Indústria deve ter papel estrutural no desenvolvimento, diz Antonio Lacerda (por Luciano Velleda)

“Historicamente, todos os países que lograram êxito no desenvolvimento tiveram a indústria como um fator chave”, analisa o economista

São Paulo – No momento em que a criação de empregos e a retomada da economia são alguns dos temas mais urgentes da agenda nacional, o governo de Michel Temer (PMDB) agrava a situação ao privilegiar o rentismo e a especulação financeira em detrimento da recuperação da indústria. É com essa perspectiva que o economista Antonio Corrêa de Lacerda analisa a perda de competitividade de um setor que, para ele, teria papel fundamental para o desenvolvimento do país.

Na entrevista à Rede Brasil Atual, o coordenador do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) explica a função histórica que a indústria teve para países como Estados Unidos, Alemanha e Japão e, mais recentemente, também Coreia do Sul e China. “Trata-se de uma questão estrutural e não conjectural na história do desenvolvimento dos países.”

Para o professor, depois de ter saído de uma nação agrícola exportadora de café, no início do século 20, para tornar-se uma das 10 maiores economias do mundo no final do mesmo século, o Brasil tem sofrido nos últimos 30 anos com a falta de políticas macroeconômicas que favoreçam e estimulem a indústria.

“As políticas macroeconômicas adotadas não visam o desenvolvimento e sim a estabilidade de preços, o controle da inflação e uma política de curto prazo, enquanto uma política de industrialização é de longo prazo”, analisa.

Apesar do momento adverso, o economista enfatiza que o Brasil tem todas as condições favoráveis – com demanda reprimida em infraestrutura e mercado interno – para desenvolver sua indústria, criar emprego e renda. Para isso, entretanto, é preciso haver vontade. “Muitos países gostariam de fazer isso, mas não podem porque não têm esses elementos”, destaca.

Confira a entrevista.

Qual o papel do setor industrial na criação de empregos?

A indústria tem um papel muito relevante para o desenvolvimento dos países, o que significa criação de emprego, melhores salários, crescimento econômico, melhor distribuição de renda. Historicamente, todos que lograram êxito no desenvolvimento tiveram a indústria como um fator chave, como foi o caso de Estados Unidos, Alemanha, Japão, e, mais recentemente, Coreia do Sul e China. Cada um tem características próprias, mas tem o ponto em comum de utilizar a indústria para o seu desenvolvimento. E por que? Porque o setor industrial tem uma forte correlação com demais macro-setores, como o agropecuário, o extrativo-mineral e o de serviços. Então, a indústria, por ser um setor gerador de valor agregado, tem um papel crucial no desenvolvimento. Trata-se de uma questão estrutural e não conjectural na história do desenvolvimento dos países.

E qual a realidade da indústria brasileira?

O Brasil vive uma situação de desindustrialização. No século 20, o país saiu de uma situação em que era uma grande fazenda agro-exportadora de café para ser uma das dez maiores potências econômicas no final do século. E essa transição também foi feita com o desenvolvimento da indústria. Porém, nas últimas três décadas, o país passa por um processo de desindustrialização, ou seja, a perda da participação da indústria no PIB, na sua capacidade de criação de empregos, renda e tributos.

Por quê?

A indústria precisa de um conjunto de políticas macroeconômicas que favoreça a sua expansão como, por exemplo, o investimento público, que é fundamental para garantir na crise o suprimento da infraestrutura e da logística. Em segundo lugar, um câmbio que favoreça a geração de valor agregado local e, em terceiro, uma política monetária, de crédito, financiamento e juros, que estimule o setor produtivo. O Brasil entrou em um processo de desindustrialização nos últimos 30 anos porque as políticas macroeconômicas adotadas não visam o desenvolvimento e sim a estabilidade de preços, o controle da inflação e uma política de curto prazo, enquanto uma política de industrialização é de longo prazo. Isso foi comum tanto nos governos de Lula quanto de Dilma, com algumas mudanças.

Quais mudanças foram essas?

Há aspectos em que os governos de Lula e Dilma foram iguais, e outros em que foram diferentes de outros governos. Foram diferentes ao reconhecer o papel do Estado, da política industrial, do financiamento, e trabalharam para isso. No entanto repetiram uma política macroeconômica de outros governos, que foi o câmbio apreciado, favorável ao combate à inflação e não ao desenvolvimento, e juros muito elevados. As coisas não combinaram. O governo Lula conseguiu algum crescimento devido ao avanço chinês, que puxou o preço das commodities e o Brasil viveu ali uns 10 anos dessa ascensão. Quando veio a crise internacional de 2008, os reflexos foram bater na Europa e na própria China, que reduziu muito a sua taxa de crescimento. Houve uma queda muito grande nos preços das commodities, que, aliada a erros que a Dilma cometeu no âmbito interno, representaram a recessão.

Como o senhor analisa o incentivo a determinados setores da indústria?

Um elemento importante para a industrialização são as políticas industriais ou políticas de competitividade, ou seja, estímulos a determinados setores, uma política comercial que favoreça o valor agregado local, o incentivo à inovação, financiamentos de longo prazo, tudo isso são políticas de competitividade.

A outra parte é a ação dos entes privados. Empresários e trabalhadores têm que fazer sua parte em termos de produtividade e qualidade. O Brasil entrou num processo de desindustrialização porque esse conjunto todo de políticas, presente na maior parte dos países que lograram êxito na industrialização, não estão e não estiveram presentes na história brasileira nos últimos 30 anos.

E o atual governo Temer agrava o cenário. Temer destrói o BNDES e praticamente líquida o Ministério da Indústria e Comércio. Temos hoje uma política econômica favorável ao rentismo, à especulação financeira. O problema é que se está sem a outra perna, porque nos governos Lula e Dilma alguns desses instrumentos foram resgatados e nem isso hoje se tem. A gente vive essa mediocridade de política econômica, que é muito favorável no curto prazo à especulação e zero para a produção do desenvolvimento.

Se os empresários são prejudicados por essa falta de política industrial, por que dão apoio ao governo Temer?

Como hipótese, acredito que um dos fatores é ideológico. Criou-se um desconforto com os governos de esquerda, enquanto o viés de um governo liberal, mais à direita, seria favorável aos empresários. Outra hipótese é que os empresários brasileiros, na sua maioria, se tornaram rentistas. Eles não estão preocupados com a produção em si. E a terceira hipótese é que eles não conseguem compreender a complexidade dos temas de que estamos falando. As entidades empresariais perderam a sua capacidade de análise de longo prazo e de mobilização pró-desenvolvimento. São hipóteses.

O economista e historiador Robert Gordon defende no livro Ascensão e queda do crescimento americanoque a indústria nunca mais vai repetir o desempenho de produtividade e emprego verificado do pós-guerra até os anos de 1970 e 1980. O que o senhor acha dessa avaliação?

Acho que a análise dele é muito válida para países como os Estados Unidos, mas não é válida para países como o Brasil. Isso porque Estados Unidos, Alemanha e Japão já estão na quarta Revolução Industrial, onde o setor de serviços é muito importante e onde parte desses países transferiu para o exterior muitas bases produtivas. Então, isso é válido para o contexto americano, mas não para países em desenvolvimento como o Brasil, que tem um longo espaço ainda para recriar a sua indústria, desde que haja uma mobilização para tal. Mobilização que não está presente hoje no conjunto das políticas econômicas e também não há uma estratégia voltada para isso.

Qual o impacto da alteração da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) do BNDES que o governo Temer propõe acabar?

Um dos poucos instrumentos que se tinha de incentivo ao investimento da indústria e da infraestrutura era o BNDES. Se você limitar a ação do BNDES, não há um substituto à altura disponível. Como consequência disso, vamos viver um longo período de estagnação. Depois de uma recessão brutal nos últimos anos, um período de estagnação, com crescimento medíocre do PIB e, portanto, crescimento medíocre do emprego, da renda e da própria arrecadação federal.

O senhor é pessimista em relação ao futuro do país?

Nas bases que estão colocadas hoje, sou pessimista. Agora, existe o potencial de se construir um novo projeto de nação e, diante disso, ressaltar o papel da indústria, o Brasil é um dos poucos países do mundo que tem todas as condições para esse projeto. Porque é um país que tem forte demanda reprimida na área de infraestrutura, o que pode ser uma grande oportunidade para o crescimento. Apesar da desindustrialização, ainda é o maior pátio produtivo da América Latina, e também possui mercado e economia em escala suficiente para reverter a desindustrialização. Isso não é para quem quer, é para quem pode. Muitos países gostariam de fazer isso, mas não podem porque não têm os elementos que citei.

Quais setores da indústria poderiam ter papel preponderante?

Bens de capital, máquinas e equipamentos. Toda a indústria voltada para a capacidade de consumo, porque o Brasil tem mercado. E aproveitar as vantagens competitivas que o país tem na indústria agromineral, de forma a compensar as desvantagens que temos em áreas como eletro-eletrônicos, fármaco e químico, uma indústria mais sofisticada que exigiria mais investimento e tempo. Mas existe um conjunto na indústria de transformação em geral que o Brasil tem competência, desde que as condições sejam favoráveis.

Como colocar essas mudanças em prática partindo de um cenário de recessão?

A questão é que, ao escolher esse caminho, automaticamente se estará combatendo a recessão. Nesse ponto há uma vantagem. Mas é preciso querer isso e, com esses personagens que estão lá hoje, esquece. Eles estão lá para cumprir outra agenda, não essa agenda que estamos propondo. Por isso que, mais do que uma questão técnica, é uma questão política, de escolhas.