A ideologia da escola sem partido

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Por Juremir Machado

Não consigo imaginar um professor em sala de aula dizendo: “Votem no partido tal”. Jamais ouvi falar de um caso assim. Na minha experiência como aluno de ensino fundamental e médio, jamais aconteceu. Muito menos nos cursos de graduação ou pós-graduação por onde passei: jornalismo, história, direito, antropologia e sociologia. Conheci professores de todos os credos e ideologias, mas nunca os vi fazerem pregação em sala de aula.

Jamais vi um professor pedir voto para um candidato em meio à exposição de conteúdo.

Serei um caso raro?

De repente, não me dei conta da realidade escolar.

Tenho acompanhado a polêmica sobre a tal Escola sem Partido, defendida, em geral, por gente extremamente partidária ou ideologizada como o mais novo pedagogo da era pós-Paulo Freire, Alexandre Frota. Sempre que alguém denuncia a ideologia do outro, pretende estar sendo neutro, mas é só uma ilusão ideológica profunda. A sala de aula continua desconhecida da parte da mídia e dos políticos. Há os que consideram bom o ensino que reprova muito. Há os que sentem saudades do tempo em que o aluno não batia em professor, mas o professor batia em aluno. Há os que defendem uma escola de conteúdo, que confundem com decoreba de nomes, datas e fatos.

Como deve se comportar um professor ao tratar dos acontecimentos brasileiros de 1964: deve chamar de golpe, revolução ou contragolpe? Certamente deve dizer que existem essas três leituras dos episódios que levaram à deposição de Jango e à instalação dos militares no poder. Deve descrever a atuação da mídia, o papel dos Estados Unidos, as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, a Guerra Fria, a caça aos comunistas e as pesquisas do Ibope dando altos índices de aprovação a Jango? Se não for claro, ouvirá:

– Tá, profe, mas pra ti foi golpe, revolução ou contragolpe?

Ao defender a democracia contra a ditadura, o professor toma partido? Ao condenar a tortura, o professor torna-se partidário? Ao sustentar que se derrubou do poder um presidente constitucionalmente eleito, comete “crime” de esquerdismo? Não me consta que os defensores da Escola sem Partido se incomodem com professores que apresentam a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500, como descobrimento. Consideram, em revanche, tomar partido dizer que não pode haver descobrimento do que já era habitado? Toma partido inadequadamente um professor que contesta o caráter abolicionista da Revolução Farroupilha? Ou que critica o caráter repressivo antipopular praticado pelo Império contra as insurreições do período regencial?

Toma partido o professor que desnuda as manipulações protelatórias dos escravistas brasileiros com leis como a do Ventre Livre e dos Sexagenários? Toma partido quem desconstrói a história contada pelos vencedores conforme os seus interesses e recortes? Toma partido quem procura separar o joio dos trigais da imaginação fértil?

Como deve se posicionar um professor ao falar do nazismo e do holocausto? Deve ser neutro? Ou, nesse caso, está dispensado da neutralidade? O que deve ensinar um professor sobre os ciclos ditatoriais que desceram sobre a América Latina nos anos 1960 e 1970? Se afirmar que foram legítimas reações ao avanço do comunismo, toma partido da direita ou apenas relata o acontecido? Se afirmar que, no clima da Guerra Fria, conservadores aproveitaram para dizimar as frágeis democracias e impor seus pontos de vistas autoritários, deturpa ideologicamente a verdade? Se indicar que muitos lutaram pela volta da democracia e outros pela implantação do comunismo, toma partido da direita, da esquerda, de ambos, de nenhum, de quem mesmo?

Os defensores da Escola sem Partido não querem apartidarismo.

Desejam apenas que as escolas tomem o partido deles, que chamam de imparcialidade, isenção e neutralidade. Como deverá se comportar um professor quando, dentro de dez anos, tiver de abordar os episódios de 2016 no Brasil: deverá chamar de golpe ou de impeachment? Se chamar de golpe, tomará o partido da esquerda? Se chamar de impeachment, tomará o partido da direita? Se contar que houve conflito, uns falando em golpe, outros em impeachment, tomará partido por ainda falar em golpe, o que por si já seria um posicionamento?

– Tá, profe, mas pra ti foi golpe ou impeachment?

Se o professor sustenta que o impeachment não podia ser golpe por estar previsto na Constituição, comporta-se com isenção ou adota o sofisma ideológico de uma parte? Se complementa que também está prevista na Constituição a exigência da prova de um crime de responsabilidade para a legitimidade do impeachment, está sendo isento ou adotando a posição ideológica da outra parte? Ou o professor deve apenas roçar esse assunto, sem aprofundamento, ou nem sequer tratar dele por ser polêmico e perpassado por ideologias? Há quem entenda que a escola só deveria ensinar matemática. O resto seria ideologia. O uso da mesóclise, por exemplo, seria elitista.

Todo colunista sabe que isenção é quando a sua opinião coincide com a do leitor.

Nesses casos, o elogio é generoso e imediato:

– Hoje, foste isento. Concordo em gênero, número e grau.

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=8787