Os comunistas do Colégio Central da Bahia (por Emiliano José)

Uma história de resistência!

Carteira de filiação de Marighella ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) – Crédito: Reprodução

Três comunistas do Colégio Central da Bahia

Emiliano José

O primeiro, nasce em 5 de dezembro de 1911.

O segundo, em 2 de outubro de 1912.

O terceiro, em 14 de junho de 1923.

Marighella, Maurício e Mário.

Baianos.

Os três estudaram no assim nascido Liceu Provincial, e nascido nas lonjuras de 1836, e mal surgido, com vida interrompida pela Sabinada, movimento separatista a pretender a proclamação do Estado livre e independente da Bahia.

Eclética programaticamente, a Sabinada não apoiava a monarquia constitucional unitária, nem a proclamação da República, ficava a meio caminho. Firmava o compromisso de revisar tudo no momento da maioridade de D. Pedro II.

Tal revolução, datada de 7 de novembro de 1837, condenava a aristocracia e defendia a abolição do trabalho escravo. Propostas obviamente ousadas para a época, sem que, no entanto, as lideranças apontassem os caminhos para alcançar objetivos tão avançados. Não prosperou. Mas Salvador viveu dias turbulentos com os sabinos.

O ensino foi seriamente afetado.

Até porque havia alguns professores envolvidos na insurreição, o mais famoso dos quais o padre Antônio Joaquim das Mercês.

Tanto o Liceu Provincial como a Escola Normal, nascida também em 1836, tiveram suas atividades interrompidas por conta da revolução, última das sublevações armadas da Bahia. Como Salvador, as escolas só voltaram à normalidade em 1842.

As duas escolas foram criadas para cobrir lacunas.

O Liceu, para substituir as aulas avulsas de latim, francês e grego.

A Escola Normal, para formar professores do ensino elementar.

O Liceu Provincial tornou-se Ginásio da Bahia. Depois, Colégio Central, nome consagrado até hoje.

Os três estudaram no Central.

Um ninho de comunistas, assim o pensamento conservador qualificava o Central.

Talvez tivesse razão.

Por volta dos anos 40 do século XX, o PCB contava com sete células estudantis, coisa de 20 militantes, o que pode parecer pouco. Mas, só parece para quem não conhece a capacidade da militância comunista no período, a preparação de cada um dos estudantes que ingressavam no partido. Esses poucos militantes foram os principais organizadores das grandes manifestações de massa ocorridas em Salvador a favor da entrada do Brasil na Guerra Mundial, o que acabou acontecendo.

Carlos Marighella, dos três, o precursor.

Nascido em Salvador, espírito irrequieto, do samba de roda, da capoeira, do futebol, carnavalesco e namorador, poeta, inteligência rara, famoso na Baixa dos Sapateiros onde nasceu, comunista muito jovem, revela-se um arguto provocador ao responder provas em versos, o Central foi o seu berço, que lhe deu régua e compasso. Preso na Bahia por Juracy Magalhães em 1932, entra para o PCB, é preso outra vez no Rio de Janeiro no 1º de Maio de 1936, violentamente torturado, sai em julho de 1937, e pouco mais de três anos depois da segunda prisão é encarcerado novamente, 26 de maio, em São Paulo, saindo apenas com a anistia em 1945.

Em seguida, elege-se deputado federal constituinte pela Bahia, já legenda do PCB, recém-legalizado, condição efêmera, mandato-relâmpago, pois o partido foi colocado na ilegalidade em maio, sempre maio, do ano de 1947. Junto com ele, Marighella também na clandestinidade, e nessa situação vai viver até o momento em que é assassinado na Alameda Casa Branca, em São Paulo, no dia 4 de novembro de 1969, num cerco armado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Marighella já então militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), surgida do inconformismo de comunistas insatisfeitos com os rumos adotados pelo PCB, considerados reformistas, sem capacidade para enfrentar a conjuntura de ditadura. Era então considerado o inimigo número um da ditadura militar, que não o queria vivo. Tornou-se, morto, uma referência ainda maior para a esquerda brasileira, por sua coragem e combatividade, exemplo para todos os que se dispõem a lutar pela revolução.

Maurício Grabois, também de Salvador, também do Central, onde aprendeu as primeiras lições comunistas. Muito cedo, foi dirigente da Juventude Comunista, e integrou a Aliança Nacional Libertadora, que tentou a Insurreição de 1935, derrotada.

Com 19 anos, vai para o Rio de Janeiro, estuda na Escola Militar de Realengo, depois na Escola de Agronomia, abandonada no 2º ano em favor da atividade política revolucionária. Edita o jornal A Voz Operária e passa a dirigir a Editora Vitória, ambos do PCB.

É preso no verão de 1941, solto em 1942. Um dos organizadores da Conferência da Mantiqueira, fundamental para a reorganização do PCB, nela é eleito para o Comitê Central do partido.

É eleito deputado federal para a Constituinte, e lidera a bancada comunista.

Com o partido cassado, cai na clandestinidade. Em 1954, no IV Congresso, é reeleito para o Comitê Central.

Em 1962, insubordina-se com a orientação considerada reformista do PCB, e funda o PCdoB ao lado de vários outros companheiros, como João Amazonas, Diógenes Arruda e Pedro Pomar.

Chega à região do Araguaia em dezembro de 1967 para organizar a luta armada revolucionária na perspectiva maoísta. Com ele, segue o filho André Grabois, morto na selva pela ditadura em 1972. Maurício Grabois é morto no natal de 1973 por forças militares do Exército. Tornou-se uma referência para os comunistas.

O terceiro, filho de latifundiário de Sento Sé, sertão da Bahia, Mário Alves, chegou ao Central em 1935, ingressa no PCB em 1939 aos 16 anos, recruta ninguém menos que Jacob Gorender para o partido, torna-se orador combativo nas manifestações a favor da entrada do Brasil na II Guerra contra o nazifascismo, torna-se jornalista do jornal O Estado da Bahia, seu primeiro emprego.

Torna-se, com apenas 20 anos, dirigente do Comitê Central como resultado da Conferência da Mantiqueira.

Em 1945, é diplomado em Ciências Sociais. Joga pro alto o emprego na imprensa burguesa – afasta-se de O Estado da Bahia, a rede dos Diários Associados. Torna-se, aos 23 anos, o redator-chefe de O Momento, o primeiro jornal comunista do período da fugaz legalidade do PCB. Ali ganhava apenas o suficiente para se manter. Enfrentou o empastelamento do jornal em 27 de maio de 1945, sob o governo de Otávio Mangabeira, conhecido por posições democráticas, mas cedendo ao endurecimento de Dutra.

Em 1947, segundo semestre, vai para o Rio de Janeiro, profissionalizado pelo partido. Com o crescimento repressão sob Dutra, segue para São Paulo. Dirige depois a Escola do PCB, orientando os cursos de formação. Vai tornar-se um dos principais quadros teóricos do partido.

Veio 1964, e Mário Alves, ao lado de Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender, funda o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), opondo-se, como Marighella e Grabois, ao que considerava conciliação do PCB, e passa a defender a luta armada. Cai na noite de 16 de fevereiro no Rio de Janeiro, no bairro de Cascadura, Rio de Janeiro. É morto empalado, de modo atroz. Nunca será esquecido: foi modelo de militante comunista, capaz sempre de unir teoria e prática, leal aos seus ideais e a seus camaradas.

Curioso, o destino dos três.

Um mesmo berço: a Bahia.

Um mesmo colégio, o Central.

A beleza da opção pelo comunismo na juventude.

Vidas que não se deixam seduzir pelos encantos burgueses.

Um mesmo caminho na maturidade: o rompimento com o PCB e a adesão à luta armada.

Um mesmo fim, trágico: o assassinato nas mãos sangrentas da ditadura.

Seus erros, à luz da história, podem ser discutidos hoje.

Ninguém deixará de lembrar de seus exemplos, de seu amor às grandes causas da humanidade.

Pudessem, e poderiam dizer, com Brecht no seu belo poema “Aos que virão depois de nós”:

…Ah, os que quisemos

preparar terreno para a bondade

não pudemos ser bons.

Vós, porém, quando chegar o momento

em que o homem seja bom para o homem,

lembrai-vos de nós

com indulgência.

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