Necropolítica na metrópole: extermínio de corpos, especulação de territórios (por Juliana Borges)

Ao mobilizar centenas de policiais e manifestar expressiva violência naquele território da Luz, a atual política da administração municipal de São Paulo tem por objetivo não apenas o controle, mas visa limpar pessoas e abrir caminho aos interesses corporativos e financeiros. É a “Cidade linda” operando na lógica da limpeza social e racial do território e abrindo-o para interesses mercadológicos. São as dominações racista e classista em funcionamento interseccionado.

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Cracolândia, um caso paradigmático

Entre as questões que penalizam a cidade de São Paulo, uma chaga tem sido a chamada Cracolândia. Não é algo tópico, mas envolve toda a cidade e tem uma cadeia causal que extrapola em muito o governo municipal. Mas, depois de várias tentativas dos governos passados – entre as quais algumas eivadas de políticas higienistas e policialescas -, o governo Haddad dá um exemplo de tratamento digno e eficiente.

Nada será simples e realizado num ato só, certamente. Haverá provavelmente remissões, mas esforços contínuos num caminho bem formulado como foi esse, ganharão o apoio não só da população diretamente envolvida, como também do conjunto dos paulistanos. A garantia de trabalho, moradia e de assistência médica aos drogaditos, de modo participativo e não impositivo, envolvendo também a comunidade no entorno, é uma amostra significativa de como lidar com processos complexos da vida da metrópole.

Chama a atenção o quanto a mídia plutocrática de São Paulo subestimou a cobertura. Como sempre, transforma tudo em guerra política, seja pela ação ostensiva contra as forças progressistas, seja pela omissão – que é negação de informação democrática – para não favorecer o “inimigo”. Uma concepção binária da guerra política permanente em que transformaram a cobertura sobre os acontecimentos nacionais. No caso da ação da Cracolândia, estão mesmo com dor de cotovelo.

Mas os cães ladram e a caravana passa. A ação promovida pelo governo da cidade nesse episódio tem tudo para se transformar num caso paradigmático de como enfrentar um problema dessa magnitude, em respeito à cidadania, e emblemático quanto à disputa política que se realiza na cidade.

Paradigmático porque o caso se relaciona com as maiores demandas da sociedade brasileira, a da vida urbana que é crescentes fonte de insatisfação, mal estar e reclamos. Qualidade de vida, cidades mais humanas, mobilidade, soluções metropolitanas, serviços públicos, participação da sociedade nas políticas públicas abarrotam a pauta de qualquer governo municipal nas grandes concentrações urbanas e isso ocorre especialmente em São Paulo. Fazem parte do grande desafio de realizar, progressivamente, uma profunda reforma urbana capaz de um planejamento urbano democrático, de garantir a função social da propriedade e de promover a regularização fundiária.

Vê-se que qualquer dessas questões exige foco, convergência multissetorial e multi-institucional, nos marcos democráticos de respeito aos direitos humanos e, ao mesmo tempo, dos direitos de usufruir a cidade por parte de toda a comunidade. Foi o que se deu no presente programa realizado na Cracolândia.
É o que precisa ser feito pela gestão. E com base nisso realizar a disputa política. O governo da cidade de São Paulo, e Haddad pessoalmente, mais seu secretariado, têm prestígio político e moral para chamar a si a disputa elevada em torno de rumos e valores, politizando o debate sobre as opções e políticas públicas, e enfrentando sem defensiva o cerco a que querem submetê-los as forças conservadoras. Podem chamar a si essa disputa, ofensivamente, com pautas que possam falar aos corações e mentes das maiorias sociais da cidade, dos movimentos sociais, sobretudo a juventude e os carentes da periferia, sob a liderança de Haddad, não só na gestão do governo como também junto à população, diariamente, na implantação dos programas de governo.
Politizar e comunicar melhor, menos gabinete e mais contato com a população. O lastro é grande, essa batalha certamente será de ganhos.