Ingerência indevida

O Estado brasileiro é laico e isso foi uma conquista civilizatória humana, contra pavorosas práticas da instituição da Igreja que chegaram a ser anti-cristãs. O melhor é que assim permanecesse.

O Papa Bento XVI não tem o direito que se atribuiu com a recente declaração.

Líder espiritual, está bem, pede consciência dos católicos contra o aborto. Emitir juízo moral é uma coisa; fazer desse juízo uma intervenção política falseadora da realidade é outra.

O pior: ele é, ao mesmo tempo, chefe de Estado do Vaticano. Não emitiu apenas um juízo moral, como também um juízo político de Estado. A ninguém é dado interferir tão desabridamente em eleições internas de outro país com que mantém relações, nem sequer ao Papa.

É como o presidente dos EUA ou da Colômbia declararem: é preciso os brasileiros votarem em quem defendem a ALCA. Seria repelidos. Por que o Papa poderia?

Liderar espiritualmente sim; dizer que os brasileiros devem votar em quem é contra o aborto é uma intromissão indevida e uma falsidade reacionára. Porque ninguém defendeu o aborto nesta campanha.

E ninguém deu ao Papa esse direito de ingerência. Se para manter a fé cristã o Vaticano precisar ser reacionário vai perder ainda mais fiéis.

Felizmente há vozes cristãs, católicas, a demonstrarem que isso é apenas politicagem de um setor da Igreja. Só não podia o papa descer tão baixo como cabo eleitoral.

Pior mesmo só Serra, que deixa para trás uma biografia política e assume alguns aspectos inesperadamente reacionários. Francamente? Nem FHC faria certas coisas que Serra está fazendo.

Levantar as bandeiras

O segundo turno entrou na fase derradeira. Cinco dias restam para confirmar uma provável vitória do campo popular, democrático e progressista.

A maior vitória política de 2010 será a do povo brasileiro ao conquistar o terceiro mandato progressista consecutivo no Brasil com a eleição de Dilma Rousseff. Ela venceu o primeiro turno com mais de 47% dos votos válidos e a confirmação do êxito eleitoral no turno final será feito extraordinário.

Se isso não se equiparar em termos simbólicos à eleição de Lula em 2002 e sua reeleição em 2006, alcançará e ultrapassará isso em termos políticos. Doze anos consecutivos progressistas no Brasil pelo voto é um feito jamais igualado em toda a vida republicana. Getúlio em 1951, seguido de Juscelino em 1955 e Jango em 1961 – assumindo como vice após a renúncia de Jânio Quadros que vencera as eleições de 1961 – foi período atribulado pelo suicídio de Getúlio, duas tentativas de golpe contra JK e a imposição de condições para Jango assumir e, posteriormente, o golpe militar.

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A bandeira bem alto, como sempre, nestes 88 anos em prol do povo trabalhador e do Brasil

Será sinal dos tempos. Sinal de que o Brasil e os brasileiros se põem de pé, altivamente, em busca de desenvolvimento soberano, bem estar e das liberdades, do respeito internacional e integração com seus parceiros sul-americanos. Simbolicamente, também, terá enorme significado societário eleger uma mulher: sinal de avanço civilizatório no país, primeira vez na história nacional.

A eleição não está ganha. Para o nosso campo, jamais as ganhamos nas pesquisas, embora já as tenhamos perdido para elas muitas vezes. Resta esta semana, mas o quadro hoje é mais favorável que ao início do segundo turno. Não só as pesquisas contratadas, mas o sentimento de que finalmente uma tendência está prevalecendo nas ruas, ligada aos rumos do país que se desenvolve a 7,5% aa. Ou, pelo outro lado da moeda, pela campanha impiedosa e inescrupulosa da oposição, que demonstra nada ter a oferecer em termos de debate para o futuro e afirmação da nação brasileira. Perderam na luta de ideias; perderão nas urnas, é o que se espera.

Neste segundo turno retomaram-se fios de ligação com o sentimento democrático, do pensamento avançado da academia e do mundo da cultura, dos democratas autênticos do país que sabem que só avançando economicamente e socialmente, com direitos para todo o povo, se pode falar em uma democracia maiúscula no Brasil. Só superando o maior apartheid, o das portas fechadas para o povo na universidade, na educação e na saúde, os da aposentadorias e salários dignos, se pode ter o sujeito garantidor da democracia que o próprio sujeito da nação. Basta de governos para poucos; o Brasil quer governo para todos, é o que disseram essas vozes, reforçando o time que já vinha conduzindo o governo Lula.

Nestas quatro semanas últimas, foi derrotada a despolitização imposta à campanha. O legado do governo Lula, as convicções da candidata Dilma e a formação de ampla frente política que sustentou o embate se conformaram mais definidamente. A tentativa de confinar a disputa a um pretenso enfrentamento entre PT e PSDB, além de ser um desserviço ao futuro governo Dilma, criou dificuldades políticas para a campanha, com uma polarização forçada e má para o país, apenas de interesse de quem pretendesse duopolizar o processo político brasileiro. Foi um fato que correspondeu mais aos interesses da oposição sem bandeiras, insuflada pela grande mídia monopolizada, erroneamente flertada por parte dos setores da campanha.

Dilma lançou seu programa de treze pontos compactos. Nele se compromete a dar “seguimento a um projeto nacional de desenvolvimento que assegure grande e sustentável transformação produtiva do Brasil”, para o país “crescer mais, com expansão do emprego e da renda, equilíbrio macroeconômico, sem vulnerabilidade externa e desigualdades regionais”,  “erradicar a pobreza absoluta e prosseguir reduzindo as desigualdades”, “expandir e fortalecer a democracia política, econômica e social”, bem como a “garantia irrestrita de liberdade religiosa, de imprensa, de expressão, pelo aprofundamento dos direitos humanos” e, na área social, garantir “educação para a igualdade social, cidadania e desenvolvimento”; a universalização da saúde de qualidade, através do SUS; e a valorização das cidades, com “habitação, saneamento, transporte e vida digna e segura para os brasileiros”.

É o projeto de toda uma geração de brasileiros, que não deixaram cair as bandeiras das mãos dos que foram ceifados pela ditadura militar. Remonta aos melhores momentos de avanço de nosso povo. Foi propiciado pela resistência e luta sem tréguas de todos os trabalhadores, jovens, mulheres, intelectuais, ao longo de décadas, extraindo das lutas sociais um projeto de nação, enriquecida com a experiência da esquerda brasileira, a da luta nacional e democrática, antiimperialista.

Nesta semana derradeira, mais que nunca se deve estar nas ruas, em múltiplas iniciativas de carreatas, manifestações, caminhadas, bandeiraços, e no convencimento final de que a vitória é possível, é necessária e será alcançada com o concurso de todos.

O PCdoB pode se orgulhar do que faz por essa vitória. Desde 1989 ajuda a construí-la.  Com firmeza, clareza e lealdade, sempre esteve nas primeiras filas do combate pelo Brasil que a maioria do povo quer. Justo é que se apresente perante o povo com esse patrimônio, fazendo tremular suas bandeiras, vermelhas e honradas, de norte a sul do país esta semana, em todas e cada uma das manifestações destes dias premonitórios. O Brasil vencendo, vencerão também os comunistas. O Brasil vencerá com Dilma, os comunistas vencerão com Dilma. Então, bandeiras em punho, tremulando nas mãos calejadas da militância aguerrida.

Maranhão e Dilma

O Estadão hoje, em coluna de opinião assinada por João Domingos e outros, alega que a “irritação de Lula” sobra até para os aliados. Supostamente, Lula “acha que Flávio Dino está se queixando à toa… Tem denunciado fraude na vitória de sua opositora ao governo do Maranhão, o que pode atrapalhar o trabalho de união em torno de Dilma no Estado”.

Se não for especulação, é estranho. Na verdade, incongruente.

Não foi Flávio Dino ou o PCdoB que moveram processo para apurar fraude na apuração, vencida por Roseana Sarney por 0,08 % dos votos evitando o segundo turno. Foi o Ministério Público. O PCdoB e Flávio aguardam a apuração.

Estranha a questão de união em torno de Dilma no Estado. Flávio liderou a oposição, dentro do campo Dilma no primeiro turno. Dos 50% do eleitorado, apoiadores de Flávio e do outro candidato, mais da metade apoiaram Flávio e Dilma, defendida pelo candidato.

No segundo turno, a campanha Dilma unifica o PCdoB em todo o país. Aliás isso é público no pronunciamento do PCdoB maranhense, até as pedras sabem disso, que dirá Lula. Se há preocupação com o volume de votos da campanha no Maranhão, melhor seria procurar razões no comando estadual da campanha, monopolizado pelo grupo Sarney que não representa, em absoluto, o sentimento das parcelas mais avançadas e dos movimentos sociais. Aliás, nem o PT maranhense está unido nessa matéria.

Agora, há um fato ruidoso nisso tudo: no primeiro turno foi desconsiderado, liminarmente, entendimento consagrado no Conselho Político da campanha Dilma, que oficialmente deliberou respeito aos diversos palanques estaduais que apoiariam a campanha nacional. Não foi o que ocorreu no Maranhão. Flávio Dino não recebeu nenhuma sinalização, nem mesmo após o término do segundo turno. PCdoB e PSB no Estado fizeram sua parte. O PCdoB segue isso no segundo turno. Quem não respeitou compromissos foram outros.

O Maranhão não precisa dessa “união” supostamente pregada por Lula. Estamos com Dilma, certamente. Há um governo eleito e há uma oposição, como deve ser.

O Maranhão precisa de respeito, só isso.