“Reivindicar Bolívar é um ato de resistência”, diz especialista (por Mariana Serafini)

Depois de uma década de avanços, o projeto da integração latino-americana de Simón Bolivar sofre um novo retrocesso. Os governos do Brasil, Argentina e Paraguai protagonizam um processo de ataque e enfraquecimento às instituições integracionistas, entre elas o Mercosul e a Unasul. Para o doutor em Integração da América Latina, Alexandre Ganan de Brites Figueiredo, “reivindicar Boliviar” neste momento “é um ato de resistência”.

Continue lendo

200 anos da Carta da Jamaica: o pensamento de Bolívar segue vivo!

3º e última postagem

Nesta 3ª e última publicação do Especial 200 anos da Carta da Jamaica acompanharemos as opiniões dos dois especialistas que constribuiram para esse registro. Diante disso realizamos algumas perguntas ao professor Hector Mondragón e Alexangre Figueiredo. Nesta conversa tratamos de temas como a atualidade do pensamento de Bolívar, a relação do Brasil com o projeto de unidade latinoamericana, a contribuição do brasileiro Abreu e Lima e a atual reação da direita ao que chamam de bolivarianismo.

Alexandre Figueiredo, tem 31 anos e é formado no Curso de História e Direito da USP, Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina dessa mesma universidade e doutorando pelo mesmo programa. Nessa nova etapa de seus estudos Alexandre, que também contribui com os trabalhos do IECINT (Instituto de Estudos e Cooperação Internacional), desenvolve o projeto: Simón Bolívar e o projeto político da integração. É autor do livro Ecos do Livbertador – Simón Bolívar no discurso de Hugo Chávez, publicado pela editora Annablume.

Héctor Mondragón é colombiano e reside no Brasil há anos. É vinculado aos movimentos de luta dos povos originários. Foi professor de Economia Latino-Americana na Universidade Cooperativa da Colômbia. Professor de cursos sobre América Latina (“Antecedentes e perspectivas” e “Ditaduras e Revoluções no século XX). Oak Fellowship 2000 no Colby Colege de Maine. Autor dos livros “A Estrategia do Império” (Rio de Janeiro, 2009) e “Los ciclos económicos en el capitalismo” (Bogotá, Ediciones Aurora, 2008), e coautor de “Desarrollo y Equidad con Campesinos” (Bogotá, Tercer Mundo, 1998).

A seguir acompanhe as opiniões dos dois especialistas:

1. Em que contexto foi escrita a Carta da Jamaica e qual o seu impacto para a luta por emancipação na América Latina?

Desenvolvia-se uma ampla e forte ofensiva militar da Espanha contra os governos e forças independentistas hispano-americanas, enquanto que a revolução haitiana se consolidava e a Gran Bretanha expandia seu poder. A Carta de Jamaica continha a análise e o programa de Bolívar, que além de receber grande apoio material do governo revolucionário haitiano, conseguiu convocar e unir em torno a ele os setores independentistas de Nova Granada, Venezuela e depois unir as forças da Colômbia (que incluía Venezuela, Panamá e Equador) com os independentistas peruanos, bolivianos e argentinos. O programa da Carta de Jamaica se concretizou na América Latina independente, mas ficou frustrado por não conseguir a integração latino-americana e sofreu uma grande derrota com a divisão da Colômbia em três e finalmente em quatro países.

2. Qual a atualidade do pensamento de Simón Bolívar?

Hector Mondragón: A mensagem de Bolívar sobre a necessidade da unidade dos latino-americanos no momento atual continua nos convocando a integração latino-americana. Bolívar insistia na necessidade de um caminho próprio, independente dos interesses dos Estados Unidos. Além disso, Bolívar era consciente dos direitos dos povos indígenas e da população de origem africana escravizada quem sabia que protagonizaria lutas contra o domínio da aristocracia crioula. Estes direitos ainda são motivo de lutas no continente.

Alexandre Figueiredo: O pensamento de Bolívar é tão atual quanto as questões que ele enfrentou em sua época, que até hoje permanecem presentes: subsistem ainda hoje, passados quase duzentos anos das independências, os problemas da consolidação da soberania dos estados latino-americanos e de nossa compreensão identitária.

Bolívar concebeu um projeto de unificação sob um organismo regido por um novo direito internacional público construído desde a América Latina e amparado na base de uma identidade comum. Hoje, quando debatemos em nossos espaços de cooperação e integração regionais como o Mercosul, a Unasul, a ALBA ou a CELAC, questões como segurança regional, desenvolvimento econômico, manutenção da ordem democrática e resolução de conflitos a partir de parâmetros e instâncias internas estamos ecoando problemas e já levantados por Bolívar. Da mesma forma, quando questionamos nossa identidade continental e nosso destino histórico comum, também nos deparamos com as questões que foram postas na obra do Libertador.

Para nós, brasileiros, que desde a narrativa nacional construída no período imperial somos educados a não nos reconhecermos como latino-americanos, é especialmente importante conhecer o pensamento de Bolívar. Ele reconhece as diferenças regionais do continente e, na própria Carta da Jamaica, tece considerações específicas para cada uma delas em virtude de suas peculiaridades, mas entende que, a despeito de nossas diferenças, somos integrantes de um mesmo processo histórico com desafios comuns. Unida, a América seria o modelo para o mundo, “nação de repúblicas”, seguindo suas palavras. Hoje, quando discutimos o tema da integração ainda estamos diante dessa aspiração comum legada pela geração que fez a independência.

3. Pode comentar algo a respeito de Abreu e Lima, brasileiro que combateu nos exércitos de Bolívar? Qual a relação do Brasil com essa perspectiva?

Hector Mondragón: José Inácio de Abreu e Lima era filho de um dos líderes da Revolução Pernambucana, executado pela monarquia portuguesa depois da derrota da revolução. Fugitivo, em 1818 optou por se unir as tropas de Bolívar no Caribe e foi nomeado diretor do jornal do Exército Libertador, O Correio do Orinoco. Participou, então, da luta vitoriosa pela fundação da Colômbia e na libertação do Peru e da Bolívia. Em 1830, logo da derrota e morte de Bolívar além da divisão da Colômbia, teve novamente que exilar-se até conseguir retornar ao Brasil. Abreu e Lima, assim como o granadino, José Maria Melo representou uma virada das ideias bolivarianas em direção ao socialismo. Melo, que foi como um Che Guevara do século XIX, conseguiu derrotar a rebelião armada dos escravistas quando Nova Granada aprovou a abolição da escravidão em 1851; dirigiu a revolução dos artesãos em 1854; foi o primeiro presidente indígena da América Latina e, derrotada a revolução, foi à Nicarágua lutar contra a invasão flibusteira do estadunidense Walker. Depois uniu-se a Benito Juarez, no México, onde morreu fuzilado pelos conservadores que apoiaram a invasão europeia desse país.

Abreu e Lima escreveu em 1855 o livro O Socialismo pelo qual pode-se considerá-lo como o precursor das ideias socialistas no Brasil. Foi um decidido partidário do fortalecimento nacional do Brasil, escreveu o primeiro texto de História do Brasil e apesar de ser perseguido pela monarquia se negou a unir-se a os republicanos liberais em minha opinião não porque ele, sendo socialista gostasse da monarquia, senão porque considerava, baseado na sua experiência colombiana, que os republicanos latino-americanos da época representavam interesses dos fazendeiros e comerciantes que quebravam a construção da nação e serviam de instrumento as potencias estrangeiras.

Alexandre Figueiredo: Abreu e Lima foi um dos generais do exército de Bolívar, dentre os mais próximos do Libertador, estando a seu lado até o momento de sua morte. Sua proximidade a Bolívar era tamanha que uma das principais fontes primárias para o estudo da ação política do Libertador, o documento Resúmen Histórico de la Última Dictadura del Libertador Simón Bolívar, foi escrito por Abreu e Lima. Sua trajetória, aliás, é por si só um testemunho daquela geração. Filho do padre Roma, um dos revolucionários pernambucanos executados por conta do levante de 1817, Abreu teve de rumar para o exílio. Após passagem pelos Estados Unidos, onde conheceu notícias sobre a revolução dirigida por Bolívar, foi à Venezuela e alistou-se no Exército Libertador em 1819, onde permaneceria até a morte de Bolívar, em 1830, participando das principais batalhas da campanha pela libertação do continente. Dentre elas, a Batalha de Ayacucho, na qual ocorreu a derrota definitiva dos espanhóis, em dezembro de 1824. É atribuída a Abreu e Lima a primeira obra do socialismo utópico escrita por um brasileiro, O Socialismo, publicada já quando o general se encontrava de volta ao Brasil.

4. Nas manifestações que pediam a saída da Presidenta Dilma muitas pessoas levavam cartazes associando o PT ao bolivarianismo. O que representa o projeto bolivariano atualmente?

Hector Mondragón: Hugo Chávez Frias identificou seu projeto, venezuelano e latino-americano, como bolivariano. Isso é o que geralmente se considera bolivariano pela mídia internacional hoje. Como se sabe, ele foi presidente da Venezuela eleito e ratificado pelo povo durante 14 anos e seu partido ainda governa nesse país, que até hoje mantém todas as suas instituições constitucionais e eleições periódicas. O bolivarianismo de Chávez, além de enfatizar a integração latino-americana e a soberania nacional, tem realizado um programa de nacionalizações (atividades petroleiras, telecomunicações, serviços públicos, indústria do cimento e empresas e supermercados que boicotam a produção ou o comercio de bens). Impulsionou medidas de reforma agrária e fomento da produção nacional de alimentos. Também desenvolveu um amplo programa de redistribuição da renda nacional, beneficiando os setores mais pobres, com planos de construção de moradias, de educação e saúde públicas e gratuitas. Há 13 anos este projeto é atingido por uma intensa guerra econômica (lock outs empresariais, armazenamento de alimentos em depósitos escondidos, contrabando, sanções dos Estados Unidos), guerra que procura abalar e destruir a tentativa de construir uma economia completamente desvencilhada do neoliberalismo. Uma ampla organização da população pobre das cidades e do campo e dos sindicatos operários tem conseguido resistir a várias tentativas de golpe de Estado ou de depor o governo com manifestações violentas protagonizadas pela classe média e alta. A Venezuela está agora polarizada. Esta história tem muito em comum com as experiências do programa aplicado por Cárdenas entre 1936 e 1940 no México ou com o grande conflito entre o peronismo e a classe média e alta entre 1946 e 1955 na Argentina, e tem um panorama diferente do programa bolivariano de 1815. Acho que somente o governo de Evo Morales na Bolívia está perto do conteúdo econômico e social desse modelo de Chávez que por outra parte conseguiu governar, como Evo Morales, somente pela via eleitoral, e é um modelo bem diferente de outras propostas que reclamam como seu o rótulo bolivariano.

Alexandre Figueiredo: Em primeiro lugar, é necessário frisar que Bolívar é um pensador e herói reivindicado por muitos. Na Venezuela especialmente ele foi ícone celebrado à esquerda e à direita. Ora valorizou-se o líder que encampou as bandeiras populares à luta pela independência, abolindo privilégios e combatendo a escravidão, ora Bolívar foi apresentado como um baluarte da ordem e do conservadorismo. Como qualquer personagem da sua envergadura, Bolívar é um herói disputado. Na Venezuela, ele foi resgatado em sua vertente popular e progressista pela ação política do grupo constituído em torno do presidente venezuelano Hugo Chávez, ainda no início da década de 1980.

Mas o bolivarianismo não ficou circunscrito às realizações do Estado venezuelano após a chegada de Chávez ao governo e a promulgação da Constituição de 1999, que oficialmente tornou aquele país uma república “bolivariana” e, como dispõe seu art. 1º, fundamentou su patrimonio moral y sus valores de libertad, igualdad, justicia y paz internacional, en la doctrina de Simón Bolívar, el Libertador. Essas são conquistas importantes e contribuíram para renovar a luta pela unidade e levar a todo o continente o pensamento de Bolívar, principalmente pela atuação de Chávez. Mas Bolívar e o bolivarianismo não são patrimônio exclusivamente venezuelano ou mesmo limitado aos países nos quais ele foi o principal agente de libertação no século XIX.

A meu ver e na condição de latino-americano nascido no Brasil, entendo que embora o conceito de “bolivariano” possa se remeter às muitas vertentes de um pensamento rico, ser bolivariano hoje é, antes de mais nada, defender a integração dos povos da América Latina e compreender que a soberania e a capacidade dos diversos estados da região para reger-se autonomamente estará garantida quando for amparada por um organismo de integração. Além disso, a integração é também, como Bolívar formulara, um projeto identitário e, nesse sentido, contribui para que nos compreendamos e nos localizemos entre os povos do mundo sem qualquer subordinação.

Atacar o bolivarianismo, ontem e hoje, é o mesmo que atacar esse projeto soberanista e republicano. Não à toa os grupos que se articulam contra a democracia são os mesmos que representam o caminho da subordinação política, econômica e cultural a potências estrangeiras, contra o qual Bolívar e os bolivarianos, de ontem e de hoje, sempre se bateram.

[1] LYNCH, John. Las Revoluciones Hispanoamericanas – 1808-1826. Barcelona: Ariel, 2008, p. 204.

[2] Divisão administrativa do Império Espanhol que hoje corresponde à Colômbia, Panamá e Equador.

200 anos da Carta da Jamaica: o pensamento de Bolívar segue vivo!

Iniciamos aqui no Blog uma publicação especial sobre os 200 anos da Carta da Jamaica, documento emblemático escrito por Bolívar considerado um marco do pensamento bolivariano. Postamos hoje a segunda parte, com a opinião do historiador Alexandre Fgueiredo sobre o contexto em que foi escrita o documento.

Alexandre Figueiredo tem 31 anos e é formado no Curso de História e Direito da USP, Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina dessa mesma universidade e doutorando pelo mesmo programa. Nessa nova etapa de seus estudos Alexandre, que também contribui com os trabalhos do IECINT (Instituto de Estudos e Cooperação Internacional), desenvolve o projeto: Simón Bolívar e o projeto político da integração. É autor do livro Ecos do Livbertador – Simón Bolívar no discurso de Hugo Chávez, publicado pela editora Annablume.

O documento conhecido como Carta da Jamaica, ou Carta Profética, foi escrito em seis de setembro de 1815, um momento de extrema dificuldade para os que combatiam pela independência. Naquele contexto, toda região setentrional da América do Sul que, por diversos caminhos, havia se declarado livre do Império Espanhol, padecia ante a reação. Fortalecida após a derrota de Napoleão e com a intenção de esmagar os governos independentes que se constituíram, a monarquia espanhola enviara à América a maior força militar estrangeira que já pisara o continente: de 10 a 15 mil soldados veteranos das guerras europeias, além de armamento farto e moderno[1], sob o comando do general Pablo Morillo, um comandante da guerra contra os franceses. Quando Bolívar redigiu a Carta da Jamaica, Morillo já ocupara a Venezuela e marchava sobre a extensão da Nova Granada[2]. A revolução estava derrotada e os patriotas sobreviventes buscavam refúgio nas ilhas caribenhas.

            A derrota não se devia somente à força militar do Império. Na Nova Granada, as discordâncias e divisões no campo patriota abriram o caminho para as tropas da reação. Na Venezuela, duas experiências de governo independente já haviam sucumbido ante reações internas de forças anti-republicanas e leais à monarquia. A chamada Primeira República venezuelana (1811-1812) fora derrotada graças à sublevação de províncias do interior contrárias à obediência ao governo autônomo instaurado em Caracas. Bolívar participara desse governo e vivenciara sua queda, chegando a conclusões que estariam presentes nas suas avaliações posteriores.

Por sua vez, a Segunda República (1813-1814), governada por Bolívar e forjada após uma fulminante campanha militar invicta, já havia sido derrotada antes de as forças espanholas desembarcarem na Venezuela. As camadas populares, marginalizadas ou escravizadas, não apoiaram o governo republicano, combatendo em nome do rei contra um governo que, a rigor, era composto pela oligarquia colonial. Dessa segunda derrota, Bolívar tirou a lição de que a independência deveria ser mais que uma luta pela autonomia política desejada por uma fração da elite colonial local, para também realizar-se como transformação social: a chave para a vitória estaria na síntese dessas duas bandeiras.

            Em maio de 1815, Bolívar chegara à Jamaica com a esperança de obter apoio inglês para retomar a luta. Sem recursos e com poucos aliados confiáveis, ele passou a redigir artigos para imprensa local e cartas para diversas pessoas, defendendo sua causa. Uma dessas cartas, destinada ao inglês Henry Cullen, que lhe confessara admiração pelos patriotas do continente, é a conhecida Carta da Jamaica.

            Nela, Bolívar trata de justificar o porquê de continuar uma luta que, ao que tudo indicava, estava perdida definitivamente. Afinal, não apenas a Espanha tivera seu rei restaurado no trono, como o Congresso de Viena, realizado também em 1815, marcava a vitória das forças contra-revolucionárias na Europa.

Como manter uma guerra contra forças militares superiores, contra uma conjuntura de reafirmação dos poderes dinásticos e ainda contra um complexo cenário social e político no interior da região que se pretendia libertar? Bolívar defende neste documento que não só a luta deveria continuar, como que a vitória seria apenas uma questão de tempo. Evidentemente, suas considerações tinham um claro propósito político: buscar o apoio de ingleses e demais europeus, além dos Estados Unidos, para a causa da independência em um momento no qual os patriotas encontravam-se isolados e perseguidos (em 1815, o próprio Bolívar escapou de um atentado que poderia ter-lhe tirado a vida). Mas, para além das passagens nas quais sobressai a propaganda em detrimento da análise, sua avaliação do cenário, das condições em se travava a luta e sua visão do futuro fazem da Carta da Jamaica um dos principais documentos do pensamento político latino-americano.

            Ali, Bolívar analisa o complexo cenário das lutas pela independência a partir de uma perspectiva integral, compreendendo-as dentro de um mesmo processo. Do México ao Rio da Prata, Bolívar visualiza uma mesma revolução e essa compreensão global é uma das principais contribuições da Carta da Jamaica. O agente dessa revolução continental seria um povo que ainda não fora devidamente definido: o americano. Nosostros somos un pequeño género humano, escreveu, reforçando que na América, de forma inédita na história, se encontraram as populações de todo o mundo. No somos ni indios ni europeos, sino una especie intermedia entre los legítmos propietarios del país y los usurpadores españoles, afirma. Mais tarde, em outro de seus documentos clássicos, Bolívar aprofunda essa reflexão: tengamos presente que nuestro pueblo no es el europeo, ni el americano del Norte, que más bien es un compuesto de África y de América que una emanación de la Europa (Discurso de Angostura). Essa constatação, cumpre um duplo papel: primeiro, ao afirmar a identidade nova e própria da população americana, ela justifica e legitima a ruptura com os espanhóis, que passam a ser apresentados mais claramente como opressores e não como membros de uma mesma “família”; e segundo, ao identificar os americanos como uma população única, caracterizada pela composição diversa e unida exatamente por essa característica, se afrontava a base racista da estratificação da sociedade colonial. O aparato legislativo do Império dividia a população entre brancos – os donos de privilégios – escravos negros, indígenas e as então chamadas “castas”, a imensa população mestiça. Mesmo entre os brancos, minoritários, havia a discriminação estre espanhóis e americanos, privilegiando-se os primeiros.

Naquele momento de derrota, ciente de que a república caíra por não compreender as demandas do povo a quem se destinava, Bolívar vislumbrou na Carta da Jamaica uma identidade americana capaz de construir a unidade para a luta. Assim, a Carta da Jamaica apresentava de forma inovadora a revolução de independência como um mesmo processo histórico, que devia ser compreendido sob uma perspectiva única, cujo sujeito seria um mesmo povo, novo e original, exigindo soluções adequadas à sua realidade.

            O grande desafio a ser enfrentado pelos americanos, agora compreendidos como um todo, seria o de conhecer com clareza sua realidade e suas limitações. Durante muito tempo, alega Bolívar na Carta, os americanos tiveram fechadas diante de si as portas para o exercício de quaisquer funções públicas, reservadas aos espanhóis. Além disso, sua economia se desenvolvia mediante os limites impostos pela Coroa: estavam proibidos o comércio entre as províncias americanas e o estabelecimento de manufaturas, dentre outros limites. Completamente inexperientes nas artes do governo e na compreensão das forças econômicas, os americanos tinham diante de si o desafio de construir governos livres. Por isso, Bolívar apontava em 1815 para a necessidade de governos centralizados e com força suficiente para impedir a desagregação. Não se tratava apenas de derrotar o Império, o que por si só parecia uma realidade distante naquele momento, mas de já enfrentar o desafio realmente complexo de construir uma institucionalidade livre a partir de uma realidade colonial que em tudo negava a prática da liberdade.

            Quanto ao futuro, Bolívar anunciou na Carta da Jamaica seu projeto de ver uma América inteira composta por repúblicas, assentada em um corpo de cidadãos cuja igualdade seria garantida pela lei. Por fim, as repúblicas americanas poderiam, com o objetivo de garantir sua liberdade e prosperidade, unificar-se baixo um organismo único: es una idea grandiosa pretender formar de todo el Mundo Nuevo una sola nación con un solo vínculo que ligue sus partes entre sí y con el todo, escreveu na Carta. E mesmo considerando esse um objetivo distante, anunciou o projeto de reunir no Panamá um congresso de representantes de todas as repúblicas com o fim de constituir essa organização, precursora das atuais organizações internacionais: ojalá que algún día tengamos la fortuna de instalar allí un augusto congreso de los representantes de las repúblicas, reinos e imperios a tratar y discutir sobre los altos intereses de la paz y de la guerra, con las naciones de las otras partes del mundo. Bolívar conclui essa exortação afirmando que esta especie de corporación podrá tener lugar en alguna época dichosa de nuestra regeneración.

Em resumo, é possível apontar três elementos que demostram a importância da Carta da Jamaica: a definição da América como uma entidade única, obedecendo a um mesmo processo histórico; a definição do povo americano como original e pertencente a essa realidade continental e não local; a defesa da forma republicana de governo, contrária à monarquia e quaisquer privilégios; e a apresentação do projeto de unificação dos estados da região baixo um organismo de integração.

200 anos da Carta da Jamaica: o pensamento de Bolívar segue vivo!

1ª postagem*

Na quarta-feira, 16/09, realizou-se em Brasília atividade comemorativa aos 200 anos da Carta da Jamaica. A iniciativa do Comitê de Solidariedade Brasil-Venezuela e a Embaixada deste último país reuniu várias lideranças, lutadoras e lutadores pela unidade latino-americana e caribenha na sede nacional do Partido dos Trabalhadores. A carta, que comemorou o bicentenário de sua publicação no último dia 06 de setembro é conhecida por ser uma elaboração chave para o pensamento desenvolvido por Simón Bolívar muitos afirmam que nela estão contidos princípios basilares do seu pensamento.

Após dois séculos de sua publicação e das lutas por independência na América Latina, Bolívar segue estando presente nas nossas vidas, nosso dia a dia. Hoje ele é símbolo de integração soberana e solidária dos povos da Nuestra América, como disse José Martí. Está presente na Constituição e no nome da República Bolivariana da Venezuela que hoje protagoniza recuperação do projeto bolivariano e é evocado por todos aqueles que defendem a unidade latino-americana. Também, para a direita, Bolívar está presente. Sobretudo nas manifestações golpistas que presenciamos atualmente a elite brada: Fora Bolivarianos.

Assim, ao atacar o projeto bolivariano a direita mira no projeto integracionista em curso. Esse projeto que derrotou a ALCA, construiu processos de integração soberanos sem a tutela dos EUA que gerou ALBA, UNASUL, CELAC e vem fortalecendo o Mercosul. Ainda, gerou políticas de combate às desigualdades e desenvolvimento diversificado e com maior autonomia.

Assim sendo, Bolívar segue presente no quotidiano da América Latina. Sobre isso conversamos com dois especialistas no assunto. Alexandre Figueiredo, tem 31 anos e é formado no Curso de História e Direito da USP, Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina dessa mesma universidade e doutorando pelo mesmo programa. Nessa nova etapa de seus estudos Alexandre, que também contribui com os trabalhos do IECINT (Instituto de Estudos e Cooperação Internacional), desenvolve o projeto: Simón Bolívar e o projeto político da integração. É autor do livro Ecos do Livbertador – Simón Bolívar no discurso de Hugo Chávez, publicado pela editora Annablume.

Também conversamos com o professor Héctor Mondragón, colombiano que reside no Brasil há anos e vinculado aos movimentos de luta dos povos originários. Foi professor de Economia Latino-Americana na Universidade Cooperativa da Colômbia. Professor de cursos sobre América Latina (“Antecedentes e perspectivas” e “Ditaduras e Revoluções no século XX). Oak Fellowship 2000 no Colby Colege de Maine. Autor dos livros “A Estrategia do Império” (Rio de Janeiro, 2009) e “Los ciclos económicos en el capitalismo” (Bogotá, Ediciones Aurora, 2008), e coautor de “Desarrollo y Equidad con Campesinos” (Bogotá, Tercer Mundo, 1998).

A partir de hoje iniciaremos um breve especial sobre os 200 anos dessa publicação com os comentários dos dois professores mencionados anteriormente. Acompanhe a próxima matéria.