Derrota da direita em Portugal

Reencontramo-nos, eu e Zillah Branco, por correio eletrônico. Cientista Social, consultora do Cebrapaz, ela tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde. Conhecemo-nos há décadas e, aos 80 anos, morando agora em Portugal (depois de grandes serviços prestados à nação e povo brasileiro), mostra que é ainda e sempre uma comunista de cepa. Mas nos uniu um sentimento fraterno, baseado em confiança ideológica e que soldou uma amizade – daquela amizade de que nos falava o também comunista português José Casanova, em O tempo das giestas.

Foi dela a lembrança em falar da situação política portuguesa, apontando para um esboço de pós-austeridade. Com efeito, após os resultados na Grécia e na Espanha (eleições locais), parece que há um frêmito no ar, em busca de alternativas político-sociais, mas ainda tendo por base uma crise de representação política, desacreditada pelos mesmo poderes que promovem a austeridade.

E Zilah, sempre atenta, correlaciona isso com os nossos acontecimentos brasileiros e latino-americanos. Fiquei tão contente que partilho com os leitores os apontamentos de Zilah em resposta a uma missiva minha e duas matérias que ela me envia, gentilmente, do Avante, órgão do PCP.

 

Querido camarada,

 

Agradeço emocionada a sua resposta pelo que revela no plano da amizade e da honestidade política. Sei que tal conduta é própria do PCdoB, o que torna este partido exemplar ideológica e humanísticamente. Chegando aos 80 anos e com uma militância iniciada aos 11 anos no difícil caminho dos comunistas, e depois de ter convivido com os camaradas portugueses orientados pelo saudoso camarada Alvaro Cunhal por 30 anos, aprendi a valorizar as qualidades que o PCdoB cultiva e que não são comuns. Revelam segurança ideológica, coragem política e sensibilidade pessoal.

 

Tenho acompanhado a situação preocupante que se vive no Brasil e imaginei que o afastamento de dois parlamentares explicava-se pela imaturidade ideológica que afeta os que são ainda formados pela máquina poderosa da mídia e que a direita mundial tem aperfeiçoado para confundir com a aparente adoção de um caminho democrático. Várias vezes tenho assistido a este fenômeno em conversas com meus netos e seus parceiros. E sei o quanto sofremos ao ver que eles se submetem a uma maquinação da direita.

 

Parece-me que os problemas criados por uma “direita democrática” foram globalizados, talvez em função da crise sofrida pelo sistema que caminhou no sentido de centralizar o poder imperial. Curiosamente ve-se em Portugal (e um pouco por toda a Europa) uma situação política semelhante à que foi criada pelo capitalismo na América Latina: a direita perde o apoio do empresariado nacionalista e da classe média em geral por não ser capaz de defender o desenvolvimento nacional. Assistimos, em seguida às eleições do dia 4/10, ao surgimento de uma força de esquerda parlamentar que tem dado provas de mobilização da massa trabalhadora e de captar a simpatia de franjas da direita na defesa intransigente dos direitos humanos, da constituição nacional, da defesa da integridade nacional. A esquerda hoje é representante da defesa de uma economia nacional e dos princípios éticos básicos na definição de uma pátria independente.

Este quadro ideológico impôs a sua força ao contrariar a opiniāo da direita, transmitida pelo Presidente Cavaco e adotada pela mídia, de que a coligação de direita, do anterior governo PSD/CDS, teria vencido as eleições por eleger um maior número de deputados, apesar de  sem a maioria que permitia a formação de governo estável. A proposta do PCP seguido pelo Bloco de Esquerda, foi de que o PS, como segunda força parlamentar, só não faria governo se não buscasse um acordo com a esquerda parlamentar. O PS, de Mário Soares que tanto prejudicou o processo da Revolução dos Cravos, aceitou a necessidade de atender os que falam pelo povo, certamente a esquerda. Ficou claro que há a possibilidade de romper o domino  oligárquico que também perde o pé na Uniāo Europeia depois das mudanças na Grécia e Catalunha, e do falhanço imperialista na destruiçāo da Síria.

 

Interessante que o esforço ideológico que temos feito para defender o caminho latino-americano sob liderança governamental de uma esquerda nāo comunista mas com o apoio das forças de esquerda com as associações de massa hoje volta-se para o que ocorre na Europa. Isto nos ajuda a combater setores dogmáticos de camaradas fixados nos textos do sèculo XIX sem a sua aplicaçāo às novas condições históricas em que vivemos. É um tempo rico que nos levam a aprofundar o conhecimento dos princípios ideológicos que orientam a nossa velha luta revolucionária que o camarada Alvaro Cunhal sublinhou em uma carta em que referia a importância da eleição de Lula e a semelhança com o processo de luta em Portugal que propiciou o 25 de Abril.

 

Com a satisfaçāo de poder dialogar com o PCdoB através de camaradas-amigos, envio um caloroso abraço.

 

Zillah

A Marcha – por Henrique Custódio 

Dê-se as voltas que se queiram sobre os resultados eleitorais, nenhuma poderá fugir de um facto: a direita, concentrada no «PAF» do PSD/CDS, obteve 38,8 por cento (1 981 459 votos), tendo contra si todos os outros resultados, que somam 50,9 por cento e 2 736 845 votos (considerando apenas os do PS [32,4%], do BE [10,2%] e da CDU [8,3%]) ou 53,4 por cento, (se aceitarmos também os resultados residuais do PAN [1,4%] e do PDR [1,1%], com a sua hostilidade, igualmente declarada, ao Governo ou às suas políticas).

A direita sofreu uma derrota eleitoral avassaladora: menos 12 de percentagem do que nas anteriores eleições legislativas, que corresponde a uma perda de mais de 700 mil votosentre 2011 e 2015 (a coligação no seu conjunto ficou abaixo da votação que o PSD sozinho obteve em 2011).

Mais cataclísmico que isto, apenas o Dilúvio.

E mais importante do que averiguar a quantidade de esquerda contida nestes 53,4 por cento de votos da vitória eleitoral global, impõe-se recortar outra evidência – a de que a direita ficou confinada no PAF, tendo-se o «centro» pulverizado na pauperização imposta ao País (e à dita «classe média») pela política devastadora do Governo Passos/Portas, extremando-se e fixando-se os putativos «centro-esquerda» e «centro-direita» na esquerda e na direita, como acertadamente anotou José Pacheco Pereira.

Pelo que a coligação do PAF é, presentemente, o corpus da direita no nosso País e representa trinta e oito por cento do eleitorado português que votou (e sem contarmos com a subida da abstenção para 43,03% do eleitorado inscrito, grossamente aumentada pela revolta, o desencanto, a indiferença e/ou o protesto contra a política do Governo).

A expressão «vitória pírrica» adequa-se à do «PAF» porque, além de remeter a direita para a exiguidade negocial, expõe-lhe sobretudo a sua exiguidade social.

O que permite concluir que, 41 anos depois do derrubamento do fascismo, a direita continua em flagrante minoria no nosso País – e esse dado foi de novo exposto pelas eleições.

A tentativa de destruição do regime saído da Revolução de Abril – objectivo claro desta coligação de direita – fez, nestes quatro anos e meio, muito mal à democracia, aos direitos conquistados pelos portugueses, à qualidade do Estado e dos seus serviços (incluindo os essenciais, na Saúde, Ensino, Segurança Social e Justiça), além de ter espalhado a desolação nacional com o desprestígio e a desarticulação do Estado e a miséria efectiva de pão e de tecto. São estragos que custarão muito a reparar.

Obviamente, a divisão ideológica em Portugal agravou-se com a sobranceria reaccionária com que o Governo sempre actuou, e que se lhe colou, nestas eleições: de um lado, largamente minoritária, ficou a direita apoiada por votos convictos e expondo a sua fraqueza; do outro, fica toda a gente que se opõe a esta política e a este Governo, que é solidamente maioritária no País.

O fantasma – por Correia da Fonseca

O título destas duas colunas inspira-se na frase inicial do «Manifesto» de Marx e Engels: «Um fantasma percorre a Europa – o fantasma do comunismo (…)». A palavra do original alemão pode ser traduzida por «espectro», mas permita-se-nos acompanharmos a tradução por «fantasma» adoptada pelo grande poeta espanhol Rafael Alberti: «Un fantasma recorre Europa / y las viejas famílias cierran las ventanas / afianzan las puertas(…)». Resta, porém explicar o motivo que justificará (ou não) o título escolhido: o alarme, quase vizinho do pânico, desencadeado em alguns sectores da sociedade portuguesa, designadamente nos círculos políticos afectos ao PSD e ao CDS-PP mas também noutros que talvez seja dispensável nomear, perante a hipótese de um apoio parlamentar do PCP, e também do BE, a um executivo do PS, assim se inutilizando o projecto da direita impura e dura de prosseguir a tarefa de redução à miséria da maioria do povo português. Os mais distraídos, ou talvez antes os mais hipócritas, vemo-los na televisão a manifestarem-se surpreendidos pela atitude do PCP que permite cortar o caminho à direita: não se lembram, ou fingem não se recordar, de que Jerónimo de Sousa repetidamente afirmou que o voto do PCP nunca faltaria ao PS sempre que se tratasse de travar a dupla PSD/CDS-PP e a sua política antipatriótica e de direita.

Susto, impostura e alarme

Assim, é vê-los a desfilar perante as câmaras e os microfones das diversas operadoras de TV para lançarem o quase espavorido aviso à população: vem aí o comunismo, regressará o PREC, a comunidade internacional cairá sobre nós, os «mercados» e as agências de «rating» reduzir-nos-ão a cacos! Eles sabem, é claro, que o alarme é falso; que a disponibilidade do PCP visa apenas quebrar o percurso governativo de uma coligação cuja prática de opressão e exploração do povo em geral e dos trabalhadores em particular, sempre em benefício dos potentados económico-financeiros e das classes possidentes, demasiadas vezes pareceu próxima de uma governação de orientação parafascista de fachada democrática. Eles sabem-no, mas mentem até acerca do que de facto entendem. Chegam ao ponto de, para potenciarem o susto que visam injectar na sociedade portuguesa, evocarem os tempos mais consequentes e tendencialmente mais revolucionários posteriores a Abril, aparentemente convencidos de que a falsificação da História que há quarenta anos andam a promover com farta utilização dos media por eles controlados há-de ajudá-los na impostura. Num outro plano, contam com um aliado ainda poderoso: sabem que o ainda Presidente da República, já por pouco tempo mas pelo tempo ainda suficiente para semear de obstáculos o trajecto para uma solução verdadeiramente democrática da questão emergente dos resultados eleitorais, fará o que puder para um resultado a seu jeito mas não ao jeito dos interesses do povo português. De onde o alarme, de onde as calúnias retomadas, de onde as imposturas mil vezes repetidas. Tudo isso a atestar que essa gente olha o País e, apavorada, julga ver um antigo fantasma a percorrê-lo. Não é apenas um erro de análise política: é o produto da certeza que têm, por muito que a ocultem, do mal que fizeram ao País durante os anos. E, é claro, quem fala de país fala de povo. Sem o qual não há país. Por mais que se esforcem os que julgam ganhar com a ocultação dessa identidade.