O que a Coreia do Sul tem a ensinar ao Brasil sobre diretas já? (por Rodrigo Saccomani, Hugo Albuquerque e Daniel Biral)

Retirado do portal DCM

As últimas semanas no Brasil foram um misto de choque, revolta e transe: não era para menos, na esteira da já histórica revelação dos áudios feitos, no âmbito de uma delação premiada, por um dos donos do conglomerado JBS/Friboi, acabaram por ser expostas para o Brasil as vísceras da República, isto é, as indecorosas conversas que ele tinha com o presidente em exercício Michel Temer (PMDB-SP) e o senador, e segundo candidato mais bem votado à presidência, Aécio Neves (PSDB-MG). O que parecia ser o desfecho da crise que devora o Brasil nos últimos anos, se tornou, contudo, um novo impasse. E o Brasil parece ter viciado em impasses.

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“Um ano de retrocessos e perda de prestígio do Brasil no mundo”: especialistas estrangeiros analisam o 1º aniversário do golpe (por Diario do Centro do Mundo)

Publicado na DW.

Há um ano, o presidente Michel Temer assumiu o cargo interinamente após o Senado ratificar o afastamento temporário de Dilma Rousseff. Na cerimônia de posse, Temer falou em “pacificar a nação” e “unificar o Brasil” e enfatizou que era urgente formar um governo de “salvação nacional”. Na ocasião, também aproveitou para anunciar os nomes de seus novos ministros. Ele também citou uma frase que viu em um outdoor: “Não fale em crise, trabalhe.”

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​A polarização política e o ódio de classe

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É a hora de onça beber água, logo durante o racionamento em São Paulo, fruto de desinvestimentos e falta de planejamento? Onça não vai beber água em São Paulo.

Certas coisas são difíceis de engolir. Ridículas, como as de Arnaldo Jabor, dizendo que é a hora de onça beber água, logo durante o racionamento em São Paulo, fruto de desinvestimentos e falta de planejamento. Onça não vai beber água em São Paulo. Sérias, outras. Alberto Goldman completou uma travessia transformista. Deu-se ao desrespeito democrático, a la UDN, que Dilma não terá condições de governar, se vitoriosa. Chega a um clima odiento.​

Prega-se, de diferentes modos, que “a campanha do PT promove a agressão e o ódio”. Atentemos para isso. Ninguém foi mais agredida e combatida, por pensamentos, palavras e obras, que Dilma Rousseff durante os últimos 3 anos de mandato. Cotidianamente. Duramente. Despudoradamente. Ela foi escrutinada todos os dias durante esse período, e isso foi exacerbado na campanha. Enfrentou até mesmo uma aposta contra o país, com que setores financistas e da mídia monopolizada deram as costas aos interesses nacionais mais uma vez e destilaram preconceitos sociais terríveis.

Quem apostou no “quanto pior, melhor” não foi a oposição? Quem protagonizou a fantástica demonstração de má-educação e reacionarismo político que os manifestantes na Arena Corinthians na abertura da Copa Mundial (aliás, ontem à noite, repetiram o dito nas ruas em frente à PUC)? ​Então, quem pregou o ódio?

Até o jornalista Fernando Rodrigues, inadvertidamente (?), chega a dizer que as políticas sociais “do PT” são uma vitória mas, ao mesmo tempo, “uma derrota por ter resultado numa divisão política perversa”. Barbaridade: a divisão perversa então não teria sido produzida por décadas e séculos de concentração de renda, exclusão, falta de direitos para as maiorias sociais? Foi “o PT” e nós da esquerda quem promovemos essa situação social?

Aécio só se sustentou, na reta final, explorando o antipetismo, fruto de ​grandes ​interesses comprometidos​ com governos oriundos de forças populares​, cevado em três derrotas consecutivas nas eleições presidenciais, ressentido. ​I​nstil​a ódio​ e incuba o ovo da serpente​. O resto é discurso tão “edificante” quanto vazio para enfrentar o essencial: a obra por maior igualdade social e regional, com desenvolvimento e afirmação nacional.

Deviam compreender, eles todos, que essa é a raiz da polarização política brasileira, que transcende os partidos políticos. E que não seria obra rápida promover o resgate histórico dessa situação. Ela precisa enfrentar mais de oito décadas, desde a modernização do país, em que não se consagraram direitos universais para integrar o povo brasileiro à gesta nacional. Esse é o ciclo progressista da América Latina que precisa permanecer e depende de modo fulcral dos resultados de domingo próximo.

Devia se prestar mais atenção ao que disse Leci Brandão, no ato dos intelectuais no TUCA em apoio a Dilma: ”essa gente precisa ser avisada de que a escravidão acabou”.

Luta renhida, Dilma valente e clara – o debate na BAND

“…Dilma ostenta marca indelével de nunca ter sido processada, ou se mancomunado ou omitido perante mal-feitos com o dinheiro público, jamais ter cometido improbidades administrativas. Todos reconhecem isso. Ao passo que Aécio, em 30 anos de vida pública, cevada no bem-bom, responde por nepotismo, improbidades e a imoralidade de ter desapropriado terreno da família para produzir um aeroporto e, assim, valorizar o patrimônio. Agora, terá que esclarecer a questão das verbas publicitárias para as rádios mineiras, caso que vem cheirando mal. Por isso, Dilma pode perguntar, na moral: “Onde estão os envolvidos com o caso Sivam? Todos soltos. Os envolvidos com a compra de votos da reeleição? Todos soltos. Os envolvidos na Pasta Rosa? Todos soltos. Os envolvidos no caso do mensalão tucano mineiro? Todos soltos. O que eu não quero é isso, candidato. Eu quero todos aqueles culpados presos”.”

 

Debate na Band dia 14 de outubro entre Dilma Rousseff e Aécio Neves

Debate na Band dia 14 de outubro entre Dilma Rousseff e Aécio Neves

Dilma no debate da BAND foi ao nervo do que está realmente em jogo neste segundo turno: dois campos opostos ao longo de nossa história, dois projetos antagônicos quanto aos rumos para a afirmação nacional e democrática do país e para aprofundar o desenvolvimento socialmente inclusivo, alcançado pela primeira vez na história brasileira a partir de 2003. Isso infere a autonomia na inserção internacional do país (embora isto compareça pouco aos debates), emprego e renda para os que vivem do trabalho como fatores nos quais não se mexe “nem que a vaca tussa”, inclusive como alavanca para o crescimento econômico; e manter, em chave realista, a estabilidade da economia (e não apenas da moeda).

 

Ela avançou propostas para um novo ciclo de mudanças, ressaltando fundamentos morais da igualdade de oportunidades para todos os brasileiros e o fim da impunidade. Apontou para o fortalecimento dos serviços públicos universais – saúde, educação, segurança, mobilidade urbana –, a reforma política com o fim do financiamento privado de campanhas – fonte essencial da corrupção – e, até, a regulação econômica dos meios de comunicação hoje monopolizados.

 

A campanha Dilma tem aderência com a realidade da sociedade e da população a partir dos avanços sociais alcançados, notórios e famosos em todo o mundo – emprego, salários, distribuição de renda, maior igualdade social e regional, políticas para o crescimento econômico. As dificuldades atuais geradas pela maior crise capitalista dos últimos 80 anos serão superadas, afirma ela, mas sem mexer nos fundamentos e conquistas já alcançadas. Nada de “tesouras” nos direitos sociais.

 

A candidatura Aécio só tem aderência ao real pondo em pauta economia e corrupção. O resto é lantejoula marqueteira, que o leva a excessos de ironias, vitimização com os desmascaramentos produzidos pela campanha Dilma, e a proclamar repetidamente “A Grande Verdade, Candidata”, que beiraram o ridículo.

 

Na economia, a trajetória tucana não o ajuda, muito menos quando invoca preocupações sociais. A obra pregressa de FHC, o servilismo de Armínio Fraga a um receituário antinacional e antissocial, não lhe dão apelo. O próprio governo de Aécio em MG foi julgado nas urnas: ele perdeu para Dilma. Por isso o mantra dele: “vou dar continuidade ao que deu certo de Lula e Dilma”.

 

Quanto à corrupção, Aécio busca cavalgar um sentimento de saturação com as denúncias. De modo muito típico, transforma num cavalo de batalha o antipetismo de direita, já clássico no país, e captura o antipetismo “de esquerda”, que Marina tentou empolgar. O fato de isso conduzir a um espetáculo deprimente para a política brasileira, com o transformismo político da historicamente respeitável legenda do PSB, e mais a adesão de Marina a Aécio, mostra que longe de uma “nova política”, estamos perante mais um passo na degradação da política. A serviço da direita.

 

Eis que, mesmo nesse terreno, Dilma ostenta marca indelével de nunca ter sido processada, ou se mancomunado ou omitido perante mal-feitos com o dinheiro público, jamais ter cometido improbidades administrativas. Todos reconhecem isso. Ao passo que Aécio, em 30 anos de vida pública, cevada no bem-bom, responde por nepotismo, improbidades e a imoralidade de ter desapropriado terreno da família para produzir um aeroporto e, assim, valorizar o patrimônio. Agora, terá que esclarecer a questão das verbas publicitárias para as rádios mineiras, caso que vem cheirando mal. Por isso, Dilma pode perguntar, na moral: “Onde estão os envolvidos com o caso Sivam? Todos soltos. Os envolvidos com a compra de votos da reeleição? Todos soltos. Os envolvidos na Pasta Rosa? Todos soltos. Os envolvidos no caso do mensalão tucano mineiro? Todos soltos. O que eu não quero é isso, candidato. Eu quero todos aqueles culpados presos”.

 

Para ser mais explícita, Dilma chamou de golpe a tentativa canhestra, mas criminosa, de a Justiça vazar seletivamente áudios e vídeos de depoimentos de um criminoso confesso, sem provas, milimetricamente calculados para o início do segundo turno. A atitude atual dos meios de comunicação monopolizados, sempre funcionais aos interesses financeiros – que festejam como abutres ganhos criminosos na Bolsa a cada ponto de pesquisa na disputa presidencial entre Dilma e Aécio – vão somados mais uma vez à ação de setores do aparato de Estado brasileiro que se põem em campanha aberta contra Dilma presidenta da República. O fenômeno é velho, a escala é nova quanto à desfaçatez: situação de se fazer sentirem  ingênuos os golpistas de Carlos Lacerda, UDN e República do Galeão, que levaram ao suicídio de Getúlio Vargas.

 

Aécio fazer-se de vítima, invocando também a Marina, pelo enfrentamento direto que lhes moveu Dilma em campanha, é risível. Até os vermes do planeta sabem que ninguém, absolutamente ninguém, é mais atacada permanentemente do que Dilma nestes últimos anos. “Desconstrução” é pouco para caracterizar isso, mais justo falar em tentativa de trucidamento.

 

Os que vivem de seu próprio trabalho têm muito a refletir sobre presente e futuro, defendendo as conquistas alcançadas. É mais uma disputa de caminhos que de personalidades. A mensagem de Aécio sempre pode capturar incautos, ingênuos e oportunistas. Mas sabe-se também que a esperteza quando é muita, engole o dono. Dilma respondeu-lhe na ofensiva em todos os blocos do debate, e em alguns momentos, encurralou-o, como foi o caso ao defender firmemente as políticas contra a violência contra a mulher implantadas pelos governos Lula e Dilma.