Pré-sal, a ameaça e o leilão

por Haroldo Lima

 

Foi o que declarou a figura que vem ocupando a Secretaria Geral da Presidência, Moreira Franco, que secundou outro pronunciamento identicamente grave, do Presidente da Câmara Rodrigo Maia que, na véspera “anunciou que vai discutir o fim do regime de partilha da produção no setor de petróleo” ( O Globo 26/10/2017).

O argumento de ambos era absolutamente despropositado. Segundo Maia, “se fosse na concessão, o Brasil iria arrecadar aproximadamente R$ 40 bilhões” no leilão do dia 27, e não R$7 bilhões como previsto. Não disse como isto seria possível, nem poderia dizer.  Continue lendo

A dança do empresariado local, do neotenentismo e do establishment político para 2018. O PT calcula e age

Por Alon Feuerwerker

 

O governo Dilma Rousseff foi removido quando viu convergir contra ele uma ampla coalizão das principais forças e blocos da economia e da política brasileiras. E o afastamento do PT, como era previsível, fez aguçarem as contradições no interior desse leque, o que está na base da perda de substância conjuntural do governo Michel Temer.

Mas Temer caminha para o apagar das luzes, e os interesses começam a buscar 2018. Para monitorar a eleição que vem, será útil acompanhar a dança dessas mesmas forças. Seu alinhamento ou desalinhamento influirá decisivamente na escolha dos personagens que estarão traduzindo eleitoralmente (“vote em fulano”) as opções de coalizão. Continue lendo

Delação Premiada: mercadoria do Estado Pós-Democrático

por Rubens Casara

 

Para compreender criticamente a “colaboração premiada” é necessário contextualizar esse instituto. Para além da previsão legal e da importação acrítica desse instituto, só é possível perceber o funcionamento concreto da colaboração premiada à luz da razão neoliberal como nova razão do mundo, na linha defendida por Christian LavalPierre Dardot e Antonie Garapon.

Tudo hoje é tratado como mercadoria. Todos os valores passaram a ser tratados no registro das mercadorias. A “colaboração premiada” é uma mercadoria. Aliás, o próprio nome “colaboração premiada” é para “vender” como algo positivo a delação, que do ponto de vista histórico, sempre foi uma negatividade. Continue lendo

Leilão do pré-sal agride a soberania nacional

 

A festa das multinacionais petroleiras no Brasil será regada a petróleo muito mais barato que uma garrafa de refrigerante, denuncia o coordenador da(FUP), José Maria Rangel. O petróleo das áreas do pré-sal que vão a leilão nesta sexta-feira (27) vai custar uma bagatela: cada barril de 159 litros sairá por R$ 150,00, diz a denúncia.

Esta é a imagem mais visível do entreguismo do governo usurpador de Michel Temer e da direção antinacional da Petrobrás, sob o comando do capacho das petroleiras, Pedro Parente. Continue lendo

A globalização não perdoa os sem economia e sem soberania, por Marcio Pochmann

 

Em um contexto internacional em que há fortalecimento dos movimentos nacionais de defesa da produção e emprego, torna-se ainda mais injustificável a opção brasileira pela destruição das políticas públicas de estímulo ao mercado interno

 

Após o início da grande crise em 2008, a globalização perdeu um dos seus principais pilares propulsores: o comércio mundial. No quadriênio de 2012 a 2016, por exemplo, o comércio mundial cresceu apenas 3% em média ao ano, ao passo que no período entre 2003 e 2007 aumentava 8% por ano, em média.

Para o mesmo lapso de tempo, a produção mundial expandiu 5,1% ao ano em média entre 2003 e 2007 e 3,4% entre 2012 e 2016. Em função disso, percebe-se que no período que antecede a grande crise de 2008, as trocas externas aumentaram 1,6% a cada 1 ponto percentual de elevação do produto mundial, enquanto nos anos pós-crise de dimensão global, o comércio mundial subiu 0,9% a cada 1 ponto percentual de crescimento do produto.

Duas razões principais ajudam a entender o decréscimo em 43,7% na relação entre variação da produção e do comércio externo entre os períodos anterior e posterior à crise iniciada em 2008. De um lado, a atual fase de maturação das cadeias globais de valor, cujas restrições encontram-se nos limites de continuidade na divisão do trabalho ao longo do território mundial.

Fato importante disso tem sido a mudança mais recente no comportamento da Ásia, especialmente da China. Entre os anos de 2003 e 2007, por exemplo, o ritmo chinês de expansão das importações foi de 20%, em média, ao ano, ao passo que no quadriênio recente (2012 – 2016), o crescimento das compras externas decaiu 7% como ritmo médio anual.

Ao mesmo tempo, as exportações dos produtos chineses que incorporavam anteriormente 60%, em média, de componentes importados, passaram, no período pós-grande crise de 2008, a deter o equivalente a 35% de componentes de importação. Também o comércio intrafirma (matriz e as filiais das corporações transnacionais) que registrava forte ritmo de crescimento, tendeu a desacelerar no período recente.

De outro lado, o fortalecimento dos movimentos nacionais de defesa da produção e emprego vem impondo a recuperação das medidas de proteção do sistema econômico local, inclusive com o retorno das modalidades de substituição das importações. A redução da participação dos países não ricos no total das importações mundiais aponta para outra orientação no sentido da globalização pela via do comércio externo.

Pelos balanços mais recentes a respeito da globalização, surgem cada vez mais questionamentos sobre a sua natureza desigual e o esvaziamento da soberania nacional. No caso da abertura das fronteiras comerciais na Inglaterra, por exemplo, os ganhos na ampliação das importações permitiram a redução em até 80% do preço interno dos produtos têxteis, o que contribuiu para a elevação do poder de compra médio no conjunto das famílias em 3%.

Por outro lado, o emprego no mesmo setor têxtil decresceu em 90%, o que significou a passagem da relação de um ocupado na indústria do vestuário a cada 30 ocupações no total do país para, atualmente, uma vaga a cada 370 em todo o país. Com a globalização, a indústria têxtil inglesa praticamente desapareceu, fazendo com que a redução do nível de emprego implicasse queda de 1,3% no poder de compra médio do conjunto das famílias.

Para o Brasil, que vem recentemente diminuindo o poder de compra médio das famílias e tornando cada vez menos valorizado o seu mercado interno, parece injustificável a destruição das políticas públicas de estímulo e defesa da produção e emprego nacional. Salvo pelo sentido do abandono que decorre do compromisso de garantir a soberania nacional.

http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2017/10/globalizacao-e-soberania-nacional