As guerras do século XXI: tanques e ciberataques no mesmo campo de batalha (por Jesús Rodríguez)


As guerras do século XXI são híbridas e também convencionais, de alta e baixa intensidade, com divisões acorazadas e vírus informáticos. Vivemos o momento de maior incerteza da história recente Continue lendo

Nobel da Guerra – a razão capitalista na retórica do 11 Setembro, por Alexandre Weffort

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O dia 11 de setembro de 2001 marcou a História dos Estados Unidos e do Mundo. A data já era portadora uma carga simbólica – do golpe militar no Chile, que instaurou a ditadura militar de Pinochet em 1973. Mas o 11 de setembro de 2001 trazia o elemento midiático em primeiríssimo plano: o choque do segundo avião com as Torres Gêmeas foi testemunhado, via televisiva, em todos os quadrantes do planeta

As narrativas do 11 de setembro de 2001 não foram, todavia, unânimes. Os fatos são interpretados de acordo com pontos de vista e interesses específicos. A violência e a morte têm presença quotidiana na vida real e naquela que é imaginada e trazida para dentro dos lares pela televisão. O espetáculo televisivo explora esse filão até à náusea.

Com o 11 de setembro de 2001, as imagens veiculadas pelos noticiários traziam uma realidade que ultrapassava a ficção. No entanto, a leitura (documentarista, logo, também fílmica) de Michael Moore em FAHRENHEIT 9/11, colocou a questão no prisma oposto à da narrativa dominante.

Os ataques terroristas foram declarados, na narrativa oficial, como sendo responsabilidade da Al-Qaeda (organização terrorista dirigida por Osama bin Laden, nascido numa das famílias mais ricas da Arábia Saudita). Na narrativa contra-hegemônica de Moore, o 11 de Setembro de 2001 e o colapso das Torres Gêmeas estariam relacionados com interesses do poder estado-unidense, apontando por um lado as contradições da narrativa oficial e, por outro, as ligações de interesses entre as famílias mais ricas da Arábia Saudita e as oligarquias do Estados Unidos.

O 11 de setembro de 2001 tornou-se uma data simbólica, de um simbolismo construído em torno das imagens da guerra e da paz, da liberdade e da violência. Tornou-se um instrumento simbólico e ideológico do sistema capitalista, pano de fundo justificativo das ações de guerra que se seguiram, no Iraque, na Líbia, na Síria. Como território complexo, infindável, deu origem a inúmeros trabalhos jornalísticos e estudos acadêmicos.

Todavia, o que nos traz à questão não é o evento do 11 de setembro de 2001 em si, mas a sua mais recente contradição, protagonizada pelo atual presidente dos EUA, Barack Obama. O ainda presidente estado-unidense, prêmio Nobel da Paz em 2009, exerce o seu direito de veto sobre uma lei que autorizava a cidadãos dos Estados Unidos da América, vítimas dos ataques do 11 de setembro de 2001,  a processar o governo da Arábia Saudita (1).

Segundo relata a mídia internacional, o Congresso, numa expressiva votação derrubou o veto presidencial (2). Obama (reagindo à anulação do seu veto pelo Congresso) considera aquela lei “um erro”, e acrescenta: “Esta lei diz que, se um cidadão privado vítima de terrorismo sente que um Governo estrangeiro não fez o suficiente para travar um dos seus cidadãos [envolvidos em atentados] por exemplo, pode abrir um processo judicial privado em tribunal. E o problema é que, ao eliminarmos esta noção de soberania, os nossos militares espalhados pelo mundo, homens e mulheres, podem potencialmente vir a ser alvos de leis recíprocas” (1).

A declaração é elucidativa. Nos ataques de 11 de setembro de 2001, terão perdido a vida cerca de 3000 pessoas e ficado diretamente feridas cerca de 7000. A dimensão humana da tragédia é evidente. As consequências são brutais. Então, como pode Obama, prêmio Nobel da Paz em 2009, procurar vetar uma lei que visa ressarcir as vítimas do seu prejuízo? Apenas a razão capitalista lhe acode. E a noção de que a porta que se abre para responsabilizar outros Estados e Nações (que os EUA utilizam indiscriminadamente, intervindo abertamente no plano militar, econômico e político), permite o sentido contrário, da responsabilização (concreta, em juízo cível) dos EUA pelos inúmeros atropelos à soberania dos outros Estados, Povos e Nações.

E não serão apenas os “militares [estado-unidenses] espalhados pelo mundo (…) a ser alvo de leis recíprocas”. São os seus governantes. Mas a porta aberta pela lei em apreço tem ainda outro alcance potencial: no esmiuçar dos dados, das informações que, entretanto se vão apurando, ser feita uma nova narrativa do 11 de setembro. Uma narrativa com a chancela judicial e que, muito provavelmente, dará maior razão a Michael Moore, expondo na sua extensão os verdadeiros responsáveis pela violência e pela guerra que se instalou no início deste milênio (quiçá, recuando também à segunda metade do século XX, apurando as responsabilidades no golpe de 1964 no Brasil, no golpe de 1973 no Chile, na invasão de Granada …).