CONVERSA.COM: Cássia Janeiro

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Quero que vocês conheçam Cássia Janeiro, figura muito especial.

Cássia Janeiro é poeta e lutadora. Luta principalmente pela não-violência, contra qualquer tipo e contra toda forma de ditadura. Como poeta é preocupada com os rumos da poesia no Brasil e a importância da educação para a construção de sociedades mais humanas.

Na homenagem a Moniz Bandeira, por ocasião dos seus 80 anos, promovida pela UBE (União Brasileira de Escritores), Cássia Janeiro, Secretária-Geral da entidade, foi responsável por falar de uma parte da obra de Moniz que muitos não conhecem tão habitualmente. Coube a ela falar sobre a obra poética do historiador. Cássia diz que conheceu o trabalho de Moniz Bandeira nos anos de faculdade, por meio do livro “O Ano Vermelho”, que aborda os impactos da Revolução Russa no Brasil. Ao conhecer sua “Poética”, encantou-se. Ela discorda do escritor, que diz que a academia teria lhe roubado a lírica. Para ela, sua lírica está presente até mesmo em suas obras acadêmicas.

Em 1999, Cássia publicou “Poemas de Janeiro”; em 2004, “Tijolos de Veneza” e, em 2007, “A Pérola e a Ostra”. Todos eles foram prefaciados pelo gigante Antonio Candido e apresentados por figuras como Paulo Dantas (Poemas de Janeiro), Antônio Gonçalves Filho (Tijolos de Veneza) e Rubem Alves (A Pérola e a Ostra). O título deste último é também uma referência à famosa frase de Rubem Alves: “Ostra feliz não faz pérola. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais. Em 2014, foi a primeira sul-americana a ganhar o Prêmio Mundial de Poesia Nósside chancelado pela UNESCO com o poema “Para que Poesia?

Assim como na sua poesia, Cássia é uma pessoa preocupada com o sentido da existência humana. Ela integra a organização “Mães pela diversidade” que reúne mães de filhxs LGBT que lutam contra o preconceito e pelo direito à diversidade.

Bom, conversamos à beça. Tenho certeza de que vocês amarão Cássia Janeiro e sua obra.

  1. Cássia, fale um pouco do seu trabalho como poeta. De onde surgiu essa relação com a poesia?

Eu tive muita sorte. Fiz uma oficina literária na Casa Mário de Andrade (hoje Oficina da Palavra) – aliás, tive como companheiro de turma o brilhante Marcelino Freire – nos anos 90, com o poeta falecido André Carneiro. Chamava-se “O escritor e outras linguagens”. Eu estava muito focada na prosa, mas André insistiu que eu deveria escrever poesia. Para ser honesta, eu não gostava, porque a escola tinha matado qualquer possibilidade de amar poesia. Então, fui apresentada a várias obras de uma forma totalmente diferente e, desde essa época, não abandonei a prosa, mas me dediquei mais à poética.

  1. Qual a sensação de publicar obras prefaciadas por Antonio Candido e, uma delas, apresentada por Rubem Alves?

Volto a dizer que tive muita sorte. Conheci Paulo Bezerra na Paraíba, quando fazia doutorado na UFPB (Universidade Federal da Paraíba). Ele foi meu professor. Dei meus poemas para ele ler e sua resposta foi estimulante: tem que publicar! Mas publicar poesia no Brasil não é nada fácil. Voltei a morar em São Paulo e os poemas ficaram ali, guardadinhos. Um dia disse a Paulo Dantas, que já era amigo, que gostaria de uma avaliação bem imparcial e ele disse: “Mande ao Antonio Candido”. Eu ri, claro. Nem me passava pela cabeça. Antonio Candido era e é um gigante, como você mesmo disse. Dantas insistiu, me passou o telefone.

O primeiro contato foi frustrante. Ele pediu desculpas, disse que só lia o que já gostava, que não lia nada novo. Eu insisti para enviar, Candido disse que eu podia enviar, mas que ele não ia ler. Perguntei se ele queria meu telefone para confirmar recebimento e ele gentilmente disse que não.

Mesmo frustrada, mandei. Um mês depois, liguei para ele: “Professor, enviei minhas poesias e queria confirmar que chegaram”. Na verdade, claro, a ideia era perguntar se ele tinha lido. Sua resposta foi mais um banho de água fria. “Minha filha, eu recebi, mas acho que perdi”. Como sou insistente, disse: “Vou mandar de novo, não se preocupe”. Ele: “Não estou preocupado. Como lhe disse, eu não pretendo ler”. Mandei de qualquer forma.

Depois de quase mais um mês, recebo uma ligação: “Alô, é o Antonio Candido”. Eu tenho um primo muito brincalhão e disse “Ok, Ronaldo, ok…”. Ele: “Não, a senhora deve estar me confundindo, aqui é o professor Antonio Candido”. Eu: “Ronaldo, o Antonio Candido não tem meu telefone”. Ele: “Eu não sei quem é Ronaldo, mas é verdade que não tinha seu telefone. Procurei na lista e a senhora sua mãe me passou esse número”. Quando me dei conta, simplesmente bati o telefone e disse em voz alta: “É o Antonio Candido”. Liguei de volta, ele disse que a ligação tinha caído e veio a ótima notícia: “Queria dizer que, por insistência sua, li o que me mandou. Confesso que não lia nada tão bom há muito tempo”. Bem, nem é preciso dizer o quanto fiquei emocionada. Mal conseguia falar. Ele me enviou uma carta com uma análise dos poemas e, com autorização dele, publiquei como prefácio. Paulo Dantas fez a apresentação. Massao Ohno, que dizia que não ia mais publicar poesia, aceitou na hora ler o livro, quando soube por quem era prefaciado. E publicou!

O segundo livro, Tijolos de Veneza, Antonio Candido já leu sem problemas e perguntei se ele faria o prefácio. “Claro”, foi sua resposta. Antônio Gonçalves Filho, jornalista e crítico de arte, fez a apresentação. Mantivemos, durante esse tempo, uma amizade que foi crescendo. Por fim, quando mandei “A Pérola e a Ostra”, ele mesmo se prontificou a prefaciar e fez todos os elogios que constam do prefácio.

Nessa época, por conta do Antonio Candido, Rubem Alves já tinha lido “Tijolos…” e nos tornamos muito amigos. Ele me chamou para o restrito grupo de poesia, os “Canoeiros”, que se encontrava todas as 3as em sua casa para tomar sopa, vinho, ouvir boa música e falar sobre arte de modo geral. Eu disse ao Rubem que tinha escrito um livro com base numa frase sua. Ele leu, perguntei se ele apresentaria e assim foi. Depois, quando do lançamento do livro, em 2007, pela Verus, a Raíssa, que era a editora, perguntou se faríamos um Café Filosófico na CPFL Sabia que o Antonio Candido já quase não saía de casa, mas a Raíssa, que sempre colocou uma fé imensa no meu trabalho, insistiu e eu disse que perguntaria. Para minha surpresa, ele aceitou e fizemos, ele, Rubem e eu, um Café Filosófico que foi, na realidade, uma grande festa de lançamento do livro. Como eu não poderia me considerar uma pessoa de sorte?

  1. Você já afirmou que as premiações são um estimulo. Em 2014 foi a primeira sul-americana a ganhar o Prêmio Mundial de Poesia Nósside. Qual a importância dessa conquista para a poesia latino-americana?

Bem, é uma conquista, porque, até aqui, só um poeta mexicano e eu ganhamos pela América Latina. É um prêmio que, em geral, os europeus ganham. Assim, acho importantíssimo que a América Latina e especificamente a América do Sul estejam presentes. Na verdade, o primeiro prêmio, que é o que eles chamam de Vencedor Absoluto, é que veio pela primeira vez. Mas outros poetas já foram reconhecidos pelo prêmio na América Latina e no mundo todo. O Prêmio é uma festa planetária. Quando fui receber o prêmio na Itália, em 2013, ao obter a Menção Particular, que é diferente da Honrosa, já sentia isso, esse encontro com poetas e outros artistas do mundo inteiro. Mas, claro, ao receber o prêmio máximo, fiquei muito emocionada, até porque foram brasileiros de várias partes da Itália prestigiar o Brasil. Aqui, no entanto, a poesia não tem o mesmo significado que tem para os europeus. A imprensa europeia deu grande destaque, mas no Brasil mesmo, saiu em poucos lugares. Isso me faz refletir sobre o lugar da poesia no Brasil. Entretanto, sou resiliente, continuo escrevendo a despeito do reconhecimento natal. O convite do Dr. Durval Noronha, presidente da UBE, veio deste prêmio, quando da cerimônia no Brasil, preparada pela secretária do Nósside, Rosalie Gallo, uma pessoa ímpar.

  1. Você está trabalhando em um novo livro, “Filhas de Eva”, no qual abordará a questão da violência contra a mulher. Fale para nós sobre essa nova obra…

O “Filhas de Eva” nasceu de um documentário que vi e que me causou um impacto profundo “India’s daughter”, que fala sobre o estupro coletivo e assassinato de Jyoti Pandey. Aquela história foi extraordinariamente impactante para mim. Ela me fez reviver a violência que eu mesma sofri e a violência que minha filha sofreu, ambas por anos a fio. E o título apareceu na minha cabeça. Estava em dúvida entre prosa e poesia. Muitas vezes eu sentia que tinha que escrever um livro de contos, mas, no fim, optei por poesia e estou trabalhando numa criação diferente, um desafio para mim.

 

  1. Tanto no Brasil, quanto no mundo a mulher está quase sempre presente nas poesias e letras de música. Como você, que é identificada com a luta das mulheres, vê a relação entre a mulher e a poesia?

Isso varia muito. Tem o que chamo de machismo cor-de-rosa, que é aquele machismo que parece elogio, e o que é machismo puro. Vou dar um exemplo do que considero machismo cor-de-rosa: um dia, quando daquela foto TEMERosa do ministério de você sabe quem, um amigo muito querido, muito esquerdista, postou: “Falta beleza e poesia neste governo”. Não! Falta representatividade feminina, competência, falta tudo. Então, esse é o tipo de comentário que é machista sem querer, porque isso está introjetado em nossa cultura. Mulher não é só beleza – e nem importa para o cargo se for bonita, porque não é para ser modelo, é para ser ministra – e poesia (o que ficou pior ainda, porque parece que poesia é algo fútil, quando exige trabalho e competência.

No entanto, como a mulher é tratada em poemas e letras de música é um registro histórico. É como você querer tirar Lobato, por exemplo, porque ele teria sido racista. É o registro não apenas de Lobato, mas de uma época.

Eu tenho um hábito: ver novelas antigas. Há cenas que hoje jamais poderiam ser passadas. Um homem que estupra uma mulher e ela acaba gostando é uma coisa impensável – espero! – hoje. Então, mesmo nas letras mais machistas, temos que ver esse registro histórico. Mas confesso que particularmente tenho um problema com Nelson Rodrigues, que disse que mulher gosta de apanhar e só as neuróticas reagem. Quem defende Rodrigues, vai dizer uma série de coisas para justificar. Ele era um intelectual, não era um sujeito iletrado. Sabia o que dizia. Uma vez fizeram, salvo engano, na Bahia, uma série de cartazes com fotos de mulheres espancadas com a frase ao lado. Infelizmente, ele não é o único. Raramente vamos encontrar artistas que valorizam a mulher por algo mais que a sua beleza, a sua dedicação, aquele sofrer, de que Vinícius falava, por se saber mulher e ser só perdão… É a visão de uma sociedade patriarcal sobre a mulher. Como dizia meu ex-marido: é difícil, muito difícil, para quem tem privilégios ser capaz de saber-se privilegiado, de olhar o outro e a outra de forma diferente. Isso está também nas propagandas. O que um carro e uma cerveja têm em comum com a mulher? É uma coisa que estamos desconstruindo, mas não será do dia para a noite. Eu vejo com muito bons olhos esse movimento feminista que renasce com pessoas jovens e que são seres pensantes.

  1. Tivemos no Brasil grandes poetisas e literatas, assim como grandes cantoras e compositoras de MPB. Recentemente Elza Soares lançou novo álbum que chamou a atenção de todos pela contundência das suas letras ao fazer referência a questão da mulher. Há espaço para uma poesia feminina ou feminista no Brasil?

Acho que literatura tem que ser boa, do ponto de vista estético, do trabalho artístico. Particularmente, não gosto quando me falam em poesia feminina, porque, como a literatura infantil, parece algo menor. Não! Como diz meu amigo Ricardo Ramos, há literatura para crianças, o que não a torna menor. O mesmo vale para a mulher. Não importa quem escreve: tem que ser bem escrito. Óbvio que é uma felicidade encontrar um perfeito casamento entre forma e conteúdo. Então, neste aspecto, sim, há espaço não apenas para a literatura feminista, como para qualquer tipo de literatura emancipatória, que trabalhe questões importantes, como o preconceito.

Ouvi diversas vezes uma história, que não sei se é real, mas, se não for, vale pelo conteúdo. Marx teria uma fã que sempre enviava textos para ele. No final deles, invariavelmente, o patrão se dava mal, os trabalhadores, eram felizes. Marx teria lido e nunca respondia à fã. Exasperada, um dia ela escreve a ele perguntando o porquê de sua falta de interesse. Ele, então, teria respondido que, para ser boa literatura, não bastava que o burguês ficasse mal e que os trabalhadores se dessem bem.

Para concluir, temos mulheres artistas extraordinárias em todos os campos da arte. Veja a nossa Lygia agora, candidata ao Nobel, indicada pela UBE. Ela e outras são exemplos de uma fecunda criação artística.

  1. Que “conselhos” você daria às mulheres jovens sobre a literatura e a própria produção literária? Vejo hoje muito interesse na nossa juventude, sobretudo nas mulheres.

Que escrevam, que estudem, que leiam excelentes livros, que frequentem cursos, encontros, que se filiem a organizações de escritores, como a própria UBE. Precisamos encarar o fato de que escrever não é só aquela coisa que vem “do coração”, “da alma”… escrever é algo que exige formação intelectual sólida e continuada. Não termina nunca.

  1. Como você vê a evolução do papel da mulher na sociedade brasileira?

Acho que já respondi (vide novelas antigas rsrs).

  1. Você integra a organização “Mães pela Diversidade”. Conte um pouco sobre essa luta… Como ela se relaciona com a sua poesia?

As Mães pela Diversidade lutam pelos direitos de seus filhos LGBT. Somos a favor da diversidade e combatemos o preconceito. O Brasil é o país que mais mata LGBT e religiosos fundamentalistas, que fazem recortes, no mínimo originais da Bíblia, colocam em risco a laicidade do Estado. Lutamos por políticas públicas de equidade, por direitos civis e humanos. Não queremos privilégios, mas direitos equiparados. O combate ao preconceito é diário e hoje o desafio é ainda maior, por conta de um Congresso e de um Estado contaminado por ideias preconceituosas e distorcidas, como o abominável Escola sem partido.

Essa luta existe desde que me conheço por gente, então tudo está interligado: vida civil, literatura, tudo tem um eixo.

  1. Você disse que ficou encantada com a obra poética do Moniz Bandeira. Não podíamos deixar de falar sobre isso. Qual foi a sua impressão da obra dele?

Vários aspectos me chamaram a atenção. A capacidade de criar um ambiente que tem uma história, de trabalhar tão bem com a linguagem me impressionaram muito. O fato também de ter escrito um poema quando adolescente falando da infância, da adolescência, da juventude, da maturidade e da velhice, ou seja, que tratava de fases vividas e não vividas com tanta propriedade, é uma coisa rara até em poetas já feitos, digamos assim.

Já os sonetos para Margot são de beleza ímpar. Colocam esta mulher numa condição surpreendente, que rompe os padrões daquilo que eu chamava do machismo cor-de-rosa. Eu vejo Margot como uma mulher autônoma, uma mulher que tem um lugar, uma história, que independe da história do poeta, mas que com ela se entrelaça. São dois seres inteiros, poeta e musa. Essa musa está também num lugar geográfico que é autônomo – e que não é apenas geográfico, mas histórico, que tem um contexto -, e que abriga, acolhe este amor. Assim, a meu ver – eu não sou crítica literária, mas assim chegou a mim a obra de Bandeira – trata-se de uma subversão da mulher como um objeto ou simplesmente como um pretexto para a expressão do poeta. Nesse caso, ele cria um paradoxo interessante: conhecemos Margot porque ela está nos sonetos, mas ela se sobrepõe ao próprio soneto, como uma pessoa viva, a quem o poeta rende uma homenagem, não pelo que ela pode fazer por ele, sequer pela inspiração que ela lhe empresta, mas pela admiração por sua inteireza e pelo amor que se embala nessa admiração. Pode até ser uma análise equivocada, porque, como disse, não sou crítica. Gostaria de saber o que o próprio Bandeira acha disso…

  1. Você é Secretária-Geral da União Brasileira dos Escritores (UBE), qual a importância e que papel joga essa organização?

Acho que a UBE passa por um momento de grande importância. O presidente, Durval Noronha, tem feito um trabalho notável, resgatando o caráter político, não partidário, da organização. Assim, a UBE tem se manifestado contra quaisquer riscos à liberdade de expressão e de pensamento, ao Estado de Direito e a favor da plena democracia. Como não pode deixar de ser, para que essa luta seja plena, defendemos a diversidade, o Estado laico e os direitos humanos.

Além disso, a UBE tem promovido cursos e oficinas de literatura e tem procurado chamar um novo público, atrair a juventude. Mensalmente temos cursos a preços muito acessíveis em nossa sede, que também foi uma realização da gestão do Dr. Durval. De 15 a 18 de setembro, a I Feira Literária de Rio Preto/UBE, que levará grandes nomes da literatura e de outras artes ao loca.

A UBE é uma entidade histórica, com nomes ilustres. Sua importância está também no fato de poder se posicionar de forma coerente com sua história e de se abrir à sociedade civil. Não somos um nicho de intelectuais descolados da realidade, mas capazes de nos posicionar de forma a lutar pelas garantias civis, pelos direitos humanos e, claro, pela arte e nossos associados.

Estamos trabalhando na editora UBE, que lançará os livros de nossos associados e temos um trabalho muito presente nas mídias sociais, dialogando, portanto, com uma nova geração. Esperamos deixar um legado que faça jus à estatura da instituição.

 

PARA QUE POESIA?

Para que escrever poesia

Em tempos sanguentos

E de vilania?

Terão os poetas algum nobre filamento,

Alguma valia?

Por que teimo em escrever poesia

Qual carta de alforria,

Dissecando da esperança a anatomia?

Escrevo porque existo;

A alma não é noite escura.

Escrevo porque resisto;

É na dor que se expõe da vida a arquitetura.

Quisera eu que um só verso

Pudesse do sofrer abater a espessura;

Que o morbo nele imerso

Vertesse a própria cura.

Escrevo poesia em meio a sangue e ruptura;

Não é na calma que se vê da alma a tessitura;

É na secura que se vê do tronco a envergadura.

 

O QUE SOBROU (Para Antonio Candido)

O que sobrou de você neste
Apartamento
Foram as suas roupas,
Que logo vão ser dadas,
Os seus livros,
Alguns dos quais serão meus,
Aqueles que compramos juntos,
As lembranças.
O que sobrou foram seus retratos e,
Quando vi uma foto sua, sorridente e saudável,
Lembrei-me de que não me preparei
Para a sua vinda,
Mas pude me preparar para a sua ida.
Mas quando você foi,
Ah, meu Deus!
O que sobrou?
O que sobrou
Fui eu.

POEMA DA TUA AUSÊNCIA (Para Antonio Candido)
Um poema de amor na tua
Ausência
É mostrar a dor nua com
Inocência.
É falar dessa dor que não
Sinto
E que me dói por não
Senti-la.
Será essa uma mentira
Inacabada?
Será essa dor insuportável
Incapaz de sentir-se?

Um poema de amor na tua
Ausência
É uma vã tentativa
De te ver ali, imóvel,
E de te amar na sombra
Que ficou em mim.