A Força Expedicionária Brasileira – a cobra fumou!

Fui honrado pelo convite ao lançamento do livro O Brasil na Segunda Guerra Mundial – uma página de relações internacionais, da amiga Teresa Isenburg.

Fiz dois registros pessoais e um político na ocasião.

A razão pessoal e primeira do convite creio ser minha amizade com a autora, da qual admiro postura e obra. Sou suspeito então para falar do livro. Mas sim, admirei-o, além de apreciá-lo sob os olhos da crítica. Parabenizo a autora, não apenas pela escolha do tema, como também pelo registro absolutamente singular que ela alcançou, a contar a história de dois povos que se encontravam, ambos ansiando pela liberdade e pelo fim da guerra, com precisão e concisão, sensibilidade e profundidade (não me sai da cabeça, por ex., o registro do ex-primeiro ministro italiano, Romano Prodi, comentando no livro sua memória de ter visto, pela primeira vez na vida, um negro – um soldado da F orça Expedicionária Brasileira – FEB).

Teresa é uma italiana que se dedicou nesse livro a um tema brasileiro. Uma patriota de duas pátrias, como eu sou patriota de duas pátrias. Ambos compartimos a causa a que nos dedicamos, a do conhecimento crítico a serviço de uma nova sociedade, um novo patamar civilizatório para a humanidade. Donde, o termo patriota deve ser resgatado em sua plenitude nestes tempos de globalização financeira imperialista. Não como chauvinismo nacional, mas como senso de pertencimento e como parte de uma estratégia para contar com a força dos Estados Nacionais em fazer frente ao maior poderio de hoje, as forças financeiras, que arrastam povos e nações inteiras em seu afã de lucro para o capital portador de juros.

O livro de Teresa é importante pela capacidade de contextualização de complexas tramas que marcaram a entrada do Brasil no teatro da 2ª Guerra. E pelo papel diferenciado da FEB na interação com o povo italiano.

Fico marcado pelo registro não apenas do teatro de guerra, mas das pessoas e famílias vivendo a guerra e travando contato com aquela força, a FEB, primeiro confundida com alemães – pela cor dos uniformes – mas a seguir percebida como um povo mais integrado – negros, brancos, descendentes de italianos, alemães e japoneses (oriundos de países contra os quais se guerreava), e até judeus como vários comunistas entre os quais Jacob Gorender – e sua contagiosa vontade de se integrar, ajudar, conviver, alegrar, mesmo naquelas terríveis condições. Decidiram o emblema da FEB como A cobra vai fumar, para glosar as palavras de Hitler de que seria mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra contra os alemães.

O tema político e historiográfico eu tive ocasião de tratar, por serendipidade, com o posfácio a um livro de outro patriota, homem de cultura e compromissos, hoje presidente da União Brasileira dos Escritores que lançou uma obra sobre o mesmo tema, de grande erudição e concisão, A Campanha da FEB pela libertação da Itália. Trata-se do Dr. Durval Noronha Goyos Jr. Teresa e Durval já habitaram as páginas deste blog (vejam por ex. AQUI e AQUI)

Não quero me estender, mas apenas fazer o registro do que me parece destacadamente importante no tema, bem registrado por ambos.

Afirmava na ocasião que a participação do Brasil não foi apenas tática, mas participante de batalhas táticas de alcance estratégico naquele momento e cenário da guerra. Estratégica também pelas condicionantes internas ao país. O Brasil teve um vislumbre naquele momento, em ocupar um lugar geopolítico determinado no mundo e em empreender a sua construção nacional.

Getúlio Vargas, maior estadista brasileiro, embora ditador, junto com José Bonifácio, manobrou até o limite para tirar proveito da decisão de entrar em guerra. Foi o único país na América Latina que o fez. Contou com a visão estratégica de Osvaldo Aranha. Arrancou o compromisso com o projeto nacional, a implantação da siderurgia, e o respeito de Roosevelt. Foram manobras que tinham tortuosas no plano internacional, mas também no front interno, pois que tinham que deslindar conflitos com forças protofascistas, notadamente Dutra e Góes, buscando impedir que a entrada em guerra pudesse alimentar a luta pela liberdade e contra a ditadura do Estado Novo, questão que foi tão bem registrada por Teresa.

Mas a liberdade é irreprimível, e foi o que se viu. A decisão da FEB integrou o Brasil aos anseios antiditatoriais, e mudou o Brasil. Foram momentos de paixão. Por isso os comunistas, integrados aos patriotas e democratas, deram o melhor de si para que o Brasil adotasse aquele passo. O PCB estimulou o voluntariado à FEB. Caio Prado Jr foi um desses que vislumbrou o que estava por vir. Por isso os comunistas, opondo-se aos desdobramentos imediatos que adviriam com a guerra fria sob a presidência de Dutra, tiveram a sagacidade e a coragem inaudita de se posicionar politicamente até mesmo em defesa da continuidade de Vargas, comprometidos que estávamos com a onda democrática para fortalecer a afirmação nacional.

Poderosa força essa união do povo brasileiro, alcançada até mesmo entre trabalhadores e setores das forças armadas, sob um governo ditatorial – contra o que viria a se insurgir o general que sucedeu a Vargas, o mesmo Dutra, arrastando o país a um papel subordinado, em nome da guerra fria, como se o povo fosse uma espécie de inimigo interno, mais perigoso até do que as ameaças externas vividas por uma nação jovem que almejava o desenvolvimento e seu espaço no mundo. Aliás, esse registro foi feito com acurácia por Teresa. Como se pudesse haver nação sem povo, e pudesse haver um povo atuante em defesa da nação sem democracia.

É necessário retornar a isso, pois a FEB jamais teve o reconhecimento interno que merecia e merece dos brasileiros, ao contrário até do que acontece na Itália. Vi e vejo mais monumentos lá que cá ao heroísmo e desprendimento brasileiro pela libertação da Itália, sob o comando de um homem íntegro como Mascarenhas de Moraes. Vi e vejo, pela primeira vez, um italiano, vivo todavia, dono das terras de Monte Castelo, na saga de décadas por construir um monumento ao qual doaria as terras. O projeto era de Niemeyer. Infelizmente, até hoje, a obra não se viabilizou.

Retornar, também, porque a mesma luta, nacional, democrática e popular, segue em curso hoje no Brasil e no mundo em desenvolvimento, sob novo contexto. A era Vargas, iniciada em 1930, abriu o percurso da modernidade brasileira ao longo de 50 anos, de forma contraditória alternando democracia e ditadura. Os que se desmoralizaram foram os que pretenderam enterrar a Era Vargas e produziram, nos anos de FHC na década de 90, um retrocesso antinacional e antipopular.

Hoje vivemos a segunda maior crise histórica do capitalismo, sob dominância financeira, a levar o opróbio aos trabalhadores, aos povos e nações, até mesmo nos países dominantes. Em 1929 a crise incubou a guerra, mas os povos tinham na URSS uma reserva estratégica que escreveu páginas incríveis de sacrifícios e heroísmo para salvar a humanidade da besta fera nazista e fascista. Hoje, a luta é ainda mais desigual. Ainda não encontra saídas progressistas e vivemos sob o manto da austeridade, da perda de direitos e do retrocesso civilizatório, até mesmo na Europa.

É a mesma luta que travamos, eu, Teresa e Durval, todos nós, pelo anseio de liberdade, desenvolvimento, afirmação das nações e povos dependentes, por um mundo multipolar e capaz de respeitar o meio ambiente do qual a humanidade depende.

É bem vindo esse livro de Teresa.

Finalizo com outro registro pessoal, porque não sou capaz de exprimir o que esse tema significa para mim. Descendente de italiano, meu pai foi à guerra. Aos 18 anos, na África, combatendo em Tripoli. Foi feito prisioneiro pelos franceses em Bengasi, fugiu auxiliado por famílias italianas, combateu em Tobruk sob comando de Rommel; foi ferido duas vezes, novamente feito prisioneiro, agora pelos ingleses. Foi trasladado para Canadá e depois Seattle. 10 anos, entre guerra e campo de concentração. Voltou com a família na penúria, entre irmãs viúvas, pai e irmão caçula mortos na guerra. Não lhe restou saída senão partir para o Brasil, onde fez a vida, o trabalho, a família. Trouxe à custa do trabalho toda a família. Foram acolhidos com tolerância, convivência e integração. Por isso, sempre se sentiu um brasileiro italiano, nunca se naturalizou, entretanto.

Que diferença ante o tratamento que dá hoje a Itália aos refugiados que buscam trabalhar e viver lá! Deixam afundar seus navios! Essa a barbárie dos dias atuais…

O que mais amo no Brasil é esse seu anseio de se abrir ao outro, sua capacidade de ser quem é assimilando o outro, integrando-se e integrando-os a uma mesma identidade, forjada pela cultura e miscigenação da qual proviemos. Por isso, quando leio o papel da FEB me sinto como os italianos que foram liberados em Monte Castelo e tantos outros municípios. Essa emoção singular a devo ao livro de Teresa. Por isso queria estar aqui, grato à Teresa.