Rebeca Gusmão: "o impossível é uma questão de opinião"

Qualquer um pode ir ao Wikipédia e “conhecer” Rebeca Gusmão: “Rebeca Braga Lakiss Gusmão (Distrito Federal, 24 de Agosto de 1984) é uma nadadora e futebolista do Brasil, primeira brasileira a ganhar uma medalha de ouro em Jogos Pan-americanos, onde ganhou duas, nos 50m e 100m livres, durante a realização dos XV Jogos Pan-americanos no Rio de Janeiro. Medalha de bronze na prova de revezamento 4 x100m femininos nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, República Dominicana, em 2003, ela participou também Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

É também campeã mundial de supino categoria até 90 Kg e futebolista.

A coisa me intrigou. Pessoas submetidas a grande exposição muitas vezes têm a imagem deformada pela mídia. Em 2010 candidatou-se ao cargo de deputada distrital pelo PC do B. Hoje ela atua na área de esporte da Administração do Plano Piloto do DF, cujo titular é Messias de Souza, do PCdoB.

Afinal, quem é mesmo Rebeca Gusmão? Encontrei-a pessoalmente e me impressionou sua liderança nata, carisma. Compromisso e visão. Queria saber de onde ela tira tanta energia. Ela mesma o diz na entrevista:

“O que me move é a energia de acreditar que podemos mudar isso é como Che Guevara dizia: ‘Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário’. E é assim que me sinto”. “O impossível é uma questão de de opinião”.

Rebeca-Orlando

Walter, Rebeca e Orlando

Vicissitudes são da vida, todos as têm. elas existem para ser superadas. Difícil é ter determinação para isso. Veja nesta bela entrevista, corajosa e generosa, a visão de Rebeca sobre seu papel, o papel dos jovens, das mulheres e do esporte. Aposto: essa moça vai longe!

Rebeca, obrigado por participar do blog. Você é uma pessoa bem conhecida pela sua trajetória no esporte. Mas quem é a Rebeca Gusmão além das piscinas?

Bem, sou uma pessoa como qualquer outra. Sou casada há quatro anos com um cantor de ópera, tenho uma família maravilhosa. Sempre fui muito caseira e preocupada com minha família e meus amigos. Sou uma pessoa tímida, mas que me relaciono muito bem com as pessoas. Acho que muitos têm uma impressão errada sobre mim e muitos de meus atuais amigos falam que tinham uma impressão negativa sobre minha pessoa, principalmente por não me conhecerem. Acho que as pessoas pensam que quando você aparece na TV, você vive em um mundo de sonhos, tem tudo na mão e não é bem assim. Problemas todo mundo tem, o difícil é quando seu problema é exposto para o mundo. Queria ver quantas pessoas saberiam lidar com esse tipo de situação. Já passei Natal e Ano Novo treinando de manhã e à tarde nos dias 24, 25 e 31 de dezembro e 1º de janeiro. Passei a maioria dos aniversários das minhas irmãs do outro lado do mundo, competindo; metade deles longe dos meus pais sem comemorações… Mas tudo isso eu fazia pensando que compensaria com a alegria de um grande resultado. Hoje sou uma pessoa que não julgo ninguém, até mesmo se algum amigo meu pede para eu tomar cuidado com alguém que eu não conheça e sabendo que eu corro o risco de me decepcionar, eu dou a mim mesma a chance de conhecê-la e ter minha opinião formada sobre ela.

Acompanhamos na TV o que aconteceu com você. Para quem não sabe o final da história, como foi de fato?

Na verdade acredito que ainda não chegou ao final da história. Fui absolvida pela Justiça Brasileira, onde inclusive foi a única que investigou os envolvidos, os fatos e as provas. Ficou provado que trocaram minha urina e que a parte de acusação (o lado de lá) faltou com a verdade. A Corte Suíça Esportiva estava esperando o parecer da Justiça Brasileira e quando eu recebi a notícia que havia sido punida fiquei sem entender. No segundo semestre do ano passado, tive acesso a todo meu processo e fiquei chocada com os documentos que li. A justificativa da Federação Internacional para me punir foi de que nunca me manifestei em solicitar a prova “B” do meu exame de controle de doping sendo que existem três documentos onde solicito e inclusive uma das viagens que fiz a Suíça foi para fazer essa solicitação. Tudo o que aconteceu comigo eu posso provar. Infelizmente houve uma tremenda politicagem e é nítido. Vemos atletas que testam positivo e são suspensos por dois meses, ou sofrem apenas advertência ou até mesmo que são pegos duas vezes e suspensos por alguns anos. No meu caso eu não cheguei a ser suspensa, eu fui banida.

Porque você acha que teve tanta polêmica em torno do seu nome? Você sofreu muito preconceito?

Eu sempre sofri preconceitos. Sempre fui a atleta mais forte que nadava em um clube pequeno e com isso tirava pontos dos clubes grandes. Pegam fotos minhas de quando eu nem havia tido minha primeira menarca e comparam com fotos de cinco anos depois. As pessoas falam que meu ganho foi muito rápido em pouco tempo, o que não é verdade. Todo meu ganho foi proporcional. Em 2004 nas Olimpíadas de Atenas, eu pesava 76 Kg e no Pan de 2007 estava com 81 Kg. Vai me dizer que ganhar quase 2 Kg por ano é muita coisa? Ainda mais para um atleta de Alto Rendimento? O grande problema foi que tivemos um evento enorme em 2007 onde todos que ganharam medalha passaram a ser reconhecidos em todo o país. Eu estava na elite da natação desde os meus 12 anos. Com 13 já era a segunda melhor nadadora absoluta e aos 14 anos já estava no meu primeiro Pan-americano e ganhando medalha. A natação nunca teve uma mídia que dava atenção para a natação feminina. Isso aconteceu depois das Olimpíadas de Atenas. Para o Brasil eu era a nadadora mais forte, mas para o resto do mundo eu era apenas mais uma. Quando eu saio nas ruas aqui, as pessoas ficam me olhando, muitas vezes com olhares me recriminando. Quando vou para os Estados Unidos ninguém me olha e algumas pessoas me param para perguntar o que eu faço para ficar com esse corpo. Quando conto para as pessoas de outros países o que aconteceu comigo, recebo a mesma resposta: ”Não acredito que seu país fez isso com você”.

Você considera que vivemos em uma comunidade machista, elitista? O que você faz para combater esta discriminação contra as mulheres?

Sim, nosso povo tem um pensamento totalmente machista. A mulher tem que ter bunda, peito e ser magra. Eu não era modelo, era atleta e nunca vesti um maiô para ficar desfilando mostrando o corpo e disputando para ser musa, eu vestia para ganhar medalhas. Eu defendo e muito as mulheres que sofrem qualquer tipo de preconceito. Quero que saibam que podem contar comigo e que visto a camisa contra a discriminação. Vivemos em um país com tantas diferenças de raças e de pessoas! Temos que parar de nos preocupar com a vida dos outros e sim nos preocuparmos em como podemos ajudar os outros.

Você se candidatou na última eleição, por quê?

Me candidatei por acreditar que podemos mudar a realidade em que vivemos. Que ao invés de ficar criticando, eu deveria fazer algo para querer mudar isso. Sou jovem, estudante, atleta, mulher e sei que muito posso contribuir. Gosto de ajudar e sempre servi com muito orgulho e dedicação ao meu povo.

O seu processo nas piscinas interferiu inclusive na sua candidatura, como foi isso?

Acho que interferiu pela própria desinformação das pessoas, queriam barrar minha candidatura baseada na Lei da Ficha Limpa, como se a acusação por doping deixasse a minha ficha suja, sendo que eu fui absolvida pela Justiça Brasileira. A mídia é muito cruel e fez colocações sem procurar se informar direito e as pessoas acreditavam nisso e não se preocupavam com os verdadeiros “fichas sujas” que se candidataram e até se elegeram. Se eu tivesse realmente usado substância ilegal para me beneficiar quando nadava, quando fui punida, a maior prejudicada era eu e quem sofreria além de mim seria minha família e meus amigos, ninguém mais. Ao contrário dos “fichas sujas” que eram acusados de roubar do povo, matar, abuso de menores, entre outros crimes.  Infelizmente as pessoas acreditam em tudo que leem ao invés de procurar saber o ocorrido. Fico indignada porque fizeram um estardalhaço quando fui punida, mas quando eu fui absolvida, as pessoas mal ficaram sabendo.

Este seu lado com consciência crítica e ativa participação social poucos conhecem. Como você sente a realidade da juventude hoje no Brasil, a partir de tua experiência?

Primeiramente gostaria de agradecer e dizer que é uma satisfação enorme poder falar um pouco sobre um lado meu que as pessoas não conhecem. Hoje eu vejo nossa juventude bem diferente da juventude de antes, como foi na época do Collor ou até mesmo os jovens de outros países: é como se nossa juventude tenha se tornado preguiçosa. Os jovens faziam grandes protestos, iam às ruas brigar pelos seus direitos, para serem ouvidos. Hoje o que vejo são jovens desacreditados com seu país ou sua cidade, jovens com potenciais enormes, mas perdidos em mundos obscuros como drogas e crimes. Nossa juventude precisa de programas e políticas voltados para essa camada e tem que se lembrar que não adiantar criticar sem ser propositivo, sem fazer nada, precisamos nos unir para pedir mudanças e ter melhorias, porque juntos derrubaremos todo e qualquer preconceito, afinal de contas somos o futuro de uma grande nação…

O Brasil vive um momento singular, de afirmação, ao lado de grandes contradições ainda por superar. Como você sente estes anos de governo Lula e Dilma junto aos segmentos com os quais você convive mais diretamente?

Acho que o Brasil melhorou bastante nos últimos anos. Sabemos que muito ainda há para ser feito, mas sem dúvida estamos no caminho certo. Somos uma das maiores potências do mundo e estamos caminhando para nos tornarmos a maior em vários aspectos. No caso do esporte que é o meio que convivo diariamente, vamos realizar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada e ainda temos a possibilidade de trazer uma Universíade, que é o maior evento universitário do mundo. O caminho é longo, porém estamos dando passos largos.

O esporte é uma de tuas marcas. Essa área ganhou nestes dez anos, pela primeira vez, o escopo de políticas públicas progressistas, com caráter social, cultural e até econômico. De sua trajetória, e de sua ação atual no Plano Piloto (quem sabe na UNE também…), como você vê essa política do esporte e que papel social pode ter o esporte na vida nacional?

Sempre acreditei que o esporte resgata vidas, cria oportunidades, constrói e realiza sonhos. O esporte tem uma importância enorme tanto na formação do caráter pessoal quanto na cultural e econômica. A cada R$ 1,00 investido no esporte, o governo economiza R$ 5,00 na saúde, R$ 6,00 na educação e R$ 7,00 na segurança. Acredito muito em projetos sociais, como as Vilas Olímpicas, eu mesma comecei em um projeto aqui no Plano Piloto, na Secretaria de Esporte. Muitas pessoas acham que nasci em berço de ouro e que sou uma pessoa rica, mas não sou. Tenho grandes dificuldades financeiras e meu pai vendeu o carro para pagar um psicólogo e um fisioterapeuta para eu poder ir as Olimpíadas. Eu já passei por muitos momentos de dificuldade financeira e até hoje passo. A política esportiva tem que ser empregada em todos os setores, na escola, nas Universidades, nas Vilas Olímpicas, nos Clubes, no CRJ. As pessoas mais carentes precisam de espelhos, de ídolos, elas precisam identificar suas vidas, sua realidade com a desses atletas e sempre acabam encontrando. Essas crianças e jovens precisam dessa referência para que, quando lhes perguntarem o que elas querem ser quando crescerem, elas não responderem que querem ser o traficante do bairro ou do morro que moram. Estamos vivenciando um momento histórico com a vinda dos principais eventos esportivos do mundo. Essa é uma grande oportunidade de debatermos e de implantar mos uma nova gestão pública esportiva. Vivemos em um país que a maioria da realidade esportiva se encontra em clubes. Se todo atleta tem que estudar, porque não começar nas escolas e universidades?

Rebeca, você é jovem, mulher, esportista de alto rendimento, está bem. Mas é também líder estudantil e líder política. Isso envolve superar muitos obstáculos! O que a move? De onde você tira essa energia?

Eu já passei por muitos momentos na minha vida. Já fui julgada, sofri todo tipo de preconceito, fui rotulada e difamada. Acho que todo mundo tem o direito de pensar o que quiser e ter esse livre arbítrio, mas daí faltar com o respeito, esquecer que todo mundo tem família, sentimentos, isso eu sou contra. Sou uma pessoa que não julgo ninguém pela aparência, classe social, religião, orientação sexual ou cor, sou contra pessoas que fazem esse julgamento e tiro essa força de tudo que passei e luto por tudo que acredito. Obstáculos fazem parte de grandes conquistas e o que me move é a energia de acreditar que podemos mudar isso é como Che Guevara dizia: “Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário.” E é assim que me sinto.

É daí que veio a opção pelo PCdoB?

O PCdoB foi um dos primeiros partidos a me convidar a filiar, talvez por ver em mim muito da sua ideologia e luta. Sou uma pessoa sensível, jovem, atleta, mulher e cheia de ideais. O PCdoB possui grandes revolucionários que sem dúvida inspiram.

O povo brasileiro quer chances para progredir por méritos próprios. O que teu exemplo de vida demonstra em termos dessas chances? Que mensagem você daria ao segmento jovem, particularmente das mulheres jovens?

Muitas pessoas já foram ou já se sentiram injustiçadas, rotuladas, já passaram por dificuldades na vida, já enfrentaram a dor de uma grande perda e já viram tirar-lhes os maiores sonhos. Muitas pessoas acham que sou uma pessoa fechada, rica, sem sentimentos e sou ao contrário disso tudo. Sou uma pessoa amiga, companheira, que está sempre sorrindo. Sempre lutei pelos meus sonhos e mesmo existindo pessoas que falavam que eu não iria conseguir eu dava a volta por cima e provava o contrário. Já tive lesões pelas quais médicos e treinadores davam minha carreira como encerrada, mas a disciplina e a busca pelos meus sonhos não deixaram isso acontecer e cada dia mais eu ia mais longe e surpreendia a todos. Comecei minha carreira de natação aos 12 anos e aos 14 fui uma das mais jovens atletas dos Jogos Pan-americanos onde conquistei uma medalha de bronze. Desde cedo aprendi a ir em busca dos meus sonhos, a lidar com pressões físicas e psicológicas. Acordava às 04:00 da manhã para cair na piscina gelada, mas sempre pensando que estaria representando 90.732.694 de brasileiros e que se alguém falasse alguma coisa do meu povo eu o defenderia com toda minha força e raça.

Nós jovens precisamos nos unir, temos ideias diferentes, gostos diferentes, mas sem dúvida alguns de nossos sonhos são os mesmos. Queremos um país mais justo, que nos respeitem que nos escutem. Somos o futuro da Nação. A nós mulheres, não tenho palavras, somos guerreiras de natureza, nossa presidente é uma mulher e somos a maioria no mundo, preciso dizer mais alguma coisa?

Quais são seus projetos pessoais agora? E quais são os projetos sociais de que você participa?

Meus projetos pessoais são muitos. Procuro viver um dia após o outro. Quero me formar em Educação Física, fazer um Mestrado e se Deus quiser um Doutorado. Quero também ser mãe um dia e construir uma linda família. Quanto aos sociais, quero ajudar os jovens a verem que através do esporte eles podem conquistar seus sonhos e construir um futuro maravilhoso. Quero ser uma caça-talentos, ir a lugares onde trocaremos uma arma por uma bola, drogas por livros, lágrimas em sorrisos. Hoje sou Gerente de Esporte, Lazer e Turismo da Administração Regional de Brasília e já conseguimos proporcionar alegrias para muitos desses jovens. É emocionante vê-los sendo transformados em ídolos, tornando-se pessoas responsáveis e ao mesmo tempo proporcionar alegria e um momento onde todos esquecem suas diferenças. Não existe como medir a alegria de subir ao lugar mais alto do pódio, mas hoje sei que mais forte que isso é proporcionar esse sentimento a esses jovens.

É verdade que tem um grupo de amigos fazendo uma ação/campanha em seu favor? Como é isso?

Sim, o legal e bacana de estar no meio da juventude é isso. A gente conhece pessoas maravilhosas e constrói laços que sabemos que serão eternos. A galera do movimento jovem é bem unida e eles estão preparando uma campanha para eu poder pagar o processo da Suíça. Mas digamos que eles estão me preparando uma surpresa.

Que mensagem você deixa para as pessoas dos segmentos em que você atua?

Nunca deixem ninguém dizer que alguns de seus sonhos são impossíveis ou que você não dará conta de fazer algo. Acredite sempre e vá em busca deles. Tenham sempre fé, pois podemos conquistar o que quisermos. O impossível é uma questão de opinião.