A Teocracia do Tiro, Porrada e Bomba, por Sérgio Rubens

EUA – um império pontilhado, global e invisível

Tropas dos EUA perto de helicópteros Ch-53 Delta,
em 23 de abril de 2002, na Base da Força Aérea das Filipinas
em Angeles, Filipinas – Gabriel Mistral / Getty

 

Os Estados Unidos não são apenas a forma que se pode ver no mapa – é um império em expansão

cujo alcance atinge não apenas territórios e colônias formais, mas todos os cantos do mundo.

 

Entrevista com Daniel Immerwahr, por Tanner Howard (*)

O desenho dos Estados Unidos é uma forma familiar. É uma imagem conhecida em todo o mundo, para o bem e para o mal; a expansão para o oeste definiu formalmente o continente americano com a incorporação do Arizona e do Novo México em 1912.

Mas como o historiador Daniel Immerwahr argumenta em “Como ocultar um império”, esse mapa familiar mais esconde que revela. Naturalmente, esse mapa omite seus dois estados mais recentes, Alasca e Havaí, localizados a centenas de quilômetros do continente. Mas também exclui colônias duradouras, como Porto Rico e Guam, e as inúmeras bases militares, territórios não incorporados e terras anteriormente ocupadas que os EUA outrora reivindicaram.

Ao não pensar nesses espaços quando se pensa nos Estados Unidos como um país, argumenta Immerwahr, não se pode compreender muitos momentos importantes de sua história.

O livro de Immerwahr é um catálogo estranho e revelador das muitas peculiaridades dos Estados Unidos. Ao revelar o império “pontilhado” que permite aos EUA exercer influência em todos os cantos do globo, Immerwahr revela um legado imperial que sobreviveu à onda global de anticolonialismo no final da Segunda Guerra Mundial. Menos dependente do controle espacial imediato, o império americano do pós-guerra passou a dominar o mundo graças ao comando do mercado, dominação que é central para a economia e a política em todo o mundo.

Tanner Howard – No rascunho original para seu discurso após o ataque japonês a Pearl Harbor, Franklin Delano Roosevelt (FDR) mencionou as Filipinas e o ataque que sofreu quase simultaneamente ao que atingiu o Havaí. No entanto, quando falou ao povo americano naquela noite, as Filipinas foram deixadas de lado no discurso do presidente. Você usa essa omissão para enquadrar a forma como se imagina os EUA, divorciados de suas enormes possessões territoriais. O que tornou essa omissão tão significativa?

Daniel Immerwahr – Filipinas era a maior colônia dos Estados Unidos em 1940 ou que, na verdade, já tiveram, e foi atacada na mesma ação contra Pearl Harbor, com poucas horas de diferença. É um conjunto realmente interessante de questões que Roosevelt teve que enfrentar para tentar convencer o público continental que isso era algo que devia levar à guerra. Achei fascinantes os rascunhos de FDR sobre isso, e a tentativa de resolver esse problema ao escrever aquele discurso.

O primeiro esboço descreve o evento como um ataque ao Havaí e às Filipinas, mas omite Guam. Então se pode apenas ver FDR quase repensando isso e imaginando se funcionaria. Não se sabe o que estava pensando na época, mas suspeito fortemente que estava ciente de quantos no continente não se sentiam entusiasmados com a defesa dos territórios do extremo oeste dos Estados Unidos. Pesquisas de opinião da época indicam que, mesmo quando se fala sobre o Havaí, uma pequena maioria apoiou as Forças Armadas dos EUA em sua defesa; esses números são menores em relação às Filipinas e Guam.

Então se pode imaginar FDR riscando as Filipinas como um alvo proeminente, e tentando transformar o discurso em uma fala sobre o Havaí, e suspeito que pensasse que funcionaria um pouco melhor para seus propósitos narrativos – é mais branco, mais próximo dos EUA continental, e pode citado como “América”. Na verdade, ele inseriu a palavra “americano” no discurso – foi uma das últimas mudanças que fez, de modo que, em vez de apenas descrevê-lo como um ataque à ilha de Oahu, descreveu como um ataque à ilha americana de Oahu.

Em última análise, isso serviu ao seu propósito pois permitiu que fizesse a declaração de que o império do Japão atacou os Estados Unidos da América. Essa é a coisa que ele queria que seu público entendesse.

Há tantas maneiras pelas quais os territórios ultramarinos dos EUA estão escondidos da vista, e esta é uma chance para ver de uma maneira extremamente direta e consequente. Havia, durante a guerra, entre o público no continente e até certo ponto entre líderes em Washington a sensação de que as Filipinas eram estrangeiras para os EUA. Isso teve consequências devastadoras e letais para as Filipinas.

A Segunda Guerra Mundial foi o evento mais sangrento de todos os tempos nos EUA, e muito disso tem a ver com sua estratégia em relação às Filipinas. Primeiro permitindo que se tornassem uma zona de sacrifício ante o Japão, o que permitiu que os Estados Unidos colocassem suas forças e se concentrassem no teatro europeu. E segundo, quando os EUA “libertaram” as Filipinas, o fizeram com bombardeios razoavelmente gerais, que acabaram matando tanto filipinos, que eram nacionais dos EUA, quanto japoneses. Essa estratégia salvou a vida dos soldados do continente, mas foi profundamente destruidora para a maior colônia dos Estados Unidos. Em um mês, as forças americanas e japonesas dizimaram Manila, que era a sexta maior cidade dos territórios dominados pelos EUA.

TH – No final da Segunda Guerra Mundial, você descreve uma imagem impressionante: mais da metade da população que vivia sob jurisdição dos EUA de alguma forma estava fora dos quarenta e oito estados que haviam. Mas a supervisão militar direta dos EUA de territórios estrangeiros diminuiu rapidamente: em 1945, 51% da população dos “Grandes Estados Unidos”, incluindo territórios ocupados, viviam fora do continente, enquanto em 1960, com o Havaí e o Alasca agora incorporados como estados, eram apenas 2%. Como e por que os EUA perderam sua marca física tão rapidamente nesse período?

DI – Não vejo isso como um súbito início de altruísmo dos Estados Unidos. Não vejo isso como falta de interesse em exercer influência no mundo. Em vez disso, tem a ver com as escolhas de Washington sobre como exercer essa influência, que tipo de pegada territorial os Estados Unidos exigirão para ter a hegemonia global.

Duas coisas aconteceram na década de 1940 e depois – a ajuda definiu a forma do poder. Uma delas é uma séria revolta mundial contra o imperialismo pelos povos colonizados, tanto dentro quanto fora dos EUA, elevando o custo do colonialismo. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos dominaram novas tecnologias que permitiram projetar seu poder sem manter grandes colônias povoadas, tecnologias que diminuíram a demanda pelo colonialismo.

Isso não significa que os Estados Unidos não precisassem mais de terras: não precisavam de grandes extensões, podendo se contentar com pequenos trechos. Surgiu assim um império “pontilhado”: ao olhar para todo o território ultramarino dos EUA hoje e misturar toda sua extensão, a área seria menor do que Connecticut. Essas são as colônias e bases militares que conhecemos.

São centenas de pontos extremamente importantes que os Estados Unidos controlam ao redor da Terra, e seria um erro reduzi-los a zero e não entender realmente como são cruciais para o exercício do poder dos EUA hoje.

TH – Um personagem surpreendente em seu livro é o presidente Herbert Hoover, dos EUA. E, como você o descreve, foi fundamental para a maneira pela qual a América se transformou em um império no pós-guerra. Como Hoover exerceu uma influência desmedida na criação de nosso mundo contemporâneo?

DI – No início do século XX, se podia imaginar duas visões alternativas de poder. Uma é a de Teddy Roosevelt, segundo a qual a maneira de expressar o poder é reivindicar terra, subjugar as pessoas que vivem nela e preenchê-la com colonos brancos. Herbert Hoover tem outra visão para o poder dos EUA, que não é o poder exercido através do império territorial, mas através de mercados que operam suavemente.

Gastou uma quantidade enorme de tempo pensando em como tornar esses mercados mais fáceis, e estava particularmente interessado em reformular objetos para que a economia mundial pudesse operar com mais facilidade. Por exemplo, promoveu uma série de padronizações que se tornaram as sementes das padronizações globais, entre elas a famosa e impressionante padronização de roscas de parafusos.

No século XIX, os EUA era um país industrializado e usava parafusos como fixadores universais. Mas diferentes fabricantes faziam parafusos diferentes que tinham diferentes ângulos, diferentes diâmetros. Isso é extraordinariamente difícil quando se tenta trabalhar num contexto econômico: digamos que uma máquina quebre e precise de um parafuso, será preciso voltar para o fabricante, e se esse fabricante está fora do negócio, está tudo ferrado.

Herbert Hoover padronizou isso nos Estados Unidos a um custo econômico alto para os fabricantes. Mas essa rosca tornou-se a base para a rosca global. Assim, de certa forma, Herbert Hoover foi um profeta mais presciente da forma do império americano do que Teddy Roosevelt.

TH – Os Pais Fundadores da nação originalmente viam a expansão para o oeste com suspeita. Mas, em poucas décadas no século XIX, o país se expandiu para o oeste, bem além do ritmo e distância do que o esperado. O que mudou durante esse tempo?

DI – Jefferson e Washington ficaram muito felizes em ver seu país crescer, mas não esperavam que isso acontecesse rapidamente. O que não entenderam completamente, mas Benjamin Franklin sim, foi a forma explosiva do crescimento da população de colonos. O início dos EUA foi demograficamente sem precedentes. Não havia um país na história moderna crescendo nesse ritmo sustentado, e isso os líderes políticos demoraram a entender.

O enorme crescimento populacional resultou em parte da imigração, mas em grande parte apenas do parto; empurrou as fronteiras do país para o oeste mais rapidamente do que Jefferson pudesse esperar. Em 1803, quando Jefferson contemplava a compra da Louisiana, imaginou que a terra adquirida seria usada principalmente para os nativos americanos, e que a parte daquela terra necessária para assentamento branco seria apenas um pequeno trecho em Nova Orleans. Não achava que haveria muita pressão populacional – imaginava que os brancos se acomodariam de maneira compacta.

Eles absolutamente não o fizeram, e a transição daquela visão de expansão para a que dominou no período jacksoniano (década de 1830 – Nota da Redação) foi decisiva. Naquele período, estava claro que os Estados Unidos estariam comprometidos com alguma forma de ocupação colonial, envolvendo o deslocamento frequente dos indígenas. O que é extraordinário nos EUA em meados do século XIX é quantas remoções de índios ocorrem. Quantos grupos recebem residência “permanente” a oeste do Mississipi, e depois de meia geração foram obrigados a partir novamente?

TH – Quais são as maiores consequências da maioria dos americanos não compreenderem a extensão total do império global dos EUA?

DI – Muitas vezes, o debate sobre se os Estados Unidos são um império é sobre seu caráter, seja uma força de libertação ou dominação no mundo. Muitas vezes, simplesmente se é bom ou ruim. Em meu livro, não procurei difamar ou venerar o país, mas descrevê-lo, especialmente seus territórios e colônias ou apenas posições no mundo.

Minha maior intervenção não pretende mudar o senso de quem são os Estados Unidos em termos de caráter, mas mudar a percepção das pessoas de onde está geograficamente. Para muitas pessoas, isso pode ser uma grande mudança, porque, normalmente, quando os historiadores pensam nos EUA tendem a considerar apenas o continente e assim tratam sua história em grande medida. Mas essas não são as fronteiras legais do país e, quando se faz isso, se chega a uma história truncada, deixando de fora muitas coisas mais difíceis de explicar quando só se vê parte do país.

Mas, considerando a coisa completa, ela se torna transparentemente.

TH – Que exemplos ilustram essa falta de compreensão?

DI – Um exemplo é o nacionalismo porto-riquenho. Nas décadas intermediárias do século XX, foi uma força importante – não apenas nas ilhas, mas no continente. Isso levou a sete revoltas em Porto Rico culminando em uma tentativa de assassinar o presidente Truman. O nacionalismo porto-riquenho levou a um tiroteio envolvendo cinco parlamentares na Câmara dos Deputados dos EUA. O fato de que isso muitas vezes seja surpresa para as pessoas, mesmo com PhD em história dos EUA, parece-me um exemplo da forma como essa história fica truncada.

Outro exemplo importante é o 11 de setembro. A Comissão do 11 de setembro disse em seu relatório: “Foi uma surpresa que alguém tão distante – isto é, um saudita no Afeganistão – tivesse opiniões tão fortes sobre os Estados Unidos.”

Mas é claro que, da perspectiva de Osama bin Laden, os Estados Unidos não estavam longe. Seu foco principal era uma base militar dos EUA, uma base que seu pai havia ajudado a construir, uma base que ele afirmava ter bombardeado, uma base que lhe parecia ser a implantação de infiéis estrangeiros nas terras de Meca e Medina, na Arábia Saudita. Sempre que Osama bin Laden explicava por que fazia guerra aos EUA dizia que criaram a base militar na Arábia Saudita. Mas quando se pensa apenas nos EUA apenas como o território continental, e não como uma nação que tenha postos avançados, colônias e pontos por todo o planeta, é fácil não entender isso. É fácil pensar em Osama bin Laden reagindo apenas ao caráter moral do país: “Eles nos odeiam porque somos livres”, disse Bush.

Mas não é apenas o 11 de setembro – há muitos eventos na história global que giram em torno das bases. No meu livro, falo sobre os Beatles surgindo como uma “banda base”, trabalhando à sombra da maior base militar dos EUA na Europa, que ficava bem em frente ao Liverpool. Falo sobre o crescimento da Sony, que teve seu início no Japão ocupado do pós-guerra, copiando tecnologias dos EUA e se orientando para o mercado dominante dos EUA. Falo sobre o filme “Godzilla”, que em sua versão japonesa original, “Gojira”, era uma espécie de filme de protesto contra os Estados Unidos usando ilhas do Pacífico para testar armas atômicas.

Meu ponto não era dizer que as bases são uniformemente detestadas onde quer que estejam. O colonialismo é sempre complexo. Sempre envolve alguma participação e alguma quantidade de protesto. Eu queria contar a história das bases como zonas de contato ricas, lugares que realmente alimentam o ressentimento, mas também estimulam a curiosidade e todos os tipos de relações complexas da maneira que os EUA plantaram em todo o mundo.

TH – Um dos marcadores mais distintivos da persistência do império americano são as Ilhas Marianas do Norte, tomadas aos japoneses após a Segunda Guerra Mundial, mas não oficialmente incorporadas ao território dos EUA. Até 2005, as ilhas abrigavam fábricas que exportavam mais de US$ 1 bilhão em roupas para grandes empresas dos EUA, graças ao seu status legal único. O que essas ilhas representam hoje na constelação mais ampla do império dos EUA?

DI – Uma qualidade dos vários pontos do império dos Estados Unidos é sua localização. Estão em locais estrategicamente significativos. Outra é que geralmente estão em locais legalmente estratégicos e, portanto, Saipan é território dos EUA, mas por ser parte de um território não incorporado, não se enquadra automaticamente na lei federal dos EUA e tem funcionado na história do trabalho como uma espécie brecha legal.

Fiquei muito interessado no modo como não só os principais varejistas do vestuário, como a J. Crew, usavam Saipan, que de outra forma não seria um local particularmente conveniente para fazer roupas. Mas também me interessei pelo modo como Jack Abramoff, o notório lobista, se apegou a Saipan, como fez em outros contextos coloniais, como brechas legais a serem exploradas.

Abramoff foi, por algum tempo, o principal lobista de Washington, mas, surpreendentemente, não representou empresas que constam da Fortune 500 – mas a Comunidade das Ilhas Marianas do Norte, Guam, Porto Rico, vários grupos indígenas americanos. Há uma razão: ele entendeu que o império é uma fonte de anomalias legais. Ele operava exatamente na mesma lógica usada em Guantánamo, como um lugar onde os EUA poderiam interrogar os presos sob sua jurisdição, mas livres das restrições de sua lei federal.

TH – Hoje, embora o império dos EUA não mostre sinais de diminuir, ele parece, de outras formas, incerto. Por exemplo, os apelos de Trump para deixar o Afeganistão e a Síria foram recebidos principalmente com confusão, pois não envolviam um senso claro de previsão estratégica. O que você acha desse momento na história do império dos EUA?

DI – Uma coisa clara é que Trump, que muitas vezes diz em voz alta o que poucos dizem, ele tem um senso geográfico muito claro dos Estados Unidos como o continente ameaçado pelo mundo ao seu redor. Ele e sua administração são frequentemente confundidos por quem que não está no continente. É muito difícil dar sentido à cacofonia da política externa de Trump, mas parece claro que ele imagina os EUA espacialmente como o tipo de lugar em torno do qual se pode e deve construir um muro. As posições ultramarinas do país são coisas que o deixam profundamente desconfortável, e ele só vê o país nas fronteiras do continente.

TH – O fim da influência americana no exterior poderia ser visto como algo bom. Mas na administração Trump tem sido reacionário e confuso. Como você tenta se dedicar a uma futura presidência de esquerda que realmente funcione para desmantelar o império americano?

DI – Trump é enamorado pela força militar dos Estados Unidos e excitado pelo esforço violento, mas está tão desconfortável com o entrelaçamento entre o doméstico e o estrangeiro que mesmo acordos conjuntos, bases militares e territórios ultramarinos parecem desconfortá-lo até certo ponto. Isso o empurrou para uma política interessante. Posso imaginar uma política externa anti-imperialista autoconsciente que tentasse retratar o império dos EUA – menos medo do estrangeiro que parece estar governando os instintos de Trump, mais do desejo de que os Estados Unidos se aproximem do mundo como um todo, um país entre outros, ao invés de uma força hegemônica dominante.

Há uma ironia na posição de Trump – seu temor do estrangeiro o levou ao que na superfície às vezes parece uma posição anti-imperialista. Mas isso não é incomum na história dos EUA. Depois de 1898, alguns dos mais anti-imperialistas, os que não queriam que os EUA anexassem territórios ultramarinos, eram racistas, e não queriam ver povos não-brancos na fronteira.

Não acho que um anti-imperialismo baseado na repulsa ao estrangeiro e no desejo de limitar o envolvimento com qualquer parte do mundo, seja um anti-imperialismo humano ou de sucesso. Pode parecer mais a forma como a desconsideração da administração Trump em relação a Porto Rico busca limitar o financiamento no rescaldo de dois furacões devastadores. Essa é, de fato, uma maneira dos Estados Unidos aliviarem sua presença em seu maior território, mas não acho que seja aceitável a qualquer pessoa que pense direito.

 

Daniel Immerwahr é professor de história na Northwestern University, autor de “Como esconder um império e pensar pequeno: os Estados Unidos e a atração do desenvolvimento comunitário”; Tanner Howard é jornalista e estagiário editorial do In These Times. São membros do Democratic Socialists of America (Socialistas Democratas da América).

Fonte: Jacobina; tradução: José Carlos Ruy

Neoliberalismo: a crise oculta da Alemanha

 

Os liberais elogiam a Alemanha moderna como uma grande história de sucesso.

Mas por trás do verniz da prosperidade, o ressentimento cresce entre os alemães comuns.

Entrevista com Oliver Nachtwey, por Julia Damphouse (*)

Desde a reunificação alemã em 1990, o centro político da Europa tem gravitado entre Bruxelas e Berlim. Nos confrontos sobre o futuro da zona do euro, o governo de Angela Merkel consistentemente se posicionou como defensor da ordem e estabilidade, contra o caos desencadeado pelas nações devedoras. No entanto, a situação não é tão bonita no quintal da própria Merkel. Com os dois principais partidos de centro caindo nas pesquisas e a extrema direita em alta, a atenção dos analistas se volta para os males sociais subjacentes ao verniz de sucesso.

Autor do livro recente “A crise oculta da Alemanha“, Oliver Nachtwey fala sobre o declínio na mobilidade ascendente, a queda das expectativas e as razões por que a ordem política pós-Segunda Guerra Mundial começou a rachar.

Julia Damphouse – A economia alemã é frequentemente retratada na mídia internacional como excepcionalmente estável, uma história de sucesso quando comparada a economias europeias “voláteis” ou endividadas. O que esses analistas não veem e como você vê as coisas de maneira diferente?

Oliver Nachtwey- No mais escuro da noite, mais brilhante as estrelas. A Alemanha vai muito bem quando comparada com outros países capitalistas avançados, e depois de 2005 também ia melhor do que fora nos primeiros quinze anos após a reunificação. Mas, em termos mais gerais, a Alemanha está no mesmo caminho de maior estagnação e crescente desigualdade, como os demais países capitalistas avançados.

A taxa média de crescimento anual, nos anos 1950 e 60, fora quase 5%, enquanto o aumento do PIB contemporâneo tem sido comparativamente muito modesto. Apesar de se falar em um boom na economia alemã, desde 2000 o que se vê é uma taxa de crescimento médio de pouco mais de 2%.

Mais significativamente as mudanças econômicas e institucionais desde o início dos anos 2000 prejudicaram substancialmente o antigo modelo alemão de capitalismo domesticado, que incluiu um nível relativamente elevado de segurança social, níveis modestos de desigualdade, e um alto nível de participação social e política.

Até o início dos anos 1990 os alemães ocidentais poderiam geralmente esperar o que nos referimos como “relações trabalhistas normais.” Para os trabalhadores, isso significava um trabalho com contrato permanente, proteção contra demissão e integração no sistema de segurança social do estado, incluindo seguro de saúde e de desemprego. Muitos também tiveram a oportunidade de participar de um processo de co-determinação, que lhes deu alguns elementos rudimentares da democracia econômica. Além dos benefícios materiais óbvios, isso também proporcionou um forte senso de segurança. Os trabalhadores sentiram o que podiam esperar de sua situação de emprego e podiam planejar seu futuro com um grau de certeza elevado. No entanto, este período não deve ser pintado como uma idade de ouro. Enquanto o alemão – essencialmente masculino, da classe trabalhadora, estava subindo até a década de 1970, “trabalhadores convidados” foram trazidos para a Alemanha, mas foram rapidamente removidos novamente durante a primeira crise econômica. E naquele tempo o emprego normalmente era geralmente reservado a um alemão.

Agora, a desigualdade está em ascensão e o risco para as pessoas aumenta, assim como a mobilidade para baixo na escala social. A crise política levou a um alto nível de instabilidade no sistema partidário, permitindo que a extrema direita encontre um lugar.

JD – O que causou esta mudança que levou à mobilidade social descendente?

ON – A deterioração das relações trabalhistas é a principal causa da transição para uma sociedade caracterizada pela mobilidade descendente.
Na década de 1960, quase 90% dos empregos eram regidos pelas chamadas “relações trabalhistas normais”. Mas desde então a situação mudou drasticamente. Desde a década de 1970, as mudanças na economia e na regulação estatal levaram ao aumento das relações de trabalho precárias. Em 1991, 79% de todos os trabalhadores tinham relações de trabalho normais, número que por volta de 2014 caiu para 68%.

Em outras palavras, há um terço da força de trabalho nas chamadas relações de emprego atípicas. Nem todos esses trabalhadores são precários num sentido estrito, uma vez que alguns dos autônomos são bem pagos e estão felizes em não ter relações trabalhistas normais. Mas uma clara maioria é, de fato, precária. São trabalhadores de tempo parcial, temporários ou contratados por agências e, em geral, têm menos benefícios e segurança. Isto os deixa incapazes de planejar seus futuros.

Essas mudanças também tiveram um impacto material imediato: em particular, houve um crescimento nos setores de salários mais baixos, onde as pessoas ganham menos de 60% da média dos salários. Isto está muito próximo da definição oficial de pobreza – este setor agora tem mais de 20% da força de trabalho. Em particular, os trabalhadores em empregos de baixo salário no setor de serviços compõem um novo “proletariado de serviço”.

JD – No livro você argumenta que a mudança resulta da precarização no local de trabalho: o que isso significa?

ON – No passado do capitalismo o “exército industrial de reserva” era formado pelos desempregados. A procura de trabalho exerceu uma pressão estrutural externa sobre os salários e as condições de trabalho dos alemães.

O que mudou é que o aumento no emprego temporário ou de agência internalizou esta função, nas próprias empresas. Os empregados estão cada vez mais divididos em dois grupos, com um desequilíbrio de poder entre suas respectivas posições na empresa e no mercado geral de trabalho. De um lado, estão os empregados permanentes, que veem sua relativa segurança como um privilégio; do outro lado, os precários, os trabalhadores temporários e os de agências. Os trabalhadores de agência podem estar dentro da empresa, mas com um pé fora. Assim, a sua mera presença recorda ao pessoal permanente que o seu futuro também pode se tornar menos seguro.

No passado os trabalhadores podiam esperar que suas vidas melhorariam, e que a vida de seus filhos seria ainda melhor. Mas desde a virada do século, a pobreza e a desigualdade crescem. Este aumento nos níveis de pobreza se caracteriza menos pelo incremento acentuado da mobilidade descendente do que por um “declínio na mobilidade ascendente”. Para colocar isso de outra forma, a mobilidade descendente assume a forma da incapacidade dos trabalhadores para melhorar a sua condição. Aqueles que estão no fundo acham cada vez mais difícil recolocar-se em pé.

JD – Uma observação importante que você faz é que a mudança para a precariedade no local de trabalho não afeta a todos igualmente. Como é que esta mudança afeta particularmente os jovens?

ON – Se quisermos entender como a situação mudou para os jovens, é útil um pouco de perspectiva histórica. No imediato pós-guerra os filhos da classe trabalhadora tiveram oportunidades significativas para a mobilidade ascendente, e muitos se tornaram trabalhadores técnicos qualificados, de colarinho branco ou funcionários públicos.

Seus filhos, que cresceram nos anos 1970 e 80, tinham uma mentalidade diferente e visavam diferentes tipos de emprego. Eles cresceram em circunstâncias materiais relativamente seguras, e adotaram valores “pós-materialistas”. Em contraste com seus pais, que se esforçaram para obter conforto material e estabilidade depois do período da segunda guerra mundial, e esta esperada realização pessoal e reconhecimento social. Muitos se tornaram (ou visaram se tornar) freelancers com trabalhos de prestígio (como arquitetos ou advogados, cientistas, jornalistas), ou trabalhadores culturais.

Hoje, inversamente, os jovens experimentam um aumento da precariedade desde o início da vida profissional, e isso mudou suas atitudes face ao trabalho. Se tornaram mais sérios, e enquanto compartilham alguns dos mesmos valores que a geração de seus pais, procuram mais estabilidade no futuro. Este é especialmente o caso entre os alemães que tentam sair da classe trabalhadora e da baixa classe média. Procuram uma maneira fora da precariedade e da competição.

Afinal, é uma imagem fragmentada. Aqueles cujos pais conseguiriam uma verdadeira prosperidade nos anos 1970 e 80 poderiam ter outro estilo de vida. Vê-se entre as pessoas com seus trinta anos vivendo uma vida estilo hipster, boêmio cool, em algum bairro badalado de Berlim, trabalhando longas horas, mudando de emprego o tempo todo, mas também glorificando este tipo de existência. Muitas vezes, no entanto, eles são protegidos do stress real e do perigo que vem com a precariedade, porque seus pais compraram apartamentos para eles.

A maioria dos jovens com empregos precários de famílias de classe trabalhadora não será tão capaz de esperar tais confortos. Em vez disso, gerenciam suas expectativas de vida para baixo. Procuram empregos que tenham mais segurança, e cada vez mais jovens crescem céticos sob a alegação de que devem estar dispostos a pagar qualquer preço para “fazer o que eles mandam”, sendo de fato críticos de uma cultura de inicialização hiper focada no trabalho. Eles procuram uma vida decente, com mais tempo livre. E há ainda os aluguéis crescentes, significando frequentemente que os estudantes e os trabalhadores jovens ficam presos em problemas financeiros.

E quando os jovens entram no mercado de trabalho, percebem agora que os empregos seguros são poucos. Outra forma dos empregos se tornarem mais incertos é o aumento do trabalho temporário.

Em 2009, quase um em cada dois empregos tinha contrato de duração limitada. Estas condições precárias afetam particularmente os mais jovens e menos qualificados. A duração média do emprego para os jovens diminuiu em 22% desde meados dos anos 1970, e os pouco qualificados, em particular, frequentemente esperam que serão incapazes de manter o emprego. Mesmo que encontrem um emprego seguro mais tarde, a sua experiência de insegurança permanece.

JD – As mensagens políticas anti-imigrante, na Alemanha, como em outros lugares, baseiam-se em explorar ou gerar o medo da concorrência pelo emprego. Isto é uma realidade, ou apenas uma fantasia da direita?

ON – Sim, há alguma competição. Mas esta ideia existe muito mais a nível do imaginário político e da sua exploração. Mesmo nos setores mais qualificados da economia, os trabalhadores têm relativamente pouco medo da concorrência dos migrantes, pois na Alemanha há geralmente escassez de mão-de-obra. Mas para entender como esse tipo de mensagem funciona, gosto de imaginar uma metáfora de uma “sociedade de elevadores”.

Ulrich Beck cunhou o conceito do “efeito do elevador” na década de 1980 para descrever uma sociedade que valoriza o crescimento econômico. De acordo com esta metáfora, todas as camadas, de trabalhadores assalariados até os ricos, estão juntas no mesmo elevador. As desigualdades entre as classes sociais não foram abolidas, mas desempenham um papel menos significativo quando todos estão cada vez mais prósperos.

Este tipo de sociedade chegou ao fim, e agora temos uma sociedade de escada rolante. Mas nem todas as escadas rolantes sobem – muitas vão para baixo. Algumas pessoas experimentam a mobilidade descendente real. Ou porque têm algum problema em sua história de emprego, como um período de desemprego, ou muitos anos passados em um trabalho sem crescimento, e têm um sentimento de vulnerabilidade.

Mais frequentemente do que a mobilidade descendente real, as pessoas têm a sensação de enfrentar o aumento da concorrência em geral. Para colocar isso nos termos de minha metáfora, sua experiência é um pouco como a de uma pessoa numa escada rolante descendente, que tenta evitar ir para baixo. A maioria das pessoas pode correr rápido o suficiente para não descer, mas sabem que têm que continuar correndo apenas para ficar paradas. Não experimentam a mobilidade descendente real, mas estão vivendo com o medo permanente dela. Os cortes de bem-estar social, as políticas de liberalização e os programas de austeridade nos últimos vinte anos intensificaram essa subjetividade, regida pela concorrência universal e pela instabilidade social.

Desde 2015, como veem as coisas, sua situação permaneceu a mesma, e eles têm que continuar correndo para ficar no mesmo lugar e, ao mesmo tempo, mais de um milhão de migrantes chegam a cada ano. Na sua imaginação, auxiliada pelas mensagens políticas de direita, ao mesmo tempo em que correm para tentar chegar ao segundo andar, Angela Merkel está deixando os migrantes para o segundo andar pela porta dos fundos. Na realidade, os migrantes começam desde o porão. Mas as pessoas têm sido levadas a pensar que os migrantes recebem tratamento especial. Este equívoco é a base para o sucesso das mensagens anti-migratórias.

JD – Seu relato sobre ascensão da direitista Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland – AfD), é particularmente iluminado. Qual é a relação entre as mudanças econômicas e a ascensão dos “movimentos dos cidadãos” de extrema-direita, como o Pegida (sigla do direitista Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes, ou Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente) e partidos políticos como o AfD?

ON – Os fatores econômicos e políticos por trás disso devem ser analisados em conjunto. A crise atual é uma crise social e política, que afeta os partidos tradicionais, que deixaram lacunas na representação política. Ao mesmo tempo, as mudanças econômicas afetam muitas pessoas, mudando sua relação com os patrões e com o estado de bem-estar.

Não há um nexo causal direto entre sentimento de insegurança econômica ou a mobilidade descendente e a mudança para a direita. A insegurança econômica e a ansiedade levam a uma situação de insatisfação e podem levar as pessoas a fazer perguntas políticas e econômicas fundamentais sobre a sociedade em que vivem. A quem pertence a sociedade? A quem deveria pertencer? Por que as coisas são diferentes agora do que foram antes?

Se há forças no campo político que podem desenvolver uma resposta a estas perguntas, então tudo é possível. Houve respostas contrastantes a estas questões na política alemã ao longo da última década. O Die Linke (A Esquerda) surgiu em 2005 e por algum tempo articulou respostas a questões sociais-chave e se dirigiu a pessoas que tiveram a combinação crucial de insegurança econômica e alienação política.

Die Linke uniu trabalhadores e desempregados, junto com pessoas que foram afetadas com o sistema político. Muitos tinham experimentado ou temido a mobilidade descendente e sentiram-se degradados pela “Agenda 2010” de reformas no mercado de trabalho, o que permitiu a expansão do setor de baixos salários.

Estas reformas estavam no espírito daquelas realizados nos EUA sob Bill Clinton. Então, quando se toma fatores econômicos e políticos em combinação, se vê que na Alemanha houve uma forma própria do “não há alternativa” neoliberal. E isso fez as pessoas se sentirem fragilizadas e não representadas, alimentando o ressentimento. Muitas pessoas afetadas e irritadas votaram no Die Linke, e o partido pode se apresentar como uma força antiestablishment. Por um tempo foi capaz de explorar esta energia e direcionar o ressentimento das pessoas contra as elites econômicas.

Mais recentemente, assim como a vertente de direita do Partido Social Democrata abriu espaço para o Die Linke, uma mudança na União Democrata-Cristã permitiu o avanço da AfD, à direita. Ao mesmo tempo, Die Linke perdeu parte da credibilidade como força antiestablishment, devido à sua incoerência interna e a participação num governo regional, juntamente com outras forças de centro.

JD – Qual é o papel dos partidos do centro?

ON – Ao longo das duas últimas décadas houve uma convergência dos principais partidos da Alemanha, num movimento em direção ao centro. Enquanto o SPD deslocou-se para a direita em questões econômicas e se tornou mais neoliberal, a CDU, da direita, tomou o rumo do centro, apoiando a igualdade no casamento, abolindo a filiação obrigatória, impulsionando a participação das mulheres no mercado de trabalho, e apoiando a eliminação gradual da energia nuclear.

Ambos visavam captar o eleitor médio. Mas, ao se concentrar neles, assumiram que as alas mais radicais de seus partidários ainda teriam outras opções? Contanto que não haja alternativa, essa teoria se mantém.

Mas isso criou uma verdadeira crise de representação. Em 1969, o CDU/CSU e o SPD representavam juntos 87% do conjunto do eleitorado. Em 1972 e 1976, este número atingiu cerca de 90%. Por outro lado, o atual governo da grande coligação que combina estes partidos só representa 53% dos votos.

JD – Não parece que esta tendência possa ser susceptível de terminar. Em dezembro, Angela Merkel, como líder da CDU, indicou outro membro da ala moderada do partido, para substituí-la, Annegret Kramp-Karrenbauer (conhecida como AKK, secretária geral e líder da CDU, indicada em 2018 – Nota da Redação). Ela se tornou líder depois de vencer a disputa contra Friedrich Merz, um advogado bilionário cuja campanha prometeu trazer o partido de volta aos seus valores “tradicionais” e abraçar do capitalismo irrestrito. O que essa decisão significaria para a futura direção do partido?

ON – O voto de liderança foi muito apertado, com uma diferença de apenas 35 votos entre os dois primeiros colocados. Há uma divisão significativa no partido. Que, em parte, se deve ao fato de que, enquanto a retórica política alemã mudou para a direita, a ascensão da ala mais socialmente progressista da CDU representa uma mudança real nos valores do partido. Em muitas partes do país há um consenso hegemônico verde-liberal-conservador. AKK representa a maioria dos eleitores comuns e funcionários no partido.

Esta não é uma situação particularmente estável. A ala conservadora do partido pode tentar revoltar-se outra vez, em particular se AKK enfrentar reveses eleitorais. Mas, entretanto, os resultados do partido da irmã bávara da CDU, o CSU, na recente eleição estadual mostraram que fazer uma campanha eleitoral de direita também não é garantia de sucesso. Nessa disputa, a CSU perdeu terreno para a AfD e os verdes. Isto, mais do que qualquer coisa, é a razão pela qual AKK venceu. Os funcionários da CDU temem que movendo-se para a direita, perderão sua base na classe média mais consciente socialmente para os verdes, que podem se transformar num novo partido conservador.

JD – O resultado recente do partido verde na eleição na Baviera (18,3%) pegou um monte de gente de surpresa. Como interpretar o interesse recém-descoberto pelo partido?

ON – As pessoas que correm o risco de mobilidade descendente, a classe média baixa, não são o eleitorado do partido verde. Podem e continuarão a ser um partido do humanitarismo liberal emergente. E, claro, tem razão em ser a favor de fronteiras abertas, posição chave para esta postura. Os eleitores descobriram que o SPD não era tão liberal, e na grande coalizão com o CDU fez um monte de negócios sujos. Como Merkel, os socialdemocratas também cederam à pressão da mídia exigindo o fechamento das fronteiras, e isso significa que aqueles com uma perspectiva liberal-humanista passaram do SPD e do CDU para os verdes.

É por isso que os verdes foram os verdadeiros vencedores. E certamente não estão tirando votos da AfD. Eles são o partido dos professores, funcionários públicos e da elite cultural urbana: um partido da alta classe média liberal. Assim, os verdes não tiveram qualquer problema em se posicionarem relação à crise dos refugiados. Seus eleitores são socialmente liberais e objetivamente seguros; não são suscetíveis ao medo agitado pela extrema direita. A maioria vive em áreas de classe média, muitas vezes longe de alojamentos de refugiados, e são empregados em áreas do mercado de trabalho onde não temem a concorrência dos migrantes. Isso, mesmo admitindo que as mudanças que causam “ansiedade econômica” têm fontes com muito pouco a ver com níveis objetivos de concorrência.

Naturalmente, os verdes também ganham atenção por causa da crescente consciência social das mudanças climáticas. Mas estão longe de ser uma alternativa radical. Como Loren Balhorn disse recentemente, “os verdes são agora o partido de qualquer pessoa na Alemanha que quer manter as coisas mais ou menos a maneira que têm sido nos últimos 30 anos – mas com mais carros elétricos.”

A esquerda deve ser cética sobre os verdes em geral. O partido participa em governos de nível estadual em Hessen e Baden Wurttemberg, nos quais têm apoiado mandados de deportação federais, como outros governos nominalmente de esquerda. Mas de alguma forma isso fica esquecido.

JD – Olhando para o outro partido do centro da Alemanha, você tem escrito sobre a tentativa sem brilho do SPD em “renovar”. Um refrão comum da extrema esquerda é que “partidos socialdemocratas falharam porque abandonaram suas bases.” A solução para a crise é tão simples como o restabelecimento da forma anterior da política social-democrática?

ON – Podemos ver exemplos no exterior de tentativas de renovar e revitalizar a democracia social. Que notavelmente incluem os exemplos de Jeremy Corbyn (Inglaterra) e Bernie Sanders (EUA), e até mesmo Jean-Luc Mélenchon (França). Podem ser uma espécie de renovada democracia social. Mas, e o SPD? Nem sequer tenta. Não acho que tenha alguma ideia do que estão fazendo, nem sequer têm qualquer fé em si mesmos de que uma renovação é possível. Neste momento, estão no mesmo caminho do Partido Socialista francês, e do PASOK na Grécia. Perderá seu status como grande partido e alcançará resultados entre 10 a 15%. Na Baviera, sua votação foi apenas 6%.

Há, portanto, uma boa chance de que o partido mais antigo da Alemanha, o SPD, vai se tornar menor, que se apegue à relevância histórica, continuando a participar de coalisões governamentais. Tem sua base eleitoral, que diminui, composta apenas de pessoas de classe profissional com ideias socialmente liberais, com pouco poder para mudar a sociedade para melhor. Este é um grito distante do grande partido que costumava ser.

Não há ninguém nos níveis superiores do SPD com a capacidade e a vontade de restabelecer o partido. Parte do problema é estrutural. Corbyn estava em posição para permanecer no trabalhismo, e mudá-lo. Mesmo sob Tony Blair, havia ainda socialistas no Partido Trabalhista porque não tiveram nenhuma outra opção. Mas este não é o caso na Alemanha. Não temos Corbyn porque os socialistas voltaram suas costas para o SPD e se juntaram ao Die Linke.

Pode não ser possível para o SPD “se tornar um partido da classe trabalhadora novamente.” Qual é, de fato, o estado atual da classe trabalhadora na Alemanha? Há, sem dúvida, uma classe trabalhadora num sentido objetivo, mas a antiga classe trabalhadora de metalúrgicos homens e mineiros de carvão — para escolher dois exemplos estereotipados — é coisa do passado. A classe trabalhadora foi modernizada. Não é mais possível contar com os laços tradicionais da classe trabalhadora para a democracia social. A nova classe trabalhadora precarizada do setor de salários baixos não tem os laços culturais e institucionais tradicionais com a democracia social através dos sindicatos, e a construção destes laços a partir do zero é difícil.

Desenvolver esses laços, criar uma identidade de classe trabalhadora, e construir a consciência de classe é extremamente difícil.

O eleitorado do SPD agora é composto de mais ou menos bem-educados e progressistas trabalhadores de colarinho branco e funcionários públicos, e alguns da classe trabalhadora industrial tradicional que sentem afinidade para com ele por causa de sua atividade sindical. Os estrategistas do partido estão preocupados que se o SPD se movesse corajosamente à esquerda ou adotasse a retórica anticapitalista, perderia os votos da classe média. Escolheram seu eleitorado, mas agora está difícil distingui-lo do partido verde.

Esta é uma situação instável, mas ainda há a possibilidade de que haverá mais radicalização à direita, que o AfD cresça em força, mas também é possível que possam perder impulso. Por outro lado, há também, naturalmente, a possibilidade objetiva da reenergização da esquerda. A demonstração “Unteilbar” (indivisível), uma coalizão liberal-esquerda contra a direita, por uma sociedade mais aberta e inclusiva, que trouxe mais de meio milhão de pessoas para as ruas de Berlim, representa uma avenida de possibilidade. Aponta uma maneira de construir a ação política que, embora esteja fora da arena parlamentar, pode promover uma larga visão progressista.

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(*) Oliver Nachtwey é professor de Sociologia da Universidade de Basiléia. Julia Damphouse é uma ativista canadense, socialista e estudante em Berlim.

Fonte: Jacobin; tradução: José Carlos Ruy

 

Em defesa do marxismo, por José Carlos Ruy

Helena Enne

A campanha conservadora contra o marxismo é intensa; ela cresceu desde a campanha eleitoral de 2018 e,

agora, sob o governo de direita de Jair Bolsonaro, alguns membros do governo federal multiplicam os ataques

contra o que chamam de “marxismo cultural”, generalizando as acusações contra o pensamento avançado de todos os matizes. 

Em relação ao marxismo não há argumentos novos, mas repetem a longa série de inverdades usadas desde os tempos em que Marx e Engels escreviam e atuavam, no século XIX. A violência verbal continua igualmente simplista, repetitiva, e reflete a indigência intelectual dos acusadores. Continue lendo

Teatro de horrores e crimes – o que fazem com o Brasil

O Brasil chafurda sob a nova direção – novo que já é senil.

Aprofunda-se o que já estava embutido no golpe do impeachment e por meio de  vasto lawfare nas beiradas da Constituição, com a ofensiva para destruir o sistema político e a esquerda em particular.

Acusar os assassinos de Marielle é importante, mas não mais que os mandantes. A ficha corrida do motorista e do matador profissional miliciano, titular da escola do crime, é aquele horror que desvenda as vísceras da segurança pública, no Rio de Janeiro e outras partes. Dois pedalinhos foram penalizados mais que 117 fuzis automáticos, a maior apreensão já feita no Rio, de posse do criminoso. As amizades eletivas com o mundo político do Rio e com Flávio Bolsonaro ainda dará o que falar.

A Lei contra o Crime de Moro é criminosa por dar seguimento à continuada investida contra o sistema político que lá foi chocado, em nome do combate à corrupção. Associado à inacreditável maluquice de querer o Ministério Público gerindo fundo de 2,5 bilhões – de acordo lesa-Pátria entre a Petrobrás e EUA – desvela mais o iceberg: há um Partido da Lava Jato, é forte, se julga intocável e tem um projeto de poder. Por isso Moro aceita o Ministério e cala-se diante das evidências múltiplas do clã Bolsonaro e seu partido fazerem “mais do mesmo” em termos de corrupção.

Na outra ponta, crime de outra natureza, Paulo Guedes propõe o Armagedon. Chantageando e mistificando, quer arrancar 1 trilhão dos aposentados e beneficiados pela seguridade social (constitucionalmente) para voltar ao assistencialismo para miseráveis e deserdados. Dizer que tem um Plano B, que quer os deputados mandem no orçamento todo (marola: falou em 1,5 tri que podem ser desvinculados) é conversa da carochinha – só produzirá danos ao financiamento da Educação, Saúde e outras pastas sociais. Essa é uma lei férrea da própria premissa da agenda do Ministro.

As aparências enganam, mas nesse caso dão fotografia precisa do que é o clã Bolsonaro, o que é o “mercado” desarraigado de qualquer interesse social e nacional, o que é o Ministério da Justiça e o Ministério Público.

São o produto, à brasileira, da crise do neoliberalismo senil, que não tem consenso e esperanças a oferecer a ninguém – rigorosamente porque nem sequer sairemos dos baixíssimo índices de crescimento econômico após uma recessão de 3 anos que bateu o PIB e a renda dos brasileiros em algo como 10% de perdas. A indústria vai pro brejo de vez. O “mercado” financeiro não paga almoço nem quer mais intermediários para comandar a economia. Quem viver, verá.

Aliás, nada como os teimosos fatos da vida. Agora sabemos, por André Lara Rezende – com alguma coragem, reconheça-se – que “a teoria macroeconômica está em crise. A realidade, sobretudo a partir da crise financeira de 2008 nos países desenvolvidos, mostrou-se flagrantemente incompatível com a teoria convencionalmente aceita. O arcabouço conceitual que sustenta as políticas macroeconômicas está prestes a ruir”.

Quer dizer, o consenso de Washington não apenas fez água, estava conceitualmente errado! Ele continua: “durante o século XX, o liberalismo econômico perdeu a batalha pelos corações e pelas mentes dos brasileiros. Embora a história tenha mostrado que seus defensores, desde Eugênio Gudin, estavam certos sobre os riscos do capitalismo de Estado, do corporativismo, do patrimonialismo e do fechamento da economia à competição, foram derrotados porque adotaram um dogmatismo monetário quantitativista equivocado. Tentaram combater a inflação promovendo um aperto da liquidez. O resultado foi sempre o mesmo: recessão, desemprego e crise bancária.” (Grifo meu, ora, ora!!!). “Expulsos do comando da economia pela reação da sociedade, seus defensores recolhiam-se para lamentar a demagogia dos políticos e a irracionalidade da população. Quase sete décadas depois de Gudin, os liberais voltam a comandar a economia”. Com alguma elegância ele manda seu recado para Guedes “O apego a um fiscalismo dogmático e a um quantitativismo anacrônico pode levá-los, mais uma vez, a voltar para casa mais cedo do que se imagina (grifo meu, ora, ora!!!).”

Vai sobrar pro Brasil, perdido no mato sem cachorro, sem projeto de nação, sem estratégia para isso nem mesmo para a relação com os vizinhos sul-americanos, metido em confusão que não é conta do país. Neocolonizado. Autoritário. Avançando mais e mais para a incivilidade e o irracionalismo – está aí o atentado na escola em Suzano que matou jovens brasileiros.

Diria Vinícius: se foi prá desfazer por que é que fez? Como sempre, entretanto, o Brasil se levantará pelas mãos do povo, mais uma vez. Uma coisa é certa: é preciso unir o máximo de brasileiros na luta contra o autoritarismo, a crise em que mergulhou o Brasil e a neocolonização do país. Essa é a lição da história.