Maurício Grabois: O comandante da Guerrilha do Araguaia (por Osvaldo Bertolino)

Publicado no portal da Fundação Maurício Grabois

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) começou efetivamente a implantar a Guerrilha do Araguaia no dia 25 de dezembro de 1967, quando Maurício Grabois desembarcou no Porto da Faveira, no Sul do Pará, e foi morar em um sítio então recentemente adquirido. Com ele estavam Elza Monnerat e Líbero Giancarlo Castiglia — um jovem italiano. Maurício Grabois logo ficaria conhecido como “seu Mário”. Elza Monnerat era a “dona Maria” e Líbero Giancarlo o “Joca”.

Maurício Grabois (esq.) ao lado do Barão de Itararé (Apparício Torelly)

A casa era precária, de chão batido, mas ainda assim diferente das demais da região por ter paredes de barro e ser coberta com telhas — enquanto as outras tinham paredes forradas com folhas de palmiteiro e eram cobertas de sapé. Dormiam em redes — menos Elza Monnerat, acometida de um problema na coluna.

Assim que chegou, Maurício Grabois providenciou as acomodações necessárias para uma longa estadia e voltou a São Paulo a fim de iniciar os preparativos para o envio de militantes à região. Na capital paulista, ele recebeu a informação de que João Amazonas chegaria da China pela Bolívia e pretendia ser conduzido ao Araguaia. Maurício Grabois encontrou-se com Edíria (Carneiro, esposa de João Amazonas), que havia chegado de Paris há poucos dias onde estivera com seu companheiro, à noite, no bairro da Liberdade, recebeu a informação e documentos, e desapareceu na escuridão. Logo em seguida Edíria foi assaltada e teve a sua bolsa roubada — por sorte quando a missão já estava cumprida.

Em março de 1968, quando retornou à Faveira, um barco que Maurício Grabois havia encomendado estava pronto. Ele e Giancarlo foram para Imperatriz, Estado do Maranhão, encheram o barco de mercadorias — fumo, cigarro, remédios, querosene, óleo, fósforo, um pouco de café e açúcar (1) — que seriam destinadas a uma venda montada no sítio. O negócio prosperou e ficou sob a responsabilidade de Elza Monnerat. Em julho Maurício Grabois chegou ao local com João Amazonas e André — “Cid” e “José Carlos”. Em seguida chegou Ângelo Arroyo. Elza Monnerat estava muito doente, castigada por uma crise de malária, e logo retornaria a São Paulo. Maurício Grabois e João Amazonas revezavam-se nas viagens à capital paulista para as tarefas executivas do Partido. Nas cidades, a situação era cada vez mais complicada.

No ano de 1969, o número de militantes encaminhados à Guerrilha aumentaria muito. É que no dia 13 de dezembro de 1968 a ditadura decretou o AI-5, intensificando ainda mais as medidas repressivas. Na prática, estava decretado o terrorismo oficial de Estado. Para muitos desses militantes, viver nas cidades era caminhar à beira do precipício. O AI-5 abolira o habeas corpus e quem fosse preso dificilmente escaparia da morte.

Os processos e condenações pipocavam em todo o país e os bandos policiais — conhecidos como esquadrões da morte —, autorizados a torturar e a matar, cada vez mais mergulhavam na criminalidade. Mas, até então, os órgãos de repressão agiam desordenamente. Para se ter uma idéia, uma operação secreta foi montada por unidades militares de São Paulo e Rio de Janeiro a fim de averiguar no dia 19 de agosto de 1966 uma informação de que Maurício Grabois e Ivan Ramos Monteiro conduziam “Che” Guevara em uma Rural Willys pela estrada Curitiba-São Paulo. Um “informante”, supostamente conhecido de Maurício Grabois, teria conversado com ele e constatado a presença de um passageiro que falava “castelhano”, sofria de asma e usava o “inalante específico”.

No começo de 1969, o PCdoB realizou uma reunião ampliada do Comitê Central na qual aprovou o documento Guerra Popular — Caminho da Luta Armada no Brasil, que expôs, “nos aspectos essenciais”, a concepção “da luta armada em que todo o povo brasileiro se empenhará para livrar o país da ditadura e do domínio imperialista norte-americano”, e o Manifesto ao Povo, denunciando o banditismo da repressão e conclamando a unidade nacional para “derrubar os opressores”. A reunião também definiu que o PCdoB deveria ter “no interior (sic) o centro de gravidade do seu trabalho” e que “as forças armadas populares terão, durante muito tempo, de se orientar pelos princípios da defensiva estratégica e guiar-se por uma política correta”.

E isso queria dizer, entre outras coisas, que o centro de atividades do Partido seria a Guerrilha do Araguaia. Nas cidades, a direção procurava ampliar as fileiras comunistas e participar de algumas lutas. Em 1968, foram aprovados os documentos Preparar o Partido Para Grandes Lutas e A Política Estudantil do PCdoB, que orientaram os militantes naquele ano de grandes embates com a ditadura, quando greves e manifestações estudantis desafiaram os militares golpistas. Naquele ano também concretizou-se a entrada de um considerável setor do PCB do Estado da Guanabara no PCdoB.(2)

Na cidade de São Paulo, a ditadura havia montado uma engenhosa máquina de torturas e assassinatos, conhecida como Operação Bandeirantes (Oban), agrupando todos os setores que atuavam nos órgãos de repressão e sustentada por alguns empresários. Os bandos de policiais civis também não tinham limites em suas ações de banditismos. No começo de novembro de 1969, a direção do PCdoB voltou a reunir-se em São Paulo.

Na noite do dia 4, todos assistiam ao jogo entre Santos e Corinthians pela televisão quando receberam a notícia do assassinato de Carlos Marighella — então líder da Ação Libertadora Nacional (ALN) —, comandado pelo delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) Sérgio Paranhos Fleury, o chefe do esquadrão da morte, na Alameda Casa Branca. Um ou dois dias antes, Edíria e João Amazonas haviam marcado um encontro mais ou menos no mesmo horário, na mesma Alameda. Edíria chegou ao local num ônibus superlotado e não conseguiu desembarcar no “ponto” marcado. Ela desceu bem adiante e, retornando por uma rua paralela, encontrou- se com João Amazonas. A violência do bando de Fleury próximo ao local em que estiveram a impressionou por muito tempo.

Nesse clima, permanecer nas cidades era um jogo arriscado. Por isso, o Partido apressou o envio de muitos militantes para o Sul do Pará. Antes de seguir para o Araguaia, porém, o militante passava por uma rigorosa avaliação de Carlos Danielli — às vezes acompanhado por João Amazonas, Maurício Grabois ou Pedro Pomar. A organização da Guerrilha começou com a instalação de três destacamentos — o A, na Faveira, abrangendo os municípios de São João do Araguaia e Apinajés; o B, na Gameleira, próximo ao povoado de Santa Isabel, mais ou menos cinqüenta quilômetros acima de São Geraldo, abrangendo uma parte da Serra das Andorinhas; e o C, no Caiano, abaixo de São Geraldo, na direção de Conceição do Araguaia.(3)

Os guerrilheiros começaram a trabalhar e a conviver com os moradores da região em posses previamente adquiridas. Formaram lavouras, exploraram castanhais e montaram pequenos comércios. Ao mesmo tempo, desempenhavam um ativo trabalho social. O birô político da Guerrilha era formado por Maurício Grabois, João Amazonas, Ângelo Arroyo e Elza Monnerat. Havia também a Comissão Militar e um comandante em cada destacamento. Maurício Grabois e João Amazonas produziram conjuntamente uma série de textos relativos à atuação do Partido naquele período. Já em plena selva do Araguaia, escreveram A Atualidade das idéias de Lênin e Cinqüenta Anos de Luta.

O primeiro foi uma homenagem ao 100º aniversário de nascimento de Lênin, entregue por Maurício Grabois a Carlos Danielli em São Paulo e publicado em A Classe Operária de abril de 1970. O segundo foi um retrospecto dos cinqüenta anos de atividades ininterruptas do Partido Comunista do Brasil. João Amazonas dizia que esse documento é valoroso porque “o Maurício tinha uma grande capacidade, era um grande jornalista, que conhecia muito bem a história”. “Eu valorizo isso porque o Maurício para mim, de todos nós, é o que mais entendia da história do Partido naquela ocasião. De maneira que é um texto em que o Maurício está presente”, afirmou.

Pelo sistema rotativo de cumprimento das atividades da direção do PCdoB em São Paulo, caberia a Maurício Grabois participar das comemorações daquele aniversário com a direção na capital paulista, no dia 25 de março de 1972. Mas devido a um problema dentário, houve uma troca e João Amazonas deixou a região, acompanhado de Elza Monnerat, no começo de março. O contato em São Paulo era com Carlos Danielli, num “ponto” na Rua Domingos de Moraes, na Zona Sul da cidade. Dali eles foram conduzidos ao “aparelho” no bairro da Granja Julieta, onde realizou-se a reunião do Comitê Central. Em seguida Elza Monnerat voltou ao Araguaia com quatro militantes encaminhados por Carlos Danielli e João Amazonas foi providenciar o tratamento dentário.

Elza Monnerat deixou dois militantes em Goiás e seguiu viagem com os outros dois. No dia 14 de abril, já entrando no Estado do Pará, o ônibus foi revistado por dois soldados e um dos militantes foi preso por portar em sua bagagem os livros A Estrada de Volokolamsk e Um Homem de Verdade. (4) Bem próximo à região da Guerrilha, ela avistou uma barreira do Exército. O ônibus foi revistado e liberado. Havia outras barreiras no trajeto até Marabá, última parada antes da reintegração ao local da Guerrilha, mas os passageiros não foram incomodados. O Exército havia começado a luta contra a Guerrilha.

Na cidade, Elza Monnerat viu uma intensa movimentação militar e, no dia 15 de abril, pegou a balsa que atravessa o rio Tocantins e retornou para Anápolis, Goiás — onde logo em seguida chegaria João Amazonas. Naquele mesmo dia, no final da tarde, ela conseguiu alertar João Amazonas, com um sinal de negativo, sobre a ocupação da região por forças militares — êxito que resultou de uma combinação de dedicação, coragem e sorte. Ambos, por caminhos diferentes, retornaram a São Paulo. Caminhando com Edíria numa rua da capital paulista, à noite, João Amazonas expôs, sob forte emoção, a angústia que lhe tomou conta pelo sentimento do que poderia acontecer com seus camaradas que ficaram na selva do Araguaia. (5)

Nas cidades a situação também piorara. Em setembro de 1970, a Presidência da Republica expediu a “Diretriz Presidencial de Segurança Interna”, determinando que cada Comando de Exército passasse a ter um Destacamento de Operações de Informações (DOI) e um Centro de Operações de Informações (Codi). Era a extensão da experiência de unificar as ações repressivas da Oban, de São Paulo, para todo o país. A ditadura criava, com essa medida, máquinas poderosas e interligadas de torturas e assassinatos — sob a cobertura “legal” da Diretriz Presidencial de Segurança Interna. Em São Paulo, o DOI-Codi do II Exército, comandado pelo perverso major Carlos Alberto Brilhante Ustra, promovia uma verdadeira chacina contra a resistência democrática. Estabeleceu-se, assim, uma situação complicada para o PCdoB: a ocupação da região do Araguaia e a caçada implacável dos DOI-Codi nas cidades.

Existiam também os bandos de policiais civis, que, em São Paulo, sob o comando de Fleury, promoviam uma assustadora escalada criminosa. Eles eram parte de uma política de Estado da ditadura, cuja linha de comando vinha da própria Presidência da República, como a oposição democrática sempre denunciou e declarações do então general Ernesto Geisel, reveladas recentemente, confirmam. Menos de um mês antes de sua posse na Presidência da República, Geisel conversou com o general Vicente de Paulo Dale Coutinho, que seria seu ministro do Exército. “Ó, Coutinho. Esse troço de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser”, disse o então fururo presidente. Coutinho respondeu que foi “obrigado a tratar esse problema (a resistência) e tive que matar”. E fez referência a um relatório do Centro de Informações do Exército (CIEx) sobre a Guerrilha do Araguaia. Geisel respondeu: “Sabe que agora pegaram o líder (Osvaldão, morto uma semana antes) e liquidaram com ele.” (6)

Mas, mesmo em meio a esse terrorismo desbragado, a Guerrilha conseguiu restabelecer o contato com a direção do Partido na capital paulista — enviando, no começo de setembro, a guerrilheira Criméia Alice Almeida, grávida, companheira de André Grabois. A irmã de Criméia, Maria Amélia Almeida — a Amelinha —, e seu companheiro, César Teles, eram os responsáveis pelo “aparelho” de imprensa. Amelinha trabalhava como monitora em uma escola e, já em São Paulo, Criméia conseguiu fazer contato com a irmã. A notícia de sua chegada foi recebida com festa por Carlos Danielli, que logo comunicou o fato aos demais dirigentes do PCdoB.

Restabelecido o contato, Criméia viajou de volta até a cidade de Piripiri, no Piauí, onde recebeu documentos de um enviado de Maurício Grabois e retornou a São Paulo. Ela chegou na capital paulista no dia 28 de dezembro e às 14 horas encontrou-se com Carlos Danielli na Praça Nossa Senhora Aparecida, no bairro de Moema, Zona Sul. Dali, eles foram para o “aparelho” de imprensa do PCdoB no bairro Cidade Ademar. No começo da noite, ele deu notícias de Maurício Grabois e André trazidas por Criméia para Alzira em um “ponto” na Rua Marselhesa, na Vila Clementino — próximo à Vila Mariana —, e dirigiu-se à Rua Loefgreen, onde teria um encontro com Lincoln Oest.

De posse de documentos que seriam debatidos com o dirigente que viria do Rio de Janeiro, Carlos Danielli foi detido pelos homens do DOI-Codi do II Exército. Lincoln Oest havia sido detido e assassinado no DOI-Codi do Rio de Janeiro no dia 20 de dezembro de 1972. Foi o primeiro a cair numa cilada armada pela máquina repressiva da ditadura a partir da prisão de um dirigente estadual do PCdoB ocorrida no Espírito Santo. O contato do preso com a direção era por meio de Lincoln Oest e, sob brutais torturas, o dirigente capixaba entregou o “ponto” no Rio de Janeiro. A cilada havia produzido o primeiro grande resultado. Lincoln Oest pagou com a vida a decisão de nada revelar aos assassinos, mas o mesmo não ocorreu com o motorista encarregado de conduzi-lo ao “ponto”. Sob torturas, ele revelou o encontro previamente marcado com Carlos Danielli em São Paulo. Trazido para a capital paulista, o militante que atuava de motorista para Lincoln Oest foi usado como isca no “ponto” da Rua Loefgreen.

Quando Carlos Danielli chegou ao local do encontronão avistou Lincoln Oest, mas, atraído pela isca, resolveu se aproximar. Deu de cara com um feixe de canos de armas sobre a sua cabeça. Espancado, xingado e ameaçado, ele foi conduzido às dependências do DOI-Codi, onde foi cruelmente torturado por quase quatro dias, sob o comando direto do major Carlos Brilhante Ustra. Nada revelou aos assassinos. Já no início do “interrogatório”, afirmou: “É disso que vocês querem saber (a Guerrilha do Araguaia)? Pois é comigo mesmo. Só que eu não vou dizer”. Em diversas ocasiões, durante os “interrogatórios”, Carlos Danielli disse: “Só faço o meu testamento político.”

No intervalo de uma sessão de torturas, jogado numa “cela forte” todo esfolado, escreveu na parede com seu próprio sangue: “Este sangue será vingado”. Enterrado no cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, como indigente e com documentação de “terrorista” morto em confronto com “as forças de segurança”, seus restos mortais foram descobertos anos mais tarde, já no fim da ditadura, pelo PCdoB e trasladados para Niterói, sua cidade natal.

Sobre Carlos Danielli, cabe aqui lembrar um trecho da entrevista concedida para este trabalho por Zezinho do Araguaia — como ficou conhecido o guerrilheiro Michéias Gomes de Almeida —, no hotel Andorinhas, na cidade de Xambioá, região do Araguaia.

Pergunta: Quanto tempo durou a viagem à China? Resposta: Um ano e pouco. Pergunta: No regresso o senhor foi enviado imediatamente ao Araguaia?

Resposta: Não. Veja, o nosso primeiro dever ao chegar era fazer um relato sobre a viagem. Cada um fazia o seu relato individual.

Pergunta: Onde era feito este relato?

Resposta: Era feito em um “aparelho” em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Pergunta: Isto era feito para a direção do Partido? Resposta: Era para a direção do Partido.

Pergunta: O senhor lembra quem estava nessa reunião?

Resposta: Sinceramente, estava nessa reunião uma das pessoas que era o coração do Partido Comunista do Brasil, que era o mosquito-elétrico — o Carlos Danielli. Para nós, que estávamos na Guerrilha, quando soubemos que ele havia tombado (pausa), acabou. Porque, para mim, quando o coração pára, a coisa fica difícil. Não querendo menosprezar os outros companheiros.

O trabalho de Carlos Danielli de fato foi determinante para o PCdoB. Além de manter regularmente A Classe Operária, de dirigir todos os passos da ligação do Partido com a Guerrilha — desde a documentação, que era providenciada por Lincoln Oest, ex-proprietário de um cartório, até o embarque dos militantes para o Pará —, ele conduziu os processos de adesão ao PCdoB de uma parte da direção do PCB da Guanabara e de incorporação da Ação Popular (AP).

A cilada montada pela repressão ainda renderia as prisões e assassinatos de outros dois dirigentes do PCdoB no Rio de Janeiro — Luiz Guilhardini, no dia 5 de janeiro de 1973, e Lincoln Bicalho Roque, no dia 13 de março. Quando Carlos Danielli foi preso, com ele estava a seguinte carta enviada por Maurício Grabois para a direção do PCdoB:

“Queridos tios:

Desejamos a todos vocês os melhores êxitos em seu trabalho e no esforço para nos ajudar (…). Podem estar certos, seja qual for o resultado da empreitada, que o capital invertido dará bons lucros a curto prazo. (…) Sobre a situação dos destacamentos (…), de modo geral os combatentes adquiriram mais experiência militar, mais conhecimentos da mata e ampliaram as suas ligações com as massas. Nestes aspectos o (destacamento) A tem boas experiências. A maior parte de seus combatentes anda bem na selva (…). Seu ponto mais alto é o trabalho de massas. Visitou até 20/11 mais de cem famílias (…).

O destacamento só teve uma perda, a Fátima. E com ela perdeu-se também uma 16 e um 38. Mas, em compensação, conseguiram com a massa uma 20 e uma 44, que com alguns reparos ficarão em bom estado (…). O (destacamento) B também desenvolveu atividade militar, causando duas mortes ao inimigo. A maior parte de seus combatentes orienta-se bem na mata. Seu trabalho de massa, no entanto, tem sido mais restrito. (…) O destacamento teve três baixas: o Ger., que foi preso ao começar a luta, o Aparício (…) e o Glênio, que se perdeu na mata em 10/10 e até hoje não apareceu. (…) Sua situação é dramática. Estava sem bússola e deixou a mochila com todos os pertences. (…)

No que se refere à atuação do (destacamento) C, não temos mais novas informações. Não há dúvidas de que somos responsáveis pelo que lá aconteceu (…). Não incutimos nele, especialmente em seu comandante, a nossa concepção militar (…). O trabalho de massas (…) foi muito pequeno. Enviamos o Bula para restabelecer o contato com o C, pois não podíamos assistir indiferentes ao desmoronar de uma unidade (…). Os únicos em condições de realizar a tarefa eram o PE e o Bula. Este oferecia melhores condições por ser mais conhecido da massa, através da qual tentaria a ligação. Valia a pena correr o risco.

Na guerra sempre se corre risco (…). O inimigo continua presente em sua área, o que é indício da existência de guerrilheiros. Em conclusão, podemos afirmar que as Forças Guerrilheiras, apesar das sérias perdas sofridas, mantêm sua capacidade de luta (…). É certo que pagamos preço elevado. Mas as coisas correram assim e não como desejamos. Não podemos pensar em ficar enfurnados na mata. Este pode ser nosso ponto de apoio para as ações militares e para o trabalho de propaganda (…). Enfim, as Forças Guerrilheiras têm boas perspectivas de crescer e se consolidar.

O maior perigo está em nós mesmos, isto é, na superestimação do inimigo e na subestimação de nossas reais possibilidades. Sobre o inimigo e sua tática, as Forças Armadas da ditadura têm extensa frente a atender, que compreende Marabá-Araguatins-Santa Cruz-Xambioá-Araguanã. Por isso, têm que mobilizar grandes efetivos que, apesar de seu vulto, não atendem às necessidades de golpear seriamente as Forças Guerrilheiras. As forças militares do governo estão dispersas em várias cidades e lugarejos da Belém-Brasília, dos rios Tocantins e Araguaia e na Transamazônica. O moral das tropas do inimigo é baixo. Os camponeses informam que soldados revelam medo.

Nas marchas, nenhum soldado quer ir na vanguarda ou na retaguarda. Os milicos vivem de atirar como doidos, como se quisessem espantar fantasmas. Quando da última grande campanha do inimigo, no dia que foi ordenada a retirada das tropas, os soldados se abraçavam, gritavam, rolavam no chão e faziam outras diabruras. Um grupo deles entrou na cachaça, tomou um caminhão e foi se espatifar fora da estrada, havendo mortos e feridos. Os êxitos do inimigo resultam de nossos erros e não de sua tática e capacidade militar. Em relação às massas, o Exército utiliza tática dupla: a violência e a demagogia. Mas predomina sempre a violência.

Os milicos obrigam elementos de massa a servir de guias, porém, ao mesmo tempo, procuram suborná-los, pagando- lhes 25 cruzeiros por dia. A tática militar das forças armadas da ditadura, até agora, tem revelado pouca eficiência. Se as Forças Guerrilheiras aplicarem fielmente sua concepção militar, se souberem usar habilmente a tática de guerrilha, alcançarão êxitos. Se não cometerem erros graves, essenciais, dificilmente serão derrotadas.

Sobre o nosso trabalho de massas, as Forças Guerrilheiras alcançaram êxitos relativamente bons. Não ficamos isolados (ao contrário do Che, na Bolívia) nem o inimigo conseguiu dar aos camponeses e demais habitantes da região uma imagem falsa a nosso respeito. Caiu no vazio sua tentativa de nos apresentar como criminosos e marginais (…). Devemos responder a esta atividade da reação com nossa propaganda, com nosso comportamento correto e com demonstrações de que podemos vencer os soldados da ditadura (…). Sobre a solidariedade às Forças Guerrilheiras, consideramos muito boa a ajuda política dos camaradas, principalmente da Classe (o jornal A Classe Operária) e da Rádio Tirana. Isto é o mais importante.

Mas precisamos também de ajuda material, particularmente dinheiro. Sobre a vinda de gente. Não pedimos o envio imediato de novos combatentes. Mas pensamos ser necessário tratar do assunto. Precisamos de bons lutadores, que sejam fisicamente aptos e, ideologicamente, preparados para todos os sacrifícios. Nosso crescimento se dará em duas direções: gente recrutada aqui e gente vinda da cidade. Até meados do ano que vem não daria para vir uns 20 elementos? (…) Precisamos de dois rádios Mitsubishi-Model 10x-718-10 Transistor 3 faixas e que utiliza pilhas médias. É o rádio ideal para os guerrilheiros. Pode ser comprado onde se adquire os relógios Seiko. Saudação ao Chico. Este agradece de todo coração a mensagem que lhe foi dirigida, considerando-a um estímulo para ele e para todos combatentes do Araguaia. Grandes e apertados abraços. A todos um feliz ano novo. 1973 será um ano de vitórias.” (7)

O combate final

Quando Maurício Grabois escreveu esta carta, a reação havia cessado a sua primeira investida contra a Guerrilha, iniciada no dia 12 de abril de 1972 — conhecida como a “primeira campanha”. Naquele dia cerca de 20 soldados atacaram o destacamento A, comandado por André Grabois. No dia 14, outros 15 soldados atacaram o destacamento C, que conseguiu manter contato com a Comissão Militar, que avisou o destacamento B. Nessa troca de avisos, foi preso o primeiro guerrilheiro — José Genoino Neto, que havia sido enviado do destacamento B para o A.(8)

Havia na região 69 guerrilheiros, com boas reservas de alimentos, roupas, remédios e munição, mas com armas precárias. O destacamento A tinha 4 fuzis, 4 rifles 44, uma metralhadora fabricada no local, uma metralhadora INA, 6 espingardas 20 e duas carabinas 22. O destacamento B possuía um fuzil, uma submetralhadora Royal, 6 rifles 44, uma metralhadora fabricada no local, uma espingarda 16 de dois canos, uma espingarda 16 de um cano só, 6 espingardas 20, uma espingarda 36 e 2 carabinas 22. O destacamento C tinha 4 fuzis, alguns rifles 44, espingardas 20 e carabinas 22. A Comissão Militar portava 2 espingardas 20. (9)

Eram armas antigas e defeituosas. Alguns fuzis vieram de Brasília, pegos por militantes do PCdoB quando no início dos anos 60 houve um levante de sargentos. Segundo João Amazonas, “eram umas porcarias, alto como o diabo, encostavam em tudo o que é coisa, pesados para caramba”. Todos os combatentes portavam revólveres 38, com mais de 40 balas cada. A adaptação à região também ainda era precária — muitos guerrilheiros estavam aprendendo procedimentos básicos de sobrevivência no campo. A organização política praticamente inexistia e havia pouco dinheiro disponível. A Guerrilha atuava numa área imensa, com cerca de 130 quilômetros de comprimento por 50 de fundo — um total de cerca de 6.500 quilômetros quadrados, com uma população estimada em 20 mil habitantes. (10).

Logo no início dos combates, a Comissão Militar perdeu o contato com o destacamento C. Os ataques do Exército aos destacamentos A e C foram simultâneos. Cerca de dez dias depois, o destacamento B foi atacado. Na operação, as forças militares ocuparam fazendas e sedes de castanhais, utilizaram helicópteros e barcos da Marinha, mas as tropas não entraram na mata. Os soldados caminhavam pelas estradas e armavam emboscadas nas casas, no mato, nas lavouras e em grotas. Para a população, diziam que os guerrilheiros eram bandidos, terroristas de alta periculosidade.

Houve prisões de habitantes da região, suspeitos de serem colaboradores da Guerrilha, que logo foram soltos. A repressão achou que o uso de bate-paus (colaboradores do Exército) era mais eficiente. Muitos moradores foram forçados a trabalhar como guia para os militares. Por onde eles passavam, destruíam tudo o que suspeitavam ser dos guerrilheiros ou de seus colaboradores — paióis de milho e de arroz, depósitos de castanhas, roças e casas. Até padres foram detidos, “interrogados” e soltos.

Essa primeira investida da reação terminou em julho, e só houve choques militares com o destacamento C. Ao primeiro sinal de ataque, os guerrilheiros retiraram-se em ordem para dentro da mata. Só em fins de abril, dois integrantes do destacamento B trocaram tiros com os militares, mataram um sargento e feriram um soldado. A Comissão Militar reuniu-se em maio e tomou a decisão de fazer propaganda da luta armada para a população local. Decidiu também intensificar o condicionamento militar dos guerrilheiros, e preparar ações de fustigamentos e emboscadas.

Passada a ofensiva inicial dos militares, os destacamentos A e B foram retornando das áreas de refúgios e retomando suas atividades junto à população. O destacamento C continuou sem contato com a Comissão Militar — fato que preocupava Maurício Grabois, como relatou ele na carta apreendida com Carlos Danielli. Mais tarde ficou-se sabendo que o destacamento havia se dividido em três grupos — possivelmente o motivo de Maurício Grabois ter dito na carta que “não incutimos nele (no destacamento), especialmente em seu comandante, a nossa concepção militar”— e que houve vários enfrentamentos militares, com algumas baixas. Mas não houve mais ação militar.

Em julho, a Comissão Militar decidiu enviar um grupo, chefiado pelo médico João Carlos Haas Sobrinho, o “Juca”, para tentar reatar o contato com o destacamento C — o episódio que Maurício Grabois narra na carta quando fala do envio do “Bula”, que “oferecia melhores condições por ser mais conhecido da massa, através da qual se tentaria fazer a ligação”. O grupo caiu numa emboscada, João Carlos levou dois tiros, mas conseguiu refugiar-se na mata. Mais tarde um integrante da missão — Idalísio Soares Salazar, o “Aparício” —, durante uma caçada, foi alvejado num tiroteio solitário com o Exército e morreu. E assim terminou a “primeira campanha”.

A segunda campanha começou em setembro de 1972, com cerca de 8 a 10 mil soldados espalhados em bases montadas em fazendas e roças. Arriscaram uma entrada na mata, na área do destacamento B, mas a tática usada foi a da emboscada — inclusive em casas de moradores locais. As tropas militares também usaram helicópteros e aviões, soltaram três bombas na mata e recrutaram bate-paus. Tentaram, ainda, a rendição dos guerrilheiros em troca de recompensas, distribuindo boletins pela região com dizeres que procuravam abater o moral dos combatentes.

Em outra frente, a pretexto de “documentar” a populaçãolocal montaram a operaçãoAciso (Ação Cívica Social) — que ficou conhecida na região como “operação documento”. Distribuíram remédios, fizeram consultas médicas e dentárias, usaram helicópteros e aviões para remover doentes. Criaram também uma operação com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) que consistia em distribuir lotes e legalizar terras dos lavradores.

Quando iniciou-se a segunda campanha, os guerrilheiros já estavam mais experientes. O conhecimento da mata era maior, o contato junto à população estava mais consolidado e a preparação militar tinha sido intensa. Mas a idéia de tomar armas do inimigo para reforçar o poderio militar dos guerrilheiros não havia ainda dado resultado — eles continuavam com o velho e precário armamento do início dos combates. No destacamento A, houve o primeiro choque com os militares no dia 29 de setembro, que resultou na morte da guerrilheira Helenira Resende de Souza Nazareth. Ângelo Arroyo assim descreveu a sua morte: “Helenira atirou com uma espingarda 16. Matou um. O outro soldado deu uma rajada de metralhadora que a atingiu. Ferida, sacou o revólver e atirou no soldado, que deve ter sido atingido. Foi presa e torturada até a morte.”(11)

Em seguida, André Grabois e Divino Ferreira de Souza travaram um intenso tiroteio com os militares quando pesquisavam uma área para montar uma emboscada contra os assassinos de Helenira. Foram feridos, mas conseguiram refugiar- se na mata. No dia 15 de outubro, o destacamento foi obrigado a mudar de área quando helicópteros começaram a sobrevoar o local. Eram os militares, alertados por um bate-pau que conhecia a existência do acampamento dos guerrilheiros. Na retirada, realizaram uma ação de fustigamento e mataram um soldado. Nessa época, ocorreu também o desaparecimento de Glênio Sá, de que fala Maurício Grabois na carta.

No dia 20 de novembro, quando o destacamento C ainda estava sem contato com a Comissão Militar, Miguel Pereira dos Santos, o Cazuza, foi metralhado em uma emboscada montada pelos militares. Logo em seguida, no mesmo dia, um grupo de quatro guerrilheiros foi metralhado — morreram no local José Toledo de Oliveira, o “Vitor”, e Francisco Manoel Chaves.

Depois de passar maus bocados na floresta, Glênio Sá foi capturado, enviado para Brasília, em seguida para São Paulo e Rio de Janeiro. Cruelmente torturado, sobreviveu, foi anistiado e morreu num acidente automobilístico em 1989. Glênio Sá registrou esses acontecimentos na publicação Araguaia — Relato de um Guerrilheiro. “Zé Francisco”. Antônio Carlos Monteiro Teixeira, o “Antônio da Dina”, gravemente ferido, foi levado para São Geraldo, onde morreu sob torturas. Dinalva Oliveira Teixeira, a “Dina”, companheira de Antônio, mesmo ferida de raspão no pescoço conseguiu escapar, refugiando-se na mata.

Esses episódios alertaram o destacamento C para a necessidade de procurar contato com a Comissão Militar. Uma nova missão, também chefiada por João Carlos Haas Sobrinho, havia sido enviada pela Comissão Militar para tentar o contato e resultou na morte do médico, de Ciro Flavio Salazar, o “Flávio”, e de Manoel José Nurchis, o “Gil”. Antônio Teodoro de Castro, o “Raul”, e Walquíria Afonso Costa, a “Walk”, escaparam e retornaram ao destacamento B. Quando acabou a segunda campanha, a Guerrilha havia perdido, entre mortos e presos, 18 combatentes.(13)

Em novembro os militares começaram a deixar a região para preparar uma nova operação. O Exército montou, no período da trégua, uma grande rede de espionagem e investiu em obras de infra-estrutura. Agentes a serviço do Exército e da Polícia Federal infiltraram-se entre os moradores, foram construídos quartéis em várias cidades, estradas foram abertas e outras melhoradas. A Comissão Militar também aproveitou esse período de calmaria para preparar a Guerrilha. A trégua também facilitou a retomada do contato da Comissão Militar com o destacamento C, que finalmente ocorreu em janeiro de 1973. O seu comandante, Paulo Mendes Rodrigues, foi incorporado à Comissão Militar e Gilberto Maria Olímpio, o genro de Maurício Grabois, assumiu o posto.

O comando da Guerrilha também aproveitou a calma para imprimir e distribuir vários documentos — principalmente o Programa da ULDP (União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo). Em agosto, uma reunião da Comissão Militar com os líderes dos destacamentos decidiu que ao começar uma nova ofensiva da repressão todos os guerrilheiros deveriam ser concentrados — seguindo a linha política de que o importante para a Guerrilha naquela fase inicial era conservar as forças e sobreviver. Se o ataque fosse pesado, a orientação era de recuar para a mata e concentrar as atividades em operações de fustigamentos e emboscadas, evitando ações que pudessem resultar em baixas. (14)

Em outubro de 1973, precisamente no dia 7, começou a terceira campanha — a fase sinistra da guerra, na definição de um padre da região. A primeira providência foi a de criar um vazio em volta dos guerrilheiros, com ocupações, prisões e torturas. Quase toda a população masculina da região de atuação da Guerrilha foi presa. Casas, paióis e pontos comerciais foram destruídos. O número de soldados que chegavam à região não parava de crescer. Os militares montaram bases de operações no meio da mata, apoiadas por helicópteros e aviões, e instalaram um forte aparato de guerra.

No dia 14, um grupo do destacamento A, dirigido por André Grabois, decidiu buscar dois porcos numa roça próxima, pertencente ao guerrilheiro Antônio Alfredo de Lima. Na operação foram pegos de surpresas por soldados, que atiraram contra o grupo. Morreram, além de André Grabois e Antônio Alfredo de Lima, João Gualberto, o “Zebão”. Demerval da Silva Pereira, o “João”, conseguiu escapar. Havia uma reunião da Comissão Militar prevista para o dia 20 e até lá o destacamento A decidiu permanecer onde estava. Logo os grupos se juntaram e embrenharam-se na mata.

Na Comissão Militar, ao saber da morte do filho e dos demais companheiros, Maurício Grabois, sentado num tronco, começou a assobiar o Hino Nacional e todo o grupo se pôs a cantar — uma forma de homenagear os guerrilheiros mortos. Na reunião da Comissão Militar de meados de novembro, Ângelo Arroyo foi designado para o comando do destacamento A — com a previsão de que os três destacamentos seriam unificados na reunião seguinte, marcada para o dia 20 de dezembro. Os destacamentos B e C, perseguidos pela repressão, juntaram-se à Comissão Militar, formando uma única força. Esse agrupamento dirigia-se para uma localidade conhecida como Palestina, onde o destacamento B havia deixado alguns depósitos, quando foi atacado pelos militares, e, temeroso de novas investidas, decidiu juntar-se ao destacamento A, que estava refugiado na mata.

Durante o longo e penoso percurso, a Comissão Militar enviou dois guerrilheiros para avisar Ângelo Arroyo que a reunião prevista para o dia 20 de dezembro seria adiada e deveria ocorrer onde estava o destacamento A, e pedir que ele providenciasse alguma comida. No final da manhã do dia 25 de dezembro, Ângelo Arroyo e mais cinco companheiros, com quatro latas de farinha, dirigiam-se ao local onde estavam acampados os demais guerrilheiros e a mais ou menos um quilômetro de distância ouviram um intenso tiroteio.

As forças militares mobilizadas para o combate final eram gigantescas. As tropas do Exército foram ajudadas por aviões e helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira), lanchas da Marinha e equipes especializadas — como a Brigada de Páraquedistas, sediada no Rio de Janeiro, e o Comando de Operações na Selva. Os postos da Polícia Militar instalados nas rodovias da região funcionaram como apoios para as “investigações”. O conceito de operações foi definido pela repressão como “guerra suja”, pelo qual não havia regras para as perseguições. Valia tudo. Moradores foram expulsos de suas casas, tiveram suas posses destruídas, foram presos e cruelmente torturados. Muitos foram executados.

Em Xambioá foram construídos buracos, conhecidos como “Vietnã”, para onde eram levados os suspeitos de ajudar a Guerrilha — uma grande parcela da população, sendo que os presos e torturados, segundo cálculos de Ângelo Arroyo, foram mais de mil — e lá deixados por dias e noites, alguns pendurados de cabeça para baixo. O efetivo mobilizado — de cerca de 20 mil homens — foi o maior movimento de tropas do Exército desde a mobilização da FEB. As operações abrangeram um imenso território em volta da área de conflito e em alguns pontos foram lançadas bombas Napalm — uma espécie de reagente químico — na floresta. À estratégia da segunda campanha, formulada pelos generais Antônio Bandeira, Viana Moog e Hugo de Abreu, juntaram-se as colaborações do coronel do Exército português Hermes de Oliveira, veterano das guerras coloniais na África, e possíveis ajudas de militares norte-americanos.

Os militares no poder haviam avaliado a dimensão do movimento guerrilheiro e chegado à conclusão de que ele era resultado de um planejamento estratégico do PCdoB, formulado desde a 6ª Conferência. Afinal, já no documento O Golpe de 1964 e seus Ensinamentos o Partido havia dito que a ditadura representava um projeto de longo alcance dos setores mais reacionários do país. Para enfrentá-lo, a 6ª Conferência indicou o caminho da preparação da luta armada. A edição do AI-5 reforçou essa convicção do PCdoB — a subida do general Costa e Silva ao poder, substituindo o marechal Humberto Castelo Branco, e em seguida a chegada à Presidência da República do general Emílio Garrastazu Médici, davam razão àquela avaliação de 1964. Era o triunfo da linha mais dura dos golpistas.

Houve, no final das contas, um choque entre duas concepções para o país, radicalmente opostas — com a diferença de que uma mobilizava um ideal democrático e outra uma gigantesca máquina de guerra fascista. Na definição do general Viana Moog, a Guerrilha do Araguaia foi “o mais importante movimento armado rural já ocorrido no Brasil, principalmente por ter sido mais organizado”. (14) Essa convicção de que a Guerrilha deveria desaparecer do mapa e da história foi firmada quando o Estado-Maior do Exército, sob o comando do general Orlando Geisel, reconheceu os fracassos das duas primeiras operações regulares — conforme atesta um relatório do CIEx. Tomou-se, então, a decisão de desencadear a “guerra suja”. No mesmo relatório, Maurício Grabois apareceu como o comandante militar da Guerrilha.

No início da operação, batizada de “Sucuri”, instalou-se na região um sujeito chamado Marco Antônio Luchini, enviado como engenheiro do Incra. Era na verdade o major Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, ferrenho anticomunista que em 1961, como tenente, foi preso por participar da trama que tentou impedir a posse presidencial de João Goulart. No golpe de 1964, ele participou ativamente da conspiração e chegou ao CIEx. Frio e sanguinário, ficou famoso na região por receber de pistoleiros as cabeças, mãos e dedos decepados dos guerrilheiros para os quais pagava de 10 a 50 mil cruzeiros — dependendo da importância política da vítima.

Por trás da operação estava o general Antônio Bandeira. Curió foi, possivelmente, a figura que mais encarnou o espírito da “guerra suja”, que rasgou todas as leis e princípios que regem os conflitos militares e os direitos básicos do ser humano. Curió ainda iria participar de outras atrocidades praticadas pela ditadura — como a “chacina da Lapa”, quando em 1976 a repressão assassinou dirigentes do PCdoB em São Paulo — e se estabelecer na região, onde foi eleito deputado, dominou o garimpo de Serra Pelada a força e fundou uma cidade em homenagem ao seu nome — Curionópolis.

No dia 25 de dezembro de 1973, Curió comandava a patrulha que no final daquela manhã chuvosa, por volta das onze horas e vinte cinco minutos, encontrou o grupo de guerrilheiros. O major viu entre eles aquele que o relatório do CIEx classificou como o comandante militar da Guerrilha, que destacava-se dos demais pela idade — estava com 61 anos. Maurício Grabois recebeu um tiro de fuzil no braço esquerdo, abaixou-se, puxou o revólver e de joelhos atirou até ser atingido mortalmente na cabeça. Apropriadamente, o oficial que presenciou a cena proclamou: “Foi a morte de um lutador”.

Depois do vendaval

No início do dia 25 de dezembro de 1973, exatamente seis anos depois do desembarque de Maurício Grabois no Araguaia, dos 69 guerrilheiros enviados à região 41 estavam vivos, 20 mortos, 7 presos e um — João Carlos Borgeth, o “Paulo Paquetá” — havia fugido. No tiroteio contra a Comissão Militar naquela manhã de Natal, dos 15 que estavam no grupo dez sobreviveram. Os mortos foram, além de Maurício Grabois, seu genro Gilberto Olímpio Maria, Líbero Giancarlo Castiglia, o “Joca” — que chegou com ele e Elza Monnerat à região em 1967, e possivelmente foi preso ainda com vida —, Paulo Mendes Rodrigues e Guilherme Gomes Lund. Os demais guerrilheiros estavam acampados num local mais abaixo ou realizando tarefas nas redondezas.

Logo depois do tiroteio, dois helicópteros fizeram duas viagens de uma base localizada a uns cinco ou seis quilômetros de distância ao ponto onde ocorreu o combate. Ângelo Arroyo ainda tentou voltar ao local, mas havia nas proximidades fortes indícios de presença das forças militares e helicópteros sobrevoavam a região. Ângelo Arroyo saiu do Araguaia guiado pelo guerrilheiro Zezinho, que conhecia bem a mata — segundo João Amazonas, com uma técnica especial até para pisar, ele era invisível na selva, a pessoa que melhor se orientava na região —, e escreveu importantes documentos sobre o heróico feito dos guerrilheiros do PCdoB no Sul do Pará. Ele foi morto no dia 16 de dezembro de 1976 pela repressão na “Chacina da Lapa”, na qual também morreu Pedro Pomar. Outros dirigentes do Partido foram presos — entre eles Elza Monnerat — e o jovem membro do Comitê Central João Batista Franco Drummond morreu nas mãos dos assassinos do DOI-Codi paulista.

Zezinho do Araguaia disse que daria a vida para tirar Maurício Grabois vivo da área cercada pelos militares. “A última vez que estivemos juntos foi quando ele soube da morte do André”, lembrou ele, pedindo uma pausa para se recompor. “Foi um negócio muito emocionante (pausa). Desculpe eu falar assim do companheiro. Ele já era velho e estava debilitado”, disse. Para João Amazonas, Maurício Grabois foi o grande amigo, o grande camarada. “O Maurício Grabois foi um dos maiores propagandistas que o Partido já teve, um homem de muitas idéias”, afirmou. Ele sempre lembrou com bom humor que suas idéias eram tão rápidas que as palavras não as acompanhavam.

Em sua sala, na velha sede nacional do Partido, na Rua Major Diogo, em São Paulo, João Amazonas conservava um quadro com uma foto de Maurício Grabois numa posição mais destacada entre outros dirigentes do PCdoB e teóricos do marxismo. Ele também lembrou da constituinte de 1946, “na qual Maurício Grabois teve uma presença de espírito muito grande”. “O Amazonas lembrava do Maurício Grabois em tudo — na opinião dele talvez o maior dirigente que o Partido teve”, disse Renato Rabelo, presidente do PCdoB. “Eles deviam ter uma ligação de amizade muito forte”, afirmou.

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Notas

1 – Verônica Bercht — Coração Vermelho, A Vida de Elza Monnerat. São Paulo, Editora Anita Garibaldi, 2002, p. 108

2 – Romualdo Pessoa Filho —Guerrilha do Araguaia, A Esquerda em Armas. Goiânia, Editora da Universidade Federal de Goiás, 1997, p. 80

3 – Ibidem

4 – Ibidem

5 – Verônica Bercht, op. cit., p. 113

6 – Elio Gaspari — A Ditadura Derrotada. São Paulo, Editora Schwarcz, 2003, pp. 324 e 325

7 – Esta carta estava em poder do general Antônio Bandeira. O general decidiu abrir o seu baú de documentos para repórteres do Jornal O Globo, que transcreveu o texto parcialmente em sua edição do dia 7 de abril de 1998.
8 – Ângelo Arroyo — Relatório Sobre a Luta no Araguaia. São Paulo, Editora Anita Garibaldi, 1996
9 – Ibidem

10 – Ibidem

11 – Ibidem

12 – Ibidem

13 – Ibidem

14 – Revista Veja, 6 de setembro de 1978

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Trecho do livro Maurício Grabois — uma vida de combates