Antônio Levino

A dor nos atravessa deixando um vazio e estupor – é o modo como o espírito humano responde ou se protege perante a impotência, o imponderável, o indizível.

Morreu Antônio Levino. Morreu na UTI para a qual foi levado no pós-cirúrgico de uma intervenção de complexidade no máximo mediana. Não sei até este momento porque esse final inesperado.

Fui companheiro de trabalho de Levino. Sempre o conheci, lá na distante Manaus, como homem diligente, dono de uma energia e capacidade de trabalho que até agora não sei de onde tirava, e de enorme compromisso com o partido.

Médico, se pós-graduou, fez pesquisa e dava aulas. Compartia com a esposa Vanja, sua companheira e duas filhas incríveis, de grande inteligência e já com a consciência encaminhada no rumo do bem – divido com elas a dor da perda.

Em meio a isso tudo, Levino era da área de organização – a que exige mais dedicação exclusiva –, foi presidente estadual do Amazonas e de Manaus, sua última função em vida.

Não bastou conhecer seu trabalho, para o quê fui muitas vezes ao Amazonas. Montamos uma equipe nacional com sua participação, a Comissão Nacional de Organização. Era hora já de Levino ser levado a voos mais elevados. Daí seu nome foi indicado ao Comitê Central.

No trabalho, o de sempre: dedicação total, malgrado as viagens, a falta de tempo. Manaus era nosso laboratório de teste. Levino com ideias claras, diligência e compromisso. E grande apoio na formulação daqueles que vieram a ser caminhos de renovação de concepção e prática do partido comunista.

Nesse tipo de trabalho nunca esquecemos a emoção perante os êxitos, a insatisfação com o não realizado, frustração com as limitações de recursos e mais quadros… O nome do camarada Levino integrará para sempre esse percurso.

Mais ainda porque, não sei como sob o regime de pressão no trabalho, era leve no trato pessoal, irônico e bem humorado no meio da confusão toda. Um gozador, capaz de ironizar sobre si próprio, porque simples e modesto, o que é para poucos, muito poucos.

Deixa também essa memória, a de amigo, a qual se funde e realça em meio a tudo o mais. Levamos muitas perdas na luta e na vida, mas espero que possa, eu próprio, nós todos e sobretudo Vanja Andréa, Ana Luzia e Ana Letícia, transformá-las em têmpera para seguir adiante com as opções de consciência que fizemos. É o que Levino certamente esperaria.