A superação da crise passa pelo PMDB

O PMDB é um elo chave na atual crise política; pode ajudar a superá-la ou agravá-la. É um partido em disputa, com contradições, próprio da fisionomia federada que assumiu, mas cuja força o torna um fiel da balança, para que lado for.

Hoje preside a Câmara e o Senado, além de ter a vice presidência, com Michel Temer. E tem as maiores bancadas na Câmara e Senado, elevado número de prefeitos e governadores, sobretudo de vereadores.

Quer dizer, um grande partido centrista no espectro político, com a característica de não ter viabilizado uma opção presidencial há exatos sete pleitos presidenciais.

O discurso dominante peemedebista é o da normalidade política e estabilidade institucional, unir forças para enfrentar a crise econômica, mostrando-se correto com a presidenta Dilma e confiável ao país.

Como se disse, o discurso é contrastado por várias de suas lideranças – especialmente de Eduardo Cunha, pela situação fragilizada -, mas é o predominante. Serve para evitar manobras golpistas, ao mesmo tempo serve para apresentar o partido como alternativa. É isso que o une: abrir caminho, em 2018 ou quando quer que seja, para se apresentar como alternativa presidencial.

Está claro a esta altura que Dilma não será fator de unificação do PMDB. Aliás, nem nas eleições passadas foi. É nessa medida que o PMDB, nesta hora, não vai abandonar Eduardo Cunha, e vai, além disso, mobilizar sua maior unidade.

Quero crer que o PMDB não tenha ilusões sobre suas contradições e, mais importante, sobre o espírito com que as elites econômicas o carimbaram em todo esse período como representação do “mal”: clientelismo, fisiologismo, nacionalismo anacrônico, populismo. Foi isso que aprisionou a disputa eleitoral desde 1989 entre petistas e tucanos.

De todo modo, é natural e legítima a aspiração do PMDB. O governo pode conviver com isso e preservar, mesmo assim, a aliança, como está em curso. E será legítimo, para o governo, exigir de suas lideranças como Renan Calheiros e Eduardo Cunha o papel de representantes de poderes institucionais, com o compromisso de cooperar com os demais poderes, e ajudar o país a enfrentar a crise.

Por todos esses fatores, entre outros, não há encaminhamento para a crise política que não conte ou passe pelo PMDB. Mesmo sabendo que seu eixo programático desloca-se mais nitidamente para o centro, ou seja, mais conservador e representante do interesse do empresariado, podendo ameaçar conquistas populares alcançadas nestes 14 anos. Mas há que se aceitar que iniciativas como, por exemplo, a Agenda Brasil apresentada por Renan no Senado se presta a ser palco de disputa política legítima. Então, na aliança existirá também a disputa.

Ainda é momento de manobras mais estratégicas do governo para Dilma vencer a crise de confiança e perspectiva. E fazer isso em meio à recessão e crise fiscal, em uma das mais graves crises capitalistas da história, com margem de manobra estreita.

Entre muitas iniciativas políticas que se fazem necessárias, a central é recuperar confiança política e perspectiva, para o que se exige reposicionar a relação de confiança com a vice presidência e o PMDB.

O vértice Dilma-Temer é o que confere mais estabilidade institucional e contraste com a escalada golpista. Com isso, qualquer reformulação do governo para recompor a base política e a recompor a confiança do empresariado, precisa contar com o PMDB.

De sua parte, a esquerda política e social pode compreender que se trata de salvaguardar as conquistas do atual ciclo vivido no país, a maior e mais imediata delas sendo a democracia e o próprio mandato presidencial. Sem isso, perdem-se as perspectivas de novos avanços e se abriria um rigoroso e prolongado inverno.

Ao contrário, com isso, se pode oferecer nova agenda ao país, barrar os intentos de derrubar Dilma por qual caminho seja, retomar a iniciativa política, e disputar a sociedade com um programa renovado para avanços no projeto de desenvolvimento soberano, democrático e de atendimento às imensas demandas populares. A força de nossa luta por superar a pauta do ajuste e por uma política econômica de enfrentamento da crise que não penalize o povo, teria maior perspectiva.

A cada momento um aspecto da tática se impõe, como questão central, sem detrimento das demais – quer dizer, assume a primazia. Ter foco, alvos de ataque bem definidos, e sagacidade para fazer manobras táticas em salvaguarda do que é estratégico, são lições permanentes para a esquerda.