Dom Angelico Sandalo Bernardino

Com o Papa Francisco, a Igreja sente o surgir de nova primavera

Dom Angelico Sandalo Bernardino

Dom Angelico Sandalo Bernardino

 

Conversa.com Dom Angélico Sândalo Bernardino.

 

Encontrei, depois de quase 40 anos sem conversar pessoalmente, com D. Angélico Sândalo Bernardino, emérito lutador das causas sociais dos brasileiros, a quem muito respeito. Foi numa palestra sobre os 50 anos do golpe militar, na Zona Leste de São Paulo, sexta passada (28/3). É sempre muito reconfortante estar com o amigo. Gentilmente, ele me concedeu esta entrevista voltada para a questão católica com o Papa Francisco.

É uma entrevista, também, numa chave pessoal. Acho que há muitos, como eu, que gostarão de saber onde está, o que está fazendo, e que está mantendo sua coerência e integridade. É com prazer que a publico, com gratidão a D. Angélico.

Estimado D. Angélico Sândalo Bernardino. Salve! Bem vindo ao Conversa.com, o que muito nos orgulha. Semanas atrás, Ratzinger interveio inesperadamente para de novo ajuizar a teologia da libertação. Só li a versão da mídia internacional, mas pergunto: mesmo que não de direito, ou de fato, na situação atípica em que se encontra eu pensei que existisse uma espécie de silêncio obsequioso, tácito ou explícito… Poderia estar esse fato conectado com o próprio papa Francisco?

Infelizmente não conheço o teor da mencionada declaração do Papa Bento XVI, hoje Bispo emérito de Roma. Somente li algo em notícia rápida na imprensa brasileira.

Sobre o relacionamento do Papa Francisco e seu antecessor, julgo oportunas as declarações do próprio Papa Francisco, ao jornal “Corriere della Sera”, em março último: “ O papa emérito não é uma estátua em um museu. É uma instituição. Não estávamos acostumados. Há sessenta ou setenta anos, o bispo emérito não existia. Veio depois do Concílio Vaticano II. Hoje, é uma instituição. A mesma coisa deve acontecer com o Papa emérito. Bento XVI é o primeiro. Talvez haverá outros. Não sabemos. Ele é discreto, humilde, não quer perturbar. Falamos a respeito e decidimos que seria melhor que ele visse pessoas, saísse e participasse da vida da Igreja. Uma vez ele veio aqui para a bênção de estátua de São Miguel Arcanjo; depois ao almoço em Santa Marta e, depois do Natal, eu lhe dirigi o convite para participar do conclave e ele aceitou. A sua sabedoria é um dom de Deus. Alguns gostariam que ele se retirasse para um a abadia beneditina, longe do VATICANO. Eu pensei nos avós que, com a sua sabedoria, os seus conselhos, dão força à família e não merecem acabar em uma casa de repouso”.

Sem falar, D. Angélico, no mérito do juízo expresso – mais uma vez. O que lhe pareceu?

A respeito da Teologia da Libertação creio não exista nada de novo que tenha vindo de Roma, além do histórico encontro, no Vaticano, do Papa Francisco com Gustavo Gutierrez um dos ilustres artífices desta teologia.

No passado, a Congregação para a Doutrina da Fé deu à luz dois documentos sobre a Teologia da Libertação: as instruções “Libertatis Nuntius”, de 6 de agosto de 1984 e a “Libertatis conscientia“, de 22 de março de 1986. Muito se discutiu e se discute sobre esta Teologia que tem suas fontes na Palavra de Deus e na dura injusta situação dos empobrecidos excluídos na América Latina. A preocupação fundamental reside na possível utilização da análise marxista nesta Teologia. É importante a afirmação do Papa João Paulo II neste contexto para não se virar pretexto de rápidas afirmações feitas não a partir da base e, sim, do conforto de escritórios. As palavras do Papa João Paulo II estão em sua “Mensagem aos Bispos do Brasil “em 9 de abril de 1986: “Deus os ajude a velar incessantemente para que aquela correta e necessária teologia da libertação se desenvolva no Brasil e na América Latina, de modo homogêneo e não heterogêneo com relação à teologia de todos os tempos , em plena fidelidade da Igreja , atenta a um amor preferencial não excludente nem exclusivo para com os pobres”.

Na prática no Brasil, muitos que discutiram e discutem a Teologia da Libertação, posicionando-se pró e contra, não se deram ao trabalho de ler as citadas Instruções, nem conhecem a Doutrina Social da Igreja e jamais leram o “Capital“ de K. Marx.

Para o discípulo de Jesus, o fundamental reside em acolhê-lo como mestre salvador, libertador! A Igreja no Brasil tem proclamado claramente seu compromisso evangelizador à luz da evangélica opção pelos pobres. A mística, a espiritualidade libertadora na América Latina, se inspiram na vida de Jesus e na situação do Povo, em sua maioria pobre, esmagado pelo sistema vigente, o caPEtalismo liberal. Somos convidados a “optar preferencialmente pelos pobres e a fazer de sua causa s causa de Jesus e a sua própria causa “(Puebla, n.1140). “… a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza” (Bento XVI no discurso inaugural da Conferência de Aparecida). Trata-se de espiritualidade libertadora que valoriza o Jesus histórico; o Verbo que se fez carne: a humanidade de Jesus, sua paixão pelo Reino feito de Justiça, amor e paz; o Jesus dos Evangelhos, seus conflitos com os poderosos no anúncio da Boa Nova, tão parecidos com os conflitos vividos pelo Povo latino-americano.

É muito difícil entender as questões de Estado do Vaticano; mais ainda as questões da fé. Mas o início deste pontificado parece excepcional em ambos os quesitos. Como o senhor vê essa situação e o próprio papa?

O Papa Francisco com sua presença simples, despojada, acolhedora, tem sido saudado com alegria, esperança, por católicos, pessoas de outras religiões e não crentes. Ele tem apontado para Jesus e convidado a humanidade à misericórdia, ao diálogo amplo, sem limites, à cultura do encontro.  É firme da defesa dos direitos humanos, da vida, na urgência da paz entre os povos, como fruto da justiça, fraternidade. O Papa Francisco nos convida ao amor a Deus que é PAI e ao próximo, filho deste Deus que nos faz a todos (as) irmãos. É a “revolução“ do Evangelho!

Ele se defronta com a urgência de promover profundas reformas na Igreja, a começar pela Cúria Romana, para que tudo, de fato, sirva à causa da evangelização.

Na longa jornada mais que secular de contendas entre o liberalismo, o comunismo e a doutrina social da Igreja, não se pode deixar de levar em conta as démarches desta última, e isso não pode deixar de interessar a quem perscruta o presente e as tendências que desenham o mundo do futuro. Que se pode esperar hoje dessa contenda?

A Igreja possui lúcida e urgente Doutrina Social. Temos a convicção de que o capitalismo e o comunismo não são solução para construção de humanidade justa e solidária. Infelizmente, a maioria dos católicos não conhece a Doutrina Social da Igreja e, quando conhecida, não é levada à prática.

Com o Papa Francisco, a Igreja sente o surgir de nova primavera. Nosso compromisso reside na construção do Reino de Deus pregado por Jesus; Reino de justiça, amor e paz. Nesta caminhada estamos empenhados e convidamos a todas as pessoas de boa vontade a fazerem parte deste sonho-utopia-realidade. Sistemas, ideologias, que não servem a este projeto devem ser destruídos mudados fundamentalmente.

Quero fazer uma digressão, D. Angélico. Para nós, socialistas, isso é sempre importante, mormente num país como o Brasil. Pode-se dizer que está emergindo uma nova questão católica, com Francisco, mesmo que num longo processo. Com Woitila, partindo de sua experiência na Polônia, na tríade com Reagan e Thatcher, foi o que se viu: uma aderência majoritária ao campo liberal vitorioso, malgrado os contrapontos. Há uma experiência importante na relação entre comunistas e a questão católica na Itália. Não creio que Berlinguer, e antes dele Togliatti, estivessem realistas politicamente com respeito à questão, o julgamento da história não lhes foi favorável nesse quesito. Mas a colocação da questão, esse foi um mérito. No Brasil também, de outro modo: o saudoso D. Paulo sempre manteve relações respeitosas – a recíproca verdadeira – com a esquerda e os comunistas. Se pode haver uma nova questão católica, nada será indiferente. Pergunto: é realista a esperança em rumo diverso, mesmo em meio a essa hegemonia totalizante do liberalismo novo e velho? Como diz um grato amigo, Evaristo Miranda, basta a teologia galopante dos evangélicos…

Muitos sistemas injustos caíram por terra. O sistema capitalista está carcomido por dentro pelo vírus da injustiça que ele próprio engendra e acabará por destruí-lo. O mesmo aconteceu com o império soviético. Podemos e devemos sonhar com sistemas, estruturas, que sirvam à causa universal da justiça, solidariedade, levados avante por partidos políticos, agremiações, homens e mulheres idealistas, limpos de vida e coração grande.

Infelizmente, muita maneira de se viver o cristianismo nega o Jesus dos Evangelhos. É uma lamentável, alienante alienação que dá razão à análise de K. Marx, diante da prática cristã em lugares em que viveu: “A religião é ópio do povo”. É pena não tenha ele conhecido a prática de autênticos discípulos de Jesus e não tenha tido a oportunidade de conhecer e amar a Jesus Cristo!

Na pergunta anterior, deixei pro final a referência ao seu respeito, amizade e dedicação à causa do povo brasileiro, contra o capEtalismo embrutecedor das consciências. Por isso o senhor sempre mereceu o respeito e homenagem de todos nós. Diga-nos: o senhor está de volta a São Paulo, há quatro anos, após dez anos em Blumenau. As forças mais progressistas da Igreja foram dispersadas em boa medida. Mas o trabalho de base continua?

Aos 81 anos, sinto-me desafiado, convidado, a caminhar de esperança em esperança, na esperança sempre! A cada dia, reavivando a convicção de que o trabalho de base, nas periferias geográficas e humanas, é fundamental. Reunir o Povo nas comunidades eclesiais de base, nas Pastorais Sociais, é tarefa inadiável e com ela estou comprometido. Não é verdade que fizemos ruir a ditadura militar, com o Povo organizado conscientizado, ocupando ruas a praças a gritar “O Povo unido, jamais será vencido“?

O Brasil, como o senhor avalia neste momento? Dilma, o que parece ao senhor?

O Governo Dilma, em sequência ao Governo Lula, é Governo Popular! Já era tempo! Encontra enormes dificuldades, mas somente Governos com a marca registrada “popular“ tem condições de fazer no Brasil, as urgentes reformas de base de que o Povo necessita.

Para finalizar. Nós comunistas dizemos da urgência de emergir um bloco político e social avançado, para novas e mais profundas mudanças no desenvolvimento, soberania, democracia e direitos sociais dos brasileiros. Parece-me que há forças para tanto, mas falta clareza e visão estratégica. Com sua experiência, que lhe parece isso em termos de perspectivas?

Tenho conhecimento de que o 13º Congresso do PCdoB realizado em novembro de 2013, “firmou como centro de sua tática reunir apoio ao governo Dilma para avançar no enfrentamento das graves contradições reinantes e avançar nas mudanças. Propôs à Nação a centralidade política das reformas democráticas estruturais”. Ora, o Povo brasileiro quer aconteçam as reformas de base que tardam!  Reforma política, no setor judiciário; reformas que assegurem, de fato, saúde, moradia, educação, trabalho, terra, transportes, segurança, vida digna, plena, para todos. Neste clamor popular, humildemente e com firme convicção me incluo!

Obrigado, D. Angélico, tenho certeza de que os leitores irão amar esta entrevista.