Empresários do país não conseguem enxergar sua própria bancarrota, diz Tereza Campello (por Eduardo Maretti)

Ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome de Dilma Rousseff denuncia que governo Temer cortou 1,2 milhão de famílias do Bolsa Família. “A pobreza hoje está de novo nas ruas do país”, diz

Continue lendo

Dilma é sempre o alvo

dilma-aecio-campos (1)

Matéria especial do Valor Econômico de 29 de maio publicou pesquisa realizada ao longo de dois meses, sob o título “as razões do mau humor no voto empresarial”. Foram ouvidos 20 empresários líderes de setores, de todas as regiões do país, sob anonimato, para apurar as expectativas quanto à sucessão presidencial.

Predomina vastamente a oposição ao governo Dilma, até raivosa como aquela de esperar que Argentina vença o Brasil na Copa, para aumentar o mau humor e má vontade com a presidenta nas eleições. Algo essencial como denominador comum: alternar o poder, “não se pode aceitar o PT por 16 anos”. Mas sempre há críticas claras à equipe de governo acerca de “choques desnecessários com os interesses empresariais”, mazelas da política econômica, etc, embora sempre matizadas porque é um jogo de interesses do empresariado com o governo.

Algo inesperado, mas nem tanto: o reconhecimento  de que Aécio e Campos não têm propostas conhecidas e poderiam ter se unido ao invés de concorrerem entre si. Aécio gera insegurança porque portador do “legado de FHC”, e Campos seria “ultra aliancista”.

A única questão que une a todos, consenso de 100%, mesmo sob anonimato: ninguém duvida da idoneidade da Presidenta Dilma.

Até que ponto isso reflete quantitivamente a opinião do empresariado brasileiro, não se sabe. A matéria está mais para uma “quali”; indica entretanto as tendências oposicionistas perceptíveis nas camadas mais altas em oposição a Dilma (como a Lula).

A questão preocupante é que as opiniões, ainda uma vez, permanecem no “momento corporativo”. Revestem-se de política, interesses políticos, mas de modo imediato, binário ou sectário. Não alcançam o “momento ético-político”, vale dizer, pensar a nação, um projeto para ela, tentar fazer do interesse daquele empresário pesquisado o interesse geral da nação.

É uma limitação histórica da burguesia brasileira, ainda hoje. Se for para fazer essa passagem, ela o faz (o fez) para o liberalismo, essencialmente um projeto de integrar a nação (valha-me a força da expressão, nesse caso) às “cadeias globais” capitaneadas pelo capital financeiro internacional cujo vértice é dominado pelos EUA. Projeto que é de mercado em lugar do público, ou seja, o Estado deve ser mínimo. Cuja receita maior, um “abre-te Sésamo”, é choque fiscal, arrocho das contas públicas, mesmo ao custo da popularidade de quem o propõe. Enfim, um receituário por demais conhecido.

Sei que estou tirando mais do que se deve dessa pesquisa, mas ela é acabrunhante para o empresariado pesquisado, face às políticas adotadas pelo atual e passados governos pactuando os interesses da produção e do trabalho. Melhor seria se a parte substancial do empresariado seguisse unindo forças contra os predominantes setores financeiros que acabam por ditar a música da acumulação capitalista, e contrariam seus próprios interesses.

Afinal, estamos falando da 6ª economia do mundo, um dos três com maior território, população e PIB, entre os maiores produtores de alimentos e de energia, logo mais também de petróleo, com uma cadeia industrial portentosa mas em declínio, um formidável mercado interno de massas e entre os maiores atratores de investimentos estrangeiros diretos, um povo criativo e enormes recursos naturais em água, biodiversidade, etc, para falar apenas do básico.

O empresariado brasileiro já melhorou muito mas segue com visão míope e corporativa. Se não sabe como fazer desta uma grande nação, de desenvolvimento soberano e democrático, devemos saber nós, forças avançadas, apontar rumos para o novo projeto nacional de desenvolvimento, dando completude à formação desta jovem nação brasileira.

Dilma é o alvo, a ser descontruída, enfraquecida, alvejada, para que seja levada à derrota. Mas Dilma é “inaceitável” pelas suas qualidades, a saber, determinação, coragem, pensamento nacional, não se perder no jogo das pressões econômicas e políticas. Os alegados defeitos são apenas o álibi para a guerra política que lhe é movida. E é nisso que Eduardo Campo errou, ao fazer o jogo da oposição, capitalizando seu concorrente Aécio que empalmou a bandeira principal da candidatura concorrente à de Dilma.