A presidenta Dilma vem de se pronunciar na reunião ministerial sobre os rumos de seu governo. Vermelho, em editorial, expressou uma opinião cabal. Para dialogar com o artigo escrito dias atrás no Blog (http://wp.me/p4h4IR-1Z0). Ainda para alimentar o debate, dias atrás postei opiniões de Luiz Nassif, em entrevista a Zé Dirceu. Confiram ambos:
Trechos fundamentais do discurso da Presidenta:
“A população brasileira, ela votou também por mudanças e nós não podemos esquecer disso. E nós as faremos, esse é o nosso compromisso, fazer as mudanças necessárias. Juntos, nós devemos fazer, nós faremos um governo que é, ao mesmo tempo, um governo de continuidade e também um governo de mudanças. Nossa tarefa será manter o projeto de desenvolvimento iniciado em 2003, mas dar continuidade com avanços, dar continuidade com mudanças que lhe darão, que darão a este projeto ainda mais consistência, mais velocidade.
Este é o meu compromisso, fazer com que o Brasil nos próximos quatro anos, tenha condições de ter as medidas necessárias para manter íntegra a estratégia de construir um país desenvolvido, um país próspero, cada vez mais igual, menos desigual, fazendo tudo o possível para manter e fortalecer o modelo de desenvolvimento que mostrou ser possível conciliar crescimento econômico, distribuição de renda e inclusão social.
A economia brasileira, ela vem sofrendo os efeitos de dois choques. No plano externo, a economia mundial sofreu uma redução expressiva nas suas taxas de crescimento com a China apresentando as menores taxas de crescimento em 25 anos e o Japão e a Europa em estagnação, e os EUA só agora começando a se recuperar da crise.
No plano interno, nós enfrentamos, em anos sucessivos, um choque no preço dos alimentos, devido ao pior regime de chuvas de que se tem registro histórico no Brasil. Essa seca também teve, mais recentemente, impactos no preço da energia em todo o Brasil e na oferta de água em algumas regiões específicas e de forma muito específica na região Sudeste.
Diante destes eventos internos e externos, o governo federal cumpriu o seu papel. Nós absorvemos a maior parte das mudanças, dessas mudanças no cenário econômico e climático em nossas contas fiscais para preservar o emprego e a renda. Nós reduzimos nosso resultado primário para combater os efeitos adversos desses choques sobre nossa economia e proteger nossa população. Agora, atingimos um limite para isso. Estamos diante da necessidade de promover um reequilíbrio fiscal para recuperar o crescimento da economia o mais rápido possível, criando condições para a queda da inflação e da taxa de juros no médio prazo e garantindo, assim, a continuidade da geração de emprego e da renda.”
Trechos fundamentais da entrevista de Luis Nassif:
“As indicações da presidenta Dilma Roussef dão um sinal de retomada da parte fiscal. Há duas estratégias. Uma é a do Nelson Barbosa que é gradativa, nada de heroísmo, dois ou três anos para retomar a normalidade. Faz-se um programa factível e com isso se convence o mercado e ele se acalma. A outra é um ajuste radical, o que afundaria a economia mais ainda.
Exatamente. Com essas indicações – nós discutimos isso num seminário aqui – há duas hipóteses: a benigna é que o Levy pode convencer o mercado mais rapidamente do que o Barbosa. Ele é um economista de formação ortodoxa e se o mercado ficar convencido com a indicação dele, o ajuste não precisa ser tão forte. Na prática, o ajuste tem de ser tanto mais forte quanto maior for a desconfiança do mercado. Entrando o Joaquim Levy na Fazenda, o ajuste se faz a la Nelson Barbosa. Essa é uma característica.
Agora, o Levy não pode definir uma estratégia radical. Ele é a favor de reduzir os juros e esticar o prazo dos ativos, o que é essencial. Segundo todas as avaliações, ele é um baita de um técnico. Isso é público. Então, pode dar certo, se o Levy entrar na Fazenda dentro de uma estratégia gradual e você seguir esse caminho gradativo como propõe o Nelson Barbosa, mantendo no Banco Central o Tombini que é um técnico e não um formulador. Tanto que quando a Dilma tentou baixar a Selic – um movimento corajoso e fantástico dela – o Tombini piscou diante da inflação.
Nossa situção não é trágica. Ajuste fiscal é o seguinte: você tem uma tendência para baixo e inverte essa tendência acenando com um prazo de dois a três anos para atingir tal meta.
Se fizer algo radical, o mercado não acredita. Prova disso foram as medidas heróicas e erradas adotadas na Argentina. Além disso, as agências de risco avançaram nas avaliações de que é preciso ter viabilidade política e econômica. Se você tem uma economia parada, o que segura é o consumo. Se você faz um ajuste radical, ela desaba. Repito: se tivermos esse compromisso do Levy e do Nelson (de ajuste gradativo), teremos dois pesos pesados para a interlocução.
Agora, eles precisam estar amarrados na mesma estratégia. Quem vai fazer os cortes é o Nelson. O Levy tem noção do funcionamento do mercado monetário. O Nelson tem noção do funcionamento da economia como um todo e uma visão abrangente. Então os cortes não serão feitos sem critério ou sem discernimento como foram feitos no último semestre. Pode ser um bom arranjo.
A parte cambial é um problema sério. Vivemos até agora a herança maldita do (presidente) Fernando Henrique Cardoso, que atravessa (os governos) Lula e Dilma com um câmbio não competitivo para segurar a inflação.
A parte cambial é um problema sério. Vivemos até agora a herança maldita do (presidente) Fernando Henrique Cardoso, que atravessa (os governos) Lula e Dilma com um câmbio não competitivo para segurar a inflação.
A parte fiscal não é mais uma questão ideológica. O ideológico na parte fiscal, agora, é se eu faço o ajuste de uma vez ou aos poucos. Mas as políticas potenciais e os próprios limites econômicos não admitem um reajuste radical. A parte fiscal se mantém; e a do câmbio, o próprio mercado está pré-fixando o dólar para R$ 2,50 ou R$ 2,60. O mercado está apostando nisso.
A parte fiscal não é mais uma questão ideológica. O ideológico na parte fiscal, agora, é se eu faço o ajuste de uma vez ou aos poucos. Mas as políticas potenciais e os próprios limites econômicos não admitem um reajuste radical. A parte fiscal se mantém; e a do câmbio, o próprio mercado está pré-fixando o dólar para R$ 2,50 ou R$ 2,60. O mercado está apostando nisso.”


