Privatização do petróleo: a França joga com marketing enquanto explora suas neocolônias

por Roberto Moraes* | Blog do Roberto Moraes

 

O hipercapitalismo pelo mundo, em meio aos discursos fragmentados e pós-modernos, segue cartilha muito próxima do período da colonização. Assim, a França quer parecer moderna e preocupada com o meio ambiente. Por isso, no início de julho, o governo francês anunciou que 2040 quer acabar com a venda de carros movido a diesel e gasolina.

No mês passado, a agência Reuters divulgou que a França também planeja acabar com toda a exploração e produção de petróleo em seu território e domínios ultramarinos.

Parece modernidade, mas também cheira a marketing bem ao nível da turma do seu presidente Macron. Porque eliminar produção em terras francesas não quer dizer muita coisa. Ou melhor; não quer dizer quase nada. Continue lendo

A luta das mulheres e a atualidade da revolução de outubro de 1917

A luta das mulheres, que já existia há séculos, ganha luz e importância histórica no 8 de Março de 1917

Cerca de 70 mil mulheres estavam na linha de frente dos quadros militares, durante os primeiros anos de formação do Exército Vermelho / Reprodução

Os 100 anos da Revolução Russa, registrados em outubro de 2017, possibilitam reler estudos ou documentos sobre os mais diversos aspectos, muitos dos quais revelam a atualidade de lutas problemas sociais, que motivaram o maior movimento social do século XX. Continue lendo

A globalização não perdoa os sem economia e sem soberania, por Marcio Pochmann

 

Em um contexto internacional em que há fortalecimento dos movimentos nacionais de defesa da produção e emprego, torna-se ainda mais injustificável a opção brasileira pela destruição das políticas públicas de estímulo ao mercado interno

 

Após o início da grande crise em 2008, a globalização perdeu um dos seus principais pilares propulsores: o comércio mundial. No quadriênio de 2012 a 2016, por exemplo, o comércio mundial cresceu apenas 3% em média ao ano, ao passo que no período entre 2003 e 2007 aumentava 8% por ano, em média.

Para o mesmo lapso de tempo, a produção mundial expandiu 5,1% ao ano em média entre 2003 e 2007 e 3,4% entre 2012 e 2016. Em função disso, percebe-se que no período que antecede a grande crise de 2008, as trocas externas aumentaram 1,6% a cada 1 ponto percentual de elevação do produto mundial, enquanto nos anos pós-crise de dimensão global, o comércio mundial subiu 0,9% a cada 1 ponto percentual de crescimento do produto.

Duas razões principais ajudam a entender o decréscimo em 43,7% na relação entre variação da produção e do comércio externo entre os períodos anterior e posterior à crise iniciada em 2008. De um lado, a atual fase de maturação das cadeias globais de valor, cujas restrições encontram-se nos limites de continuidade na divisão do trabalho ao longo do território mundial.

Fato importante disso tem sido a mudança mais recente no comportamento da Ásia, especialmente da China. Entre os anos de 2003 e 2007, por exemplo, o ritmo chinês de expansão das importações foi de 20%, em média, ao ano, ao passo que no quadriênio recente (2012 – 2016), o crescimento das compras externas decaiu 7% como ritmo médio anual.

Ao mesmo tempo, as exportações dos produtos chineses que incorporavam anteriormente 60%, em média, de componentes importados, passaram, no período pós-grande crise de 2008, a deter o equivalente a 35% de componentes de importação. Também o comércio intrafirma (matriz e as filiais das corporações transnacionais) que registrava forte ritmo de crescimento, tendeu a desacelerar no período recente.

De outro lado, o fortalecimento dos movimentos nacionais de defesa da produção e emprego vem impondo a recuperação das medidas de proteção do sistema econômico local, inclusive com o retorno das modalidades de substituição das importações. A redução da participação dos países não ricos no total das importações mundiais aponta para outra orientação no sentido da globalização pela via do comércio externo.

Pelos balanços mais recentes a respeito da globalização, surgem cada vez mais questionamentos sobre a sua natureza desigual e o esvaziamento da soberania nacional. No caso da abertura das fronteiras comerciais na Inglaterra, por exemplo, os ganhos na ampliação das importações permitiram a redução em até 80% do preço interno dos produtos têxteis, o que contribuiu para a elevação do poder de compra médio no conjunto das famílias em 3%.

Por outro lado, o emprego no mesmo setor têxtil decresceu em 90%, o que significou a passagem da relação de um ocupado na indústria do vestuário a cada 30 ocupações no total do país para, atualmente, uma vaga a cada 370 em todo o país. Com a globalização, a indústria têxtil inglesa praticamente desapareceu, fazendo com que a redução do nível de emprego implicasse queda de 1,3% no poder de compra médio do conjunto das famílias.

Para o Brasil, que vem recentemente diminuindo o poder de compra médio das famílias e tornando cada vez menos valorizado o seu mercado interno, parece injustificável a destruição das políticas públicas de estímulo e defesa da produção e emprego nacional. Salvo pelo sentido do abandono que decorre do compromisso de garantir a soberania nacional.

http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2017/10/globalizacao-e-soberania-nacional

 

 

Incêndios em Portugal, por Alexandre Weffort

O drama dos incêndios em Portugal apresentam muitas facetas que mergulham, em décadas, em causas que nos remetem a momentos vários da história recente do país. Das consequências imediatas, verificou-se a substituição da ministra titular da administração interna e a sujeição do governo do PS a uma moção de desconfiança no parlamento português. Revelam, ainda, uma faceta ideológica que importa assinalar como exemplo para o Brasil.

 Os problemas de planificação da floresta, do tipo de arborização, dos caminhos e dos espaços defensivos (afastando a floresta dos espaços industriais e urbanos), enfim, de uma planificação lógica do território, cruzam-se com os fatores humanos, como o afastamento (forçado ou lentamente induzido) das populações para as grandes cidades por via de emigração, afastamento que retirou do ecossistema a participação das comunidades na preservação das condições de existência da mata. Continue lendo

Desglobalização? por Boaventura Souza Santos

 

Que há de novo e por que se diagnostica como desglobalização? (Na imagem, embarcação portuguesa em Nagasaki, no Japão, em ilustração japonesa do século 17)

Em círculos acadêmicos e em artigos de opinião nos grandes meios de comunicação tem sido frequentemente referido que estamos a entrar num período de reversão dos processos de globalização que dominaram a economia, a política, a cultura e as relações internacionais nos últimos cinquenta anos. Entende-se por globalização a intensificação de interações transnacionais para além do que sempre foram as relações entre estados nacionais, as relações internacionais, ou as relações no interior dos impérios, tanto antigos como modernos. São interações que não são, em geral, protagonizadas pelos Estados, mas antes por agentes econômicos e sociais nos mais diversos domínios. Quando são protagonizadas pelos Estados, visam cercear a soberania do Estado na regulação social, sejam os tratados de livre comércio, a integração regional, de que UE é um bom exemplo, ou a criação de agências financeiras multilaterais, tais como o Banco Mundial e o FMI. Continue lendo