A direita abraça a rede – parte dois

A ascensão dos grupos conservadores nas redes sociais – da revolta “pop” ao uso de perfis fake e robôs importados da campanha eleitoral.

Por Natália Viana, da Agência Pública

Segunda parte

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No mito e no grito

Ainda há poucas pesquisas sobre o comportamento das pessoas que têm se articulado em torno de pautas conservadoras. Uma delas, realizada pelos professores Pablo Ortellado (USP) e Esther Solano (Unifesp) na avenida Paulista naquele mesmo 12 de abril, é bastante reveladora. Entre os 571 entrevistados, apenas 15,4% tinham entre 16 e 25 anos – exatamente o mesmo tanto de pessoas entre 56 e 65 anos. O grupo mais representativo, com 21,1%, tinha entre 46 e 55.

Sessenta e quatro porcento afirmaram concordar com a frase “O PT quer implantar um regime comunista no Brasil”. Para 56%, o Foro de São Paulo – organização que reúne partidos de esquerda latino-americanos – quer criar uma ditadura bolivariana no país. Outras frases como “O PT trouxe 50 mil haitianos para votar na Dilma nas últimas eleições” e “Fabio Luis Lula da Silva, o Lulinha, é sócio da Friboi” também são tidas como verdadeiras por mais de metade dos entrevistados. Trata-se de mentiras puras e simples, mas que podem ser encontradas em dezenas de sites, blogs, páginas do Facebook construídas pelos novos círculos de direita.

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“A minha hipótese é que a descrença nas instituições que se vê na pesquisa – os manifestantes não confiam em ninguém, nem nos partidos, nem nos movimentos, nem nas ONGs, nem na imprensa – resulta numa espécie de revolta antipolítica, um pouco niilista”, analisa Pablo Oretalldo. “Há uma explicação antipolítica para o funcionamento do mundo: são pessoas juntando as coisas de uma maneira excessivamente simples, tentando explicar fenômenos complexos. Só que fazendo isso com descrença e sem apoio na imprensa, por exemplo, o que significa sem apoio nos mecanismos da imprensa que são a verificação dos fatos, a apuração do contraditório.”

Para ele, os novos meios digitais criaram as condições para dispensar os meios tradicionais – para o bem e para o mal. “É como se a utopia do faça você mesmo, do seja você mesmo a mídia dos movimentos de comunicação alternativa tivesse se convertido no seu oposto, num pesadelo no qual as pessoas se informam para reforçar ideias preconcebidas, sem verificar os fatos, sem escutar o outro lado e, sobretudo, sem refletir.” Entre os entrevistados, 26,6% dos manifestantes disseram confiar “muito” nos conteúdos compartilhados via WhatsApp. O índice de confiança sobe para 47,3% quando a rede social é o Facebook.

“Outro elemento é a forma do ódio que se expressa na contundência da análise. Chamou muito a atenção que o Paulo Henrique Amorim, por exemplo, seja tão popular entre eles – não é o conteúdo, não é a posição política, mas a forma contundente de expressão que casa com essa disposição antipolítica desses novos movimentos conservadores.”

Olavo foi um dos primeiros a entender a rede

Fundado em 2002 por Olavo de Carvalho, o site Mídia sem Máscara representou um passo importante – e uma grande sacada – na carreira daquele que seria o grande precursor da nova geração de direita na rede. Desde 1998, ele passou a juntar no site olavodecarvalho.org todos os textos de sua autoria, na época publicados por grandes veículos como Jornal da Tarde, Bravo!, Primeira Leitura, O Globo, Época, Zero Hora, Jornal do Brasil. Aos poucos, passou também a publicar na íntegra todas as entrevistas que dava e a usar seu blog como meio de “denúncia” de que seus textos eram “censurados” pelos jornais – ou seja, rejeitados pelos editores. Afinal, com o Mídia sem Máscara, abriu mão dos jornais e revistas e passou a denunciar o que chama de “esquerdismo” da cobertura tradicional e atacar a mídia incansavelmente.

Com 17 livros publicados, escritor contumaz com uma produção gigantesca de artigos, ensaios, entrevistas, palestras, Olavo de Carvalho construiu um memorial online de si mesmo e, muito antes do fenômeno dos haters da internet ser detectado, já havia arregimentado – e insuflado – o que chama de “antiolavismo”. Ao longo de seu percurso, contou com apoios de peso como o financiamento do Independent Republican Institute (IRI), ao site Mídia sem Máscara. Ligado ao partido republicano dos EUA, o IRI é conhecido pelo apoio a movimentos oposicionistas no continente. Foi o IRI, por exemplo, que ministrou “cursos de treinamento político” para 600 líderes da oposição haitiana antes do golpe contra Jean-Baptiste Aristide em 2004. Também foi palestrante da Atlas Foundation, em Washington, elogiado pelo presidente da entidade Alejandro Chafuen pelas “mais valiosas realizações que ele já tinha visto no campo da ciência política”, segundo o próprio, e fez palestras em diversas edições do Fórum da Liberdade entre 2000 e 2005. (leia mais sobre as mais influentes organizações libertaristas na reportagem “A nova roupa da direita”)

De filósofo erudito que atacava a obra de Marilena Chaui pelo seu estilo “elíptico” até autor de posts coléricos no Facebook como “Que pensar de pessoas que querem ensinar os meninos de escola a dar os cuzinhos e chupar picas desde a mais tenra idade, mas enrubescem, escandalizadas, e quase desmaiam de indignação tão logo ouvem um palavrão ou uma piadinha anti-PT?”, Olavo de Carvalho adaptou-se ao debate na rede e arregimentou seguidores influentes. Hoje, aos 67 anos, responde pessoalmente aos comentários na sua página de Facebook, que tem 150 mil seguidores, tem 6 mil seguidores no seu canal de YouTube, participa quinzenalmente de hangouts. Alguns dos principais “influenciadores” da internet hoje em dia, como Felipe Moura Brasil, orgulham-se de serem chamados de seus alunos. Olavo resume: “Minha esperança é que os meus alunos, com o tempo, consolidem um genuíno estilo brasileiro de alta cultura: inseparavelmente popular e erudito, engraçado até ao ponto de matar de rir, com clarões de lucidez escandalosa que parecem loucura à primeira vista. Sem folclorismos veados. Profundamente cristão sob uma aparência enganosamente obscena. Aristóteles no programa do Alborghetti. Cogito ergo Mussum. Isso há de acontecer, se Deus quiser”.

O papel de junho de 2013

Para o sociólogo Manuel Castells, há elementos semelhantes entre os protestos de rua que ocorreram em 2015 e aqueles de 2013. “Ambos são movimentos em rede, espontâneos (ainda que haja intervenção de políticos), representativos dos novos tipos de movimentos sociais na sociedade de rede. Os dois concentram sua crítica na corrupção política de todo o sistema político. Mas são muito distintos. Pela composição de classe, popular em 2013 e de classe média-alta em 2015. Pela sua idade, muito mais jovem em 2013. Pela sua ideologia: crítica e antissistema em 2013, neoliberal, com, alguma tendência golpista em 2015. E pelo seu objetivo: a mudança social em 2013. A diminuição da presidente e ataque à esquerda e ao PT, com apoio do PSDB, em 2015. Ideologicamente, portanto, são muito distintos.”

Porém, a análise do buzz na rede durante aqueles dias aponta no sentido contrário. Foi em junho de 2013 que “autoridades” de direita surgiram pela primeira vez como mobilizadoras na internet. “A partir do dia 17, que foi quando rolou aquela pancadaria, junho já estava em disputa. A análise da rede deles mostra que quem estava chamando era gente na raiz dessa direita”, explica Sérgio Amadeu.

Entre as páginas que conseguiram atrair grande repercussão em seus posts, estudadas pela Interagentes, já aparecem nomes como A Verdade Nua e Crua, o Movimento Contra a Corrupção (MCC) e Quero o Fim da Corrupção – além do Anonymous Brasil, grupo que, diferentemente do movimento internacional, no Brasil propaga bandeiras de direita. “O discurso da direita manteve-se estável desde então”, diz Amadeu. “A direita gostou da rua”, complementa Tiago Pimentel, também da Interagentes.

Páginas que propagam a luta contra a corrupção, como o MCC, cresceram exponencialmente durante os protestos. Aberta no começo de 2010, a fanpage do MCC no Facebook tinha angariado alguns milhares de fãs até o início de 2013. Hoje, ela tem mais de 1,4 milhão. Em maio, um post propondo “Joaquim Barbosa para presidente em 2018” obteve mais de 124 mil compartilhamentos.

Hoje, a página do MCC no Facebook é um dos perfis mais influentes da rede conservadora, assim como o site Folha Política, ao qual é ligada. O site, que se diz de “jornalismo independente”, é especialista em usar o sensacionalismo como arma para fabricar “fatos” que, de tanto serem repetidos, passa a ser vistos como verdade. “Ministro de Dilma confessa a jornalista da Veja que PT quer promover guerra civil no país”, diz um vídeo postado no site. “Lula comemora e debocha da demissão de centenas de trabalhadores, revoltando internautas” é o título de outro vídeo, proveniente do canal de YouTube Ficha Social – o mesmo que tornou famoso Kim Kataguiri, a “cara pública” do Movimento Brasil Livre.

Tanto o site do MMC, (contracorrucao.org), quanto o Folha Política foram abertos pelo bacharel em direito pela USP Ernani Fernandes Barbosa Neto, segundo revela uma pesquisa avançada de DNS. É impossível descobrir quem registrou ou sites através de uma pesquisa simples de domínio (Whois), porque todos pagam para ter os dados do fundador mantido em privacidade. Porém, o email de Ernani Fernandes aparece como administrador do servidor principal de todos esses sites em pesquisas feitas com ferramentas como a “dig”, que pode ser consultada no site digwabinterface. (veja aqui e aqui).

Ernani também aparece como administrador de outros sites antigovernistas que foram criados entre o começo de 2013 e o final de 2014, como Política na Rede (criado em 6 de agosto de 2013, tem quase 400 mil fãs no Facebook), Folha do Povo (criado em 26 de dezembro de 2013, tem mais de 93 mil mil seguidores no Facebook), Humor 13 (Criado em 30 de janeiro de 2014, conta com mais de 364 mil curtidas na fanpage) e Correio do Poder (Criado em 7 de setembro de 2014, tem mais de 55 mil seguidores).

Ainda em 2013, ele começou uma parceria com João Almeida Vitor Lima, o “João Revolta”, segundo uma entrevista dada por este ao canal Youpix. Procurado por email pela reportagem, Ernani não respondeu à mensagem.

imagem+4 Formado em Rádio pela Faculdade de Belas Artes, João Revolta credita à parceria com Ernani Fernandes o crescimento do seu canal do Youtube, que hoje conta com mais de 38 mil inscritos, 3,5 milhões de seguidores no Facebook e uma produção para lá de intensa – e cara. Ernani dirigiu e fez o roteiro de uma série de vídeos do TV Revolta, enquanto dirigia também vídeos do canal Confronto Entrevistas no Youtube, uma espécie de “talk show” que tinha João Almeida como apresentador.

Boa parte da produção conjunta, no entanto, não pode ser mais acessada, pois o canal original TV Revolta foi suspenso do Youtube em março de 2014 depois de diversas denúncias de usuários. Pouco depois, estava no ar o Canal TV Revolta. Durante as eleições, João aumentou significativamente as postagens no seu site tvrevolta.com.br: em vez de 2 ou 3 posts, como costuma fazer, ele conseguiu postar 20 novos posts a cada mês, sempre com base em vídeos – a grande maioria produzidos pelo canal Ficha Social. Seu último vídeo próprio, criticando a entrevista de Dilma a Jô Soares em 12 de junho deste ano, foi assistido por mais de 500 mil pessoas.

Para alcançar tamanha popularidade, a página da TV Revolta no Facebook apela aos temas que viralizam. Um post com diversas fotos de cachorros em que estava escrito “vira-latas não são lindos, feio é o seu preconceito” chegou a ter 21 mil compartilhamentos e 77 mil curtidas. Além dos ataques pessoais centrados em Dilma e Lula, posts satíricos contra a Copa, críticas à TV Globo, imagens de autoajuda, citações filosóficas e campanhas pelo direito dos animais também estão entre as postagens que fizeram dela um fenômeno nas redes. “A filosofia de João Revolta é usar a linguagem informal para atrair o telespectador. Para representar a raiva, João Revolta usa uma mesa e diferentes artefatos, usados para quebrar objetos durante a gravação dos vídeos”, explicou João Almeida na entrevista ao Youpix. “O objetivo do canal TV Revolta e da página TV Revolta no Facebook sempre foi e sempre será dar voz ao povo ignorado pelas mídias tradicionais.”

Como muitas “sub-redes” ou clusters, as páginas ligadas a João Almeida e Ernani Fernandes ganharam proeminência ainda maior durante a eleição, tendo sido fundamentais nos movimentos pós-eleição. A Pública entrevistou jornalistas que trabalharam nas três campanhas e especialistas em marketing digital, além dos coordenadores das três principais campanhas à Presidência, para ouvir sua avaliação daquela que ficou conhecida como a campanha mais agressiva nas redes.