Nem bons, nem maus, senão incorrigíveis

Petismo, um desafio político, um dilema social e o dilema econômico

Lê-se nos jornais que o PT está preocupado com o pós-Lula. Quer dizer, eles querem deixar claro desde o início da gestão de Dilma Rousseff o espaço que pretendem ocupar na nova administração e como deve ser o diálogo entre o partido e a presidente.

A julgar pelo Ministério constituído – e ainda falta do segundo escalão para baixo – e a partilha com o PMDB na Câmara e Senado, imposta sobre tudo e todos, poderia se dizer, parafraseando Borges a propósito do peronismo na Argentina:  o PT não é bom, nem mau, senão incorrigível.

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Deputado José Genoíno será o principal assessor político civil do Ministro da Defesa, Nelson Jobim. Em pauta, a Comissão Nacional da Verdade. Será grande a responsabilidade do ex-deputado e ex-presidente nacional do PT. A nação só se constrói se integra a ela todo o povo. Isso requer a Verdade, assegurar o direito à memória histórica dos crimes do Estado brasileiro durante a ditadura. Isso redimiria a história nacional desde Zumbi dos Palmares. Já a anistia foi processo político, não está pautada pela Comissão da Verdade. Apure-se, dê-se conta à nação dos desaparecidos e mortos. A sociedade como um todo será chamada à reflexão. Bem, aqui não

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Cristóvam Buarque parece ter razão na avaliação do Ministério da Educação, continuando Fernando Haddad. “Tenho a sensação, pelos passos iniciais, que vai continuar uma simples e ligeira (acrescento eu: e prolongada) evolução… que continua deixando os brasileiros para trás”. Quer dizer, na solução avançada de um problema que deveria ter sido equacionado no fim do século 19 ou primeiras décadas do século 20 (como Chile e Argentina), as outras nações, sobretudo asiáticas, têm mais apetite que nós pelo futuro.

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A Fazenda pressiona o mercado de câmbio com o Fundo Soberano Brasileiro autorizado a atuar no mercado futuro de dólares. No Brasil, ele tem mais importância que o mercado à vista, mais uma jaboticaba genuinamente brasileira, onde mais se especula com o câmbio. Serão operações cambiais reversas, equivalentes a comprara dóalres. O patrimônio do FSB é de quase 20 bilhões de reais, mas estará ancorado no Tesouro em convênio com o BC, portanto o Tesouro será autorizado a emitir títulos da dívida federal (que se poderá se elevar, contrariamente ao pretendido por Dilma Rousseff em quatro anos). As operações do FSB são autorizadas pelos Ministros da Fazenda, Planejamento e o presidente do BC, tão somente.

É a segunda medida da Fazenda, em sequência à elevação do IOF sobre a entrada de capitais externos. Alguém comentou que, assim, o dólar parará de cair, o real parará de se apreciar.  Resta saber quando voltará a patamar que não estrangule a balança comercial e a indústria brasileira.

Jim Rogers, importante investidor há quarenta anos no país, não teve papa na língua: se fosse ele, “eliminaria qualquer controle cambial, deixaria o câmbio sossegado e o mercado llivre”. Se mal me lembro, essa foi uma das receitas da crise espocada em 2008, e o Brasil saiu melhor dela porque “fugiu prá frente”. Enquanto isso, Trichet do BC europeu anuncia que apoia controle de capital para países como o Brasil, prevendo precisamente a evolução da guerra cambial.

O problema do governo é que, ao mesmo tempo, Tombini no BC fala em reduzir a meta de inflação. Bem, “basta elevar os juros”, como ironiza Yoshiaki Nakano. Com isso, se aprecia o câmbio, se reduz o investimento e o crescimento do PIB. Para ele, “o câmbio (hoje) acaba sendo o mecanismo de transmissão mais relevante da atual política de metas de inflação (ou seja, a eficácia da políotica de metas depende muito da atual apreciação cambial)”. Então, se veste um santo e descobre outro. E ele indica que o fundamental é desindexação mais poderosa, principalmente dos ativos financeiros, com respeito à taxa de juros diárias, eliminando aberrações que conduzem a esterilizar a poupança nacional.

Ainda há muito a percorrer para fazer a inteira defesa da moeda nacional e, com isso, dos interesses do desenvolvimento soberano. Aliás, Mantega prevê evolução da “guerra cambial” para a “guerra comercial”, no Financial Times.  Igualmente a inflação, por mecanismos que não congelem a condição de país detentor da mais alta taxa de juros do mundo, remunerando regiamente os financiadores da dívida pública.

São verdadeiros dilemas. Inflação e câmbio sempre foram as esfinges que devoraram o país. Muita clareza, determinação e coragem serão necessárias ao governo brasileiro. O hibridismo terá igualmente custos, e a sociedade poderá não tolerá-los, haja vista o caráter da vitória de Dilma Rousseff.