Salve, Dilma

Dilma Roussef, 62 anos, é a presidenta eleita do Brasil. Foram 55,7 milhões de votos, 56% do total apurado, 12 milhões mais que José Serra. Venceu também em 16 Estados, terá apoio desses tantos govenadores e houvera feito ampla maioria de mais de 60% na Câmara dos Deputados e no Senado no 1º turno.

O Brasil saúda-a, orgulha-se de uma mulher ocupar o mais alto cargo da nação e do grande feito democrático que foram as eleições.

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A vitória é estratégica.

Vence Dilma. É uma mulher extraordinária por sua história política, capacidade como gestora e convicção do programa que apresentou à nação. Numa campanha que teve elementos de sordidez política, manteve o foco, revelou atributos pessoais de concentração, em nenhum momento foi demagógica. Isso revela muito do que se pode esperar de seu governo.

Vence Lula, líder extraordinário. O povo deu um voto à continuidade do rumo aberto por seu governo, cujo legado foi decisivo para a vitória. Sua capacidade de interpretar a alma popular e seu espírito democrático, avultaram mais uma vez. Ele não pretendeu um terceiro mandato, não é caudilho, fez sucessora.

Vence a América Latina. A vitória é parte da onda progressista que marca o subcontinente sul-americano e os esforços de integração regional. Confirma-a e a garante, pela liderança natural do Brasil nesse processo.

O povo brasileiro venceu pela terceira vez consecutiva a disputa política nacional.

Isso é o que ficará gravado concentradamente na história destas eleições.

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São pródigas as primícias brasileiras.

Pela primeira vez uma mulher é eleita presidenta do Brasil. Será a única entre os 36 eleitos na vida republicana brasileira.

Um terceiro mandato consecutivo é alcançado por via do voto pelas forças progressistas.

Um presidente eleito pelo voto popular faz sucessor, no caso sucessora.

A presidência não será ocupada por um paulista desde que se instalou a polarização PT-PSDB nos últimos 16 anos.

Outras coisas mais. O “nunca antes neste país…” pode ter a frase completada de múltiplas formas.

Só não é a primeira vez que a sordidez invade a campanha eleitoral. Mas nunca antes como desta feita. Miasmas golpistas (como o criminoso filmete 2012 divulgado nas vésperas deste 2º turno) se fizeram ouvir. Até o papa fez ingerências, em apoio inesperado à inescrupulosa exploração de temas morais como fé religiosa e aborto. A grande mídia paulista-carioca e seus satélites não tiveram dúvidas quanto ao lado em que estavam. A campanha adotou um tom rebaixado pela oposição, que em alguns aspectos foi “venezuelanizada”. Maus eflúvios, próprio de quem a rigor não tinha projeto alternativo a debater. Serra, líder do processo, errou repetidas vezes e se deixou abater em medida inesperada quanto ao rumo da disputa.

A “condenação” do campo de Lula como “antidemocrático” é uma “ideia fora do lugar”. A democracia brasileira regular não tem 40 anos em termos eleitorais. Só cegos facciosos não reconhecem que ela se fortaleceu com a inclusão social. Certamente ela precisa ser aprimorada, mas para isso a oposição não tem contribuído: os males de que acusa o campo popular são os mesmos de seu campo e envolvem uma reforma política no país. Não se tem notícia de que a oposição defenda uma reforma política democratizante…

Será preciso superar isso. A oposição deverá encontrar nova espinha vertebral, mudar de cara, debater o país real, dialogar com o povo em sua condição real. O pais precisa de uma oposição séria que cumpra seu papel.

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O primeiro pronunciamento da presidenta eleita aponta os desafios por virem. Seguiu o rumo da campanha: sereno, lúcido, racional; não há comoção nem artificialismo. Há sim um projeto. A força e energia de Dilma se voltarão a isso.

Grandes opções se apresentam ao país. Há enormes carências por superar para afirmar a nação, dar-lhe inteiro autogoverno, resgatar o papel do povo brasileiro como elemento central do projeto.

O mundo segue em crise econômica, não superada nos países centrais do capitalismo. Grandes mudanças geopolíticas estão em curso no mundo e o Brasil tem nisso papel destacado pela força e respeito que granjeou nas relações internacionais.

O Brasil tem um rumo, confirmado pelas urnas: um projeto desenvolvimentista, democrático, soberano, com distribuição e desconcentração da renda. Dilemas da política macroeconômica ganham novas possibilidades e exigências de superação – defender o país na guerra cambial, levar os juros a patamares internacionais, garantir os interesses da nação perante o sistema financeiro internacional.

Dilma se comprometeu com uma reforma tributária, particularmente para desonerar investimentos e alavancar o desenvolvimento. Será jornada dura em termos de arbitrar interesses, porquanto envolverá redirecionar o sistema financeiro privado nacional para investir no desenvolvimento e não na dívida pública paga a juros escorchantes pelo governo.

A nação deverá dar novos passos no sentido de sua auto-afirmação. O desenvolvimento de 7-8% deste ano, um dos maiores do mundo atual, é base para o impulso. Permite e solicita equacionar em outro patamar as questões da Ciência, Tecnologia e Inovação; a defesa nacional; o desenvolvimento-promoção do meio ambiente; a estratégica questão da Amazônia…

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No plano político, em pauta a reforma política, mais uma vez. Lula afirma que nela quer se envolver. De fato, uma grande reforma político-partidária-institucional é necessária para consolidar uma autêntica democracia participativa, com partidos fortes. O financiamento público exclusivo é necessário para garantir transparência e maior igualdade de oportunidades do sistema eleitoral proporcional. A reforma política é parte da reconstrução do Estado nacional, combater a corrupção e a impunidade. Ao seu lado, clama democratizar e assegurar conteúdo nacional às comunicações. Não há como desvincular maior democratização da sociedade sem isso, assegurada a liberdade de informação.

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No plano social, educação, saúde, segurança e reforma urbana foram centrais no debate. Políticas já estão em curso no governo Lula. Será preciso aprofundá-las e mesmo inová-las, como proposto por Dilma repetidas vezes.

O Pré-sal é o “bilhete premiado” que abre portas para alcançar integralmente a condição de país desenvolvido, superar a miséria e o analfabetismo, as precárias condições do sistema público de saúde, revolucionar a educação e a segurança, levar cultura para as massas, promover  o meio ambiente como patrimônio, investir pesadamente na Ciência, Tecnologia e Inovação.

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Os desafios se disputarão num cone de luz bem definido, de imediato. De imediato, a garantia de ampla governabilidade para o novo governo, com as forças aliadas. Por outro lado, e simultaneamente, a presença de um núcleo programático central no novo governo, sólido nas convicções, com clareza de rumos. Dilma tem condições plenas para liderar ambos os desafios.

Para isso, a esquerda será indispensável. A esquerda cresceu. O PT tem Dilma na Presidência. O PT, PSB, PCdoB, PDT entre outros chegam a um terço da Câmara dos Deputados, além de ampla vitória do PT no Senado e o crescimento do PSB que alcançou seis governos estaduais. O PCdoB também se fortaleceu relativamente, acumula suas forças progressivamente.

Como disse, são pródigas as primícias brasileiras. Vinte anos, me parece, podem dar rumo a uma nação. Estamos no começo desse percurso, considerando os 8 anos de Lula, começando a superar a herança neoliberal. Falta muito a percorrer, mas o rumo está dado. No curto prazo, o Brasil pode de fato superar a miséria e sair da condição de país emergente para a condição de país desenvolvido. Só a força do povo possibilitará isso.