Conversa.com: Joaquim Maria Botelho – O livro de Rovana e a personagem

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“A noite está com frio. Estou batendo na boca do dente.”

“Vamos apagar a história porque mudamos de ideia?”

 

Conversa.com foi atrás de Joaquim Maria Botelho, cujo novo romance O Livro de Rovana será lançado pela Editora Passatempo.

Joaquim Botelho foi um grato e recente amigo. Foi presidente da União Brasileira de Esritores, cuja diretoria integro e à qual ele permanece ligado. Homem de letras, não conhecia sua história e propus-lhe falar de si e do livro.

A conversa abaixo me deixou emocionado pelo tema do livro e pela história da personagem e do Autor. Tenho certeza de que todos vão apreciar. Ao invés de perguntas, deixei-o livre para discorrer e recebi essa pérola. Grato, Joaquim! Espero que os leitores paulsitas compareçam ao lançamento do livro.

Rovana, a personagem do meu livro, é uma figura real. É minha irmã. Dos nove irmãos, três foram portadores da Síndrome de Alport, ela a última. Resultou dessa disfunção hereditária do colágeno (COL4A5) que fosse muda, porque surda, e que ficasse progressivamente cega, por retinose pigmentar, e ainda sofresse de nefropatia terminal. Os dois anteriores foram Antonio José, morto por nefrose aos 17 anos, em 1972, e Judá, morto de falência renal bilateral aos 52 anos, em 2009.

Vou centrar minhas observações em Rovana. Até os 11 aos, em razão da surdez, não conseguia falar. Muito miúda, muito vesga, muito inteligente. Expressava-se com gemidos, caretas, incrustada no seu casulo, irritando-se por não se fazer compreender. A doença não estava plenamente identificada na época de sua infância – era tratada apenas como uma degenerescência oftálmica – e, portanto, os médicos não sabiam o que fazer com ela. Nem nós. Frequentou escolas para excepcionais, mas depressa percebemos que essa convivência apenas a faria regredir. Tentamos então a escola regular, e operou-se o milagre da persistência. Praticamente perseguindo a professora Gioconda, e mesmo sem ainda elaborar a fala, Rovana começou a ler e a escrever. Mas não podia ir além. Meus pais, educadores, decidiram então educá-la em casa, com obrigações e deveres, jogos, música, passeios. Em dado momento, mamãe teve a inspiração de estimular que ela reproduzisse seus sentimentos, angústias, expectativas e sonhos em um diário. Rovana cumpriu religiosamente a tarefa, ao longo de seus 49 anos, em 194 cadernos universitários.

A REPORTAGEM

Como jornalista, enxerguei nessa história não só o paradigma do fora do comum, mas o do interesse público, pois que era uma grande oportunidade de mostrar, a famílias que possam enfrentar situações assemelhadas, métodos que funcionaram para a educação de uma pessoa que, para as escolas, não tinha possibilidade de progredir funcionalmente. (Calcula-se que a Síndrome de Alport acometa uma a cada 10.000 pessoas, no mundo. Há um caso clássico de uma família do Piauí em que foram identificados quatro irmãos – todos homens brancos, entre 12 e 25 anos. A síndrome é mais rara e moderada em mulheres.

Pesquisei, assim, ao longo de quase nove anos, todos os cadernos do seu diário, para transformar a história em livro. É a história dessa menina, que aos 49 anos, adolescia num corpo de menina de 12 anos. Por isso o título, “O livro de Rovana”.

Como acréscimo literário, dei com verdadeiros achados metalinguísticos, já que Rovana desenvolveu uma sintaxe e uma articulação particulares, muitas delas dignas de Guimarães Rosa. Dou três exemplos: “A noite está com frio. Estou batendo na boca do dente.” “Mamãe, o marimbondo me mordeu, aqui no joelho do braço!” “Eu já vesti e já servi a roupa”.

O LIVRO

Comecei o relato de Rovana fazendo-a narradora, em primeira pessoa. Não demorei a perceber que a estratégia narrativa não se verificaria eficiente. Havia muitas informações herméticas ou tangenciais, que precisariam ser explicadas. E, testemunha de tudo o que se passou, desde o nascimento da menina miudinha que tomava banho numa panela porque não havia bacia que a acomodasse sem risco de afogamento, tomei eu o papel de narrador. Foi o que deu certo na condução da história.

Estruturalmente, o livro é fragmentado. O pensamento de Rovana é fragmentado. Optei pela verticalidade. Pelas idas e vindas. Pelo mosaico narrativo, que o leitor aos poucos vai compondo, como um quebra-cabeças espaço-temporal.

Literariamente, uso a linguagem do dia a dia, a oralidade, o tom sereno que usávamos em casa. Éramos crianças alegres, com pais que liam para nós, que cantavam em saraus, que preparavam peças de teatro para atuarmos em casa, que nos levavam a museus, concertos, bibliotecas. Que nos ensinaram a apreciar as coisas positivas de todas as religiões, apesar de confessadamente ateus. A literatura estava no sangue. Mamãe, Ruth Guimarães, ocupou a cadeira número 22 da Academia Paulista de Letras entre 2008 e 2014, quando morreu de um AVC. Mas, por essa época, havia enterrado o marido, o excepcional fotógrafo e professor de literatura, José Botelho Netto, e os três filhos deficientes. Não deixou para os quatro filhos remanescentes o encargo.

 

O AUTOR

Sou o quarto filho. Mamãe brincava comigo, dizendo que eu era “o quarto filho de Jacó, o filho muito amado em quem deposito todas as minhas complacências”. Perdemos os três mais velhos em anos seguidos. Marta em 1970, aos 20 anos, de acidente; Rubem, em 1971, aos 20 anos, suicidou-se no Rio Paraíba. E Antonio José, o Juca, em 1972 sucumbiu à nefrose.

Tornei-me o mais velho. Menino ainda aprendi a cozinhar, lavar, passar, fazer compras, tudo o que pudesse atenuar a carga dos meus pais, que passavam os dias e as noites lecionando, fotografando, traduzindo, redigindo.

Aos 17 anos, logo após a morte do Juca, pedi aos meus pais que me deixassem buscar o meu caminho em São Paulo – morávamos então no interior, em Cachoeira Paulista. Vale do Paraíba. Fui, comecei carreira na Editora Global e, em menos de um ano, assumia toda a correspondência em inglês da empresa e já traduzia o primeiro livro – “Earthquake”, o livro do filme Terremoto, que inauguraria em 1975 o chamado cinema-catástrofe. Para não tornar a narrativa cansativa, pulo etapas para contar que – depois de dois anos nos Estados Unidos, com uma bolsa de estudos – virei repórter da Revista Manchete em São Paulo, e meus textos foram tão apreciados que fui levado para o Rio de Janeiro, primeiro como repórter especial e depois como chefe de reportagem. Em 1986 assumi a assessoria de imprensa da Embraer. Em 1990, virei chefe de reportagem da TV Globo Vale do Paraíba, hoje TV Vanguarda, em São José dos Campos. Tive uma carreira ascendente, o que me propiciou ajudar financeira e moralmente os meus pais, que à época ainda estavam com dois filhos deficientes para cuidar. Tratamento caro: óculos especiais para atenuar a perda de acuidade visual, quatro aparelhos de surdez (quase o preço de dois carros populares) etc. Saí-me bem. Mas faltava-me algo: meu conhecimento literário era esparso e eu lia muito, tudo, de todos, sem muito critério a não ser seguindo as orientações familiares, o que incluía os clássicos. E, também, convivia com amigos dos meus pais, proximidade que me engrandecia: Péricles Eugênio da Silva Ramos, Cassiano Ricardo, Fernando Góes, Emir Macedo Nogueira, Renata Pallottini, Antonio Candido e outros astros. Fui atrás de organizar meus conhecimentos. Mesmo atuando numa área extremamente conflituosa (diretor de comunicação da Secretaria Estadual de Educação, que incluía a Febem e suas rebeliões, desmandos e ineficácia), segui o mestrado em Literatura e Crítica Literária na PUC/SP. Misturei literatura e jornalismo para defender a tese de explicar por que a literatura – e a crítica literária propriamente dita – sumiu da imprensa paulista. A dissertação virou livro.

 

O AUTOR E A UBE

E tendo o livro ficado conhecido, aventurei-me a ingressar como associado da UBE. Minha mãe, sempre minha eterna professora mas extremamente crítica, antes disso, ainda não me achava pronto, como escritor. Engrandecia o meu trabalho jornalístico – porque era bom mesmo, modéstia às favas -, mas costumava dizer que me faltava estilo. Acho que mudou de ideia quando me pediu que analisasse para ela um livro que Osman Lins ia lançar (“Avalovara”) e pedira a ela uma opinião crítica. Mamãe surpreendeu-se com meus conhecimentos. E ganhei segurança. Comecei a escrever e publicar artigos, resenhas. Assinei traduções, do inglês e do espanhol, para a Global, casa de que nunca me afastei, pela amizade com os donos, Cultrix (onde atuava meu grande amigo José Paulo Paes) e fui fazendo trabalhos para editoras do exterior.

Em 2009, o tesoureiro da UBE precisou se desligar por motivos particulares imperiosos, e aceitei assumir a função para não desfalcar a diretoria. Acabei me envolvendo em vários comitês, ajudei a pautar a Revista O Escritor, então dirigida pelo poeta Izacyl Guimarães Ferreira, e ganhei certa notoriedade na associação. No final daquele ano uma comissão, formada por Fábio Lucas, Antonio Possidonio Sampaio, Levi Bucalem Ferrari e Audálio Dantas, quase me impôs a tarefa de me candidatar à presidência. Resisti um pouco, mas confesso que a vaidade me venceu. E topei.

Fui presidente por dois mandatos de dois anos. E ainda, por uma contingência legal, prorroguei o segundo mandato por mais um ano, até que fosse preparada a eleição para a nova diretoria. Portanto, fiquei presidente entre 2010 e 2015. Período trabalhoso. Mas, a despeito de dificuldades, consegui, com a diretoria do primeiro mandato, realizar o Congresso Brasileiro de Escritores de 2011 em Ribeirão Preto. Encerrava, assim, um jejum de 26 anos em relação ao congresso anterior, histórico, que Fábio Lucas havia coordenado em São Paulo, em 1985. Empreendemos uma luta cerrada a favor da liberação das biografias (alteração do Código Civil), ao lado do deputado Newton Lima, dos escritores Fernando Morais, Alaor Barbosa, Audálio Dantas e vários outros, participação que nos tornou vitoriosos ao cabo de quatro anos. Integramos a frente de defesa dos direitos autorais, conseguindo engavetar uma proposta lesiva aos escritores, assinada pelo então ministro da Cultura, Participamos com destaque na Feira do Livro de Frankfurt, tendo assinado (Levi Bucalem Ferrari e eu), o compromisso de que o Brasil seria, pela segunda vez, o país homenageado daquela Feira em 2013. Produzimos edições bimestrais regulares do jornal O Escritor (havia deixado de ser revista para reduzirmos os custos), conseguimos aumentar o número de associados em cerca de 200 novos ao ano. Elegemos e premiamos, com o Troféu Juca Pato, Lygia Fagundes Telles, Aziz Ab’Sáber e Tatiana Belinky.

O segundo mandato foi mais modesto de realizações, em razão de dificuldades econômicas que o país enfrentava. Ainda assim, conseguimos publicar uma coletânea de contos de associados na Alemanha, elegemos e premiamos, com o troféu Juca Pato, Audálio Dantas e João Batista de Andrade. E publicamos, pela Editora Global, uma antologia de contos, crônicas e poesias, com 75 autores, uma verdadeira preciosidade literária.

 

DIFICULDADES NA UBE

A UBE foi fundada com o propósito específico de combater a ditadura Vargas. Depois, passou por outro período obscuro sob o regime militar. Sobreviveu, mas depois das eleições diretas e da redemocratização – que ainda está em processo – o inimigo já não tinha mais rosto. E é difícil lutar contra um adversário invisível – o mercado, o empresário mal-intencionado, a crise. Os escritores que ganharam nome preferiram andar sozinhos; não precisavam mais da UBE. E sofremos novamente, com a ausência de autores que poderiam nos ajudar grandemente a fortalecer a entidade.

Em razão de nossa pobreza, já que vivemos exclusivamente das anuidades dos associados, conseguíamos realizar pouco e a UBE não era tão atraente para os associados. Um problema central, ao que me parece, é que o governo delegou às empresas o papel de definir qual é a política cultural do país. As leis de incentivo são formatadas de tal modo que são as empresas que escolhem qual evento patrocinar (ou pior ainda: a área de marketing das empresas). E o critério não é qualidade ou interesse público, mas volume de público atendido. E basta observar os projetos que conseguem captar recursos: bailes e shows, principalmente, quase nada de iniciativas de formação de leitores e de difusão da literatura.

Notadamente as empresas estatais não se interessam pela cultura. Apostam em patrocinar quem não precisa de patrocínio: astros do esporte, que já têm dinheiro suficiente para andar com as próprias pernas, cantores e cantoras consagradas que já ganham um bom dinheiro com shows. E assim podemos enumerar outras tantas. Autores de literatura conseguem a duras penas, quase sempre depois de penosa persistência.

Não era de se esperar outra coisa, lamentavelmente. Num país em que os governos fecham escolas e pagam mais para assessores do que para professores, não podia ser diferente.

E há o patrulhamento do “politicamente correto” que vem acovardando alguns autores. Tem gente olhando obras do passado com olhos de hoje. Isso não cabe – vamos apagar a história porque mudamos de ideia?