Querem distribuição de renda? É preciso Estado, indústria e inovação (por Luiz Roque Miranda Cardia)

A esquerda tem uma obsessão: a distribuição de renda. É uma obsessão justa, afinal de contas expressa o valor fundante do conceito de esquerda ainda na Revolução Francesa: a justiça social. Como se sabe, o real lema revolucionário burguês deveria ser Liberdade, Igualdade e Propriedade. A fraternidade servia apenas como retórica para unificar os pobres aos burgueses, que lutavam efetivamente pela liberdade de empresa, igualdade jurídica e defesa da propriedade. Dessa forma, a Assembleia Nacional Francesa se dividiu, ficando à esquerda do púlpito do orador os jacobinos que lutavam ferrenhamente pela justiça social. À direita ficavam os girondinos, defensores do direito dos ricos de ficarem mais ricos. No centro ficava o pântano, como era conhecido à época, o setor oportunista que apoiava o governo de plantão (é o que hoje conhecemos como PMDB, ou mais recentemente “centrão”). Ora, compreendo que a expressão “ser de esquerda” não se restringe à concepção iluminista originada na Revolução Francesa e que pode assumir significados muito diversos, no entanto considero relativamente seguro dizer que essa é origem histórica do termo e que continua sendo o seu uso corrente mais comum.

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Alfredo Bosi, A Grande Encruzilhada

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Transcrevo, para recomendar a leitura, brevíssima e precisa abordagem de Alfredo Bosi, professor da USP, sobre a atual realidade política. Foi publicada em Carta Capital desta semana.

A grande encruzilhada

“Quando nos encontramos diante de uma encruzilhada, não nos resta senão refletir com a cabeça fria. O que nos espera no fim de cada caminho a ser escolhido? Vivemos hoje um momento em que qualquer decisão será grávida de consequências para o destino do povo brasileiro.

Mais da metade do eleitorado optou por uma proposta de governo que conjugasse a retomada do crescimento com a manutenção de uma política social distributiva da renda nacional. Essa diretriz norteou as políticas públicas dos últimos doze anos.

Quando olhamos em retrospecto, vemos que as linhas mestras foram desenhadas no final da ditadura. Criou-se então uma corrente ideológica ancorada em ideais de centro-esquerda e representada por sindicalistas independentes, cristãos progressistas e intelectuais socialistas democráticos. O seu eixo distributivista conseguiu tirar da pobreza extrema 36 milhões de brasileiros, segundo dados da OIT. A pressão da máquina neoliberal não conseguiu desmontar a legislação trabalhista ou arrastar os governos ao desemprego em massa. Nem ceder à tentação das privatizações lesivas ao bem público. E o Brasil passou a ser a sétima economia do mundo.

Nesse meio-tempo, o inveterado mal da corrupção, que vinha de longe, continuou a seduzir funcionários, empresários e políticos de amplo espectro. Mas agora há espaço institucional ara julgar com isenção os culpados. O que é um progresso moral e jurídico. O caminho sensato é punir os agentes da corrupção sem destruir o que restou de um ideal humanizador do sistema capitalista. O outro caminho, que leva a lutas ferozes pelo poder, só a cegueira poderia escolhê-lo.”

O Brasil, a fome e o ciclo civilizatório

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O Brasil alcança a meta contra a fome

“Esta é a maior demonstração que o sonho de uma geração, de um país sem fome e sem miséria, está sendo realizado”, exaltou a presidenta Dilma. Ela se referia ao relatório da FAO/ONU de que o Brasil sai do mapa da fome: desde 2012 apenas 1,7% da população pode ser considerada em situação de insegurança alimentar. Considerando como referência o período de 2000-2002, desde 90-92 a redução do estoque de miséria/fome no Brasil foi de 15,6% (redução de 3,5 milhões de pessoas); na década seguinte, 2003-2012, a redução no índice foi de 82,1% (15,6 milhões de pessoas).
Graças ao governo Lula e Dilma, esse risco vai desaparecer de nossa história! Como o FMI credor do Brasil, direitos sociais protelados, falta de reconhecimento e empoderamento dos negros, mulheres e jovens.

 

Marina chorou ao dizer que passou fome. Foi, acredito, sincera. Mas a postura de Marina, nesse e em outros casos, indica que ela reforça um ideário conservador que vai se insinuando fortemente na sociedade, que é o da meritocracia, ou seja, de que as pessoas subiram na escala social pelo próprio esforço. Claro que esse esforço é indispensável: os brasileiros têm fibra. Mas a experiência brasileira, como a secular luta pelo fim da miséria e da fome demonstra, indica o quanto foi indispensável a noção de um projeto nacional autônomo e democrático, com atenção do Estado sob um governo de bases populares, para zerar a dívida social acumulada. Nesse sentido, é incrível a mudança de lado e perspectivas de Marina desde o início de sua vida política.

 

O resultado referido é histórico, mas a ninguém é dado desconhecer a ainda longa jornada por aprofundar as mudanças necessárias ao país para sua afirmação nacional, soberana, democrática e de plenos direitos sociais, quer dizer, completar o esforço civilizatório e abrir nova etapa em sua trajetória. Futuro é educação e reformas estruturais democráticas para consolidar e aprofundar as mudanças em curso. Isso não prescinde de nova vitória de forças populares à Presidência da República, de uma esquerda forte, sintonizada com o tempo e atuante, com um plano estratégico para novo ciclo. E cada dia mais vai se demonstrando que os maiores entraves para tanto residem na natureza a um só tempo conservadora e fragmentada do Estado brasileiro em disfuncionalidade com tais exigências.

Censo IBGE: a foto, o filme, a chance histórica

O censo do IBGE-2010 dá uma fotografia do estado demográfico e social atual do país. Confirma percepções, quantifica-as. Mais uma vez, destaca-se a marca nacional da formação social brasileira: de acordo com o estudo, os 10% que recebem os maiores salários do Brasil ganham 44,5% do total dos rendimentos. Já os 10% com os menores rendimentos recebem apenas 1,1%.

Nossa nação tem como o fenômeno mais duradouro e marcante de sua formação social a escravidão, por mais de três séculos. Há pouco mais de um século ela finalmente foi abolida, no maior movimento de massas ocorrido na nossa história, unindo estadistas, povo, intelectuais, em lutas sociais, de ideias e até em choques armados.

Essa é a base da herança que todavia persiste, manifestada da brutal desigualdade de renda – e ainda nem estamos falando em desigualdades patrimoniais! – e foi prolongada por um modelo de desenvolvimento nacional que não logrou promover maior igualdade. Só nesta década dos anos 2003 até hoje, a situação começa a se inverter. Herança também brutal no que diz respeito ao corte social que se combina com o de cor e gênero: negros são muito menos remunerados, seguido das mulheres.

Quando falamos em novo desenvolvimentismo, falamos também em novo patamar civilizatório. Duzentos anos após a independência do Brasil, tendo alcançado dois grandes patamares civilizatórios superiores – o da própria Independência e Abolição-República, mais o da modernização do país a partir dos anos 1930 – devia estar claro que algo muito grande precisa se apor ao processo molecular que já está em curso em termos de desenvolvimento e distribuição de renda.

Nós chamamos esse “algo muito grande” de socialismo, vértice de nosso novo projeto nacional de desenvolvimento. Mas não recusamos a acumulação molecular. Só que para isso, não basta a foto do IBGE, é preciso ver o filme – de onde estamos vindo, para onde vamos.

Nesse sentido, retomo a postagem antiga que debate o bônus demográfico brasileiro, comprovado pelo censo, e que abre uma outra janela de oportunidade estratégica para o desenvolvimento brasileiro. Recomendo a leitura, cotejada com os resultados do Censo atual.

As nações não vivem o tempo todo grandes oportunidades; ao contrário, predominam em sua trajetória tempos “normais”, de evolução simples. O Brasil está neste momento histórico vivendo tempos de paixão, não de simples amor. Muitos elementos confluem para superar o atual estágio de formação da nação. Muitos outros são de clara ameaça ao projeto nacional e o lugar do país no mundo.

Um dos fatores estratégicos, repito, é o bônus demográfico. Precisamos saber aproveitá-lo.

O Brasil tem janela de oportunidades

Publicado por waltersorrentino em 04/01/2010

Acelerada redução da desigualdade social e bônus demográfico significam novos impulsos e oportunidades para o desenvolvimento.

Duas matérias publicadas neste domingo na grande imprensa (particularmente Estadão) têm uma importância ímpar. O Brasil passa a ter mais uma vantagem estratégica que é a do bônus demográfico. O professor José Eustáquio Diniz Alves, professor titula da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE – e coordenador da Pós-graduação do IBGE, explica que o “Bônus Demográfico é um fenômeno que ocorre em período de tempo no qual a estrutura etária da população apresenta menores razões de dependência (menos idosos, crianças e adolescentes) e maiores percentuais de população em idade economicamente ativa, possibilitando que as condições demográficas atuem no sentido de incrementar o  crescimento econômico e a melhoria das condições sociais dos cidadãos do país”.

O fator fundamental nessa definição é a queda da taxa de fecundidade e é a projeção dela no tempo que definirá, sobremodo, a duração da janela de oportunidades para o país. Desta forma, podemos considerar que a continuidade de queda da referida taxas fará o Bônus Demográfico brasileiro se prolongar, no minimo, até a metade do século XXI. Contudo, o professor insiste em que “estas condições demográficas favoráveis só se transformarão em ganhos efetivos para o bem-estar dos cidadãos brasileiros se houver um ambiente macroeconômico de crescimento do produto e da produtividade, acrescidas de políticas sociais adequadas nas áreas de educação, emprego e previdência “. Eu acrescentaria saúde.

A ideia de janela de oportunidade e de vantagem estratégica se deve a que nessas condições, a população não é um entrave mas um fator impulsionador do desenvolvimento, porque se está numa proporção vantajosa entre pessoas ativas e inativas. Para se ter uma ideia, na década de 70 cada pessoa ativa era responsável por uma inativa; hoje essa relação é de 2 ativas para cada uma inativa. Significa, em última instância, disponibilidade de recursos humanos para o desenvolvimento e incremento de produtividade social.

Veja-se por exemplo esta comparação de condições do Brasil:

Síntese de alguns indicadores econômicos e demográficos de dois períodos selecionados: 2000-2030 em comparação com 1950-1980.

Indicadores sócio-demográficos dos períodos – Média 1950-80  X Média 2000-30

Taxa de dependência demográfica 82 X 48

População de 15-64 anos (em%) 54 X 68

Idade mediana (em anos) 19 X 31

Taxa de Urbanização (em%) 50 X 87

Taxa de alfabetização (em%, ambos os sexos) 58 X 92

Mortalidade infantil (por mil) 100 X 25

Esperança de vida ao nascer (em anos) 57 X 72

Taxa de crescimento demográfico 2,8 X 0,8

Taxa de atividade feminina (em%) 19 X 44

Anos médios de estudo das mulheres 2,1 X 8,5

Taxa de fecundidade total (filhos por mulher) 5,5 X 1,9

Fonte: ONU (http://esa.un.org/unpp) e IBGE (http://www.ibge.gov.br)

Vale a pena estudar mais o assunto e as suas causas. O autor nos brinda muita informação em http://www.braudel.org.br/eventos/seminarios/2008/0506/como_medir.pdf e

http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/PopPobreza/Alves.pdf.

Resta debater entre os especialistas a projeção de duração do fenômeno. O professor Diniz estima que, dependendo da taxa de fecundidade, ela será de 50, 55 ou 60 anos, o equivalente a duas ou mais gerações. Em termos demográficos, o Brasil superou característica de subdesenvolvimento. Se for capaz de desenvolver a economia a taxas de 5% aa e ter políticas de emprego, saúde, educação e previdência compatíveis, de fato a situação de subdesenvolvimento estrutural vai ser superada.

Daí a segunda notícia, já conhecida, mas cuja quantificação dá suporte à mesma perspectiva. O estudo é da FGV, do professor Marcelo Neri (Centro de Políticas Sociais). Ele diz existir uma era de ouro dos avanços sociais no de 2003 a 2008 país. Nela 32 milhões de brasileiros ascenderam aos segmentos A, B e C, e 19,3 milhões saíram da pobreza, com redução de 43% na proporção de pobres. Ou seja, a renda média dos 10% mais pobres cresceu 72,5% no período, enquanto a dos mais ricos 10% teve ganho real de apenas 11,3%.

Se isso se prolonga por mais 5 anos, os muito pobres brasileiros serão 8% dos brasileiros, um quarto do total registrado em 1993 (quando eram 35% da população). Então, em pouco mais de duas décadas (1993-2015) esse número terá sido reduzido de 51,6 milhões em população de 147 milhões para 16,1 milhões em população de 222 milhões, queda de quase 70%. Isso quanto aos “muito pobres”, basicamente o segmento E da população. Se se acrescer o segmento D, também próximo à pobreza, chega-se hoje a uma proporção de 40% do total da população, mas cairá para 28% em 2015. Já o segmentp C cresce para 56,5% e o A e B passam de 10,5 para 15,7%.

Marcelo Neri é um dos principais estudiosos do tema no Brasil. Vale a pena aprofundar esse estudo. Vejam http://www.fgv.br/cps/desigualdade/, o texto principal do último estudo, Miséria e a Nova Classe Média na década da igualdade para ter uma noção aproximada do empuxe que foi esse período em termos de redução de desiguldades. Nas palavras do próprio autor: “se um historiador do futuro fosse nomear as principais mudanças ocorridas na sociedade brasileira na primeira década do terceiro milênio, poderia chamá-la de década de redução da desigualdade de renda, ou da equalização de resultados. Da mesma forma que a década de 90 foi a da conquista da estabilidade e a de 80 a da redemocratização, não há na história brasileira estatisticamente documentada (desde 1960) nada semelhante à redução da desigualdade verificada desde 2001 “. (E ainda há os que teimam em dizer que Lula continuou com as políticas de FHC, imaginem …)

Boas políticas e visão estratégica do desenvolvimento nacional podem acelerar e aprofundar isso.

E eu finalizava, na ocasião: É o que estará em jogo nas eleições de 2010.

Vencemos, a chance e o desafio estão postos.

"É a geração do futuro, a geração C"

Renato Meirelles é fora de série. Conheço-o há 25 anos (!), desde a UJS. Sempre inquieto, criativo, inteligente. Aquela geração teve muita gente boa, Paula Palamartchuk, Nara Guisoni, Júlio Filgueira, Renata Mielli, Luciano Martorano, Davi Molinari, Laudert, nossa… vou cometer injustiça com muita gente, não citando o nome agora. O bom é que estão até hoje com a consciência política em dia.

Há tempos pretendia uma conversa.com ele, mas perdi a mão. Ele ficou famoso antes. Aí não tive mais chances, mas insisti.

O fato é que aí está nossa conversa. Há anos ele trabalha com Data Popular, é um publicitário que trabalha intensamente com pesquisas, principalmente sobre as camadas populares. Sua base de dados e estudos permitiu-lhe acumular um enorme conhecimento sobre o que se chama hoje de “nova classe média brasileira”. Neste 2010 e início de 2011, esteve em grandes revistas e mesmo na TV dando entrevistas sobre o tema. Arguto como é, com uma formação política avançada (que ele nunca perdeu e com a qual ele segue comprometido em consciência), ele sabe extrair conseqüências desses fatos. É o nosso assunto.

“O principal equívoco da oposição de hoje é o mesmo equivoco da esquerda do passado, se achar melhor que os outros”, diz ele. Porque o emergente não é burro, ao contrário. O retrato mais marcante da mobilidade social ascendente, anotado por ele: “os jovens da classe C são 68% mais escolarizados que seus pais, enquanto na classe A, onde o número cai para 10%. A educação já era vista como um meio para a melhora nas condições de vidas destas famílias e agora isto é colocado em prática. Nos últimos 8 anos a porcentagem de universitários da classe D foi de 5% para 15% e na classe C de 40% para 57%. Neste período o total de estudantes universitários passou de 3.6 milhões para 5.8 milhões de pessoas”.

RenatoMeirelles_Data-PopularEle se define, antes de tudo, como um curioso. É sócio-diretor do Data Popular, comunicólogo com MBA em gestão de negócio, desde 2001 se dedica a pesquisa e ao desenvolvimento de estratégias de atuação focadas no mercado emergente brasileiro. Especialista em conhecimento do consumidor (ou em gente, como prefere dizer), entende que o bom negócio é o que todos ganham: o cidadão, as empresas e a sociedade. Foi colaborador do livro “Varejo para Baixa Renda”, publicado pelo GV-CEV e autor do livro “Um jeito fácil de levar a vida – O guia para enfrentar situações novas sem medo”, publicado pela Saraiva.

Recentemente, Renato Meirelles (twitter: @datapopularRM ) organizou o 1º Congresso Nacional sobre Mercados Emergentes. É sobre isso que começo a conversa.com. Leia-a na íntegra.

Salve, Renato, bem-vindo à nossa conversa. Que significou organizar esse Congresso? A que conclusões se chegou?

Walter. Antes de tudo é um grande prazer conversar com você e com os leitores do Blog. Meu tempo de militância foi minha principal escola. É um privilégio poder dividir um pouco do que aprendi.

O Congresso ( www.mercadosemergentes.com.br) foi uma forma de consolidar o trabalho que o Data Popular tem feito desde 2001. Nossa empresa tem claro que só é possível ganhar dinheiro com a ascensão da nova classe média brasileira que todos os envolvidos no processo ganharem algo. Nós somos um trio de publicitários com vontade de fazer algo diferente do que as empresas faziam para a população de baixa renda, e acabamos encontrando no empreendedorismo uma forma de realizar nossos ideais e quebrar os paradigmas. Nossa missão é entender a falha na comunicação destinada ao consumidor da chamada base da pirâmide: ajudar o empresário a compreender seus anseios e necessidades, na verdade é uma forma de ajudar os dois lados a entrar numa sintonia. O empreendedor aprende que não pode enganar o consumidor. Esta pessoas não são passivas e sabem escolher entre o bom o ruim. Nosso objetivo é demonstrar ao mercado que ele não deve “ensinar” as pessoas a comprar, mas sim aprender o que eles precisam e a partir daí oferecer produtos que satisfaçam suas necessidades e seus anseios. É uma troca justa.

Você é um dos grandes estudiosos do assunto. Como foi que isso se iniciou profissionalmente? Há quanto tempo?

Quando eu estava no ensino médio participava ativamente de movimentos estudantis. Escolhi trocar o colégio particular onde estudava pelo público para sair da bolha em que eu, e muitos amigos meus na época, vivíamos. Eu gostava de estar com pessoas que não cresceram com as mesmas referências, as mesmas idéias com que eu fui criado, que tinham, talvez, mais contato com a realidade da maioria da população do Brasil. A experiência que ganhei nesta convivência foi o ponto de partida para atuar no Data Popular, que surgiu para cobrir uma carência deste mercado, que desponta em proporções gigantescas. O que antes era visto apenas como um ‘nicho’, hoje pode ser considerado o próprio mercado. Se um empresário quer ser líder hoje ele necessariamente deve ser líder nas classes C, D e E. Não tem como uma empresa ser importante hoje no Brasil se virar as costas para as pessoas que não estão no topo da pirâmide.

O Brasil está mudando. Uma realidade sócio-urbana marcante, grandes periferias, enorme incremento de cidadania. Vamos ver em números o que significa essa mobilidade social ascendente e como isso marca o país nos mais variados aspectos, além do mercado de consumo.

Estamos falando de um mercado de R$ 834 bilhões, o que não é pouca coisa! A classe C deixou de ser vista como personagem secundário nas relações de consumo, esta grande parte da população se transformou em protagonista de um mercado interno crescente. O que mudou? Tudo! Em muitos casos, é a primeira vez que este brasileiro tem plano de saúde, automóvel, computador, casa própria, e ainda por cima viaja de avião ao invés de ônibus  e por aí vai. O que antes era apenas um sonho, hoje se transformou em um objetivo palpável. Estas pessoas perceberam que se planejarem, tudo é possível, inclusive cursar uma faculdade. Tanto é, que os jovens da classe C são 68% mais escolarizados que seus pais, enquanto na classe A, onde o número cai para 10%. A educação já era vista como um meio para a melhora nas condições de vidas destas famílias e agora isto é colocado em prática. Nos últimos 8 anos a porcentagem de universitários da classe D foi de 5% para 15% e na classe C de 40% para 57%. Neste período o total de estudantes universitários passou de 3.6 milhões para 5.8 milhões de pessoas.

Tenho dito que um dos (maiores) problemas da oposição está em não compreender essas mudanças. Não dialogam com o país real, e acabam estigmatizando o povo como incapaz. Enquanto isso, a opção eleitoral está bem delineada há já 8 anos (e podemos ir prá 12!). Como você avalia isso?

O principal equívoco da oposição de hoje é o mesmo equivoco da esquerda do passado: a incrível capacidade de se achar melhor do que os outros faz com que errem na definição de bandeiras e na forma de comunicar seus pontos de vista. Agora sem ilusão. A esquerda errou da mesma forma por anos.

No mundo corporativo, alguns empresários também têm uma visão distorcida da realidade desta população. A maior dificuldade nessa comunicação está no fato de não compreender a realidade e o modo  de pensar da população. As pessoas que melhoram de vida não adquiriram hábitos e modos de pensar dos mais abastados. Eles não pensam como ricos. É uma lição de humildade entender isso, e não tive dúvidas quando passei uma temporada morando na Cohab para entender como vivem e pensam estas famílias, e assim pude ajudar vários empresários a compreender o ‘Brasil de Verdade’. A nova classe média e a base da pirâmide não almejam se tornar a ‘classe A’, para eles, este cara é um babaca, um perdulário, que não sabe dar valor ao seu dinheiro. O emergente não é burro. Se ele compra uma moto pelo dobro do preço por causa dos juros decorrentes do parcelamento, é porque é a única maneira que ele tem de adquirir este bem, que na verdade está longe de ser um supérfluo, é uma necessidade, é uma forma dele otimizar o seu tempo, melhorar sua condição de vida e chegar ao trabalho pontualmente, sem ter que enfrentar uma condução lotada e em condições precárias.

Renato, o povo é o artífice da nação. Não há afirmação nacional sem o protagonismo popular; ou ao menos, sem os brasileiros se reconhecerem entre todos. Há uma espécie de apartheid singular no Brasil, relativa a concentração de renda. No teu entender, politicamente, dadas as tendências atuais, o Brasil pode eliminar a pobreza absoluta no tempo da atual geração?

Acredito que tudo é uma questão de tempo. Nossas pesquisas só comprovam que a fatia da população, antes marginalizada, emergiu para uma nova condição social, e nada impede que isto continue ocorrendo. Segundo dados da PNAD e do IBGE a porcentagem de pessoas na miséria no Brasil caiu de 28% em 2003 para 15% no ano passado, com tendência essa queda ser contínua. A pirâmide social terá uma nova cara daqui menos de 10 anos. As famílias que  passam o mês com um salário mínimo vão continuar diminuindo e aquelas que ganhavam até três vão diminuir mais ainda, passando a fazer parte da nova classe média.  E isto já vem ocorrendo. A classe emergente que antes só podia comprar leite C, hoje tem iogurte em sua mesa. A classe D que não consumia iogurte, hoje já o compra esporadicamente, numa qualidade inferior que a C, mas compra, e é este é um ciclo que tende a crescer com o passar dos anos, até porque a base da pirâmide é jovem. Este pode parecer um exemplo banal, mas para estas pessoas isso é o resultado palpável da melhora de suas condições. E elas não vão querer abrir mão dessas conquistas. Além disso, enquanto o topo da pirâmide está envelhecendo, as classes C, D e E têm quase 70% de jovens, com emprego formal e dinheiro no bolso. É a geração do futuro, é a geração C.