A economia no mundo e no Brasil (por Sérgio Barroso)

A economia brasileira tem sinais objetivos quanto a estar ou não em retomada e ao ritmo em que se verifica. Mas, ao mesmo tempo, há uma disputa política em torno do tema, pois se relaciona às perspectivas das eleições de 2018 envolvendo o poder e o projeto.

Julguei útil apresentar a reflexão de Aloysio Barroso, economista e membro da Fundação Maurício Grabois, pelo método sistemático e analítico com que se devem adotar as estatísticas e a realidade econômica do país.

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Donald Trump, o “exit” dos EUA

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Recentemente, a propósito da situação brasileira, me vali de citação de J. M. Thompson na obra Napoleón Bonaparte, abrindo o capítulo da campanha na Espanha do genial estrategista, por onde começaria a derrocada consumada em Waterloo:

Suponha um amontoado de fatos, alguns promovendo a sobrevivência, outros a destruição; suponha ainda que eles se sobrepõem no tempo, de modo que o espectador no litoral da história não consegue saber ao certo se a maré ainda está virando: mesmo assim, se ele for suficientemente observador, notará uma onda que se eleva sobre todas as outras, e uma que assinala o primeiro malogro em alcançar aquele nível. Continue lendo

Otan e Ucrânia: do oba!oba! ao epa!epa!

Excelente artigo, inédito neste Blog,  do amigo combatente das ideias,  João Quartim de Moraes. A ocasião foi ele que a propôs, e o tema tem importância de fundo sobre a atualidade da crise capitalista-imperialista. Minha forma de assinar embaixo é postando-o aos leitores.

Otan e Ucrânia: do oba!oba! ao epa!epa!

Por Quartim de Moraes

 

Oba!oba!

 

Nos últimos dias de 1989, antes mesmo de que assentasse a poeira do muro de Berlim e que a “perestroika” de Gorbachov acabasse de apodrecer, quando reacionários e liberais do mundo inteiro comemoravam, eufóricos, o desmantelamento do bloco soviético e a ruptura, em favor do bloco capitalista, do equilíbrio estratégico US/URSS, tropas de choque aerotransportadas do Pentágono invadiram o Panamá para derrubar e prender o presidente Noriega. Operação com pelo menos dois objetivos sórdidos: “queimar arquivo” (Noriega conhecia a fundo as torpezas da CIA, com a qual havia colaborado em fase anterior de sua carreira) e quebrar a espinha dorsal do Exército panamenho, ainda impregnado do espírito anti-imperialista que lhe legara o coronel Torrijos. Os invasores mataram alguns milhares de panamenhos e ocuparam o país até colocar no governo um de seus fâmulos locais. Noticiado com a habitual “compreensão” pela imprensa a serviço do capital, o estupro colonial foi facilmente deglutido pelos meios políticos liberais, “esquecidos” da missão “defensiva” em nome da qual a Otan tinha sido criada no início da guerra fria.

 

Durante os anos seguintes, sobretudo quando a dupla de celerados G. W. Bush e T. Blair pontificou em seu comando, o cartel industrial-militar imperialista assumiu a função de exército colonial multinacional, despejando suas armas de destruição maciça, sob os pretextos mais hipócritas, num número crescente de países periféricos: Iraque, Sérvia, Afeganistão e Líbia. Foram muitas as semelhanças entre a invasão da Líbia em 2011 e a do Iraque em 2003. Ambos eram governados por um regime laico, oriundo da luta anti-imperialista das nações árabes; ambos tinham forte produção de petróleo de muito boa qualidade e mantinham, dentro dos limites das fortes pressões impostas pelo imperialismo, uma política externa independente. Ambos, enfim enfrentavam uma oposição heterogênea, em que pontificavam provocadores diretamente a soldo dos “serviços especiais” (Cia e sucursais europeias), liberais de direita pro-imperialistas e fundamentalistas islâmicos de extrema-direita.

 

A novidade na invasão e saqueio da Líbia foi a participação predominante da França na “zona de exclusão aérea”, seguida pelos “bombardeios humanitários” que decidiram o confronto. O assassinato de Khadafi pelos esbirros locais da Otan foi uma queima de arquivo e de credor: o presidente Sarkozy devia muito dinheiro ao governante líbio.

 

Epa!epa!

 

Estão terminando, se é que já não terminaram, os anos de euforia dos liberal-imperialistas, dos fascistas e dos social-democratas perante o desmantelamento da URSS. Foi-se o tempo em que os sabujos do plantel mediático extasiavam-se constatando que “a OTAN é dona do mundo”. Reconstruindo o Estado russo, prostituído pelo ladrão Yeltsin (cuja viúva adquiriu um dos mais caros e suntuosos palácios da Côte d’Azur), reaproximando-se da China e levando adiante uma política anti hegemônica, Putin tirou seu país da miserável situação em que o deixara o ébrio comandante da contra revolução de 1991 e mudou a relação de forças no planeta.

 

A primeira invertida que a Otan levou ocorreu na Síria. A política externa independente mantida pelo governo de Bashar Al Assad, concretizada em alianças com a Rússia e o Irã e em firme apoio ao movimento patriótico Hezbollah, vanguarda da luta contra o facho-sionismo, tornava-o um alvo muito importante para a ofensiva neocolonial da Otan. A tolerância religiosa e o combate à opressão das mulheres valeu-lhe, ademais, o ódio obscurantista dos sheiks feudais da Arábia Saudita e dos Emirados petroleiros. Como na Líbia, o romântico clichê mediático “primavera árabe” serviu de embalagem ideológica para a desestabilização da Síria. Vagas sucessivas de mercenários e de fanáticos do chamado Exército sírio livre, sigla que abriga terroristas profissionais financiados pelos sheiks da Arábia Saudita e dos Emirados petroleiros, apoiados pela Turquia e pela Otan, semearam o terror no país, num interminável cortejo de destruições, execuções punitivas e outros atos da pior barbárie (como o registrado no horrível vídeo que os próprios fanáticos divulgaram, comendo as entranhas de um prisioneiro).

 

Após quatorze meses de operações mortíferas que dizimaram a população e estraçalharam boa parte do país (a começar dos centros urbanos mais importantes), a agressão neocolonial se intensificou em meados de julho 2012, quando a Otan lançou a operação «Vulcão de Damasco e terremoto da Síria». Uma nova vaga de invasores, composta de algumas dezenas de milhares de mercenários e de fanáticos sunitas ligados à tenebrosa al-Qaeda (agindo de mãos dadas com a CIA, como já o tinham feito três décadas antes na guerra santa contra os soviéticos no Afeganistão), entraram na Síria via Jordânia, após liquidaram grupos isolados de policiais e de militares e se apoderarem de vários postos de fronteira. O objetivo era tomar Damasco de assalto. Na manhã do dia 18, eles destruíram a sede do Conselho de Segurança Nacional e mataram três generais: Daud Rajha, ministro da Defesa, Assef Chawkat, ministro adjunto, e Hassan Turkmani, secretário da presidência da República. Em apoio à ofensiva terrorista, o governo estadunidense e seus satélites usaram a sempre maleável ONU para ameaçar neutralizar com “bombardeios humanitários” a superioridade aérea do governo sírio. Mas chocaram-se com um firme veto da Rússia, secundada pela China. A ofensiva foi contida. A guerra continuou e já entra em seu quarto ano. Mas pela primeira vez, desde 1990, a ofensiva imperialista e as sedições por ela apoiadas foram detidas.

 

Ao ajudar o golpe fascista e pro-imperialista de 21 de fevereiro de 2014, na Ucrânia, que depôs o presidente Viktor Yanukovych porque ele se recusou a assinar um pacto de vassalagem com a União Europeia, os chefes da Otan pensaram dar uma lição à Rússia e reafirmar sua hegemonia planetária, que tinha sido contida pelo veto na ONU aos “bombardeios humanitários” sobre a Síria.  Logo ao assumir o governo, a direita golpista revogou a lei que reconhecia o russo como língua oficial em regiões onde ele predominava. No Parlamento ucraniano, deputados contrários ao golpe foram espancados. De todo o Ocidente cristão e plutocrático, do “king of drones” Obama ao social-colonialista Hollande, vieram aplausos aos golpistas de Kiev.

 

Mas o coro do oba!oba! não durou muito. Na Crimeia e no leste da Ucrânia, a grande maioria do povo, politicamente anti fascista e culturalmente ligada à Rússia, mobilizou-se pela autonomia. Em 16 de março, os cidadãos da Crimeia aprovaram em referendum, por 96,8% dos votos, separar-se da Ucrânia e unir-se à Federação Russa. A ofensiva neocolonial da Otan foi de novo detida. Furibundos, os “media”liberal-imperialistas, competindo para ver quem melhor diaboliza o país que um dia foi dos Soviets, só se referem à “anexação” da Crimeia, modo torpemente mentiroso de descrever os fatos.

 

Os sabujos da periferia, rosnando à voz do dono (“his master’s voice”), também destilaram sua quota de veneno anti russo. O Estado de São Paulo de 10-5-2014 classificou de “provocação” a presença de Putin em Sebastopol na comemoração do 69º aniversário da vitória final sobre o nazismo. Para não perder muito tempo com porcaria ideológica, seria fácil constatar a indecente duplicidade do jornal do clã Mesquita: ele ataca o governo russo por ter apoiado,sem derramar uma gota de sangue, aautodeterminação da Crimeia, mas justifica até os mais mortíferos ataques imperialistas. Em 22-12-1989, aquele jornal, num editorial intitulado “Em defesa de um modo de vida” (p. 3) não somente defende a covarde e sangrenta agressão das tropas estadunidenses ao Panamá, mas com desenvoltura que surpreende mesmo quem conhece sua veneração pelo Pentágono, Casa Branca, Wall Street, Tio Sam etc, critica a OEA porque esta condenou a invasão. Se tivessem um mínimo de honestidade intelectual, antes de vociferar contra os governos que enfrentam a Otan, lembrariam do que disse o editorialista hipócrita sobre a invasão do Panamá: “A legalidade da ação ordenada pelo presidente Bush funda-se na própria existência do Estado”, que “tem o dever de defender a vida de seus súditos no exterior […]. A vida de cidadãos norte-americanos[…] estava em risco no Panamá de Noriega”.  Não se tem notícia de que algum gringo tenha sido molestado por Noriega; só está confirmado que milhares de panamenhos  foram massacrados pelas bombas do Tio Sam. Ao passo que na Ucrânia a perseguição aos russos levou ao pavoroso massacre do dia 2 de maio em Odessa. Se estivesse buscando pretextos para resolver pela força o confronto com os golpistas ucranianos, o governo russo não teria deixado passar esta ocasião.

 

Letônia adere ao euro mesmo em crise

Letônia, república báltica da ex-URSS, adere ao Euro. É a quinta menor economia europeia, com pouco mais de 2 milhões de habitantes, com uma história trágica entre autonomia e dominação. Adere ao Euro após a liberação da URSS em 1991 e a adesão à Comunidade Europeia em 1994. É o quarto país ex-comunista a aderir, e o segundo que o faz após a eclosão da crise europeia, que levou à bancarrota Grécia, Irlanda e Portugal, além de arrastar também Espanha e Itália. A Europa mantém-se em recessão, o desemprego é terrível, e só a Alemanha lucra com o atual arranjo, fato proclamado nas ruas em todos esses países.

Entre 2008 e 2009 o PIB da Letônia despencou 25%. Com uma população pequena e uma economia de serviços, é duvidoso que em curto prazo a adesão ao Euro possa representar um avanço do país.

Mesmo com a crise, há uma falta de alternativas reais para a afirmação e desenvolvimento das nações. A Letônia busca atrelar-se como vagão numa onda que, se já conheceu dias melhores com o Estado de bem estar social, hoje representa mais uma dependência da qual não se livrarão facilmente.

Lembro-me de uma declaração reportada em 1991, com a queda da ex-URSS, de uma senhora de família falida mas culta da ex-URSS. Seu principal anseio, dizia, era de que “suas filhas não crescessem à margem da corrente principal da civilização ocidental”. Talvez seja isso, mais que a economia simplesmente, que represente a hegemonia do tempo atual, malgrado a crise. E só se explica historicamente pela falência do socialismo, no que foi chamada uma derrota estratégica.

Já se passou uma geração após esses fatos. A Letônia – na qual 40% são não letões, maioria russa – vai certamente esperar mais uma ou duas gerações para encontrar caminhos autônomos e livres. Como dizia João Amazonas, assim está sendo o século 21: no início trevas, mas as luzes virão, porque o anseio de soberania e liberdade é insuperável. O Euro não salvará a Letônia da condição de satélite, mas agravará as condições sociais de seu povo.

Veja em: http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,letonia-torna-se-o-18-pais-a-aderir-ao-euro-moeda,174219,0.htm

 

O "espontâneo" nas manifestações de junho

Leitura recomendada

 

São dois artigos numa mesma chave, mas fundamentais para um exame mais acurado do significado das manifestações ocorridas em várias partes do mundo, com diferentes caracteres, mas alegando a força do “espontâneo”. Não deixem de ler, de Sérgio Barroso (PCdoB) e Margarida Botelho (PC de Portugal):

 

http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=8&id_noticia=11620

 

http://www.omilitante.pcp.pt/pt/324/Tema/797/Algumas-notas-sobre-os-movimentos-%C2%ABinorg%C3%A2nicos%C2%BB.htm