Se… – Walter Sorrentino

A situação presente do Brasil e do governo está cheia de miasmas preocupantes, seja na economia, na situação social e, especialmente, na sustentação política do governo.

Há muitos “se” aguardando definições.

Se a agenda do Legislativo, sob comando de Eduardo Cunha após a fragorosa derrota que impôs à orientação do governo se chocar abertamente com a agenda do Executivo, a instabilidade será a tônica do que virá.

Se a postura do Judiciário atendesse aos reclamos do chefe da oposição, ou seja, procedesse a um golpe judiciário como propôs FHC, a temperatura será máxima.

Se a estagnação econômica ainda prevista para 2015 se agravar com as medidas fiscais preconizadas pelo governo, a situação social será mais inquietante.

Enfim, fatores de atritos e turbulências não faltam neste início de novo governo.

É uma situação inusitada, decerto, mas não desconforme às contradições, obstáculos e armadilhas postos diante do desafio do Brasil em enfrentar a crise mundial e dar novos passos no rumo da afirmação nacional e democrática, promovendo direitos sociais sentidos da população. E, no plano político, bem conforme à tradição da direita no país.

Não há saídas simples. Mas há alguns outros “se” centrais para seu enfrentamento.

Se não for superada uma contradição básica da presente situação política as coisas se agravarão. Trata-se de que um país complexo como o Brasil, sob regime de presidencialismo, pressupõe uma clara, afirmativa e proativa liderança política, “fazendo política”, encabeçando a união de forças com clareza do projeto nacional, que saiba evitar armadilhas e mobilizar as forças de sustentação.

Se tais forças de sustentação políticas e sociais, por outro lado, não estabelecerem uma agenda intensiva e concentrada para disputar a sociedade, a partir da confiança que têm na liderança política do governo mas com autonomia, não se paralisará os ímpetos conservadores e mesmo golpistas em ação.

Por isso, talvez o mais importante da hora seja o papel dos líderes políticos. Quer dizer, líderes políticos é para essas horas. Líderes no governo e na sociedade, que conversem entre si e com os movimentos sociais, a sociedade civil, para fazer face à situação, sem esperar que se agrave, em torno de temas para além de suas pautas partidistas ou governistas imediatas.

Trata-se de concertar unidade na ação concreta que congregue forças em torno de uma bandeira imediata – em defesa da Petrobrás? – e pôr em movimento progressivamente forças substanciais de sustentação ao avanço do projeto do governo. Isso é caminho para, logo adiante, estabelecerem plataforma de poucas e sentidas bandeiras ao encontro aos anseios progressistas da maioria da sociedade. Quiçá, também, para ensejar a constituição de um bloco político social amplo, de esquerda e progressista, como protagonista político de primeiro plano na situação brasileira.

 

Walter Sorrentino