ENEM: uma prova histórica e uma resposta ao retrocesso social

* Luiz Henrique Dias 

Eu poderia falar sobre tantas questões do ENEM que trouxeram à tona temas como direitos humanos, liberdades individuais e garantia de direitos civis, bem como poderia comentar que gostei muito das provas de ciências da natureza e de matemática, minhas “áreas”, pois leciono essas disciplinas em cursinhos, mas eu gostaria de usar esse espaço para falar sobre algumas impressões a respeito da importância do exame.

O ENEM incomoda porque afronta o status social histórico do curso superior.

Outrora, a Universidade Pública era um lugar da elite, daqueles que podiam pagar por um ensino fundamental e médio privado e excludente, focado apenas no modelo tradicional de vestibular e afastado de qualquer compromisso social.

Uma prova, que em sua essência, discute o país e unifica o modelo de avaliação e seleção ao ensino superior é algo tão avançado quanto a palavra democracia, pois seleciona não pela meritocracia tecnicista, mas pela capacidade de compreensão do mundo e da sociedade e torna o ensino superior brasileiro cada vez mais alinhado com o país que realmente somos: efervescente e plural.

O tema da redação, acima de tudo, foi extraordinário: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.

Vivemos um momento em que o país enfrenta a polarização de ideias, em diversos campos, sendo o mais grave nas questões envolvendo os direitos humanos e civis.

Há uma onda conservadora, de “proteção à família”, com viés de direita, embasado em questões religiosas de caráter interpretativo e individual e com um discurso fundamentalista de preconceito e ódio que não condiz ao século XXI.

Somos uma sociedade plural, diversa, rica e culturalmente esplêndida, onde não há mais espaço para movimentos retrógrados como a homofobia e o machismo, e onde não há mais justificativa para a violência, seja qual for.

Vivemos um momento ímpar do debate, avançado, e devemos encarar nossas pautas e discutir como conjunto de sociedade, decidindo de forma participativa e no campo das ideias, sobre questões como violência contra a mulher, descriminalização do aborto, política de drogas, união civil, modelos familiares, direito à cidade, uso da terra urbana e acesso à educação.

Da mesma forma, devemos quebrar a histórica barreira entre o público (sociedade) e o privado (lar, família, núcleo), aplicando a Lei onde houver atentado ao ser humano. Boa parte da violência física, psicológica e sexual contra mulheres acontece em casa, no “núcleo sagrado” onde, segundo a tradição, as pessoas estariam protegidas. Mas, sabemos, todos, não estão.

Estou muito orgulhoso de meu país por utilizar um instrumento tão importante quanto o ENEM para fazer tanta gente pensar sobre algo tão relevante e tão atual.

Não era apenas um simples tema de redação: era um sinal de que o Brasil vai encarar, finalmente, suas verdadeiras mazelas sociais.

E se queriam saber minha opinião sobre o resto da prova, pois bem: química tava foda.

Boa semana a todos e a todas!

* Luiz Henrique Dias é escritor e professor.