Mensaje de homenaje a Patricio Echegaray (por Walter Sorrentino)

Na foto acima, à minha direita o representante do PC Uruguaio, à esquerda o do PC Chile e por último Viktor Kot, Secretário Geral do PC da Argentina. No ato em homenagem à memória, luta e obra de Patrício Echegaray, presidente do PC da Argentina, que teve com o PCdoB relações próximas e amizade. A hospitalidade e as relações fraternas com que fomos recebidos são o testemunho da luta em comum entre os comunistas internacionalistas argentinos e brasileiros. Na ocasião, li a mensagem enviada pelo PCdoB aos camaradas argentinos e os familiares de Patrício.

Estimadas compañeras, estimados compañeros,
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) recebeu, com profunda consternação, a notícia da morte do camarada Patricio Echegaray, ocorrida no último dia 09 de agosto. O corpo e a mente de Echegaray cessaram de funcionar, mas seguiremos seu combate sob a luz de seu legado.

Echegaray foi, sem dúvida, em sua geração, um dos expoentes do Movimento Comunista e da pugna anti-imperialista. Com longa trajetória militante, iniciada em sua província natal, San Juan, no movimento secundarista durante a década de 1960, Echegaray militou no movimento estudantil e sindical, tornando-se um grande líder reconhecido com sua eleição a secretário-geral da Federação Juvenil Comunista em 1980 e, em 1987, designado secretário- geral do Partido Comunista da Argentina, cargo que exerceu até 2016, quando assumiu a presidência do partido.

Perseguido pelas diferentes ditaduras argentinas que enfrentou, foi preso durante dois anos com base na lei anticomunista. Nada, no entanto, quebrantava seu ânimo revolucionário e sua convicção na vitória final da nossa causa comum.

Quando da queda do socialismo na URSS e no Leste Europeu, Echegaray foi um dos que formulou as teses que ajudaram a recompor o campo revolucionário na Nossa América, destacando em primeiro lugar que o capitalismo também estava em um período de crise profunda e em pleno desenvolvimento da mesma, e em segundo lugar salientando a ideia de que a América Latina é o continente da esperança revolucionária.

Na famosa “Carta Aberta às forças revolucionárias e progressistas da América Latina e Caribe”, escrita em fevereiro de 1990 em Havana, em conjunto com outros cinco líderes revolucionários, em meio à grave crise do socialismo no Leste Europeu, dizia Echegaray:

“a revolução não só continua vigente historicamente como constitui uma necessidade e uma
possibilidade para a solução dos problemas da América Latina e Caribe e do Terceiro
Mundo (…) Este terceiro mundo convulsionado, deve abrigar as novas esperanças
revolucionárias, esperanças que os cristãos, os anti-imperialistas, os marxistas, os
democratas, os socialistas, os novos líderes populares, os movimentos sociais inovadores,
podemos contribuir para converter em realidade, procurando ademais que em todo o
planeta as forças do progresso se decidam a deter e derrotar a contraofensiva imperialista
estadunidense.”

Este documento, de destacada importância para a esquerda do nosso continente, chamava os revolucionários latino-americanos a pensarem “com a própria cabeça”:

“dentro da agenda revolucionária latino-americana, não é possível evitar o impacto do que acontece na Europa Oriental. Esses problemas tiveram um impacto contraditório sobre as forças revolucionárias e progressistas do continente: em algumas delas têm provocado desmoralizações e estímulos para concepções alheias às nossas necessidades e transplantadas dos processos europeus, em outros setores reafirmaram convicções profundas revolucionárias, anti-imperialistas e socialistas dentro de uma clara determinação de independência criativa. Estamos entre estes últimos e prontos para colocar nossos corações e esforços na direção de pensar com a própria cabeça e desenvolver nossa posição em meio às extraordinárias potencialidades revolucionárias existentes neste continente.”

Um dos aspectos mais relevantes da atividade de Patricio Echegaray foi sua atuação como internacionalista proletário. Um dos fundadores do Foro de São Paulo, Echegaray foi incansável na solidariedade à revolução cubana, aos sandinistas nicaraguenses, à FMLN salvadorenha, às Farc-EP e ultimamente dedicava-se a impulsionar a solidariedade com a revolução bolivariana na Venezuela.

No Partido Comunista da Argentina, com outros destacados dirigentes comunistas, entre eles o então secretário geral Athos Fava, levou adiante o processo de revolucionarização do PCA, que desembocou no histórico 16º Congresso.

Hoje os argentinos combatem nas ruas, nas urnas e nas ideias contra os efeitos de um modelo baseado no endividamento externo, a primarização produtiva e o auge do capital especulativo. O legado de Echegaray nos conclama pela rearticulação do campo popular, fundada na ideia da necessidade de derrotar o plano de ajuste, entrega, autoritarismo e repressão levado a cabo por Macri. Para isso, necessitamos um partido comunista inserido no conflito social, fortalecendo nossas fileiras militantes.

O mesmo no Brasil, com a diferença de que tal agenda antinacional, antipopular e antidemocrática se leva a cabo mediante um golpe, que representou a ruptura do pacto democrático constitucional, e vai sendo implantada a ferro e fogo sem legitimidade institucional. Por isso, é justo o chamamento do PCA de que, nas eleições em curso, “o ajuste de Cambiemos começa depois de outubro”, o que exige grande unidade para a vitória eleitoral das forças populares, em especial do PCA.

Echegaray, além de uma importante referência para os revolucionários latino-americanos, foi um grande amigo do PCdoB. Sob sua liderança, os laços fraternos entre o PCdoB e o PCA se fortaleceram enormemente. Todos os dirigentes do PCdoB que, como eu, tiveram a alegria de conhecer Patricio Echegaray, guardam com carinho a recordação de uma pessoa extraordinária, carismática, afável, firme em suas convicções sem deixar de ter uma visão ampla das grandes questões nacionais e internacionais.

Aos familiares e amigos de Patricio Echegaray, bem como a todos os dirigentes e militantes do Partido Comunista da Argentina, expressamos aqui a certeza de que as novas gerações de revolucionários latino-americanos continuarão tremulando a bandeira vermelha de justiça e liberdade, que Patricio Echegaray empunhou por toda a vida com denodo e brilhantismo. A continuidade da luta até a vitória final será a melhor homenagem que se pode prestar às ideias e à vida de Echegaray.

Encerramos com as mesmas palavras usadas pelo Comitê Central do PCA em sua nota fúnebre: “Patricio Echegaray – Nem um segundo de tristeza, toda uma vida de combate!”
Combateremos por nossos povos e em memória de Echegaray hasta la victoria, compañeras e compañeros.