Revolução chinesa, antimperialismo e a luta pelo socialismo hoje (do Grabois)

Retirado do Portal Fundação Maurício Grabois

Esta entrevista, concedida pelo filósofo italiano Domenico Losurdo a João Quartim de Moraes, foi suscitada por uma resenha crítica, de autoria de Leandro Konder. Publicada no jornal carioca O Globo (01/01/2005), sob o título “Novas idéias para repensar velhas concepções”, a resenha trata de dois livros de Losurdo “recém” traduzidos para o português.

O livro Fuga da história? A revolução russa e a revolução chinesa vistas de hoje, o objeto central da entrevista, foi editado pela Editora Revan no 2o semestre de 2004.

João Quartim de Moraes: Na resenha que consagrou em O Globo (“Prosa & Verso”, 1.1.05) a seu livro Fuga da História? – A Revolução Russa e a Revolução Chinesa vistas de hoje, Leandro Konder pondera que “a motivação estrita e estreitamente econômica não combina com os ideais dos socialistas, com a luta incessante que eles travam contra as desigualdades, contra a opressão, contra as injustiças, e em favor de um aumento da participação das camadas populares na vida política”.

Domenico Losurdo: Quando sintetizava na fórmula “soviet eletrificação” os objetivos básicos do país surgido da Revolução de Outubro, estaria Lênin esquecendo a luta contra a injustiça e a opressão? E a esquecia o Manifesto do partido comunista quando conclamava o proletariado vitorioso a servir-se do poder político em primeiro lugar “para ampliar, com a maior rapidez possível, a massa das forças produtivas”? Em realidade, em ambos os casos, a industrialização, a modernização, o desenvolvimento das forças produtivas são identificados como o instrumento fundamental, numa situação bem determinada (o controle do aparelho estatal) para começar realmente a edificar a nova sociedade à qual se aspira, para aumentar-lhe a capacidade de atração e defendê-la em caso de necessidade, para levar adiante concretamente os ideais de emancipação que tinham presidido a revolução.

Não diversamente se apresentavam as coisas no referente à República Popular Chinesa. Em meu livro relembrei a afirmação feita por Mao em setembro de 1949, na imediata seqüência da tomada do poder, segundo a qual Washington aspirava a tornar a China dependente da “farinha americana” e, portanto a transformá-la em “uma colônia americana”. Aos olhos do grande dirigente comunista era bem claro o fato de que a luta contra o imperialismo estava passando da fase predominantemente militar à fase predominantemente econômica. A verdade é que nesta luta a dimensão econômica nunca esteve ausente e Mao nunca a perdeu de vista.

Eis o que ele escrevia em 23 de janeiro de 1934 (Nossa política econômica), quando se tratava de defender pequenas e isoladas áreas “libertadas” e sob o controle comunista do cerco e do ataque da reação:

“Os imperialistas e o Kuomintang fixaram-se o objetivo de abater as regiões vermelhas, de minar a edificação econômica […] Somente nossa vitória sobre o imperialismo e o Kuomintang, somente nosso trabalho planificado, organizado, no campo da edificação econômica, podem salvar nosso povo de uma desgraça sem precedente”.

Cerca de dez anos depois, ardem as chamas da segunda guerra mundial e, no que concerne à China, está em curso a resistência contra o imperialismo japonês. No mundo todo a palavra está decisivamente com as armas, mas Mao sente todavia necessidade de reiterar:

“Nas condições atuais de guerra, todos os organismos, as escolas e a unidade do exército devem dedicar-se ativamente à cultura das hortaliças e dos cereais, à criação dos suínos, à coleta da lenha, à produção do carvão de lenha; devem desenvolver o artesanato e produzir uma parte dos cereais necessários a seu sustento […] Os dirigentes do Partido, de governo e do exército em todos os níveis, bem como os das escolas devem aprender, sistematicamente, a arte de dirigir as massas na produção. Aquele que não estuda atentamente os problemas da produção não é um bom dirigente” (Pela redução do preço dos arrendamentos, 1 de outubro de 1943).

Cultivar “hortaliças” e “cereais”, criar “suínos” mas onde está terminada a luta contra a opressão e a injustiça?

Em realidade, foi exatamente pela solução de tarefas tão modestas e tão prosaicas que passou a vitória de uma grande revolução, que desfechou um golpe devastador no imperialismo e conferiu um enorme impulso à causa da emancipação dos povos. O universal se realiza sempre através da mediação do particular, e quem busca o universal em sua não contaminada pureza não o encontrará nunca.

A situação atual apresenta não poucos pontos de contato com o passado. Sem dúvida, bem longe de exercer o poder somente sobre regiões bastante limitadas do imenso país asiático, hoje controlam-no em seu conjunto. Mas, todavia, está como circundada pelo mundo capitalista e imperialista, o qual continua a conduzir contra ela uma política de sufoco econômico. Sem dúvida, hoje muita coisa mudou, mas os Estados Unidos tentam impedir de todos os modos o acesso da China às tecnologias mais avançadas. Se não num estado de subdesenvolvimento propriamente dito, Washington gostaria de manter o grande país asiático, de um jeito ou de outro, em condições de atraso, de modo a poder pressioná-lo, ameaçá-lo, e no momento oportuno golpeá-lo e desmembrá-lo. E, de novo, o crescimento das forças produtivas é um elemento essencial da resistência contra o imperialismo. Mas a tal propósito se verifica um fenômeno bastante singular. Uma certa esquerda se comove justamente e se entusiasma quando vê um povo pisoteado, humilhado e esfomeado buscar desesperadamente sacudir o jugo da opressão e melhorar sua própria situação; mas, quando este povo conquistou o poder e está em posição de conduzir a luta pela consolidação da independência política e econômica a partir de condições e de relações de força menos desastrosas, eis que tal esquerda torce o nariz: ela só é capaz de reconhecer e apoiar uma luta pela emancipação quando tal luta ocorre em condições trágicas. Ainda que com algum esforço, com o olhar voltado ao passado, uma certa esquerda logra nutrir simpatia pelo esforço das regiões vermelhas dos anos 1920, 1930 e 1940 para produzir cereais e hortaliças e a criar porcos durante a luta de resistência contra o Kuomintang e o imperialismo japonês; mas reserva somente frieza e desdém para o atual esforço da República Popular Chinesa em desenvolver, por exemplo, a indústria eletrônica e a informática.

JQM: Mas Leandro Konder objeta que pôr o acento sobre o desenvolvimento das forças produtivas significa esquecer ou relegar ao segundo plano o ideal da igualdade.

Domenico Losurdo (Foto: Cezar Xavier)

 

Losurdo: Quando atingiu o poder, em 1949, o Partido Comunista Chinês assumiu a direção de um país cuja renda per capita era a mais baixa do mundo. Tão extrema desigualdade relativamente aos países mais subdesenvolvidos não era um dado natural.

Eminentes estudiosos têm chamado a atenção para o fato de que, ainda no final do século XVIII, a esperança de vida chinesa estava quase em níveis ingleses, sendo, pois, superior à média da Europa continental. Sobrevêm em seguida as infames guerras do ópio. Sempre no século XVIII as diferenças de renda e de bem-estar entre as grandes civilizações eram antes reduzidas. Sucessivamente, as conquistas coloniais e a industrialização do Ocidente vão sendo acompanhadas passo a passo pela desindustrialização dos países por ele subjugados. É a história da formação do Terceiro Mundo e de seu subdesenvolvimento.

A partir pelo menos da Revolução de Outubro a luta contra esta pavorosa desigualdade em prejuízo do sul do mundo, imposta pela agressão e pelo saque capitalista e imperialista, é um aspecto central da luta de classe em nível internacional. Após ter sido obrigada a conduzi-la por décadas no plano militar, o povo chinês pode agora desenvolvê-la no plano mais propriamente econômico. E não há dúvida de que grandes resultados foram conseguidos. Ainda que de extraordinária relevância, a ultrapassagem do subdesenvolvimento por mais de um quinto da população mundial talvez não seja, mesmo assim, a coisa mais importante.

A causa da igualdade entre os povos pode agora dar grandes passos adiante também no plano cultural: o Ocidente capitalista e imperialista está a ponto de perder o monopólio da tecnologia, do qual até agora se valeu não só para

controlar e estrangular o Terceiro Mundo, mas também para tornar crível sua pretensão de representar a Civilização enquanto tal e seu direito a dominar os “bárbaros”. Mais uma vez, para quem sabe ver a unidade do universal e do particular, bem longe de significar o esquecimento do ideal da igualdade, o prodigioso desenvolvimento econômico da China atual é o ponto mais alto da luta para pôr fim a uma ordem internacional fundada na desigualdade e imposta pela violência capitalista e imperialista.

Sem dúvida, além do nível internacional, o problema da igualdade se põe também no âmbito de cada país em particular. E, no referente à China, não há dúvida de que as regiões litorâneas se desenvolvem mais rapidamente do que as do Oeste. Nem poderia ser de outro modo: seria bem estranho um materialismo histórico e um marxismo que não levassem em conta a geografia.

E, no entanto, cabe precisar que o contraste entre Este e Oeste da China não é entre desenvolvimento e subdesenvolvimento mas entre dois graus diversos de desenvolvimento. É como se estivéssemos em presença de dois trens que trafegam com velocidades diversas, mas em direção de um nível comum, que é o da redução e da anulação do atraso e da desigualdade em relação aos países mais desenvolvidos.

Mesmo aqueles que por ora viajam no trem menos veloz deixaram já para trás as tragédias do passado. Já me referi às condições desastrosas do grande país asiático, no momento em que os comunistas chegaram ao poder: a morte por inanição era um fato quotidiano e nos momentos de crise ela eliminava milhões de vidas humanas.

Embora tendo sensivelmente melhorado a partir de 1949, a situação alimentar da China continuou por algum tempo a ser bastante precária. No final dos anos 1950, em conseqüência do desapiedado embargo imposto pelo imperialismo, bem como de alguns erros de direção política, uma carestia provocada por condições meteorológicas adversas se transformou numa catástrofe: a morte por inanição tornou a golpear em larga escala a população chinesa. É verdade que a distribuição dos escassos recursos era fortemente igualitária. E, no entanto, ainda que bem reduzida em termos quantitativos, a diferença que subsistia entre aqueles que tinham e aqueles que não tinham à disposição o pedaço de pão capaz de assegurar a sobrevivência constituía uma diferença e uma desigualdade absoluta. E esta desigualdade absoluta só foi eliminada graças ao desenvolvimento das forças produtivas.

Sem dúvida, ainda é necessário caminhar muito ao longo da estrada da realização da igualdade. De outro lado, é exatamente fazendo alavanca sobre pontos de força das regiões litorâneas que agora é possível imprimir uma ulterior e decisiva aceleração ao desenvolvimento das outras regiões. É um processo em curso há alguns anos, que já conseguiu alguns importantes resultados, ainda que difundindo-se de modo irregular e em manchas desiguais. Há algum tempo, nas páginas econômicas dos mais importantes diários italianos, podia-se ler uma análise bastante significativa: a linha política dos atuais dirigentes de Pequim caracteriza-se pela vontade de proceder a uma “redistribuição da riqueza” e levar ao término “a última etapa do milagre China”, abrangendo as regiões centrais e o Oeste.

Mutações extraordinárias estão já em curso:

“Xian é famosa no mundo pelos guerreiros de argila, mas está se tornando – se tornará – o Silicon Valley da Ásia. Um caso que é pouco conhecido. Trinta e seis universidades, um projeto para empregar até 2007 cem mil engenheiros no parque tecnológico onde se desenvolverão as pesquisas no campo do software e da indústria aeroespacial. Quem sabe se em Xian se produzirão os componentes para os Boeing e para os Gulfstream?” (Fabio Cavalera, La nuova Lunga Marcia verso Ovest, em Corriere dela Sera de 20 de dezembro de 2004, “Corrier Economia”, p. 7)

JQM: Konder acha, porém que se “a contradição decisiva” opusesse “a capacidade de desenvolver as forças produtivas do socialismo” à do capitalismo, “é possível que este último leve vantagem”.

Após ter-me criticado de algum modo em nome da ortodoxia (não se deve esquecer a luta de classe contra a opressão e a exploração), Leandro Konder liquida tranqüilamente uma das pedras angulares da teoria de Marx. Não há dúvida de que no âmbito do pensamento deste desempenha um papel central o tema do desenvolvimento das forças produtivas: o comunismo pressupõe uma extraordinária riqueza material que permita a cada indivíduo satisfazer suas próprias necessidades; e o socialismo, que costitui o primeiro estágio do comunismo, deve pôr as premissas para isto tudo.

A partir da posição de Konder, não se compreende mais sequer o materialismo histórico: em termos marxistas, a revolução derruba o ordenamento social e as relações de produção que bloqueiam o desenvolvimento das forças produtivas. Naturalmente, ninguém é obrigado a ser marxista. No que me concerne, quero explicar brevemente por que, ao menos sobre este ponto, continuo a considerar válida a teoria afirmada por Marx e Engels (e pelos comunistas chineses). Ao exemplo referido pelo Manifesto do partido comunista, da gigantesca destruição de forças produtivas provocada pelas periódicas crises de superprodução da sociedade capitalista, podem ser acrescentados numerosos outros, que fazem referência à realidade atual do imperialismo. Nestes dias está sob os olhos de todos a catástrofe que se abateu sobre o Sudeste asiático: teria bastado uma porção infinitésima das despesas militares estadunidenses para pôr em funcionamento um sistema de pré-alarme suficientemente rápido e conter eficazmente a fúria destrutiva do maremoto. Mais do que nunca, capitalismo e imperialismo comportam uma pavorosa dissipação de recursos materiais e um cruel sacrifício de vidas humanas.

JQM : Konder vê em tua confiança no triunfo do socialismo na China uma “aposta”, “no sentido que o termo aposta assume na argumentação de Pascal: o possível uso da razão em uma esfera que vai além da razão”. Teria ele razão de te pôr nesta companhia?

Domenico Losurdo (Foto: Cezar Xavier)

Losurdo: Em realidade, a propósito da China, o livro fala de “um processo de longa duração” que já pode felicitar-se de resultados extraordinários, mas cujo êxito é “totalmente imprevisível”. Mas a considerar,em vez disso, favas contadas e já concretizado o êxito do capitalismo, estão Leandro Konder e tantos outros que, na esquerda, argumentam de modo semelhante ao dele.

Neste ponto, entretanto, todos teriam a obrigação de esclarecer em primeiro lugar a si próprios o que ocorreu no grande país asiático. O partido comunista, que em seu Estatuto e em seus documentos declara repetidamente inspirar-se no marxismo-leninismo e pretender avançar na via do socialismo e do comunismo, continua a deter o poder. É tudo mera declamação? Conforme os dados referidos por um respeitável diário burguês (Il Sole-24 ore, de 8 de novembro de 2003), o partido contém em seu interior uma larga maioria de operários, de camponeses e de aposentados: devemos considerar milhões ou dezenas de milhões de homens e mulheres cúmplices ou vítimas idiotas de uma retórica privada de qualquer credibilidade? Historicamente, o Partido Comunista Chinês foi o protagonista de uma das maiores revoluções da história. Terá mudado radicalmente de natureza? E quando então se verificou essa radical mudança de natureza? Com a afirmação da linha que insiste na centralidade do desenvolvimento das forças produtivas? Mas essa tem sido há longo tempo a linha oficial do partido comunista em seu conjunto, e já o era quando a China estava na vanguarda da luta contra o imperialismo. E, de outro lado, essa linha podia e pode reivindicar continuidade relativamente às teses sustentadas, como vimos, pelo Manifesto do partido comunista e pelo próprio Lênin.

Devemos agora considerar o Partido Comunista Chinês estranho ao marxismo e ao socialismo pelo fato de que tolera uma vasta área de economia capitalista? Releiamos então o que Mao declarava em 25 de dezembro de 1947:

“Dado o atraso econômico da China, mesmo depois da vitória da revolução em todo o país, será ainda necessário consentir por um longo período a existência de um setor capitalista da economia […]

Este setor será ainda um elemento indispensável da economia nacional tomada em seu conjunto”.

Poder-se-ia aduzir outras incontáveis tomadas de posição análogas por parte de Mao, ainda depois de anos de distância da tomada do poder (por exemplo, em 1958), mas seria uma inútil perda de tempo e de espaço, mesmo porque já citei algumas em meu livro.

E então? Então é preciso encarar a realidade. A história e a teoria do Partido Comunista Chinês são em larga medida ignoradas. Sim, são conhecidas as teses enunciadas no curso do confronto com o Partido Comunista da União Soviética e nos anos da Revolução Cultural. Do resto se sabe pouco ou nada. Quantos, por exemplo, ouviram falar da polêmica desenvolvida por Mao num texto programático da revolução chinesa (Sobre a nova democracia, janeiro de 1940) contra os “fanfarrões de esquerda”, os quais, “não compreendem que a revolução está dividida em fases, que só podemos passar à segunda fase após haver completado a primeira, e que não há a mínima possibilidade de resolver tudo ‘com um só golpe”?

É por isto que um mesmo evento foi percebido de maneira diversa e contraposta na China e fora dela. Interpretada no Ocidente como sinônimo de abandono do marxismo e do socialismo, a chegada ao poder de Deng Xiaoping e a reafirmação da centralidade da edificação econômica foram saudados na China como a retomada e o desenvolvimento da linha que tinha presidido o triunfo da Revolução Chinesa e que tinha sido abandonada só por um período de tempo relativamente breve.

Antes de considerar fato consumado a restauração do capitalismo na China, a esquerda do Ocidente e da América Latina não faria melhor se estudasse uma linha, uma teoria, uma tradição política em larga medida ignorada? Estejam corretos ou equivocados, o marxismo e o socialismo com características chinesas, que começam a tomar forma já com Mao, merecem algo melhor do que a liquidação sumária e até mesmo preventiva.

JQM : Konder, enfim, considera com explícito ceticismo tua afirmação de que há ainda “partidos e países importantes empenhados no projeto de construção de uma sociedade que vá além do capitalismo”. Detecta em tua resposta (a China é um país “habitado por mais de um quinto da humanidade”) um “tom inclinado à epopéia”. Admites que o tom irônico de Konder se justifique?

Losurdo: Sublinham a extraordinária importância daquilo que está ocorrendo no grande país asiático autores que não são inclinados aos entusiasmos fáceis e, menos ainda, aos entusiasmos fáceis “filo-chineses”. Ao se referir ao prometedor desenvolvimento na China das regiões que até agora tinham ficado para trás, o jornalista já citado do Corriera della Sera fala, já no título de seu artigo, da “nova Longa Marcha para o Oeste”. A Longa Marcha propriamente dita, que conduziu um pequeno e perseguido partido comunista a cumprir em condições dramáticas um percurso de milhares de quilômetros, para se pôr à frente da luta popular de resistência contra um dos imperialismos mais bárbaros, representa indubitavelmente um dos grandes eventos épicos do vigésimo século e da história da humanidade enquanto tal.

Mas nesse contexto convém sobretudo citar Huntington. Ele escreveu que, se o gigantesco processo de industrialização e modernização atualmente em curso vier a alcançar sucesso, “a ascensão da China à função de grande potência ultrapassará qualquer outro fenômenocomparável verificado na segunda metade do segundo milênio”. Tratar-se-ia, pois da ascensão decisivamente mais importante dos últimos 500 anos de história.

É uma afirmação feita em 1996, ano da publicação de O choque de civilização. Retrocedendo cerca de cinco séculos, nos defrontamos com a descoberta-conquista da América. É o momento em que o Ocidente inicia sua marcha triunfal, subjugando o mundo inteiro, pisoteando e frequentemente destruindo culturas inteiras, dizimando e até aniquilando os povos que as tinham elaborado. Não é um fato casual que quem se prepara para fechar esse capítulo de história seja um país guiado por um partido comunista. É um novo capítulo da história iniciada com a Revolução de Outubro, que conclamou os escravos das colônias a romper suas cadeias. O segundo capítulo dessa história é aquele que inflige uma decisiva derrota à tentativa nazifascista de dar nova vitalidade à tradição colonial, à tentativa de escravizar povos inteiros, como nos piores períodos do tráfico dos negros, para colocar os Untermenschen , os presumidos homúnculos ou sub-homens, a serviço da “raça dos senhores”. A Longa Marcha representa para a Ásia aquilo que Stalingrado é para a Europa: sobre a vaga destas duas derrotas históricas do imperialismo se desenvolve um poderoso processo de emancipação dos povos coloniais, que vai bem além da Segunda Guerra Mundial, investe cada ângulo do mundo e conhece momentos particularmente significativos em países como o Vietnã e Cuba. Hoje vemos desdobrar-se um novo capítulo da história iniciada com a Revolução de Outubro. Um país de civilização milenar, agredido a partir das guerras do ópio, pisoteado, humilhado e desumanizado (“Entrada proibida aos cães e aos chineses”!), se prepara para tornar-se protagonista na cena mundial, e não só no plano político mas também no cultural e tecnológico, como já o tinha sido por milênios. E, ao pôr fim a um capítulo trágico de sua história nacional, a China tende a encerrar um capítulo bem mais amplo da história mundial no curso do qual, exatamente por causa do domínio incontrastado do Ocidente, e também para justificar as formas brutais que ele assumiu, emergiram e se afirmaram muito tempo as ideologias racistas mais grosseiras e infames.

Como o futuro em geral, também o futuro da China ninguém está em condição de prever. Convém concentrar-se no presente: certamente não faltam as zonas de sombra, os erros, os atrasos, as contradições, os motivos de preocupação e de desapontamento. Por outro lado, está sob os olhos de todos o espetáculo de mais de um quinto da população mundial que, a passos bastante rápidos, supera a miséria, o subdesenvolvimento, o atraso. Não é só questão de economia. Ignorar a forte carga de emancipação política, social e ideológica inserida no extraordinário desenvolvimento econômico da República Popular Chinesa significa ser incapaz de ver as árvores por causa da floresta.

LOSURDO, Domenico. Revolução chinesa, antiimperialismo e a luta pelo socialismo hoje. Entrevista concedida a João Quartim de Moraes.

Crítica Marxista, São Paulo, Ed. Revan, v.1, n. 20, 2005, p.151-159.

 

Leia abaixo a íntegra do texto de Konder:

Jornal O Globo – Prosa & Verso (01.janeiro.2005)
 Novas idéias para repensar velhas convicções

Leandro Konder

Fuga da História? — A Revolução Russa e a Revolução Chinesa vistas de hoje, de Domenico Losurdo. Coordenação de tradução de João Quartim. Editora Revan, 208 páginas. R$ 30

Democracia ou bonapartismo — Triunfo e decadência do sufrágio universal, de Domenico Losurdo. Tradução de Luis Sérgio Henriques. Editora UNESP/UFRJ, 376 pgs. R$ 52
Leandro Konder

Domenico Losurdo, italiano, professor de filosofia da História, já é conhecido do público leitor brasileiro como o autor do belo estudo “Hegel, Marx e a tradição liberal”, do ponto de vista do marxismo. Agora, ele nos está sendo servido em dose dupla: “Fuga da História?” e “Democracia ou bonapartismo”.

Os “fundamentalistas” do anticomunismo terão dificuldades para explicar por que tantos livros de inspiração marxista vêm sendo publicados, comprados e lidos. Se a corrente derivada da perspectiva de Marx estivesse extinta — como proclamam seus detratores — suas idéias não estariam tão presentes, como de fato estão, nas áreas onde se costuma discutir o pensamento sem ofender o interlocutor.

Enfrentando sua crise, a esquerda se renova

Mas ainda devemos fazer menção a uma característica do pensamento de esquerda que irrita bastante a direita: reconhecendo suas derrotas, enfrentando sua crise, a esquerda se renova (se não se renovasse, então, sim, morreria). Como dizia Walter Benjamin: após suas derrotas, a esquerda se retempera, banhando-se no sangue do dragão.

Domenico Losurdo, em “Fuga da História?”, se mostra disposto a repensar o fim da URSS, suas causas e conseqüências. Aponta, com razão, a insuficiência das análises que têm sido feitas. Para ele, muitos dos antigos defensores do modelo leninista “clássico” estão adotando as posições de seus velhos adversários e renegando as lutas que travaram. Losurdo chama essa atitude de “autofobia” e a compara com os sentimentos de muitas moças seqüestradas que se enamoram de seus seqüestradores.

Depois de criticar duramente alguns erros dos dirigentes comunistas da União Soviética — advertindo, contudo, que eles também tiveram grandes acertos — o combativo filósofo italiano compara a linha de ação por eles adotada com a dos chineses. Escreve: “Ainda existem partidos e países importantes empenhados no projeto de construção de uma sociedade que vá além do capitalismo”. Qual partido, exatamente? Qual país? A resposta nos vem em tom inclinado à epopéia. A China é um país “habitado por mais de um quinto da humanidade”.

Os dirigentes do Partido Comunista Chinês são louvados porque souberam compreender e extrair as conseqüências do fato de que nas condições atuais o desenvolvimento econômico passou a ser mais importante do que a luta de classes. Os chineses ensinam: “Desenvolvimento é o princípio absoluto”. E mais: “O objetivo fundamental do socialismo é o desenvolvimento das forças produtivas”.

Muitos leitores estranharão essa perspectiva. Se a contradição decisiva for entre a capacidade de desenvolver as forças produtivas do socialismo e a capacidade do capitalismo, é possível que este último leve vantagem. A motivação estrita e estreitamente econômica não combina com os ideais dos socialistas, com a luta incessante que eles travam contra as desigualdades, contra a opressão, contra as injustiças, e em favor de um aumento da participação das camadas populares na vida política.

Quando os comunistas soviéticos tomaram o poder, diante do caos em que se encontrava a economia, adotaram uma Nova Política Econômica (a sigla era NEP) com múltiplas concessões à economia de mercado. Muita gente enriqueceu. Depois, foi muito difícil sair da NEP; Stalin e seus companheiros desencadearam uma onda de feroz repressão. Quando vemos Losurdo caracterizar a atual política econômica chinesa como uma enorme NEP, é natural que fiquemos apreensivos. E que nos perguntemos: o que vem por aí? Que “stalinada” ainda veremos? Será justo atribuir à política econômica chinesa, mais do que uma conveniência particular da China, uma significação histórica mundial?

Às vezes Losurdo dá a impressão de que “aposta” na China (no sentido que o termo “aposta” assume na argumentação de Pascal: o possível uso da razão numa esfera que vai além da razão).

Críticas ferinas de Losurdo aos liberais

Mas a expectativa de que a China vá encaminhar o socialismo para uma vitória mundial parece não ser convincente e ele não elaborou com suficiente rigor as mediações entre a vitória mundial do socialismo pelas mãos da China e os problemas da democracia em cada horizonte nacional.

No livro “Democracia ou bonapartismo?”, as mediações são trabalhadas com precisão e a argumentação se mostra mais sólida, embora sempre contundente, como é o estilo do autor.

Losurdo se debruça pacientemente sobre a história do sufrágio universal e formula críticas ferinas aos liberais. Articula a condenação teórico-política do liberalismo em geral, com o cuidadoso exame do pensamento e da ação de gente como Tocqueville, John Stuart Mill, Benjamin Constant, os “federalistas” americanos, Vilfredo Pareto, Schumpeter, Mises, Popper, Hayek, Dahrendorf, entre outros.

O liberalismo, no começo, teve medo do sufrágio e manobrou politicamente para que ele não se tornasse universal. Quando apareceu em casa, sabotou-o sempre que podia, retardou sua adoção, e ele só veio a ser reconhecido como princípio democrático por pressão dos socialistas. Tocqueville — o grande Tocqueville! — alertava os privilegiados para os riscos de uma mobilização do povo: “Não se deve conferir-lhe, pródiga e temerariamente, mais direitos políticos do que aqueles que ele é capaz de exercer”.

Em oposição ao sufrágio universal, o conservadorismo liberal fez acordos os mais espúrios, aliou-se a movimentos agressivamente de direita e sustentou, impavidamente, pela boca de diversos dos seus representantes, que o povo era “uma criança grande”.

Losurdo não alivia sua crítica aos intelectuais que, mesmo não tendo se tornado liberais, foram suaves na refutação das teses do liberalismo. Nem Norberto Bobbio foi poupado: sobraram para ele alguns cascudos, por ter abandonado o conceito de democracia substancial (por ele elaborado nos anos 50) no qual o sufrágio universal era elemento constituinte essencial da democracia formal.

Análise da corrupção do sufrágio universal

Uma das passagens mais instigantes de “Democracia ou bonapartismo” está dedicada à análise da corrupção do sufrágio universal em sua dimensão democrática, sob a pressão de movimentos que fabricam lideranças carismáticas, adotam métodos “plebiscitários”, tratam de destruir seu potencial emancipador. Losurdo mostra que essa orientação remonta a Napoleão III e ao chamado Segundo Império, na França.
Esses dois livros de Domenico Losurdo recém-lançados no Brasil podem provocar boas discussões. Pode-se não concordar com sua avaliação do “modelo chinês” e com a explicação que ele propõe para a “deserção” de tantos antigos militantes de esquerda (a “autofobia”). Pode-se discordar de certa unilateralidade em sua veemente avaliação crítica da história do liberalismo, especialmente do extremo conservadorismo que se manifestou na atitude dos liberais em face do sufrágio universal. Vale a pena, entretanto, ler esses dois textos instigantes, que podem contribuir para nos fazer repensar velhas convicções e para checar antigas formulações teóricas. Para verificar como elas se sustentam. Ou não se sustentam.

 

LEANDRO KONDER é filósofo