Urariano escreve do que conhece para chegar ao coração da juventude (por Cezar Xavier)

Nesta quinta-feira, 14 de setembro, a Fundação Maurício Grabois recebeu na sede do PCdoB, na capital paulista, o escritor Urariano Mota, que está lançando o romance A Mais Longa Duração da Juventude, pela editora LiteraRua.

A obra registra uma passagem importante da luta da juventude contra a ditadura militar. Ele vem de Recife para lançar a obra em São Paulo e, só depois, levar o livro para a terra “por onde viveram, transitaram, andaram, amaram e sofreram” seus protagonistas.

Tanto o atual editor do portal Vermelho, Inácio Carvalho, quanto o anterior José Reinaldo, que o publicou pela primeira vez, fizeram questão de recepcioná-lo por sua valiosa contribuição como colunista inquieto e fértil “mais lido” do site. O jornalista Osvaldo Bertolino ressaltou o relato saboroso do livro, como uma contribuição preciosa à memória daquele período da história brasileira.

Urariano falou de sua enorme ansiedade diante do lançamento do livro, agoniado que estava com os procedimentos. Em um discurso emocionado, Urariano disse que sua imaginação não foi capaz de imaginar a desproporção com que o lançamento de seu livro foi acolhido pela Fundação Maurício Grabois, pelo Vermelho, pelo PCdoB, além do Centro de Estudos Barão de Itararé e a União Brasileira de Escritores (UBE).

“Enquanto antes, o que a gente faz não era olhado nem sentido, com vocês houve uma desproporção. Eu olhava e pensava: Rapaz, o negócio está sério! É isso mesmo que eu fiz?! Que diabo é isso? Vendo essa desproporção, eu fiquei pensando como agradecer isso. Por mais calejado que seja o escritor, quando vai lançar um livro, é sempre a primeira namorada. E esse, então, mexeu comigo demais! Eu só espero que eu não decepcione, além da conta, também, pela expectativa criada”, contou ele, emocionado. “Você tem a obrigação de escrever sobre o que você conhece e falar com o máximo de verdade possível. Só isso! Se você conseguir isso, vai atingir as pessoas. Se eu não consegui, a falha é minha”, acrescentou Urariano.

Leia abaixo a entrevista ao portal Grabois, concedida por Urariano a Osvaldo Bertolino:

Fale um pouco desta nova obra e suas expectativas de como ela será recebida.

Este romance é uma recuperação da memória e da vida dos militantes que viveram a ditadura no Recife. Sempre me preocupava que os romances que falavam da ditadura, tinham normalmente um caráter profundamente objetivo de narrar fatos. Mas pessoas que vivem os fatos não são simplesmente esses relatos objetivos. É também o relato subjetivo da vida intima e da angustia que viveram e passaram.

A gente quando escreve um romance, a gente escreve também pra aprender. A gente não tem a ideia pronta, mas um projeto que cresce e se desenvolve com o desenrolar. Então, quando estou no desenrolar do projeto, foi que me ocorreu uma coisa. Essa juventude que eu narrava continuava nessa juventude de hoje que protesta contra o governo Temer e pede mais educação. Quando vi isso, disse que esses são os companheiros atualizados. Esta é a mais longa duração da juventude, da década de 1970 até o Brasil de 2017. Essa mais longa duração está nos que têm os cabelos brancos hoje e não desistira, ou como diz um personagem, “não perderam o tesão de mudar o mundo”.

A juventude sempre teve esse papel na luta social. Como é feita essa ligação entre as juventudes da ditadura e a de hoje?

A juventude sempre teve um papel fundamental no país, em movimentos importantes antes de 1964. Agora, como escritor, eu falei do que eu conhecia, do que eu vivia. Quando eu procurava retomar a memória dos que vivera numa mesma pensão que eu, eu sai da pensão meio desalentado, porque não os encontrava mais, ou uns estavam mortos, outros em cadeiras de rodas, outros em depressão. Quando eu desço, vejo uma passeata estudantil reclamando melhores condições de educação do governo de Pernambuco. Eu assinando um abaixo-assinado, me ocorreu que eles poderiam muito bem estar com a bandeira “Abaixo a Ditadura!” Eles fazem a continuidade entre o que foi e o que é, não somente nos novos protagonistas. A guerra continua e nós somos necessários, cada vez mais necessários.

Tem muito de Urariano na obra?

A gente quando escreve não pode deixar de ser autobiográfico. O cara que escreve as coisas mais objetivas e distantes sempre parte da própria experiência. Eu não posso escrever com a experiência de outros, mas com a minha. Quer eu queira ou não, estou sendo biográfico, não tem como fugir. Nesse sentido, não se engane, todo escritor é autobiográfico.

Por que você recomenda a leitura desse livro à juventude de hoje?

Eu tenho certeza que quando eu falo do jovem, o jovem que nós fomos e continuamos a ser, o jovem carregado de angustias, dúvidas e apreensões, dando cabeçadas na parede, pensando que o mundo ia se acabar naquele instante, estou falando do jovem hoje. Não se engane, não. A juventude não é a melhor fase do ponto de vista existencial de um indivíduo, porque ele está sobrecarregado de dúvidas e angustias. Mas é, seguramente, a fase em que a pessoa tem o coração que quer abarcar o mundo. Porque o jovem não está preocupado com a aposentadoria, em se dar bem, ele tem um coração largo aberto para o mundo. Eu acho que é isso que nós temos que definir e continuar e saudar. Eu acho que, neste sentido, o jovem que nós fomos continua nestes.

Quem é Urariano?

Eu sou um cara que, a partir de determinado ponto da minha vida, eu queria ser escritor, mas não sabia que o nome era esse. Eu queria falar do que me angustiava, do que eu via do mundo, mas não sabia que isso era ser escritor. Só depois que eu comecei a batalhar pra ser escritor. Então eu sou fundamentalmente, um homem suburbano, nascido no bairro de Água Fria, no Recife, que tem a ambição de falar para o mundo, o que é de qualquer maneira uma coisa muito pernambucana.

 

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