Distopia na universidade, por Lilia M. Schwarcz

Operação policial para conduzir coercitivamente professores da UFMG ligados à Comissão da Verdade em Minas Gerais é sinal de que vivemos de fato em um estado de exceção.

Hoje, às seis da manhã, a professora Heloisa Starling foi acordada pela Polícia Federal com um mandado de condução coercitiva. Ex-vice-reitora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no passado, ela não sabia (e não sabe) se estava sendo levada na condição de testemunha ou de investigada. Também receberam o mesmo tipo de tratamento o atual reitor da UFMG, Jaime Ramirez, a vice-reitora Sandra Goulart, o ex-reitor Clélio Campolina e mais professores da universidade.

Não só os acusados, mas também os seus advogados foram impedidos de ter acesso ao processo. Pela imprensa se soube que a PF investigava a construção do Memorial da Anistia, cujo processo data de 2009, tendo tido todas as suas prestações de contas aprovadas.

Para provocar os professores e a comunidade universitária, a investigação foi chamada de Esperança Equilibrista, numa clara alusão à canção “O bêbado e a equilibrista”, em que Elis Regina canta o oposto: lamenta aqueles que partiram “num rabo de foguete” por causa da ditadura militar (1964-85) e da suspensão da regularidade democrática. De um Brasil “que sonha/ com a volta do irmão do Henfil/ com tanta gente que partiu/ num rabo de foguete// Chora a nossa Pátria mãe gentil…”.

A operação nada tem de esperançosa nem de equilibrista. Foi iniciada uma semana após o lançamento do relatório da Comissão da Verdade em Minas Gerais, bem às vésperas da votação da reforma da Previdência.

A intenção é clara. Conduzindo coercitivamente professores que nada têm a esconder, e jamais se recusaram a se apresentar e colaborar, ela visa humilhar, desmoralizar mestres, a universidade, a pesquisa acadêmica, a educação e a intelectualidade crítica de forma geral.

O Memorial da Democracia almeja homenagear aqueles que lutaram contra a ditadura e o regime militar, e não esquece de outros memoriais erguidos para não deixar esquecer as vítimas da Alemanha nazista, do regime do Apartheid na África do Sul e da ditadura de Pinochet. História e memória são sinaleiros importantes da nossa saúde democrática. Quando são elas que se encontram em perigo é preciso prestar atenção.

Assim como ocorreu em Santa Catarina, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), novamente a PF, com a Controladoria Geral da União (CGU) e o Tribunal de Contas da União (TCU) que, todos combinados, promovem um verdadeiro circo.

No caso de Santa Catarina, o resultado foi o suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, que passou pelo mesmo tipo de humilhação e foi proibido de pisar na sua universidade. Diante da exposição pública a que foi sujeito, ele achou melhor fazer  um gesto extremo e acabar com sua vida.

Passado bem mais de um mês, nada foi comprovado e a honra do professor também não foi restituída. Sua morte jamais será.

No total, oito pessoas foram conduzidas coercitivamente. Sabe-se que, até prova em contrário, o suspeito é suspeito: é inocente. No caso do Brasil parece ocorrer o contrário: os fatos não foram apurados, mas suspeitos são mais que suspeitos. Essa não parece ser a exceção que confirma a regra, mas sim a regra no Brasil.

O que sim é exceção, é o estado em que estamos vivendo: um estado de exceção, um estado policial.

Vale recordar a letra da música usada de forma basicamente cínica nessa operação. Neste caso a utopia era inversa: uma distopia.

 

Mas sei que uma dor assim pungente

Não há de ser inutilmente

A esperança

Dança na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha

Pode se machucar

Azar!

A esperança equilibrista

Sabe que o show de todo artista

Tem que continuar

 

No nosso exemplo presente é o show da Polícia Federal, que “precisa” continuar. Mas a que preço!