desenvolvimento de uma série de políticas públicas com esse recorte. E para além disso, potencializou a visibilidade feminina, as suas competências, suas virtudes como gestoras, por fim, suas capacidades. Isso parece menor, mas a questão da visibilidade tem um impacto gigantesco na sociedade, dessa percepção espraiada e tronada consciência quando incorporada pelas amplas massas, como dizia o velho Marx, ai sim se tornando força material, tem a força de destroçar tabus e valorizar no microcosmo das mulheres brasileiras o desenvolvimento de suas múltiplas potencialidades.

Sim, concordo. Mas me incomoda tratar a questão da mulher meramente como uma questão identitária, de emancipação feminista. Há coisas muito mais imediatas, anteriores até, abrangendo uma multidão de mulheres no Brasil, que hoje têm grande parte das famílias lideradas por mulheres… e no mundo do trabalho as conquistas ainda são parciais…

É verdade. É preciso falar daquelas mulheres concretas e reais, as chefes de famílias que vêem alargar seus horizontes com o direito ao registro em seu nome da moradia popular, as mulheres que hoje se apóiam numa legislação específica – Lei Maria da Penha _ na dura batalha contra a violência doméstica, na inclusão no PAC 2 da retomada da reconstrução de creches. Para essas milhões de brasileiras, o governo Lula forneceu instrumentos, ainda que insuficientes, para uma vida mais digna e merece nosso reconhecimento. Dizem que o desenvolvimento civilizacional de uma sociedade pode ser medido pelo grau de desenvolvimento de suas mulheres, sendo isso verdade, sem dúvida avançamos com Lula. Isso não que dizer que resolvemos todos os nossos problemas.

No mundo do trabalho vivemos ainda enormes desigualdades, vem diminuindo, mas num ritmo aquém das necessidades. Persiste a diferença entre homens e mulheres e entre as próprias mulheres neste campo. Cabe aqui ressaltar a diferença bastante profunda entre brancas e negras. Estas últimas continuam sendo as mais discriminadas, não só na hora de arranjarem emprego como também na disparidade de remuneração. Não pára por ai, as pesquisas apontam que de fato estamos mais no espaço público, mas apontam também que somos as ocupantes de profissões mais precarizadas. Faltam engenheiras, advogadas, na área de ciência da informação e computação nem se fala, não estamos em grande número nas profissões de caráter estratégico para o desenvolvimento do país, e é de se observar que quanto mais altos os postos e salários mais distantes ficamos deles. Isso é só para dar um exemplo do quanto falta caminhar!

Bem, Drica, de todo modo o Brasil parece que vai ser governado por uma mulher, já pensou?

Este momento é tão especial que há duas candidaturas de mulheres a presidência da Republica, principalmente a candidatura de Dilma que apresenta chances reais de presidir o Brasil. Será um marco histórico de grande vulto. Ainda existe a grande expectativa de que consigamos aumentar a representação feminina em outras esferas de poder. Por si só, uma mulher ser a indicada do presidente mais popular da história do Brasil, para que seja sua sucessora já é fenomenal, caso venha a se eleger, muitos paradigmas serão quebrados. Mesmo que saibamos também que seu possível governo não acabará com todos os obstáculos, não significa que devemos tirar toda a importância deste fato. Dilma, caso eleita, será nossa experiência, seremos milhões de brasileiras governando na contramão da hegemonia masculina na política.

Vai ser um salto quântico civilizacional em nosso país…

Quando falamos de um novo salto civilizacional, devemos incorporar a idéia de que sem as mulheres não há salto, é necessário mover esse exército. Colocá-lo em movimento é formular estratégias criativas e investir nas mulheres. Com uma abordagem específica, que ofereça condições à superação das barreias enormes que as mulheres precisam enfrentar para estarem no espaço público e principalmente na política.

Estamos sendo colocadas à prova e chamadas à responsabilidade, o movimento feminista e em particular nós, as emancipacionistas. Esta será a hora de mostrarmos nossa capacidade de responder a novos desafios, nos reciclando do ponto de vista teórico e prático, ainda que seja sem perder referenciais.

Os desafios aumentam na medida em que incorporamos novas pautas, e é um dever fazê-lo! Um olhar sobre as profissionais do sexo, sobre as meninas grávidas na adolescência, sobre as lésbicas e sua luta contra o preconceito e o direito de amar. Mesmo com a resistência de certa ortodoxia dentro de nosso movimento a realidade impõe sua dinâmica, e as lutas que são justas e reais acabam por se afirmar.

Outra coisa a refletir: há uma combinação nova entre emergência social das mulheres e lutas ou participações institucionais. Enfim, certa institucionalização que sempre foi recusada por segmentos da esquerda.

A maior institucionalização do movimento, tendência geral, não só vista no movimento de mulheres, não pode ser enxergada como negativa. Explico: com a noção de Estado ampliado de Christine Buci-Glucksmann, em 1975, com o objetivo de expressar sinteticamente a idéia fundamental de Gramsci, a saber, a de que o Estado não compreende somente o aparelho jurídico de comando e repressão, mas também a “sociedade civil” e seu aparelho de hegemonia, graças ao qual um grupo social pode conquistar a direção de toda a sociedade, somos chamadas nas Conferências e Fóruns Governamentais a nos mobilizarmos e produzirmos uma disputa acirrada no âmbito da sociedade civil pela hegemonia de idéias que amalgamarão uma concertação de forças capaz de fazer com que o Estado se abra mais as nossas posições. Ocupando novas “trincheiras”.

Olhar para esse fenômeno como perda de autonomia do movimento é no mínimo ser descuidada e simplista quanto à crise que vivemos no movimento social em geral, e no movimento feminista em particular. Isso invoca causas muito mais complexas. Afirmar então que esta institucionalização é negativa é manter uma posição dogmática frente aos novos paradigmas e instrumentos desvelados pela realidade. Essa dicotomia é aparente e acho que o embandeiramento por uma parte do aparelho estatal das demandas da mulher são conquistas significativas que não podem ser subestimadas.

Isso é possivelmente mais uma manifestação de outro problema: uma transição geracional na experiência do movimento emancipacionista. Pode-se dizer isso?

O que precisamos sim é refletir sobre o nosso movimento e sobre as saídas para que superemos nossos impasses, ou seja, resta no movimento o desafio de se transmutar em algo moderno sem abrir mão de seus objetivos. Em minha opinião, no Brasil existe um vácuo geracional entre as feministas e como conseqüência um vazio temporal nas suas formulações. Vai desde as áreas de concentração de estudo até o que deve ou não ser incorporado teoricamente ou mesmo conceitualmente às nossas concepções. Do ponto de vista da pratica política então, é uma distância enorme. Os velhos modelos ainda hegemônicos afastam as novas gerações de mulheres, o movimento embrutecido e burocratizado não deita raízes na vida real das brasileiras, não interessa mais.

As mulheres querem soluções para suas vidas, querem ter mais direitos, colocar a solução geral na mudança sistêmica tem acordo, mas não reconhecer que avanços, mesmo que pontuais são importantes é miopia política. Para tanto, façamos avançar nossa luta aprendendo com o passado, mas sem repeti-lo como fórmula pronta.

Da esquerda para direita: Monica Suzana (Coordenadora das Mulheres da Paz da Comunidade de Manguinhos), Drica Madeira, Cecília Soares (Superintendente dos Direitos da Mulher do Governo do RJ) e a Ministra Nilcéia Freire (Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Governo Federal)

Da esquerda para direita: Monica Suzana (Coordenadora das Mulheres da Paz da Comunidade de Manguinhos), Drica Madeira, Cecília Soares (Superintendente dos Direitos da Mulher do Governo do RJ) e a Ministra Nilcéia Freire (Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Governo Federal)

Valeu Drica, aprendi com essa entrevista.
Escolhi algumas fotos de mulheres pelo mundo afora.  Ainda em março, acho que a homenagem cabe pelo Dia Internacional da Mulher.
Um abraço.

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Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e desde 2002 Secretário Nacional de Organização.

5 comentários em “Movimento das Mulheres: moderno sem abrir mão de seus objetivos

  1. Luciana
    24 de março de 2010

    Muito bom, Drica! Realmente, precisamos de formulações que levem em conta a realidade concreta e atual das mulheres no Brasil de hoje. Espero que em 2010 vejamos renovação da política do Brasil, com mais mulheres no Congresso, no executivo e, claro, na presidência. Mulheres de luta e com conteúdo, como você.

  2. Laura
    24 de março de 2010

    Que entrevista fantástica!
    Como faço para conhecer esta criatura?!!!
    Divulgarei para todos os meu contatos. Ótima

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  4. Leonardo
    25 de março de 2010

    Valeu Drica!
    Foi muito bom poder ler a sua entrevista.
    Sinto muito orgulho de você!!!
    Abraços

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Publicado às 24 de março de 2010 por em Conversa.com e marcado , , .

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