Congresso Nacional presta homenagem a Marcha das Margaridas

O Congresso Nacional realizou no início da tarde desta quarta-feira (12/08), por iniciativa da senadora Vanessa Grazziotin, PCdoB-AM e do deputado Odorico Monteiro, PT-CE, uma sessão de homenagem à 5ª Marcha das Margaridas – maior mobilização de mulheres da América Latina na atualidade. A Marcha, que reuniu em Brasília 70 mil mulheres de todos os estados, contou na sua abertura, com a presença do ex-presidente Lula e no seu encerramento, com a presença da presidenta Dilma, a quem foi entregue uma pauta de reivindicações.

Trata-se de um movimento politizado, progressista e com um olhar para o Brasil. No dizer das próprias “Margaridas”: “nós Margaridas do Campo, da Floresta e das águas, seguimos incansavelmente lutando para fazer o Brasil avançar no combate à pobreza, no enfrentamento à violência contra as mulheres, na defesa da soberania alimentar e nutricional e na construção de uma sociedade sem preconceitos de gênero, de cor, de raça e de etnia, sem homofobia e sem intolerância religiosa. Seguimos denunciando, reivindicando, propondo e negociando ações e políticas públicas, que contribuam na construção de um “Desenvolvimento Sustentável com Democracia, Justiça, Autonomia, Igualdade e Liberdade”

Recomendamos a leitura do brilhante discurso feito pela senadora Vanessa Grazziotin, durante a Sessão de Homenagem às Margaridas. Boa leitura!

DISCURSO PROFERIDO PELA PROCURADORA ESPECIAL DA MULHER DO SENADO FEDERAL, SENADORA VANESSA GRAZZIOTIN, PELO TRANSCURSO DO DIA DE LUTA CONTRA A VIOLÊNCIA NO CAMPO E DA MARCHA DAS MARGARIDAS.

Senhor Presidente,

Senhoras e Senhores Parlamentares,

Nos dias 11 e 12 deste mês, realiza-se em Brasília a “5ª Marcha das Margaridas”, nome pelo qual ficou conhecida a principal manifestação pública do movimento das mulheres trabalhadoras rurais brasileiras. Trata-se, na palavra das próprias realizadoras, de “uma ação estratégica das mulheres do campo e da floresta que integra a agenda permanente do Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais”, levado em conjunto com inúmeros outros movimentos feministas.

O nome da manifestação é uma homenagem a Margarida Maria Alves, líder sindical de Alagoa Grande, na Paraíba, assassinada em 1983 por sua luta contra os coronéis. O propósito da manifestação é mobilizar as mulheres trabalhadoras rurais em todos os estados brasileiros, como meio de proporcionar reflexão sobre as condições de vida das trabalhadoras do campo e da floresta, e como alternativa de sustentação de sua luta diária pela ruptura com todas formas de discriminação e de violência a que elas se veem constantemente submetidas.

E assim foi feito nas manifestações organizadas pelos mais de 4000 sindicatos e 27 federações filiadas à Contag. No meu querido estado do Amazonas, por exemplo, foi realizada, em junho passado, em Manaus a Caravana das Mulheres das Águas e das Florestas. A caminhada fez parte da Jornada Temática de Políticas Públicas para a Mulheres da Região Norte, realizada naquela capital, e serviu de chamamento à 5ª Marcha.

Ser mulher em nossa cultura, Senhoras e Senhores Senadores, já implica no enfrentamento um significativo grau de discriminação. Imaginem se a essa condição somarmos o isolamento feminino no meio rural, onde – além de tudo! – ainda são mais graves a pobreza e a falta de informação.

Daí a importância da Marcha das Margaridas, não somente daquela visível, explícita, que desfila suas reivindicações pela Esplanada dos Ministérios, ou da feita para “protestar contra as desigualdades sociais; para denunciar todas as formas de violência, exploração e dominação e apresentar propostas para avançar na construção da democracia e da igualdade para as mulheres”.

Mas, também e sobretudo, daquela outra mais profunda, a do “despertar para a luta de […] mulheres que se reúnem, mobilizam, planejam e discutem a realidade, [que vocalizam] suas necessidades e anseios, nas comunidades e municípios, regiões e estados, em todo o país”.

É isso, sobretudo, o que significa esta 5ª Marcha, cujo tema é uma verdadeira declaração de luta: as “Margaridas seguem em marcha por desenvolvimento sustentável com democracia, justiça, autonomia, igualdade e liberdade”. Um movimento que combina formação da militância, denúncia de injustiças e pressão por avanços democráticos, como combustível de sua ação, às armas mais brandas da “proposição, do diálogo e da negociação política com o Governo Federal”, num formato diversificado e eficiente que lhe trouxe o reconhecimento como a maior e mais efetiva ação de mulheres da América Latina.

O objetivo – como não poderia deixar de ser – é romper com o manto de invisibilidade que cerca a mulher do campo, e abrir os espaços políticos para que ela possa participar na definição dos rumos econômicos, sociais e ambientais do Brasil.

É superar os padrões patriarcais que ainda prevalecem em nossa cultura, e conquistar um novo padrão social no qual as mulheres sejam reconhecidas, respeitadas, e possam usufruir de autonomia, de igualdade e de liberdade e acima de tudo, compartilhar o poder com os homens. É construir, enfim, “uma sociedade sem violência, um Brasil justo e verdadeiramente democrático.”

O evento, este ano, está estruturado no entorno do Estádio Mané Garrincha, e engloba também a comemoração do “Dia Nacional de Luta contra a Violência no Campo”, sendo patrocinado por um conjunto significativo de entidades de natureza a mais diversa, entre as quais a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que coordena o movimento em conjunto com as 27 Federações estaduais de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais e com os incontáveis Sindicatos locais de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais.

São importantes parceiros das Margaridas a Central Única dos Trabalhadores, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, a Articulação de Mulheres Brasileiras, a Marcha Mundial das Mulheres, a União Brasileira de Mulheres, o Conselho Nacional das Populações Extrativistas, o Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia, o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco de Babaçu, o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste, a Confederação de Organizações de Produtores Familiares, Campesinos e Indígenas do Mercosul Ampliado, o grupo de mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia, o coletivo de mulheres da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária, entre outras entidades nacionais, estaduais e locais.

Nossa luta é ampla contra à violência, a discriminação, a favor da saúde, educação e pelo empoderamento.

Vivemos, Caros Colegas de Senado, num País cujo Parlamento sub-representa a mulher, visto que somos apenas 16% desta Casa, e mal atingimos os 10% na Câmara dos Deputados!

Canto:

Somos de Todos os novelos

De Todo tipo de cabelo

Grandes, miúdas, bem erguidas

Somos nós as margaridas

Obrigada!

Vanessa Grazziotin