A queda do preço do petróleo e crise estrutural capitalista

Duque

Posto hoje a continuação do tema dos preços do Petróleo, com Luiz Duque Dutra.

Duque, apreciei muito tua disposição em enfrentar esse tema fundamental hoje para a economia mundial, o jogo de forças estratégico e seu impacto diferenciados para os povos, as nações, os blocos econômicos, o Estado e o mercado. Após o artigo recém postado neste Blog (http://waltersorrentino.com.br/2015/01/09/a-queda-de-preco-do-petroleo-em-2014-e-a-logica-do-reino-sunita/) retomo a conversa por aí: tem consequências violentas essa queda dos preços do petróleo, em termos de geração de renda, pois não?

Certamente. O preço do barril caiu quase um terço entre julho e dezembro de 2014 (de US$ 100/b para US$ 69/b). Frente a dezembro de 2013 (US$ 120/b), a queda é de quase 50%. Pelas consequências, é um movimento violento, sim, em termos de geração e transferência de renda. Porque se trata da maior indústria do mundo, que tem uma dinâmica profundamente cíclica e está habituada à volatilidade dos preços, mas, desta feita, tendo em vista a velocidade da queda, todos os dirigentes do setor estão em alerta.

O que está em andamento é uma profunda mudança nos preços relativos que tem impacto na vida de todos. O século passado foi o do petróleo e o século XXI, pelo menos neste início, será o do gás natural. Juntos, eles respondem por metade da energia do mundo. Sozinho, o petróleo responde por 95% de toda a energia gasta no transporte.

De alto impacto! Como se podem analisar e estimar esse impacto, em termos econômicos e mundiais? Será preciso distinguir o curto prazo e o longo prazo…

Sim, mas muito difícil de prever, tanto quanto prever o preço do petróleo. Segundo estudo do FMI, a queda em 10% aumentaria o PIB mundial em 0,6%; o que comprova que a mudança é, finalmente, benéfica. Assim, se a cotação for de cerca de US$ 70/b, a riqueza mundial poderia ser de até 1,8 % maior. Para o próximo ano, a expectativa de crescimento (do Banco Mundial) é de uma taxa de 2,4%, rebaixada algumas vezes nos últimos meses. Portanto, uma queda em 30% do preço do petróleo quase dobraria o ritmo de crescimento esperado da riqueza em 2015: de 2,4% para 4,2%. Um estímulo oportuno para uma recuperação que perde vigor desde 2012.

A longo termo, contudo, a avaliação é diferente e mais cética. Os custos sociais terão de ser arcados e eles não são poucos: baixos preços implicam menor penalização do desperdício e maior custo de sua substituição. A US$ 70/b, o uso do biocombustível, a energia fotovoltaica e eólica, as redes inteligentes de distribuição de eletricidade, a geração localizada e o veículo elétrico serão, todos, revistos. Até ontem, a US$ 100/b, sem subsídio ou imposição para-fiscal, nenhuma dessas iniciativas competia com os derivados de petróleo.

E há também impactos econômicos e sociais mais amplos na presente situação mundial, não é?

Claro. Os preços dos minerais e produtos agrícolas já começaram a cair e os novos termos de troca são prejudiciais aos países emergentes. É uma reversão importante da tendência que os beneficiara nos últimos quinze anos. Assim, a perdurar por dois anos, a baixa de preço do barril pode gerar um elevado custo daqui a dez anos, ou mais. Ela retarda a substituição da energia de origem fóssil e, desse modo, impede a mitigação das mudanças climáticas e a redução da poluição urbana. Este tipo de impacto negativo é denominado custo social – que podem estar ocultos, dispersos. A conta só vem mais tarde e é arcada por todos; daí a denominação.

Duque, do ponto de vista econômico, em termos de transferência de renda, quem ganha e quem perde?

Em princípio, os maiores beneficiados serão as famílias de trabalhadores e os donos de empresas. Para as famílias, a energia barata diminui o custo-de-vida e libera renda para outras coisas. O menor preço do óleo diesel e da gasolina diminui o custo de deslocamento, o que aumenta a mobilidade dos trabalhadores e consumidores; o que é bom para eles e para as empresas. Para estas, a baixa é bem-vinda, especialmente, considerando a demanda estagnada e preços de petróleo, que só fizeram crescer após a virada do milênio.

No curto prazo, o ganho será maior que o custo; principalmente, devido à tímida retomada após as perdas de 2009. De imediato, ganharão os setores cujos processos são intensivos em energia, como o químico, metalúrgico, siderúrgico, vidro, cerâmica e o transporte. Menores custos de produção e logística se refletem imediatamente no caixa e melhoram as expectativas de lucro.

E os Estados nacionais?

É entre os estados que se verificará a mais importante transferência de renda com a queda do preço do barril. O estado importador se apropriará do excedente, ao se beneficiar da inelasticidade da procura, que é pouco sensível à variação do preço. Isso ocorre com o petróleo e, especialmente, com o óleo Diesel e a gasolina; cujos substitutos são mais caros e menos eficientes. Assim, a menor receita na cabeça do poço será compensada pela maior arrecadação na bomba do posto. A ganância fiscal apenas mudará de endereço, mas, reitera-se, nesse caso, em detrimento da periferia exportadora.

Nos países importadores, o ganho dos consumidores é indiscutível. As famílias asiáticas, desde a China ao Paquistão, passando pelas Filipinas e a Índia, poderão ser beneficiadas porque, de alguma forma, o menor preço do petróleo se repercutirá no gasto com GLP (e na cocção de alimentos), no preço do transporte público (que depende do óleo Diesel) e na locomoção da classe média (que, por sua vez, depende da gasolina). Ocorre que essa transferência será a parcela pequena do todo, muito menor que a parte do Estado, ou a do capitalista, exatamente porque os consumidores estão capturados na compra desses produtos pelo fisco e pelos seus vendedores.

E os Estados em tudo isso?

Se se fizer como no século passado, o Estado será o grande vencedor, em especial, o Estado em países centrais e nos importadores. Ele se apropriará da renda petrolífera, até ontem nas mãos dos exportadores, via tributos. E, visto o conservadorismo fiscal e monetário vigentes, isto será feito sem considerar os custos sociais em termos distributivos, energéticos e ambientais, tanto da mudança dos preços relativos, quanto da mudança climática.

De todo modo, me parece, que há que examinar no curto e longo prazo nesse impacto.

Sim, quando se trata de energia, existem custos que, só muito mais tarde, serão revelados. Os custos de substituição na cadeia energética são muito relevantes, porque envolvem despesas irrecuperáveis, tão ocultas quanto as anteriores. Fator imprescindível para gerar valor, a energia envolve cadeias produtivas longas e especializadas. Depois de instaladas, precisarão ser mantidas. E longas cadeias produtivas articulam diferentes tarefas em novos países e centros tradicionais perdem espaço – portanto importantes consequências geo-estratégicas.

Do ponto de vista da economia política, há uma crise estrutural do capitalismo mundial, que parece entrar – segundo penso – num período prolongado de baixo crescimento, considerando ainda ter que sair da crise que afeta a Europa, EUA e Japão. Não se configuram saídas, e prevalece o main stream, a partir do qual o mundo das finanças se “resgatou” do afundamento.

Vejo a coisa assim. A instabilidade do capitalismo é visível a partir da segunda metade do século XIX. Desde então, ocorreu pelo menos uma crise financeira por década. Com enormes custos sociais, estas crises freqüentes não têm a dimensão das crises estruturais. Estas últimas são raras, ocorrem em espaço de décadas, mas, são duradouras e têm um impacto mundial. Como em 1929, como entre 1939 e 1945 e nos choques do petróleo nos anos 1970, elas anunciam novos tempos.

A alavancagem financeira é excessiva, a guerra cambial está em andamento, o protecionismo voltou com força, o Japão enfrenta a deflação, a União Européia é contestada por dentro e em suas fronteiras, e o combate ao terrorismo, liderado pelos EEUU, ameaça se transformar num conflito generalizado. O mercado é global, a concentração do capital, muito maior, e sua mobilidade, quase absoluta. Portanto, 2008 é marco de uma crise secular, estrutural e decisiva em termos de mudança dos padrões de produção e consumo.

Embora as incertezas sejam imensas, é possível ter um cenário por vir coerente com a história do capitalismo: os trabalhadores (e famílias) perderão mais que todos os demais, por não terem como valorizar o trabalho (única mercadoria que possuem) em um ambiente de recessão. As empresas (e seus donos, os capitalistas) estão protegidas de grandes perdas (em razão de terem o monopólio do capital e da tecnologia), mas, só aumentarão as despesas, para ampliar o capital, se o lucro subir e as expectativas mudarem. Tudo indica que isso não ocorrerá antes de 2017.

Fundamentalmente, haveria duas esperanças. Primeiro, que se adiante o

substancial ganho de produtividade do trabalho e rendimento dos processos e, segundo, que não se apele para a solução mais rápida e cara: a destruição pela guerra. Isto sugeriria que, em pleno século XXI, comparado ao anterior, não teria havido nenhuma evolução civilizatória.

Muito obrigado, Duque, isto é promessa de bom debate.