Individualismo, egoismo, alienação, por Zillah Branco

 

O sistema capitalista vem trabalhando ha mais de um século para destruir a cordialidade entre as pessoas, a solidariedade natural que fortalece o convívio, para despertar o individualismo que se sobrepõe à qualquer partilha comum aos afetos.

O objetivo é vencer e ultrapassar todos, ser admirado e até invejado pelas suas conquistas, pela segurança com que fala de cima para baixo, pela capacidade de usar o seu poder em qualquer lugar e ver o medo em quem o serve. O mundo está aos seus pés, a humanidade vive para serví-lo e para isto deve ser útil e prestável.

A quem serve esta postura autoritária e de superioridade em relação aos que se subordinam? Certamente a quem já detém um poder: económico, político, social ou militar. Ou seja, a quem tem o privilégio de mandar nos cidadãos que dele dependem. A dependência de uns (a maioria dos cidadãos) por outros (uma elite que concentra o poder), devido à desigual distribuição das riquezas, da formação, da saúde, das condições de vida e trabalho. Portanto, a inexistência de um regime democrático.

Os psicologos e psiquiatras deviam divulgar os males causados pela formação individualista, que tem sido globalmente manipulada pelos “donos do poder” através dos meios de comunicação social e variadas formas de publicidade enganosa. As maiores vítimas de tal pressão social são as crianças e adolescentes, mas também adultos que cresceram com medo dos seus “superiores” e ainda os idosos e pessoas com carências orgânicas que reduzem a capacidade de se defenderem dos abusos dos prepotentes.

Por um lado, esta idéia de “superioridade” deforma o caracter da pessoa afastando-a do relacionamento normal com o outro que é considerado “inferior” por não ter tido os mesmos privilégios na sua formação; por outro lado, o conceito de superioridade deriva da sobrevalorização da riqueza ou da força, desconhecendo os valores éticos e filosóficos do outro. Quem se considera “superior” torna-se egoista, para não ajudar os demais que pretende dominar ou simplesmente despreza.

Em torno do egoista surgirão os mais débeis (que aceitam a proteção de um “superior”, e os falsos amigos que o vão bajular para receber esmolas), mas dele se afastarão os que defendendem os seus direitos e a sua dignidade humana. É o quadro que as sociedades modernas hoje apresentam com maior visibilidade.

Esta é a imagem do próprio sistema capitalista que pretendeu abrandar a violência do comando anterior, medieval, de reis e chefes de Estado que condenavam à morte quem ousasse contrariar o seu poder ou à miséria os que não eram úteis às suas pretensões. Foi desenhada uma imagem com traços de democracia e de humanismo para permitir que os “inferiores” sobrevivessem com algum recurso financeiro para movimentar o mercado que alimenta o poder instituido. Em lugar da solidariedade que une os humanos por afeto, foi generalizada a “caridade” que distribui esmolas e promove o doador, mais uma vez definindo o “superior” que doa e o “inferior” que recebe. A violência física anterior foi substituida pela aparente benevolência dos poderosos, com a força da ilusão do respeito humano.

À medida em que o sistema capitalista aperfeiçoa a sua falsa imagem democrática, os individualistas fechados no seu egoismo alienam-se da capacidade de relacionamento afetivo. Muitos passam a sofrer do medo de se humanizarem, reconhecendo aí o seu ponto frágil para desmoronar aquela fortaleza aparente criada pelo seu ego e pelo poder que sabe exercer. Na verdade sabem que não construiram a auto-estima que só é sólida quando fazem parte de um coletivo que mantém laços de afeto e respeito mútuo – a família ou o grupo com que convive em igualdade de condições.

Se analisarmos os líderes populares que despontaram no mundo no último século e os Chefes de Governos que têm sido eleitos nas repúblicas de todos os continentes, vemos que o sistema capitalista sempre perseguiu e sacrificou os que assumiram valores humanistas e defenderam o caminho democrático e, ao contrário, tem apoiado um modelo perverso de Chefe de Estado, capaz de renunciar aos seus valores éticos e representar o papel de fantoche manipulado por um poder oculto, para esmagar o humano e promover o capital. O resultado tem sido traduzido na “austeridade” do povo trabalhador e no enriquecimento de alguns bilionários, com ar de mecenas para salvar náufragos, e de uma elite que domina as finanças controladoras da produção e da vida nacional.

É natural que os Presidentes ou Chefes de Governo eleitos ou golpistas sejam, cada vez mais, carentes de valores humanos essenciais (Bush, Temer, Trump, Rajoy, Theresa May, e tantos outros) para cumprirem o que o super-poder imperialista determine sem qualquer interferência de inteligência natural ou emoção humana. São “papagaios” que repetem o que lhes mandam dizer e evitam pensar para não sairem da linha. Burrificam-se e pensam que o povo é como eles, estupido também. O problema é que impõem decisões estúpidas que destroem as sociedades, provocam guerras, matam os mais pobres de fome, doenças e os crimes que divulgam como tema principal dos meios de comunicação.

* Zillah Branco é Cientista Social, consultora do Cebrapaz. Tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde.

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