A língua portuguesa e sua riqueza (por Walter Sorrentino)

Tive uma boa surpresa com o artigo de Sérgio Rodrigues anteontem, na Folha. Ele traz à baila um autor – Adalberto Alves, juiz, poeta e arabista – que escarafunchou a genealogia linguística do português, em sua obra “Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa”. O estudioso afirma que uma “fraude histórica minimizou herança árabe no português”: o número real de palavras portuguesas de origem árabe seria 18.073, e não entre 700 e mil.

A obra é erudita e demonstra que, além do recurso a teses rebuscadas e ao curinga da “origem obscura” que ele critica, houve o que chama de contrafação etimológica: “Foram criados milhares de termos, quer no âmbito do léxico comum quer no da linguagem científica e filosófica, disfarçados de grego ou baixo-latim, mas que, afinal, não passavam de cultismos românicos artificialmente concebidos.” (veja na íntegra aqui)anglicismo.jpg

Isso me leva de volta a um dos prazeres de leitura que já comentei aqui no blog: o livro “Relembrando o Português com Dicionário de Anglicismos”, de Durval Noronha Goyos Jr (presidente da União Brasileira de Escritores), obra erudita e ao mesmo tempo concisa, analisando a riqueza da língua portuguesa. (Você pode encontrá-la com Observador Legal Editora Ltda., São Paulo, Brasil, Abril de 1998).

Estimulante, a obra retrata de maneira criteriosa e ao mesmo tempo bem humorada o escandaloso e desnecessário uso dos anglicismos na língua portuguesa, na verdade em grande parte oriundos do latim, como também aqueles empregados equivocadamente no sentido, na grafia e na pronúncia, das colunas sociais às páginas econômicas dos jornais e TVs.

Relata-se no livro a evolução histórica das línguas inglesa e portuguesa, a origem dos vocábulos e seu uso, inclusive no dia a dia e na literatura. Organiza esses tópicos em dicionário, que foi reconhecido como obra de referência, sobretudo face aos anglicismos que provêm do mundo dos negócios na atualidade, como “blue ships”, “cookies”, “down load”, “hedge”, “know-how”, “lobby”.

A língua portuguesa é um patrimônio da nacionalidade brasileira; é triste o descaso quando, não se dando ao respeito, ela seja conspurcada (nem sempre enriquecida), demonstrando ignorância sobre a sua riqueza. Trata-se, entre nós, de uma amostra de colonização das mentes pela língua do “centro do império” (que poucos sabem pronunciar corretamente).