Visão heterodoxa: Mangabeira Unger e José Carlos de Assis sobre a vitória de Trump

Trump presidente é um grande enigma sob as categorias tradicionais e prevalentes da política mundial. Mangabeira Unger, professor de Harvard e ex-ministro dos governos Lula e Dilma, afirma que “É absurdo ver vitória de Trump como retrocesso”, em entrevista à BBC Brasil, e que “surpresa brasileira com eleição americana é injustificada, pois país enfrenta vazio semelhante na política.

José Carlos Assis, jornalista, economista e patriota, ligado ao movimento Brasil Agora, afirma que “Agora, pela primeira vez na história americana, tem-se um empresário – não um empresário comum, mas um mega-empresário produtivo – no comando da estratégia nacional e imperial. O capital produtivo – sim, é o que ele representa, não Wall Street – não será representado pelos geopolíticos, mas atuará diretamente segundo seus interesses”. E segue: “Há grande probabilidade de o governo Trump trazer para o mundo uma era de prosperidade econômica sem paralelo”.

São visões heterodoxas e polêmicas, mas necessárias ao debate multilateral dos fatos, mormente em uma situação mundial marcada pela crise capitalista grandes mudanças nos equilíbrios de força e graves retrocessos sociais e democráticos.

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Veja as duas matérias na sequência:

É absurdo ver vitória de Trump como retrocesso, diz Mangabeira Unger

Trump e Putin apontam nova era de prosperidade para o mundo, por J.C. Assis

É absurdo ver vitória de Trump como retrocesso, diz Mangabeira Unger

Ingrid Fagundez, da BBC Brasil em São Paulo

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – Grande parte da imprensa internacional e dos intelectuais descreve a vitória de Trump como um retrocesso. O senhor concorda?

Roberto Mangabeira Unger – Isso é absurdo. Muito disso vem da Europa, que está agora afundada em um completo retrocesso. Eles, que abandonaram qualquer tentativa de construir (uma opção viável), estão chamando isso de retrocesso?

BBC Brasil – Se não é retrocesso, como encarar a vitória do republicano?

Mangabeira – Em resumo, a eleição de Trump é a rebeldia da maioria trabalhadora branca do país contra seu abandono. Aí a crítica é: Trump não é uma resposta adequada.

Mas em política tudo tem a ver com as alternativas. Então, o que é melhor? Continuar com essa ortodoxia conservadora do Partido Democrata ou virar a mesa? Essas são as alternativas reais da política real.

A partir dessa reviravolta em Washington, os americanos devem buscar uma resposta mais adequada e séria para o problema que a eleição de Trump revela.

BBC Brasil – Que elementos explicam sua eleição? Que problemas ela revela?

Mangabeira – A base essencial da eleição de Trump foi o grande vazio criado na política americana, há meio século, pelo abandono dos interesses da maioria trabalhadora branca do país.

O Partido Democrata substituiu o projeto do New Deal (série de programas implementados entre 1933 e 1937 pelo democrata Franklin Roosevelt para reformar a economia americana) por concessões aos interesses das minorias e pela representação da visão de mundo da classe que mora nos subúrbios ricos.

Diante disso, o Partido Republicano construiu uma fórmula exitosa. Ele fez concessões materiais para a classe endinheirada, como baixar os impostos, e concessões às preocupações morais da maioria pobre em temas como, por exemplo, o aborto.

Portanto, criou-se um grande vazio na política americana, que pedia um outsider.

BBC Brasil – Apoiadores de Trump argumentam que muitos americanos não se sentem representados pelos partidos Democrata e Republicano. O resultado também tem a ver com a falta de representatividade da política tradicional?

Mangabeira – Não é questão de se sentir ou não se sentir representado, é a verdade dos fatos.

O projeto que estava no poder não atendia aos interesses da maioria trabalhadora e lhes dava como compensação que pelo menos ela não seria ofendida em suas convicções morais e religiosas.

Era algo como “vamos abandoná-los, mas evitaremos que suas crenças sejam excessivamente ofendidas”.

Em algum momento, isso deixou de ser suficiente e criou a oportunidade que um aventureiro aproveitou. Se não fosse Trump, seria outro.

Havia, e há, uma base frágil na política americana, porque a maioria está abandonada em seus interesses. Homenagear negros, mulheres e latinos é muito bom, mas não substitui o problema essencial, que é a falta de oportunidades e capacitações para a maioria do país.

BBC Brasil – Em meio a uma crise política e econômica, esse vazio também está presente no Brasil?

Mangabeira – É uma situação análoga à do Brasil. Os brasileiros não têm razão para considerar esse acontecimento tão absurdo e incompreensível. O Brasil é o país do mundo mais parecido com os Estados Unidos.

Como eles, nosso atributo mais importante é a vitalidade, hoje encarnada numa pequena burguesia empreendedora e numa massa de trabalhadores pobres que vêm atrás dela.

A tragédia dos dois (países) é negar oportunidades à maioria, que é cheia de energia, mas sem condições de transformá-la em ação fecunda.

Na nossa realidade, o formato desse enigma foi ter confiado num projeto baseado na massificação do consumo e na produção e exportação de commodities. Enquanto a mineração e a pecuária pagavam as contas, funcionou. Quando deixaram de pagar, ruiu.

Na discussão brasileira, os dois substitutos são as agendas (anticorrupção) da Polícia Federal e do conserto das contas públicas. É isso que serve de substituto para um projeto nacional que não existe. Também há um grande vazio na política brasileira, embora com outra feição e origens. Mas o resultado é semelhante.

BBC Brasil – O Brasil pode esperar um “aventureiro” como Trump nas eleições de 2018?

Mangabeira – Vamos ter dois projetos (de candidatura). Um (situacionista), que diz que é só disciplinar o gasto público, ter a gestão empresarial do Estado, mas que não vai resolver o problema.

Temos que ter outro projeto, que proponha um novo rumo para o país. Apoio a candidatura de Ciro Gomes e vou trabalhar para desenvolver o conteúdo desse projeto alternativo.

BBC Brasil – Que tipo de projeto precisaríamos ter?

Mangabeira – Não pode ser a continuação do nacional-consumismo. Tem que ser um projeto focado nos interesses da produção e do trabalho.

Temos que ter um projeto de qualificação da nossa produção e dos trabalhadores na agricultura, serviços e indústria. Isso exige uma relação colaborativa entre governo e empresas, sobretudo as pequenas e médias.

BBC Brasil – Se, em 2018, uma candidatura oferecer esse projeto, podemos descartar um outsider?

Mangabeira – Outsider pode significar um aventureiro, que busca se aproveitar da circunstância. Mas também pode significar alguém que é um rebelde contra a linha dominante.

Nesse segundo sentido, quero que a candidatura de Ciro Gomes seja a de um outsider.

Quanto mais tivermos outsiders no segundo sentido, menor a chance de termos outsiders no primeiro. O outsider aventureiro surge e prospera na medida em que não existe o rebelde.

Se você me pedir para fazer apostas se vai haver um outsider ruim ou não, não me interesso. Fazer previsões é um pecado.

BBC Brasil – Se Brasil e Estados Unidos estão em situações análogas, que tipo de diálogo pode haver entre eles?

Mangabeira – Especificamente na relação com os Estados Unidos, temos uma grande oportunidade agora.

Hoje temos uma dependência completa dos Estados Unidos em matéria de defesa e de segurança. O Brasil é objetivamente um protetorado dos americanos.

O grupo dominante no Partido Democrata aderia à doutrina do imperialismo liberal, tinha uma visão fixa da América Latina, na qual o nosso papel era ser uma linha auxiliar dos Estados Unidos em tudo, inclusive na defesa.

Já Trump volta-se para os problemas internos. Com relação à América Latina, fora a problemática migratória, ele não tem posição fixa. Portanto, há um grande espaço.

Há um tensionamento com o México e temos interesse em vê-lo superado. Mas, ao analisar com frieza, devemos compreender que a tendência será buscar compensação em outro lugar da América Latina. E o lugar natural é o Brasil.

BBC Brasil – Após a eleição americana, traçam-se paralelos entre a vitória de Trump, o Brexit e ascensão de partidos anti-imigração na Europa, como se houvesse uma reação conservadora e xenófoba a nível global. O senhor concorda com essa análise?

Mangabeira – Estão confundindo duas coisas. Existe uma reação contra os imigrantes na Europa, é verdade. E existe porque a União Europeia, de forma análoga ao que aconteceu nos Estados Unidos, tomou uma direção contrária aos interesses da maioria trabalhadora.

Eu não confundiria isso com Brexit. Se fosse inglês, teria votado pelo Brexit. E me considero um homem de esquerda.

BBC Brasil – Por que as eleições americanas e o Brexit não dialogam?

Mangabeira – Pode haver uma intersecção, mas são coisas diferentes. Na União Europeia, as regras determinantes da ordem econômica e social são cada vez mais concentradas no centro. No centro formal, que é Bruxelas, e no centro real, que é Berlim. E o poder de definir os direitos sociais dos cidadãos é delegado às autoridades nacionais.

Deveria ser o oposto. A UE deveria ser assegurar mínimos sociais e educacionais em toda a Europa, e permitir que países como Portugal ou Grécia pudessem desenvolver novas estratégias econômicas.

Do jeito como é hoje, a Europa virou uma camisa de força. É natural que se rebelem os países, inclusive a Inglaterra. O Brexit não precisa ser compreendido apenas do ponto de vista de uma reação nativista. Ele tem outra justificativa.

Já o nativismo dentro da Europa prospera porque a social-democracia conservadora abandonou as maiorias de seus respectivos países, confundindo a representação da maioria com a representação daquilo que os marxistas chamam de aristocracia operária, as pequenas minorias organizadas. Isso sim é semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos.

BBC Brasil – Também é parecido ao que acontece no Brasil?

Mangabeira – Temos no Brasil 40% da população brasileira na economia informal. Na economia formal, uma parte crescente dos trabalhadores está em situação de trabalho precarizado. Se você somar os informais e os precarizados, é a maioria da força de trabalho do país. Quem os representa? Qual é o projeto para organizar, proteger e qualificar essa maioria?

A esquerda tradicional não faz isso. Ela faz parte do corporativismo das minorias organizadas, que comandam o país.

Se você me disser que o outsider é aquele que se rebela contra esse corporativismo, quero esse outsider.

BBC Brasil – Podemos dizer, então, que nos EUA, na Europa e no Brasil as maiorias trabalhadoras se sentem abandonadas pela esquerda?

Mangabeira – Não há esquerda na Europa. O que há é a social-democracia conservadora, que abandonou qualquer tentativa de reinventar o Estado ou a economia, e se satisfaz em atenuar as desigualdades com programas sociais.

Não quero ver o Brasil repetir o erro trágico da esquerda europeia, de demonizar a pequena burguesia que, em seguida, virou o sustentáculo dos movimentos de direita. Isso não aconteceu agora, mas ao longo do século 20.

Há mais pequenos burgueses do que há proletários industriais. E a população tem aspirações que começam por serem burguesas: um pequeno negócio, uma casa, uma modesta prosperidade. Temos que vir ao encontro dessas aspirações e oferecer opções que possam torná-las mais generosas.

 

Trump e Putin apontam nova era de prosperidade para o mundo

José Carlos de Assis

 

Se a análise política de fundo vale alguma coisa em confronto com a boçalidade dos comentaristas da tevê Globo e Veja, pode-se concluir que há grande probabilidade de o governo Trump trazer para o mundo uma era de prosperidade econômica sem paralelo. Não falo da política interna. Sinceramente, ela não me interessa. É que o suposto elemento de regressividade prometida nesse campo pelo novo presidente será contrabalançado, e até anulado, pelo fortíssimo movimento de defesa dos direitos civis norte-americano.

O aparente enigma vem do exterior, e ele já pode ser decifrado em vários aspectos. O principal deles está associado ao caráter profundo da política externa dos Estados Unidos. É uma política estruturada em duas vertentes. A primeira, econômica, visa essencialmente a abrir espaço para as empresas norte-americanas no mundo. A segunda, geopolítica, visa à confirmação recorrente do poderio militar do país, especialmente depois que apareceu diante dele um rival com poderio nuclear capaz de desafiá-lo, a União Soviética e agora a Rússia.

Tradicionalmente o comando da estratégia norte-americana cabia a geopolíticos, que tinham ascendência sobre os interesses econômicos. Houve exceções, é verdade, como a relacionada com a política imperialista do petróleo. Acontece que petróleo desfruta de duas naturezas, uma geopolítica, por ser um insumo fundamental em termos bélicos convencionais, e outra econômica, pela importância universal de sua cadeia produtiva. Em outras situações, o intervencionismo americano se deveu exclusivamente à geopolítica, como na América Central.

Agora, pela primeira vez na história americana, tem-se um empresário – não um empresário comum, mas um mega-empresário produtivo – no comando da estratégia nacional e imperial. O capital produtivo – sim, é o que ele representa, não Wall Street – não será representado pelos geopolíticos, mas atuará diretamente segundo seus interesses. Muito provavelmente não serão inventadas guerras de honra, como a segunda do Iraque, ou as múltiplas intervenções no exterior, como no caso da chamada Primavera Árabe.

O fato é que, exceto para o complexo industrial-miliar, guerra hoje em dia não dá muito dinheiro. A prova é o sucesso econômico espetacular da China com módicos investimentos militares, em comparação com Estados Unidos. Além do mais, sabe-se desde o plano militar megalômano de Reagan que investimentos bélicos, num mundo de altíssima tecnologia, gera poucos empregos. O material usado são chips, com uma dimensão material muito menor do que a da antiga indústria bélica baseada em canhões, tanques, aviões.

Trump, consciente ou não, vai aplicar seu pragmatismo no espaço que abre para seu país uma real perspectiva de crescimento: Rússia. A relação norte-americana com a China não promete muito mais do que já deu. A indústria dos Estados Unidos está profundamente penetrada em território chinês, e a ideia de fazer isso retroceder não se compatibiliza com a visão pragmática de Trump. Ademais, boa parte dos investimentos americanos na China são de norte-americano vinculados ao Partido Republicano. Mas por aí não dá crescimento.

Já a Rússia é uma terra virgem a ser conquistada. Tão logo sejam levantadas as estúpidas restrições econômicas que os “estrategistas” americano impuseram ao país, Putin, ele também um pragmático, abrirá as portas ao investimento dos Estados Unidos. Com os recursos naturais que tem e com a mão de obra especializada herdada da União Soviética, a Rússia é um território de conquista sem paralelo para o capital, revertendo sua tendência secular à queda. A meu ver, estará aí o grande espetáculo econômico do século XXI.

Não só isso. A Rússia é a Ásia profunda, que se complementa com a China, a Índia, o Japão. Uma vez retiradas as barreiras geopolíticas idiotas, essa mega-região poderá puxar o mundo para o crescimento, inclusive o Brasil, neste caso se não tiver o terrível azar de ter alguém tão inexpressivo na Presidência, como Temer, e alguém tão despreparado para o cargo de Ministro das Relações Exteriores, como José Serra. E o azar ainda maior de ter por trás deles algo tão desprezível como o sistema de comunicação da Globo e da Veja.

Putin é um ás da estratégia. Tem dado um baile nos geopolíticos americanos na Geórgia, na Ucrânia (Criméia) e na Síria. Não perderá essa oportunidade de por a Rússia na trilha do crescimento. Há ali toda uma infra-estrutura do crescimento que está sendo preparada pela China, a partir da Rota da Seda, assim como uma formidável estrutura de financiamento que inclui Banco Asiático de Investimento, Fundo de Investimento da Rússia, Fundo da Rota da Seda, Cia de Financiamento do Desenvolvimento da Infraestrutura, Novo Banco de Desenvolvimento (BRICS). Diante desse aparato, só continuaremos a aceitar condicionalidades especulativas do Banco Mundial e do FMI se cometermos crimes de lesa-pátria.