A Geografia da Pele é o novo livro de Evaristo de Miranda, editado pela Record.
Evaristo é grato amigo, desses homens que orgulham a nacionalidade e a humanidade, com seu trabalho de cientista comprometido. Atua, hoje e há muito, na EMBRAPA, formidável instituição brasileira. Várias vezes tratei de seu trabalho neste blog.
Desta vez com mais emoção. O livro é um alumbramento. Trata da viagem de trabalho de pós graduação do Autor na África, região do Sahel – próxima ao Saara – especificamente no Níger. O Autor estudava a agricultura e pastoreio na região, entre a savana e o deserto. Não é a África da qual vieram nossos ancestrais brasileiros, pelo quê há também um desvendamento para o leitor brasileiro.
Alberto Mussa, com sua simplicidade e brilho, apresentou na orelha do livro uma reflexão: “há algo de novo neste livro; e sinto muito não poder apontar exatamente o quê”. Ele o trata como o mais importante lançamento editorial do século nas letras nacionais. Não creio ser exagero.
O livro fascina e emociona pelo humanismo radical, neste tempo de barbárie. Pelo livro transitam personagens que causam encanto e espanto, numa narrativa feita de fabulação mas com a universalidade da circunstância humana.
Essa é uma primeira marca – respeito à alteridade, mais que isso, afeição ao outro.
O modo como relata vivências é outra marca, nas condições do tempo, anos 70, na África descolonizada há pouco mais de uma década, mas sem incidir sobre os temas já clássicos e datados que marcaram a civilização ocidental naquele período. Também por isso nos leva por outras sendas de experiência literária, pelo menos a alguém de minha geração.
Assim como em Diários de motocicleta o cineasta Walter Salles retratou parte da construção do pensamento libertário de Che Guevara, neste livro há um rito de passagem do Autor, então saído do país dadas as circunstâncias políticas da ditadura, graduado na França em Ecologia, a que se seguiu a estada no Níger.
Não há romantismo ou mistificação. A narrativa é feita de uma prosa precisa, estilo simples, com uma ironia cheia de afeto pelos hauçás e povo peul – o maior povo nômade da terra –, com quem conviveu todo esse período de formação profissional e humana. Reflete os mil estranhamentos próprios de uma mente racional que precisou captar conhecimentos e vivências feitas de outro barro (ou de outras vibrações), mas sempre pronto a acatar o enriquecimento propiciado pelo amálgama.
Dito assim, poderia ser árido. Mas não, bem pelo contrário. A riqueza espiritual dessa gente contrasta com o ambiente. A desertificação da região parece ter fortalecido o crescimento de raízes para o interior das personagens humanos, enriquecendo sua subjetividade feita de mística, fé, fábula mas, principalmente, de vivências, atávicas e do presente, darwinisticamente adaptado à sobrevivência em ambiente inóspito.
Neles, é menos o que dizem em palavras e mais o que vivenciam em comunidade, onde a palavra adquire sentidos e papeis mais espiritualizados.
Enfim, amei o trabalho. Não é uma Geografia da Fome, de Josué de Castro, nem de Vidas Secas, do grande Graciliano. Não perde nada em engajamento, mas fora da ficção, sociologia ou antropologia, é literatura admirável pela sua radical humanidade universal. Mei Sanda – o próprio autor – entra para as letras nacionais, junto com Haladu, Diô, Mei Dagi, Tambari e Yakei, a parteira sem braços que falava com os animais.



