A economia no mundo e no Brasil (por Sérgio Barroso)

A economia brasileira tem sinais objetivos quanto a estar ou não em retomada e ao ritmo em que se verifica. Mas, ao mesmo tempo, há uma disputa política em torno do tema, pois se relaciona às perspectivas das eleições de 2018 envolvendo o poder e o projeto.

Julguei útil apresentar a reflexão de Aloysio Barroso, economista e membro da Fundação Maurício Grabois, pelo método sistemático e analítico com que se devem adotar as estatísticas e a realidade econômica do país.

A carruagem da crise capitalista global

Factualmente, 2017 testemunhou uma pequena aceleração da expansão econômica, sendo que as economias capitalistas centrais ainda enfrentam uma inflação baixa demais – curso deflacionário -, e a recuperação continuará a depender de inéditos incentivos públicos, sustentado pela monetização da gigantesca dívida pública. Incentivos trilionários mais recentemente ameaçados de retirada, especialmente pelo banco central dos EUA. [veremos sobre isso mais adiante]

Assim, os últimos dados econômicos apontam que o crescimento econômico nos principais países capitalistas te obtido aumento durante a primeira metade de 2017. Nos gráficos abaixo,

Segundo demonstra o especialista ex-presidente do Departamento de Serviços financeiros do Reino Unido, Adair Turner, desde 2007, o PIB per capita da zona do euro, do Japão e dos EUA subiu apenas 0,3%, 4,4% e 5%, respectivamente. Apesar da gigantesca injeção de recursos pelos bancos centrais, o PIB nominal cresceu em torno de 2,8% ao ano nos EUA; 1,5% na zona do euro; apenas 0,2% no Japão no período 2007 a 2016, o que também bloqueou a obtenção do crescimento moderado, mais uma inflação anual compatíveis com o cumprimento das metas de 2%: a inflação dos EUA é inferior à meta do Federal Reserve (BC americano) já há cinco anos, e recuou nos últimos cinco meses (até agosto 2017).

O crescimento dos salários, por exemplo, continua obstinadamente baixo, apesar do anúncio de que desemprego caiu para os níveis “normais” do pré-crise. O Japão é o caso mais extremo: com uma população economicamente ativa em processo de encolhimento, imigração mínima e uma taxa de desemprego oficial de 2,8%, todos os modelos padrão preveem uma aceleração do preveem uma aceleração do crescimento dos salários. Assim, por mais que o primeiro-ministro Shinzo Abe conclame seus capitalistas a dar um aumento aos trabalhadores japoneses, o crescimento da remuneração continua anêmico. Note-se, por outro lado, que, dados oficiais divulgados em 14 de agosto, dão conta que a economia do Japão cresceu 4 por cento no segundo trimestre deste ano, a uma taxa anualizada – ou o sexto trimestre consecutivo de expansão liderada pelo consumo privado e despesas de capital. O resultado representaria o ritmo mais rápido de crescimento desde janeiro-março de 2015.

Nos EUA, cada nova divulgação de dados mensais, que indicam expansão do nível de emprego, associa-se um crescimento salarial surpreendentemente baixo. O que procura ser explicado por: a) nos últimos, aproximadamente, 30 anos, os mercados de trabalho se tornaram mais “flexíveis”, com o drástico enfraquecimento do poder dos sindicatos; b) simultaneamente, a globalização neoliberal expôs os trabalhadores dos setores voltados para o comércio exterior à competição salarial mundial; c) neste mercado de trabalho plenamente flexível, formou-se ainda “um exército de reserva de robôs” (Turner), abrindo-se caminho para a automação generalizada consegue deprimir o crescimento dos salários reais mesmo num quadro de “pleno emprego”.

Como sabemos, desde 2008, a dívida se deslocou dos setores privados para os públicos, com grandes déficits públicos que são ao mesmo tempo consequência inevitável do pós-crise e integrantes essenciais para manter uma demanda suficiente: No mundo inteiro, o total da dívida, pública e privada, alcançou uma alta recorde, a partir dos 180% do PIB mundial de 2007 para os 220% de março de 2017. Em decorrência disso, as taxas de juros não podem voltar aos níveis do pré-crise sem correr o risco de instaurar uma nova recessão.

Sobre essa recuperação atual, o marxista Michael Roberts considera que, na prática esse crescimento se deveria à “relativa recuperação da economia chinesa, o motor do crescimento econômico mundial desde 2007”. Para o FMI, segundo seu próprio estudo sobre a economia chinesa, enquanto os países do capitalismo central continuam “lutando depois da crise financeira de 2007-2009, a China tem sido o motor de crescimento da economia mundial, representando mais da metade do crescimento do PIB global nos últimos anos”. Conforme o citado Turner, o crescimento mundial atual é, admais, decisivamente sustentado pelo déficit público de 3,7% do PIB da China, superior ao 0,9% contabilizado pelo país em 2014.

Observe-se no gráfico seguinte o nítido retrato do declínio econômico dos EUA, e a inequívoca manutenção do elevadíssimo crescimento da China, segundo dados oficiais dos EUA:

Por outro lado, todos os índices de compras industriais de gerentes (PMI) que visualizam melhor a situação imediata da atitude e a confiança do setor capitalista em cada país, assinalam que a expansão estaria em marcha – embora no ritmo de 2013-14. Para Roberts, novamente, a chave para o crescimento do indicador “pareceria” ser a recuperação do PMI da China. Veja o gráfico:

Para finalizar, outras breves considerações sobre a economia mundial.

É revelador que um fiel representante da grande burguesia financeira britânica, como o renomado economista Adair Turner, defina agora mesmo como “O mito da normalização” (Valor Econômico, 6-7/09/2017) a situação atual da economia mundial. Na conclusão de seu artigo, lucidamente, Turner, referindo-se à onda neoliberal da “recuperação”  afirma que: “O viés psicológico de prever uma volta à ‘normalidade’ continuará forte. Mas os fatores impulsionadores do desempenho econômico do pós-crise são tão profundos que não permitem prever qualquer volta à normalidade no curto prazo”. Quer dizer, entre 2007 e 2017 a crise global acresceu imensas dificuldades estruturais para uma retomada consistente do crescimento econômico. Uma delas, senão a central, é que as políticas monetárias ultra expansivas (QE+juros negativos), praticadas anos a fio pelos maiores bancos centrais do planeta ficaram a anos-luz de um retorno do crescimento econômico como ocorria nas grandes crises passadas.

Pior ainda. Segundo o Financial Times (“Temor de bolha no mercado de bônus ganha força com fim de estímulos”, 27/07/2017), grandes investidores temem uma maior volatilidade, uma queda nos preços dos bônus e até mesmo um “crash” do mercado de bônus com a mudança de curso dos bancos centrais (possibilidade da retirada dos estímulos do Quantitave Easing). Numa pesquisa feita em julho pelo Bank of America Merrill Lynch – o maior dos EUA – entre profissionais de investimentos, um “crash” do mercado global de bônus é o maior risco de volatilidade para os mercados. A Deutsche Welle, rádio/TV alemã transmitida em 30 línguas, informou em agosto que, Jim Rogers, cofundador do Quantum (Soros), um grupo privado de fundos hedge (de proteção contra flutuação de preços no mercado de ações), disse ao site Business Insider em junho que um colapso do mercado aconteceria “mais para o final do ano ou no ano que vem”. Numa entrevista ao canal de televisão CNBC, o investidor suíço Marc Faber, também conhecido como “Dr. Catástrofe”, previu que alguns acionistas “perderão 50% de seus ativos” durante o que ele descreveu como uma “avalanche de vendas”.

Economia brasileira: PIB zero?

A propagando do governo golpista e do “mercado” de que o Brasil saiu da recessão, conforme os números do PIB divulgados (01/09/2017), escondem uma situação bastante difícil, e não significa – ainda – que o país saiu da recessão. Aparentemente, o crescimento estaria convergindo para zero, neste ano; mas, mesmo esta conclusão não pode ser forçosamente dedutível. Isto pode ser visto no próprio número do PIB, pois o crescimento de 0,2% do segundo trimestre, pois ele representa expressiva desaceleração ante o 1% do primeiro trimestre.

E é mesmo duvidosa essa comemoração antecipada. De acordo com o IBGE, os dados de trimestre contra trimestre, dessazonalizados.

Na demanda, o consumo é o item que aparece com desempenho claramente positivo. Ao apresentar um salto brusco (0,0% no trimestre anterior, para 1,4%) sugere a presença de fatores não repetíveis nesta performance provavelmente, a liberação das contas inativas do FGTS. 2) Houve forte desaceleração do crescimento das exportações (5,2% para 0,5%), fato que não mereceu maiores comentários, nem do próprio IBGE nem de analistas. 3) O investimento (formação bruta de capital fixo) continua declinando à taxa similar nos últimos três trimestres. 4) O impacto da supersafra já ocorreu, e o crescimento da agricultura teve queda (11,6% para 0%). 5) Na Indústria, o pequeno crescimento da extrativa contrasta com a estagnação da transformação e a queda contínua da construção civil. 6) Nos serviços, o único crescimento significativo é o do comércio, o que deve estar associado ao do consumo. Há forte desaceleração em transporte e na Informação e estabilidade ou declínios nos demais itens.

O fato é que o insuspeito Ibre/FGV, por exemplo, projeta alta de apenas 0,1% no terceiro trimestre, crescimento zero no quarto trimestre. Na média do ano, alta de apenas 0,2%, diz o economista Júlio Mereb.

Observe:

Indicadores de volume e valores correntes

Tabela 7 – Taxa Trimestre Contra Trimestre Imediatamente Anterior (com ajuste sazonal – %)

Dados preliminares – 2º Trimestre de 2017

Setor de atividade 2016.II 2016.III 2016.IV 2017.I 2017.II
Agropecuária -0,2 0,7 2,1 11,5 0,0
Indústria 0,5 -1,4 -0,9 0,7 -0,5
Indústria Extrativa 1,6 4,1 0,6 1,8 0,4
Indústria de Transformação 0,0 -1,7 -0,6 1,1 0,1
Prod. e distrib. de eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana 2,7 -1,3 0,0 3,1 -1,3
Construção -1,5 -1,9 -2,6 -0,5 -2,0
Serviços -0,7 -0,5 -0,7 0,2 0,6
Comércio -1,1 -0,4 -0,7 -0,2 1,9
Transporte, armazenagem e correio -2,4 -2,2 -1,5 3,1 0,6
Serviços de informação -0,1 0,3 -2,5 1,9 -2,0
Interm. financ, seguros, prev. complem. e serviços relacionados -2,1 -0,9 -0,3 -0,6 -0,2
Atividades imobiliárias -0,4 0,0 -0,1 0,2 0,8
Outros serviços -1,3 -0,8 -0,7 0,9 0,8
Adm., saúde e educação públicas e seguridade social 0,6 -0,2 -0,6 -0,3 -0,3
Valor adicionado a preços básicos -0,3 -0,6 -0,4 1,0 0,3
PIB a preços de mercado -0,4 -0,6 -0,5 1,0 0,2
Despesa de consumo das famílias -1,3 -0,3 -0,3 0,0 1,4
Despesa de consumo do Governo 0,2 -0,6 -0,2 -0,7 -0,9
Formação bruta de capital fixo 0,4 -2,8 -1,3 -0,9 -0,7
Exportação de bens e serviços -0,5 -2,3 -1,0 5,2 0,5
Importação de bens e serviços (-) 8,3 -3,6 3,3 0,6 -3,5

Estruturalmente, é bom sublinhar ainda que um editorial de 14/06/2017, do jornal Valor Econômico intitulou-se “Derrocada histórica dos investimentos”. De acordo com a análise:

a)apesar de o Produto Interno Bruto (PIB) ter subido no primeiro trimestre, após dois anos seguidos de baixa, a taxa de investimento não reagiu; b) enquanto o PIB avançou 1% do quarto trimestre de 2016 para o primeiro deste ano, a formação bruta de capital físico (FBCF) recuou 1,6%, frustrando as expectativas de crescimento, ainda que modesto; c) em comparação com o primeiro trimestre de 2016, o PIB recuou 0,4%; e a FBCF, nada menos do que 3,7%; d) em relação ao PIB, a taxa de investimento encolheu para 15,6%, o menor patamar da série histórica, ou seja, em 21 anos – muito menor do que o dos países do grupo dos Brics, onde a China brilha com 44%, a Índia, com 31,4%; a Rússia, 25,6%; e até a África do Sul está à frente, com 19,5%. O investimento cai há 12 trimestres seguidos no Brasil – afirmara o jornal.

Para o IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, “A recuperação revela seus obstáculos” -18/08/2107), sinais de um quadro econômico menos adverso continuam se somando na economia brasileira, inaugurando uma fase da qual se espera que venha a superação das pesadas perdas sofridas em 2015 e 2016. Será um processo lento – diz o texto – porque as perdas acumuladas na produção, no emprego e na renda real, assim como no faturamento e nos lucros das empresas foram gigantescas, de modo que somente ao longo do tempo poderão ser revertidas.

Conforme o IEDI, a razão para isso é a existência de: (i) um ambiente macroeconômico ainda pouco favorável ao crescimento econômico, (ii) em função do desemprego elevado, (iii) do atraso do Banco Central em reduzir os juros diante da expressiva desaceleração inflacionária, do crédito escasso (especialmente às empresas) e ainda muito caro (especialmente para as famílias), e (iv) da dificuldade da retomada dos investimentos em infraestrutura frente à contração do investimento público, entre vários outros fatores.

Referindo-se aos problemas estruturais da economia brasileira, Luciano Coutinho, em conferência recente, assegurou que uma trajetória visível para a economia brasileira é a de que o crescimento será muito lento, neste ano e no próximo; que não é possível haver uma trajetória mais positiva “sem que estejam estruturadas as bases para um ciclo de crescimento e de desenvolvimento da economia brasileira, e sem que haja uma compreensão dos desafios no cenário internacional – particularmente aqueles que vêm da grande transformação que está em curso no âmbito da indústria global”. Para ele, se tomarmos a média de 2014, que foi o último ano em que até o primeiro semestre a economia cresceu alguma coisa, e compará-la com meados de 2017, a indústria está com a produção em um patamar 24% menor e a indústria de transformação, 27% menor; a produção caiu mais do que o emprego; em relação à massa salarial, houve uma queda de 22%, indicando a magnitude da erosão do salário real.

Ademais, pesquisas da Confederação Nacional da Indústria apontam que a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB), que já foi de 21,6% em 1985, despencou mais de 10 pontos percentuais em 30 anos, e atingiu 11,40% no ano passado, mesmo patamar de 1947. No caminho inverso, também provocada pela sobrevalorização cambial, a inserção de conteúdo importado na indústria nacional saltou de 16,5%, em 2003, para 26,1%, em 2011, e alcançou em torno de 24% em 2016. Enfim, dados preliminares mais recentes indicam que a presença da IT no PIB pode cair para em torno de 9% em 2017.

Enquanto isso, enfatize-se que os três maiores bancos privados brasileiros voltaram à rotina de lucros em alta, interrompida no ano passado com o aumento dos calotes em meio à depressão econômica: o resultado somado de Itaú Unibanco, Bradesco e Santander atingiu R$ 26,3 bilhões no primeiro semestre, alta de 17% em relação ao mesmo período de 2016.