Uma nova esquerda? Nova? (por José Carlos Ruy)

Foto/Reprodução: Mídia Ninja

No final de junho um grupo de dirigentes e militantes ligados ao PT, PSOL e movimentos sociais se reuniu em São Paulo para debater os rumos da esquerda. A reunião foi convocada pela Frente Povo Sem Medo e pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), cujo dirigente principal, Guilherme Boulos, chegou a ser saudado como eventual candidato a presidente da República, em 2018. Querem fomentar debates para elaborar um programa para a disputa do ano que vem. Segundo um dos participantes está em discussão um “programa mais à esquerda”, que possa ir “além” dos governos petistas.

A reunião foi encarada como mais um passo para a formação de um novo partido de esquerda. É a chamada “nova” esquerda, alternativa à “tradicional”, como o PT e mesmo o PCdoB. Esse é, sem dúvida, um debate importante e inevitável, a motivar um esforço crítico de parte a parte.

Alusões à “nova” esquerda têm sido comuns na imprensa, pela voz de intelectuais incensados, entre os quais se destaca o professor de filosofia Ruy Fausto, autor da importante trilogia Marx: Lógica e Política, publicada entre 1984 e 2002, em cujo último volume se auto-intitula um pós-marxista.

Este é um tema persistente em nosso tempo, e diz ser necessária uma nova esquerda. Pensamento que se apresenta como radicalmente libertário autonomista. Isto é, seus defensores querem a mais ampla autonomia das massas, dos trabalhadores, na luta contra a opressão capitalista e por uma forma avançada de organização da vida. E resistem às formas organizadas de luta, que apelidam de tradicionais e consideram autoritárias.

Apesar de se apresentar como moderna, atualizada, contemporânea, esta é uma maneira de pensar que, na luta dos trabalhadores, já é secular. Já existia desde os tempos de Karl Marx, no século XIX, e de Lênin, no início do século XX.

Na época de Marx, partidários de Mikhail Bakunin e de outros líderes libertários acusavam os métodos e idéias dos comunistas como autoritários, e rejeitavam a luta política de classes pela conquista do poder político do Estado para promover as mudanças necessárias e a passagem a um sistema mais avançado, e livre, de organização social. Simplesmente rejeitavam a luta política e a organização política dos trabalhadores. Denunciavam qualquer forma organizada como autoritária, prenunciando o que hoje é chamado de horizontalidade na luta social, que supostamente suprime qualquer autoridade e iguala a todos os lutadores.

Mais tarde, já no século XX, o alvo de semelhante pensamento passou a ser o leninismo – sobretudo a partir de 1905, quando o dirigente bolchevique formulou o centralismo democrático como princípio organizativo para os partidos operários e socialistas.

A chamada nova esquerda permanece, podemos dizer, com agenda semelhante. Esmera-se, em nome da modernização da luta popular, na defesa de ideias como essas supondo que, assim, as massas poderão lutar de maneira mais efetiva e livre contra todas as formas de autoritarismo, inclusive a atribuída aos partidos de esquerda.

A entrevista com Alana Moraes, intitulada “Movimentos tradicionais, autonomistas e um novo ciclo de lutas no Brasil”, publicada na revista eletrônica IHU On-Line, em abril de 2017 (aqui ) discute extensamente estas questões.

Alana Moraes é doutoranda no Programa em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ, e participa de uma rádio comunitária e outras atividades com mulheres pobres e negras em Capão Redondo, na periferia de São Paulo.

Unindo estas experiências, acadêmica e militante, Alana Moraes faz a crítica da atuação da “esquerda partidária e organizada”, que vê em “crise profunda” neste momento em que o arranjo democrático construído desde a Constituinte de 1988 entra em colapso. “Temos que nos perguntar o que é ser de esquerda no Brasil hoje.”

As respostas que apresenta para problemas realmente atuais e que exigem a atenção de um pensamento verdadeiramente comprometido com as mudanças revolucionárias, têm, entretanto, forte parentesco com aquelas formuladas faz mais de um século. Ela rejeita a ideia de “um novo programa de esquerda” nascido de “reuniões com intelectuais ou dirigentes partidários”. Esses programas, diz, precisam surgir como parte de “um plano de ação em comum”, que pode dar mais certo se conseguir “produzir encontros, implicar pessoas vindas de lugares diferentes em práticas concretas”.

Até aqui tudo bem! Mesmo a crítica que ela faz das insuficiências do PT e dos partidos que se uniram a ele em governos democráticos e populares desde 2003 precisa ser tema de uma auto-crítica severa da experiência dos 13 anos em que esta coalizão dirigiu o governo federal.

Seu artigo manifesta a desconfiança em relação à ação do Estado e à luta institucional; desconfia da luta eleitoral e das alianças necessárias que ela impõe.

Contra a ideia de “classe social”, de “classe trabalhadora”, opõe a ideia de “povo”, e propõe “experimentações” e a “politização do cotidiano”. Considera as referências à classe como “nostálgicas, que fetichizam a classe trabalhadora”! E quer, contra a política classista, os “coletivos de negros e negras e os coletivos feministas”, pensando que eles indicam “uma mudança subjetiva avassaladora”.

Sua resposta para a questão “o que é a ´classe´ no Brasil?”, é surpreendente, e descreve justamente os setores potencialmente mais radicalizados da classe trabalhadora: “A classe é uma mulher negra que trabalha fora e dentro de casa cuidando de outros, mal paga. Não é possível falar do neoliberalismo hoje sem falar do encarceramento em massa de negros que ele produziu, sem falar do feminicídio que explode, sem falar de um modelo de exploração permanente do corpo e da vida das mulheres, que servem de colchão para toda crise econômica e social que o próprio sistema produz. Então, eu diria que nada é mais ameaçador para a ordem capitalista do que mulheres feministas e negros e negras que se organizam”. Isto é, descreve pessoas que compõe a classe trabalhadora.

Mais adiante, quer maior abertura “para formas de organização mais porosas e democráticas” que seriam conectadas com os setores mais ativos, que agem nos novos “chãos de fábrica”, nas “escolas, universidades, agroecologia, ocupações urbanas, coletivos de arte”; quer a vinculação do “programa político” “com as lutas da vida real, com as possibilidades de construir espaços de resistência ao neoliberalismo”. E, ao pedir essa vinculação, refere-se de novo a espaços que são da classe trabalhadora, e a compõem!

A descrição dos problemas e dos agentes da luta política feita por Alana Moraes pode – e deve! – ser subscrita por avaliações realmente ligadas à luta pela democracia e pelo socialismo.

Entretanto a ação, a forma de organização, e a luta política feitas por ela são decepcionantes, por sua pobreza e falsidade teóricas.

Ela parte da fragmentação e das mudanças nas classes trabalhadoras que resultam das relações de trabalho próprias do capitalismo moderno. Uma classe trabalhadora que não está mais concentrada em grandes fábricas e locais de trabalho, mas polarizada, dividida não só em locais de trabalho diferenciados, mas também nas diferentes formas jurídicas de arregimentação da força de trabalho próprias do capitalismo moderno. Uma classe trabalhadora, assim atomizada (geográfica e juridicamente) na qual se destaca o chamado setor do “conhecimento” e se fortalece o chamado setor dos “serviços” e dos cuidados. É uma tendência de desenvolvimento que Marx, no Grundrisse, considerou como sendo o desenvolvimento normal do sistema capitalista.

São mudanças que provocam realmente forte impacto na assim chamada “identidade” de classe. A identidade de classe não é algo que nasce pronto, fixo, desde o momento em que a classe se forma. Ao contrário, ela sofre os impactos da evolução histórica do próprio modo de produção capitalista. Em nosso tempo, a chamada identidade de classe sofre os efeitos da derrota sofrida pelos trabalhadores desde a ascensão do chamado neoliberalismo, que fortalece, em sua esteira, a luta, transformando seus protagonistas, de membros da classe trabalhadora, em miríades de segmentos identitários; enfraquece assim a unidade da classe (veja-se por exemplo as formulações de Max Weber a respeito de classe e partido que está na base desta fragmentação).

Esse pensamento rende-se ante o liberalismo hegemônico e desconhece a verdadeira desconstrução da identidade de classe ocorrida sob o neoliberalismo e dá à perda de identidade de classe o status de cidadania teórica! E leva, de cambulhada, as exigências da luta de classes e da necessária organização dos trabalhadores em luta contra o capitalismo.

Ao apontar fortemente as múltiplas facções em que os trabalhadores estão divididos hoje, esquece que, em maior ou menor medida, sempre foi assim nas sociedades divididas em classes, e que se acentuam sob o capitalismo. São facções derivadas da divisão social do trabalho, que é natural na atividade concreta do homem, e faz parte do capitalismo, sob o qual se aprofunda à medida em que as relações de produção evoluem.

A resposta à pergunta sobre o pertencimento à classe trabalhadora não pode ser formal! Não está ligada à atividade, à profissão, de cada um e nem à forma jurídica sob a qual ela é exercida, forma jurídica que rege a venda da força de trabalho pelo trabalhador ao capitalista.

O que é preciso saber, para definir a identidade de classe, é qual é a relação objetiva daquela pessoa com o capital, com a classe capitalista. Sua atividade e o exercício dela estão em contradição objetiva com eles, com o capitalismo e o capitalista? A resposta a esta pergunta é que pode indicar o caráter da “identidade” de classe daquela pessoa. Qual a posição objetiva ocupada por ela na estrutura produtiva? De que maneira essa posição se relaciona com o capital dominante? De que forma essa posição afeta sua parte maior ou menor na apropriação da riqueza produzida; como se reflete em sua vida, desde seu nível educacional até seu lugar de moradia; as pessoas com as quais se relaciona, sua cultura, sua subjetividade? Sua luta pela vida, enfim. Estas são as perguntas fundamentais que Alana Moraes e os que querem uma nova esquerda não fazem.

Falam profusamente em democracia, em horizontalidade da luta popular, sem considerar o caráter profundamente democrático das formulações leninistas sobre organização partidária. Durante muitos anos prevaleceu a distorção administrativa e autoritária que transformou o chamado centralismo democrático num instrumento de comando. Mas os comunistas contemporâneos fizeram faz tempo a autocrítica dessas idéias. E prevalece entre eles, hoje, a tradição leninista mais legítima que exige a participação de todos na definição de programas e táticas, que devem ser debatidas e aprovadas por todos e, assim, devem ser seguidas por todos. É a realidade da consulta mais ampla a todos os membros do partido, que formulam num debate livre e franco, democraticamente a política a ser seguida por todos – desde os pobres e trabalhadores das periferias, aos intelectuais e acadêmicos do mundo do pensamento e da teoria, não importa a cor de sua pele, seu gênero, idade ou orientação sexual. Política que, adotada coletivamente, cabe também a todos defenderem e aplicarem. E, quando não concordarem com ela, manifestar também livremente seu pensamento discordante.

Lênin definiu, faz mais de cem anos, esta inovadora maneira de organização da luta popular. Que a burguesia procura desqualificar como autoritária e antidemocrática. Mas que ainda não foi superada, e ainda não apareceu uma forma mais avançada de organização que a substitua. Por mais que se fale em nova esquerda.