Em defesa da soberania nacional (por Roberto Requião)

A Frente que estamos constituindo está aberta a todos os parlamentares que expressam uma genuína preocupação com os destinos da Nação, hoje claramente ameaçada por forças internas e externas. Transcende a partidos, mas tem uma profunda marca ideológica de compromisso com a defesa da soberania nacional e com o nacionalismo. Nacionalismo sem xenofobia. Nacionalismo que corresponde ao padrão histórico do brasileiro comum, orgulhoso de sua miscigenação e de sua múltipla religiosidade, aberto a todas as culturas, e integrado pelo desejo comum de promover o desenvolvimento sócio-econômico do país.

Não pretendemos ser uma plataforma retórica. Pretendemos pôr os nossos esforços a serviço da defesa da nacionalidade e da construção de uma sociedade de bem estar social que atenda a todos os brasileiros. Não temos inimigos, exceto aqueles que colocam o poder econômico como instrumento de subordinação da política a interesses particulares. Hoje a maior ameaça à soberania brasileira vem da financeirização da economia, na medida em que o sistema financeiro tornou-se um meio de escravização do nosso povo através de juros escorchantes e de escassez de crédito de longo prazo. A economia e a sociedade estão sangrando. Pretendemos, com nossa união, acabar com isso.

Vários aspectos da soberania nacional estão sendo agredidos pelo atual Governo numa velocidade espantosa. A Petrobrás, símbolo da nacionalidade, está sendo fatiada para efeito de privatização. Entrega-se ao capital privado a exploração da água, desconsiderando que esse dom de Deus não poderia ser transformado em base de negócios lucrativos. Entregam-se ao capital privado, sem limites, grandes porções de nossas terras. Doa-se a base de Alcântara a uma potência estrangeira que espionou – e provavelmente ainda espiona – nossa maior empresa e o próprio Palácio do Planalto. Ataca-se e desvirtua-se o BNDES, âncora do financiamento público de longo prazo da economia como alternativa ao capital vadio.

A abertura indiscriminada ao capital estrangeiro e o estrangulamento da própria economia nos tornou uma área de caça de grande interesse para o capital vadio, cujo fluxo de entrada no país é festejado como se a desnacionalização acelerada fosse uma grande vantagem para o país. Estamos destruindo empresas e empregos em detrimento da sociedade. O agronegócio se tornou a aparente âncora da economia, como não se soubesse, pela história, que confiar exclusivamente na exportação de commodities é um risco tremendo para a economia que fica a mercê de grandes carteis de comercialização e de financeirização globalizada.

Tenho assinalado insistentemente que há formas diferenciadas de globalização, algumas virtuosas, como a industrial, quando gera empregos internamente e é submetida a forte controle doméstico com vistas a afirmação de objetivos nacionais. Entretanto, só os néscios não perceberam o caráter de pilhagem da globalização financeira que se tornou um instrumento de neo- colonização, mediante a subordinação dos sistemas financeiros nacionais aos centros financeiros hegemônicos no mundo, especialmente Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, com seus sócios menores nos países em desenvolvimento, como o nosso.

Pessoalmente, não sou hostil ao capital estrangeiro, ou ao capital em geral. Sou hostil à exploração desenfreada da classe trabalhadora, independentemente da origem do capital. Nisso me coloco alinhado ao Papa Francisco, na predicação moral mais importante de um papa neste século: a firme condenação da busca obsessiva pelo dinheiro em si, por múltiplos expedientes, inclusive de corrupção, espalhando em contrapartida a miséria por amplas camadas da sociedade. Dessa forma, o capital predatório é um típico adorador de Mamon, o deus dinheiro, sendo responsável por inédita concentração de renda em nossa história.

O povo tem dificuldades de identificar os inimigos mais inescrupulosos da Nação, representado pelo capital financeiro, porque vivemos numa sociedade de desinformação. A grande mídia, comprada pelos financistas, desinforma pelo que ela diz e pelo que deixa de dizer. Daí nossa responsabilidade estratégica nesse Frente no sentido de fazer chegar à sociedade uma crítica honesta e corajosa em relação ao funcionamento da economia e, insista-se, ao processo de financeirização e desnacionalização. Sem uma sociedade informada nossos esforços em defesa de uma economia não apenas nacional, mas nacionalista serão em vão.

Entretanto, gostaria de expressar também minha opinião sobre outro tema relacionado com a globalização e a integração regional que circula há anos no mundo e na América do Sul. É a questão da integração comercial. Muitos a defendem por analogia com o processo original de integração na Europa. Esquecem-se de que, no pós-guerra, quando se colocou a proposta de integração comercial europeia, os seis países membros, saídos da guerra, apresentavam bases industriais similares ou complementares, sem grandes desníveis. A desgraça europeia foi o euro, instituído numa época em que a Alemanha assumira, inequivocamente, a hegemonia monetária e financeira no continente. Isso liquidou com a soberania fiscal de grande parte dos países europeus, sobretudo do sul da Europa.

Na América do Sul tem-se aventado insistentemente a hipótese de uma integração comercial do Mercosul com a Europa. Por trás do comércio querem nos impor goela abaixo o livre trânsito de investimentos, de propriedade intelectual, de serviços. É a união do elefante com o cordeiro. E não me venham dizer que isso é nacionalismo exacerbado. É defesa da economia nacional.

Vários trabalhos acadêmicos têm demonstrado que a proteção industrial é fundamental para o desenvolvimento. “Chutando a escada”, do coreano Ha Joon Chang, mostra de forma inequívoca que todos os países hoje desenvolvidos recorreram a medidas protecionistas na época de sua decolagem; e esses mesmos países, ao se tornarem desenvolvidos, passaram a pregar o liberalismo econômico para os outros. As posições ideológicas, claro, se movem segundo os interesses nacionais deles. Portanto, convido meus pares dessa Frente a fazerem uma reflexão a respeito e ajudarem a tomarmos uma posição comum.

Discurso proferido por Roberto Requião, senador PMDB/PR e presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional