Nós que nos amávamos tanto, por Carlos Pompe

Este 2009 registra, no dia 18 de outubro, os 30 anos (**) de início da publicação do quinzenário, depois semanário, Tribuna da Luta Operária, que chegou a imprimir edições de 30 mil exemplares e circulou por nove anos consecutivos. Respirava-se uma pequena brisa de democracia.

As eleições não se davam em regime de liberdade de opinião. Presos políticos continuavam encarcerados, oposicionistas eram mantidos exilados ou forçados à atuação clandestina no país. Mas tentou-se a publicação de um jornal socialista, de cunho marxista. Pode-se impedir a liberdade, mas “a liberdade não morre onde restar uma folha de papel para decretá-la”, escreveu Machado de Assis.

Nesse contexto, a direção do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) decidiu lançar um jornal voltado para os trabalhadores, para divulgar as reivindicações e manifestações dos operários e demais democratas e para propagandear o socialismo. O número 0, formato grande, preto e branco, circulou em vários estados, buscando apoio político, financeiro, material e procurando correspondentes para a empreitada. Anunciava (e a este objetivo manteve fidelidade): “Jornal operário, assumimos como nossa a luta pelo socialismo”. Rogério Lustosa, dirigente clandestino do PCdoB, comandava a redação, integrada por Carlos Azevedo, Pedro Oliveira e, vindos da Albânia, após trabalharem na Rádio Tirana, o casal Bernardo Joffily e Olívia Rangel.

Tive contato com esse número especial, quando morava em Maceió, onde atuava em radiodifusão e imprensa e no movimento sindical. De imediato ele respondia a necessidades nossas de um divulgador de idéias e pretexto para contato mais direto com a classe operária. Um organizador coletivo, como indicara o líder da Revolução de Outubro de 1917, Lenin. Com outros camaradas de Partido e do movimento social – em especial a Sociedade Alagoana de Defesa dos Direitos Humanos – organizamos a distribuição ou venda do jornal em edifícios em construção (o pessoal da construção civil e da panificação formava o contingente mais numeroso da classe operária urbana na capital) e aglomerações populares, como os pontos de ônibus na Praça Marechal Deodoro.

Formamos também um grupo de apoio, entre profissionais de comunicação e universitários (empenhados em reconstruir a União Nacional dos Estudantes) para ler, debater e escrever para a Tribuna. Conto como foi em Alagoas, mas esse tipo de experiência ocorria em numerosos locais do país.

Dirigentes partidários passavam a atuar abertamente, apresentando-se como representantes do jornal em reuniões públicas e articulações políticas e culturais que iam abrindo brechas no regime ditatorial. Conquistou-se a anistia, os exilados retornaram e dirigentes históricos e reconhecidos da luta proletária e democrática deram entrevistas, organizaram comitês pela legalidade dos vários partidos – o que seria afinal conquistado com a Nova República.

Adianto-me. São lembranças, não cronologia. Recuo.

No final de 1981, fui incorporado à redação, em São Paulo. Vindo do interior paulista, com rápida passagem pelo Paraná e pelas Alagoas, corri para alcançar os companheiros. Além dos já citados, Altamiro Borges, Domingos Abreu Miranda, Luís Gonzaga, Dilair Aguiar na redação; Luiz Carlos Leite na fotografia; Rúbia da Costa e Sílvio Queiroz no arquivo; Divo Guizone, Márcia Viotto, Lia e o office-boy Rodolfo na administração. Depois outros reforçaram a equipe – Umberto Martins, Yone Shimitzu e seu irmão Mário, Wagner, Maria José Leite (Mazé), Antônio Martins, Laldert, Vinícius (diagramador), Aguinaldo Zordedoni, Claudinha e tantos mais, além dos que, a partir das sucursais ou de vários municípios, alimentavam as páginas da publicação, que, vez por outra, tinha edições especiais. Perdi vários nomes e sobrenomes, com a distância do tempo e a memória falha. Muitos dos mais destacados e conhecidos dirigentes e porta-vozes do PCdoB da atualidade fizeram suas primeiras aparições nacionais nas páginas da Tribuna – eram tribuneiros (eufemismo para comunistas, nos tempos da ilegalidade).

As reuniões de pauta eram discussões políticas que envolviam todos os funcionários, e não apenas a redação. Discutia-se política, sonhava-se o socialismo, atuava-se para minar a ditadura. Divergências que surgissem em torno da orientação política não iam para as páginas do jornal – a publicação era dirigida pelo Partido, não pela redação. Fiéis à orientação leninista para a imprensa partidária, constituíamos um órgão auxiliar da direção. Às vezes tínhamos encontros com o presidente do PCdoB, João Amazonas; outras vezes ele passava pela redação a nos visitar. Ouvíamos atentos suas opiniões e manifestávamos as nossas – mesmo se divergentes –, em clima de camaradagem.

Usando o jornal e vários outros meios de atuação, o Partido crescia e principiava a tornar-se referência para além dos ativistas políticos. A ditadura rosnou, reagiu. Edições foram apreendidas. A sede em São Paulo e a sucursal no Rio de Janeiro foram explodidas pelos terroristas vinculados ao governo militar. O Departamento de Ordem Política e Social (Dops, a polícia política), em vez de apurar responsáveis, apoderou-se de arquivos e máquinas de escrever da redação, proibiu a entrada dos integrantes da equipe na sede paulista e instaurou um processo contra os responsáveis pelo jornal! Tempos bicudos. Quando uma bomba estourou no colo dos terroristas, no Riocentro, no 1º de Maio de 1981, o ditador general Figueiredo engoliu a bomba, mas não engoliu a edição especial da Tribuna denunciando o fato, e mandou recolhê-la.

Nada a temer, senão o correr da luta. Minhas insuficiências teóricas e políticas, substituía-as por certezas dogmáticas. A Albânia era o farol do socialismo para o mundo e podia o império soviético cair, mas ela resistiria. Deng Xiao Ping comandava o retorno do capitalismo na China. Os soldados cubanos lutando na África eram mercenários a serviço do social-imperialismo soviético. Ai do Fidel, no dia em que se deixou fotografar saboreando uma Coca-Cola! Talvez outros compartilhassem essas certezas.

Mas compartilhávamos a convicção de que o capitalismo não pode ser melhorado e deve ser superado pelo socialismo. Denunciávamos a vassalagem do russo Gorbatchov e sua Perestróika e Glasnost diante do governo rancorosamente anticomunista do norte-americano Ronald Reagan. Solidarizávamo-nos com os sandinistas nicaraguenses, com a Frente de Libertação Farabundo Martí, de El Salvador. Desde sempre, condenávamos o racismo do apartheid na África do Sul e apoiávamos o Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela; condenávamos o racismo sionista e apoiávamos a Organização pela Libertação da Palestina, de Yasser Arafat. Demonstrávamos o caráter de classe reacionário da Terceira Via social-democrata, que enchia de ilusões os trabalhadores. Não aceitávamos a anistia restrita e recíproca em nosso país e nem a convocação de uma Constituinte sem que, anteriormente, fossem garantidas as liberdades democráticas e sua soberania. Pelejávamos pela politização das lutas dos trabalhadores e pela unicidade sindical. “Ser radical é tomar as coisas pela raiz, e para o homem a raiz é o próprio homem.” Citávamos Marx e buscávamos iluminar a prática com seu materialismo dialético e histórico.

A luta popular avançou, conquistas foram garantidas. Ganhávamos colaboradores além das fileiras partidárias e muitos do próprio Partido que, na administração ou pela frequência nas páginas, eram quase parte integrante da redação. Arthur de Paula, Clóves Geraldo, Clóvis Moura, Denis Oliveira, Ênio Lins, Jessé Madureira, José Carlos Ruy, José Luiz Pompe, Lejeune Mato Grosso, Luís Fernandes, Luís Manfredini, Luiz Alberto Abreu (autor da peça Bela Ciao e da minissérie Hoje é dia de Maria, da Globo), Luiz Aparecido, Luiz Carlos Antero, Myrian Alves, Paulo Fonteles, Renildo Souza, Roque de Souza, Roseli Fígaro, Sandra Alves, Zé Cruz e tantos mais que meu lapso certamente magoará. Viva o povo brasileiro.

Pouco mais de um ano após o primeiro número do jornal, o PT foi fundado. Era um tempo de afirmação partidária, e insistíamos na defesa da trajetória histórica dos trabalhadores brasileiros – que não começaram a lutar somente no final dos anos 1970 no ABC paulista. Reafirmávamos a história do movimento operário, suas tentativas de autonomia, acertos e erros, a existência do movimento anarquista no início do século, a fundação do Partido Comunista em 1922 e tantos outros episódios heróicos e desafiadores do proletariado. Depois, foi conquistada ampla liberdade partidária. O PCdoB passou a contar com outros instrumentos de atuação – à frente de entidades sindicais, populares, estudantis e, logo, através de mandatos parlamentares. A Tribuna Operária deixou de circular. A Classe Operária, órgão oficial do Partido, voltou a ser editada regularmente. Mais adiante, a internet surgiu como um poderoso, eficiente e acessível meio de comunicação.

Da antiga equipe da Tribuna, alguns enveredaram por outros caminhos políticos. Lia, da administração, tinha 28 anos e dois filhos quando foi esmagada num muro por um motorista bêbado numa manhã de 1º de Maio. O boy Rodolfo foi assassinado, aos vinte e poucos anos, quando bandidos trocavam tiros na periferia paulistana. O coração de Rogério Lustosa, pulsando paixões e política, espocou numa caminhada no Parque do Ibirapuera, num fim de tarde especialmente tenso para ele. Isto foi em mais um outubro, 21, de 1992, e ele ainda não completara 50 anos. Outros outubros virão, outras manhãs, cheias de sol e de luz.

Pedro, Bernardo e Miro foram chamados à tarefa de dirigentes do Partido e cuidam do Portal Vermelho. Olívia é dirigente do PCdoB em São Paulo e ensina novas gerações de jornalistas, na universidade. Umberto continua a nos ajudar a entender melhor os meandros da economia a partir de uma análise marxista e perspectivas revolucionárias e edita o Portal da Confederação dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). Laldert é o webdesigner do Portal da CTB. Alguns de nós já estamos estragando com mimos e manhas a netaiada. Eu, interiorano teimoso e ambicioso, ainda persisto em alcançá-los. Continuo correndo. E o que foi feito é preciso conhecer, para melhor prosseguir.

*Carlos Pompe é jornalista e curioso do mundo

**Texto publicado, originalmente, em 2009, no Portal Vermelho