Os impactos petropolíticos da Venezuela

O grupo Insight Comunicação, do Rio de Janeiro, vem de constituir um trabalho bem importante, enviando matérias selecionadas com estudos e matérias percucientes da economia, relações internacionais, geopolítica e outros temas. Seus integrantes são Alessandra Bizoni, Rafael Massadar,  Rodrigo Miguez, Janaína Salles, Marília Ferreira e Vania Santos.

Selecionei esta matéria de uma pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, tratando da questão petrolífera e a crise na Venezuela. Tema explosivo, haja vistas a assombrosa declaração de ex-ministro venezuelano concernente a propor uma invasão militar naquele país. Ricardo Haussmann é ex-ministro do Planejamento da Venezuela, de 1992 a 1993, quando o país estava sob o controle direto dos neoliberais; ex-economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento e diretor do Centro para Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard. É um típico caso em que o autor devia ser considerado criminoso de guerra antes de qualquer combate.

Vamos ao estudo da FGV.

Detentora de uma das maiores reservas de petróleo, gás natural e minérios (ferro, ouro, bauxita e diamantes) da América Latina e Caribe, a Venezuela caminha para se tornar uma ditadura. O país sofre ainda com uma crise econômica que pode ser explicada pela queda do preço do petróleo e uma série de fatores para que sua a produção de um barril tenha custo alto.

“A produção de petróleo do país é de mais de 2,3 milhões de barris ao dia (2016), dos quais 1,8 milhão são exportados. A capacidade de refino nacional é de aproximadamente 1,9 milhão de barris ao dia. Entretanto, os pesados óleos venezuelanos fazem com que a produção de um barril de petróleo tenha custo aproximado de US$ 276, o que a coloca na quarta posição entre os países de maiores custos de extração”, destaca a pesquisadora da FGV Energia, Fernanda Delgado.

A especialista ressalta que o óleo pesado é difícil de produzir, devido à sua alta viscosidade, e caro de refinar em função do alto teor de enxofre e metal. Fernanda Delgado lembra, no entanto, que entre os anos de 2002 e 2003, Chávez demitiu quase 20 mil empregados da PDVSA, substituindo-os por funcionários considerados leais ao seu governo. “Essa demissão em massa reduziu significativamente a experiência da indústria venezuelana de petróleo. Como forma de melhor explorar as reservas de óleo extremamente pesado, o governo da Venezuela incentivou a entrada de petroleiras internacionais para atuarem no desenvolvimento das reservas”, explica a pesquisadora da FGV Energia.

EUA – A produção de petróleo da Venezuela é basicamente toda exportada, com alta concentração para os EUA, destino final de 38% do petróleo bruto exportado venezuelano, o que, para Fernanda Delgado, “torna o país vulnerável e com restritas margens de manobra em relação a este parceiro comercial, demonstrando alta vulnerabilidade”, destaca.

China e Rússia – Em um contexto de aproximação da Rússia na América Latina, Moscou tem buscado se apresentar como um garantidor da ordem diante da hipótese de uma Venezuela asfixiada. Para não desmoronar, o governo venezuelano tem recebido dinheiro e crédito russos em troca de valiosos ativos de petróleo, o que vem tornando as estatais PDVSA e Rosneft cada vez mais próximas.

“Dentre os projetos oferecidos pela PDVSA à Rosneft, o mais valioso é uma participação de 10% no Petropiar, um projeto multibilionário para produzir e melhorar o petróleo pesado do Orinoco Belt. Adicionalmente, a Rosneft também tem se posicionado como intermediária na venda do petróleo venezuelano pelo mundo, e, principalmente, às refinarias americanas, destino de maior parte do petróleo produzido na Venezuela”, explica pesquisadora da FGV Energia.

Fernanda Delgado aponta também que a PDVSA tem acordos com a estatal chinesa CNPC visando o desenvolvimento e operação da refinaria Nanhai, com capacidade de 400.000 barris por dia, em Jieyang, localizada na Província de Guandong, na China. Juntamente com a formação de uma joint venture a ser denominada petrochina PDVSA, a especialista explica que os acordos estabelecem os termos tanto para o fornecimento de petróleo venezuelano a ser processado na refinaria como também a venda de produtos acabados que serão produzidos no local.

Colapso – Os Estados Unidos, por sua vez, têm restringido sua ação em sanções contra altos funcionários do governo chavista, o que pode provocar um colapso mais severo da economia venezuelana, ainda que o setor petroleiro não seja considerado. Fernanda Delgado, observa, no entanto, que mesmo em meio a crises de cunho diplomático com a Venezuela desde a ascensão de Hugo Chávez, os EUA nunca deixaram de ser um cliente assíduo no mercado de petróleo.

“Diante da aproximação de Rússia e China, indiferentes à retórica política ocidental de respeito pela democracia ou pelos Direitos Humanos, a Venezuela encontra parcerias fundamentais para barrar o colapso generalizado em seu setor de óleo e gás. Para Moscou e Pequim, a presença em um espaço geopolítico historicamente vinculado aos EUA torna-se estratégico, enquanto o regime político na Venezuela, independentemente de qual seja, mantenha a estabilidade de seus negócios, e garanta a estes a hegemonia sobre a maior reserva de hidrocarbonetos do mundo”, analisa.