De Roosevelt a Trump: entenda decadência de lideranças no mundo (por Lilian Milena)

E ainda, crise política brasileira está inserida em um quadro maior, que abala democracias em todo mundo  

Jornal GGN – Já está claro entre os estudiosos de que a crise política e econômica enfrentada hoje no Brasil não é isolada e está dentro de uma crise mais ampla. Agora, o que colocou o mundo dentro desse contexto, que vem se arrastando de forma mais acelerada desde 2008? Os fundamentos estão no fim da Ordem Bipolar em que o mundo foi submetido de 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, até 1989 com a derrubada do Muro de Berlim, símbolo da divisão geopolítica entre dois blocos na Guerra Fria.

Segundo Pedro Costa Júnior, mestre em ciências sociais e políticas pela PUC-SP e professor das Faculdades Integradas Rio Branco, junto com a queda do Muro de Berlim ocorreu a redução gradativa de lideranças políticas.

O pesquisador explica que, durante a Guerra Fria (1947 – 1991), o mundo seguia uma trajetória previsível e isso fica claro nas rodadas de acordos de paz de Potsdam, Yalta e São Francisco, que ajudaram a definir os rumos da geopolítica. Na conferência mais importante, de Yalta (1945), balneário localizado às margens do Mar Negro na península da Criméia, reuniram-se os três maiores líderes da época: Franklin Roosevelt, Josef Stalin e Winston Churchill, dos Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra, respectivamente.

“Estamos falando de uma época de grandes estadistas. Até mesmo se olharmos para o Brasil naquele período, tínhamos Getúlio Dorneles Vargas que, para bem ou para o mal, é um grande líder, um sujeito que tinha um projeto de nação que modernizou o país. Um líder, no sentido que dá a direção e enfrenta interesses. Imediatamente a ele veio Juscelino Kubitschek: ‘O que vamos fazer? Vamos fazer 50 anos em cinco’, e ele fez!”.

Até os militares que governaram o país, a partir do golpe de 1964, tinham uma visão unificada de liderança, o que contribuiu na consolidação de projetos desenvolvimentistas. “Mesmo com toda a opressão lastimável que teve durante aquele período eles colocaram em prática o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) e obras faraônicas foram construídas como a hidrelétrica de Itaipu, a usina de Furnas, a Ponte Rio-Niterói e a Avenida dos Bandeirantes, por exemplo”.

Um mundo de eleições divididas

Outro fenômeno que ajuda a reunir as peças para entender a crise política mundial e que vem sendo registrado em todas as eleições pelo mundo é a divisão da sociedade nas eleições.

No pleito presidencial de 2014, por exemplo, Dilma foi reeleita com 51% dos votos, contra 49% para o adversário Aécio Neves. Essa proporção foi igualmente repetida em todas as eleições presidenciais na América Latina, incluindo na eleição de Michele Bachelet, no Chile, e na mais recente disputa que aconteceu no Equador, elegendo de Lenín Voltaire Moreno Garces.

Raúl Castro (ao centro) intermediou aperto de mão entre Juan Manuel Santos (à esq.) e Timochenko, na tentativa de acordo entre presidente da Colômbia e líder das Farc Foto: AFP

Na Colômbia, a sociedade também apresentou forte divisão no plebiscito para decidir se as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) poderiam se tornar um partido legítimo, proposta negada por 51% da população. Enquanto que, nos Estados Unidos, nas últimas eleições presidenciais, Hillary Clinton e Donald Trump terminaram praticamente empatados, mas o último levou a melhor graças ao sistema de eleições indiretas daquele país.

O nível de desinteresse da população com o sistema democrático vigente também vem aumentando significativamente. Em 2014, o Brasil registrou o maior índice de abstenções desde 1998 com quase 20% do eleitorado brasileiro não comparecendo às urnas e um índice total de votos brancos e nulos de quase 16%.

Em 2016, nas eleições municipais, o Chile também apresentou o maior índice de abstenção já registrado no país desde a implementação do voto voluntário que foi de 60%. E, mais recentemente, na França, na disputa presidencial do segundo turno de Emmanuel Macron contra Marine Le Pen a abstenção foi de 24,66%, considerada recorde no país.

Queda de welfare state explica aumento de descrédito

O professor Costa Junior pondera que a destruição do Estado de bem-estar social (welfare state) está por traz da crise de representatividade. Nos chamados 30 anos gloriosos do capitalismo, título dado pelo maior historiador do século 20, Eric Hobsbawn, contemplado o período de 1945 a 1975, o sistema foi arranjado em cima do tripé Estado-Empresários-Sindicatos. O ponto alto foi o acordo de Bretton Woods, em 1944, que regulamentou o sistema financeiro mundial de controle de capitais. Naquelas três décadas os países, principalmente capitalistas, tiveram forte crescimento econômico com altos ganhos sociais, sobretudo na Europa Ocidental onde se estabeleceu Estado de bem-estar social, com o governo protagonizando como agente de promoção social e organizador da economia.

“São 30 anos gloriosos para os Estados Unidos e seus aliados, Japão e Europa Ocidental, que tiveram o dobro do crescimento e foram reconstruídos pelo plano Marshall, dos norte-americanos, após a devastação da Segunda Guerra Mundial”, completa o cientista político.

Harry S. Truma assina Plano Marshall

Nesse período, até mesmo as nações da periferia, como Brasil, apresentaram um forte crescimento econômico médio de 7% ao ano, entre 1950 a 1980. Mas, graças a estrutura política social brasileira, a distribuição de renda foi ínfima, comparado ao que ocorria na Europa. Nos Estados Unidos, onde os governos tinham um protagonismo reduzido, a classe média norte-americana obteve um aumento tão grande do salário, em termos reais, que era capaz de bancar por conta própria os serviços sociais. “E tudo isso acontecia em democracias, ou seja, o crescimento econômico com o pleno emprego em termos keynesianos, que não ultrapassava 5%”.

O acordo de Bretton Woods dura até agosto de 1971, por decisão unilateral dos Estados Unidos que torna o dólar uma moeda não mais lastreada pelo ouro, causando um colapso no sistema. A partir daquele momento, o mundo viveu uma época de estagflação, ou seja, estagnação econômica com o descontrole inflacionário, gerando uma década perdida. No plano político das lideranças mundiais, os liberais Margaret Thatcher e Ronald Wilson Reagan alcançam o poder na Inglaterra e Estados Unidos, respectivamente, seguindo o desmonte do Estado de bem-estar social.

A queda do Muro de Berlim, em 1989, apenas acelera a instabilidade política dificultando analisar os rumos futuros da geopolítica mundial. Dali em diante o tripé que sustentava o mundo anterior – Estado-Empresas-Sindicatos- se desarticula. “Sobretudo Estado e sindicatos se enfraquecem e acontece a emergência do agente mercado como protagonista das relações humanas nos seus sentidos mais amplos e mais intensos”. Por isso, arremata o professor, a crise 2008 e, até mesmo, Junho de 2013 aqui no Brasil, foram apenas desdobramentos de um estado de instabilidade maior que já vinha se consolidando no mundo em décadas anteriores.

De Roosevelt a Trump

A comparação entre esses dois presidentes dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt e Donald Trump, permite ter uma visão mais clara da decadência que o mundo enfrenta de lideranças. Roosevelt governou por três mandatos consecutivos, só não foi mais adiante porque faleceu antes de terminar o último mandato, em 1945. “Ele foi o homem que tirou os Estados Unidos da crise de 1929, com a série de programas do New Deal, e venceu a Segunda Guerra Mundial. Se brinca naquele país que se ele não tivesse morrido seria presidente até hoje”, destaca Costa Júnior.

Cerca de sete décadas depois de sua morte, sobe à Casa Branca Donald Trump, um líder de temperamento explosivo e sem experiência política que ameaça as relações com uma parceira comercial de peso para o país: a China. Para prejudicar ainda mais o quadro, o republicano tem pouco carisma alcançando um dos piores índices de aprovação já registrando na história dos EUA. No último levantamento, divulgado no dia 1º de abril, o governo do empresário tinha apenas 38% de aprovação.

Primeiro plano: Papa Francisco ao lado de Donald Trump. Segundo plano: líder católico ao lado de Barack Obama

A popularidade tem forte relação com o conceito de legitimidade de um governante. E para corroborar essa tese, Costa Júnior se ampara na observação de um dos clássicos das ciências políticas, Nicolau Maquiavel, em O príncipe. O italiano afirma que para conseguir se manter no governo um líder precisa ser amado e temido. Mas se em algum momento tiver que escolher entre ser amado ou temido, melhor é ser temido, porém jamais odiado e é esse último sentimento que as populações têm alimentado contra seus governantes, aumentando a fragilidade política nos países.

Dilma: primeiro odiada, depois golpeada

A trajetória dos últimos meses de governo da ex-presidente Dilma Rousseff seguiu essa lógica, destaca o cientista político. A petista foi reeleita com um projeto político que não seguiu e por isso foi perdendo a popularidade da sua própria base.

“No início da segunda gestão ela sequer tentou aplicar o receituário econômico aprovado nas urnas e assim perdeu legitimidade, colocando na sua equipe os homens do mercado Joaquim Levy, na Fazenda, e Ilan Goldfajn, no Banco Central. A partir daquele momento ela começou a ficar isolada e com uma base muito fragilizada até mesmo no Congresso”. Assim, sem o apoio das ruas e dos parlamentares, foi fácil para a oposição articular o golpe.

Michel Temer, que assume o Planalto colaborando com o acordo político que derrubou a então colega de chapa, segue agora o mesmo receituário econômico impopular, apenas mais agressivo. “[O atual] governo já nasce com problema de legitimidade grande, porque aplica o receituário econômico derrotado nas últimas quatro eleições, gerando mais concentração de renda, mais desempregados e menos crescimento econômico”.

O cientista político ressalta que nem mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) defende as políticas econômicas de mercado que os últimos governantes brasileiros insistem em implementar.

“O Brasil está vivendo na contramão e isso é visível se pegarmos os últimos relatórios do FMI onde vem, sistematicamente, batendo nessas políticas econômicas porque, comprovadamente, não deram certo. São políticas fracassadas que geraram mais desempregados em todo o mundo”, conclui.

Esta matéria foi baseada na aula ministrada pelo professor Pedro Costa Júnior, durante a 8ª edição do Programa Rio Branco para Jornalistas.