FHC pecou pelo verbo, mais uma vez

O “príncipe dos sociólogos” é mesmo uma figura. A oração de que o PSDB deve desistir de disputar o “povão” com o PT e se concentrar na nova classe média promete acompanhá-lo por muito tempo. Tal como foi o caso de que (alguns?) aposentados são vagabundos.  A vaidade é tanta que peca pelo verbo com freqüência. “Eu não seria louco de achar isso”, repete mais de uma vez. “Qual o louco que vai deixar de lado o povão nas eleições?” “Eu não sou idiota em dizer isso” afirma ele, indignado, ao VALOR de hoje. Então por que disse?

Porque se tratava de “propor uma estratégia” à oposição. Não li na íntegra o artigo em questão. Julgo a repercussão, mormente em suas próprias fileiras. Além dele próprio ficar explicando a boutade, e além de perdigueiros da mídia nativa se desdobrarem em reduzir os danos da gafe, se demonstra que a oposição está sem estratégia alguma. A julgar pela reação ao artigo, a situação do PSDB-DEM-PPS é ainda pior do que se imagina.

No entanto, ele tem razão, em parte. Ele pressente que a orientação do governo Dilma se volta a consolidar e fazer avançar a situação dos estratos sociais emergentes nos últimos anos, e isso poderá significar uma hegemonia no governo pelos próximos mandatos presidenciais. Dilma vai falar ao coração e mente dessa gente, mais do que o fez Lula.

FHC corretamente analisa que classes de consumo não são classes sociais: “O mundo de hoje não é tão estabilizado quanto o do passado… é mais fragmentado”. Acho até que deveria ser instinto de sobrevivência para a oposição disputar esse novo contingente social que, com o tempo, vai formar novas teias de relações sociais. Mas a oposição “precisa disputar o controle político dessa população” e, continua ele, “está sem instrumentos para isso”.

Algo precisava ser feito: “dar uma cara à oposição”, ajustar o discurso à nova situação do país. Mas que FHC foi infeliz não resta dúvida. E impotente na estratégia.

A mensagem em si própria é inconsistente. Mais uma vez a plataforma é a democracia, a luta contra a corrupção e contra o corporativismo e o clientelismo, “descooptar os sindicatos”. A questão moral no centro, refúgio do conservadorismo anti-progressista na atualidade. Por via das dúvidas ele arremata: “Não tenho uma receita… É mudar o foco para ver se chega lá (na nova classe média)”.

Inconsistência maior é que, na entrevista aludida, curiosamente, a palavra desenvolvimento não é citada uma vez sequer. Que país tem em mente FHC? Tudo de bom teria começado no seu governo, que foi o do associação com a “globalização”, atrelando o país a uma agenda antinacional e, por extensão, antipopular. “Todos torcem para que o Brasil vá prá frente”, ora! Se fosse assim não haveria necessidade de oposição. “Vá prá frente” não é termo neutro e unívoco: envolve opções às vezes antagônicas com o que prega a oposição.

Um novo projeto nacional de desenvolvimento é o divisor de águas fundamental para o Brasil sair da condição de subdesenvolvimento para a de país desenvolvido. E isso carece de ser um projeto distribuidor de renda, valorização do trabalho, soberania e integração regional do subcontinente. Principalmente de democracia, no sentido de incorporar o povo ao cenário político.

Este blog afirmou reiteradamente que a oposição está sem cara porque não está sintonizada com a sociedade e o progresso social verificado para enormes contingentes da população nos últimos anos. Não se reconhece no sentimento e experiência dessa maioria social.

Sem instrumentos e sem bandeiras, é o caso de dizer. Sem pegada, falando no povão.