Partido Comunista: que partido, para quê?

Como disse um dirigente do PC (M) da Índia, podemos pensar erguendo-nos sobre os ombros de Lênin para enxergar mais longe e vastamente, mas não pensar com a cabeça dele, pois ela cessou de trabalhar e estava voltada para seu tempo. Temos que fazê-lo com nossas próprias capacidades e experiências, aproveitando o proveitoso legado que ele nos deixou.

Com essas palavras encerro o pequeno ensaio para o livro Lênin – presença da revolução, organizado pela Sociedade Amigos de Lênin da Fundação Maurício Grabois e Editora Anita Garibaldi. Ele foi organizado por Aloisio Sérgio Barroso e seu lançamento ocorrerá nesta sexta feira, 7 de julho, onde espero encontrar as amigas e os amigos do Blog.

O ensaio é dedicado à memória de Neleu Alves e Joel Batista, dois operários comunistas, com quem convivi e aprendi lições de vida. Lida com o partido político, reconhecidamente um dos grandes temas da teoria política, em permanente desenvolvimento, até porque são formações relativamente recentes na experiência social: os partidos políticos modernos têm pouco mais de um século de trajetória.

Seu argumento central é de que este é um tempo de grandes viragens históricas disruptivas. O capitalismo realmente existente, em sua forma madura, – ou seja, o neoliberalismo – segue em marcha dominante, desmanchando no ar tudo o que foi solidificado pelas conquistas civilizatórias progressistas acumuladas durante um longo período de 75 anos depois da Primeira Guerra Mundial, favorecidas pela derrota do nazi-fascismo e a disputa com o campo socialista.

Não obstante, as forças produtivas se veem impulsionadas pela 4ª Revolução Industrial, dita revolução digital, com base nas grandes descobertas científicas e elevada capacidade de inovações tecnológicas, de maneira muito mais rápida que em qualquer outro período histórico e com um escopo de maior alcance.

Enquanto isso, a luta de classes se aprofunda e agudiza. Tomam novas formas a luta antagônica entre capital e trabalho e a luta entre nações e povos pelo seu desenvolvimento autônomo e soberano, face à ameaça neocolonizadora e à contraofensiva imperialista. Na sociedade, emergiram as lutas identitárias de gênero, etnia, opções sexuais e direitos civis em geral, em especial entre a juventude e as mulheres, mobilizados por múltiplas causas reparadoras civis, sociais e democráticas. As contradições expressam-se também na geopolítica mundial, dado o papel dos Estados socialistas remanescentes, em especial a China, já a maior economia do mundo, alvo estratégico direto da sanha imperialista norte-americana.

A própria consciência social sofre poderoso impacto com base em todo o conhecimento e capacidade de comunicação acumulados. Enfim, modificam-se a própria composição das classes sociais e suas frações, as relações e vivências sociais, as formas da consciência social.

Não é de surpreender a distopia democrática que toma corpo nessas condições. Os verdadeiros poderes desta sociedade – o capital, as finanças, as comunicações, a força política, diplomática e militar das potências imperialistas – se impõem sem a mediação integral da representação política, esvaziando de conteúdo a norma democrática. É a base de uma crise de representação praticamente global sob o neoliberalismo.

Enfim, é indubitável que o velho estrebucha e algo novo precisa fulgurar, embora ainda impotente. Trata-se da realidade objetiva em maturação, período que por vezes dura décadas concentradas para produzir a consciência crítica do presente e das perspectivas que ele encerra. É época em que a reação proclama o “fim de tudo”: do trabalho, das nações, dos Estados nacionais, dos partidos revolucionários, do marxismo… Época de pós-tudo, mais vazia que nunca. É a globalização neoliberal destinada a derrubar fronteiras enquanto se erguem muralhas cada vez mais poderosas entre classes, nações, nativos e imigrantes, ricos e pobres.

Mas, como diria Mark Twain, “parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas”.

Que fazer face a tantos elementos novos do ponto de vista da luta revolucionária? É certo que se trata de um tempo distinto daquele em que foi empreendida a atualização do marxismo por Lênin – para a etapa então atual e superior do capitalismo, o imperialismo. Mas permanece o fundamento sem o qual desmorona a ciência social: o regime de exploração do trabalho, da opressão de classe, de gênero e etnia, da opressão nacional, a serviço do regime de acumulação do capital em seu grau mais maduro, sob a dominância rentista-financeira.

Ao longo do debate, trato de explicitar a atualidade do leninismo em seus pressupostos de universalidade e historicidade, apreendidos em sua essência dialética, quanto ao partido revolucionário do proletariado. Debato os temas polêmicos presentes na contemporaneidade, como o “fim dos partidos”, a degenerescência possível do partido revolucionário, a noção de partido comunista de massas, para lutar pela hegemonia e com as originalidades brasileiras, a “crise orgânica” da esquerda, partidos e movimentos sociais, identidade e consciência de classe, relação entre o consciente e o espontâneo etc.

Creio que vale a pena conhecer!