Longa duração e incerteza, José Luis Fiori

A leitura atenta da história brasileira permite ver que suas grandes inflexões estruturais foram provocadas por decisões tomadas em momentos de grande crise e desafio nacional e internacional. Como aconteceu no caso da “independência” brasileira, por exemplo, que foi uma decisão “reativa” e pouco planejada, frente a um contexto de profunda transformação geopolítica e econômica do Velho Continente, que culmina com a Paz de Versalhes e a supremacia naval, financeira e industrial da Inglaterra, dentro e fora da Europa.

E o mesmo também aconteceu no caso da “abolição da escravidão’ e da “proclamação da República”, duas decisões brasileiras inseparáveis da conjuntura internacional, que começa – na América do Sul – com a derrota política do Brasil, na Guerra do Paraguai, onde perdeu a hegemonia do Prata, e começou a desintegração do estado imperial e de suas próprias forças armadas; e fora da América do Sul, onde entra em curso uma ampliação e reconfiguração do núcleo das grandes potências, com a ascensão econômica e política dos EUA, Alemanha, Japão e Rússia.

Só que nesta conjuntura, ao contrário do que passou na independência, existiu um projeto e uma estratégia nacional que foi vitoriosa e que impôs ao país a Republica, junto com hegemonia do “cosmopolitismo agrário” das elites paulista e mineira. Da mesma maneira, já no século XX, a “Revolução de 30” foi também uma resposta ao desafio provocado pela “era da catástrofe”, das grandes guerras, revoluções e crise econômica.

Mas ao mesmo tempo, a Revolução de 30 e a própria instauração do “Estado Novo” foram momentos decisivos de um projeto nacional que foi concebido na década de 20, por uma parte da elite civil e militar brasileira – que conseguiu manter sua hegemonia até a década de 80 – que se propôs reconstruir e fortalecer o estado brasileiro, e suas forças armadas, incentivando e promovendo ativamente a industrialização e o crescimento econômico nacional, como forma de alcançar e superar a Argentina, na luta pela hegemonia do Prata, e pela liderança da América do Sul.

Cinquenta anos depois, a “redemocratização” da década de 80, marcou uma nova inflexão histórica indissociável da mudança geopolítica e econômica mundial, que começou com a crise e redefinição da estratégia internacional dos EUA, que passou pela reafirmação do Dólar, pela desregulação das finanças internacionais, e pela escalada armamentista que levou à desintegração da URSS, ao fim da Guerra Fria, e à instauração da “uni-polaridade imperial” dos EUA, que durou até o 11 de setembro de 2001.

Assim mesmo, depois de três décadas aproximadamente, o Brasil segue sem conseguir definir e consolidar uma estratégia nacional e internacional hegemônica. Pelo contrário, ainda hoje se pode dizer que este é o verdadeiro “núcleo duro” da disputa cada vez mais violenta, entre as duas vertentes políticas – o PT e o PSDB – de um mesmo projeto bifronte que nasceu nos anos 80/90. Sua base social era diferente, mas sua matriz teórico-ideológica originária foi mais ou menos a mesma: paulista e democrática, mas ao mesmo tempo, anti-estatista, anti-nacionalista, anti-populista, e em última instância, também, anti-desenvolvimentista.

Este projeto bifronte, entretanto, se dividiu de forma cada vez mais nítida e antagônica, a partir dos anos 90, quando o PSDB liderou uma política governamental de apoio, ajuste e integração do Brasil à nova estratégia econômica internacional dos EUA, de desregulação e globalização monetário-financeira, e de apoio ao projeto da ALCA.

Da mesma forma que na década seguinte, o PT liderou um governo de coalisão que foi adernando cada vez mais na direção de um projeto de estado e de “capitalismo organizado” e de “bem-estar social”, ao lado de uma política externa cada vez mais autônoma e voltada para as “potências emergentes”, mesmo que nunca tenha conseguido alterar as regras e instituições monetário-financeiras criadas pelos governos do PSDB.

O que passou nesta última década e meia foi que as mudanças de rumo e os próprios desdobramentos inovadores da estratégia petista foram provocando deserções e criando vetos cada vez mais radicais, de forças nacionais e internacionais, de dentro e de fora da própria coalisão governamental.

E como consequência previsível, a coalisão governamental petista foi perdendo a unidade e a força que seriam necessárias para tomar as decisões capazes de enfrentar a crise econômica atual sem abandonar a estratégia econômica que foi sendo construída, a partir do segundo governo Lula. Este panorama de fragmentação e polarização nacional interna, entretanto, se agrava ainda mais quando ele é colocado na perspectiva de um conflito internacional cada vez mais aberto e violento, entre os EUA e a Rússia, e de uma competição política e militar cada vez mais explícita, entre os EUA e a China, sendo Rússia e China os dois principais aliados do Brasil, no projeto BRICS.

Assim mesmo, o que mais assusta e preocupa neste momento é que o receituário tradicional do PSDB parece agora cada vez mais simplista e esclerosado; enquanto o PT parece cada vez mais apoplético e paralisado; e o governo, cada vez mais dividido e fragilizado. É óbvio que o Brasil sairá desta situação e seguirá em frente, como já o fez no passado, mas não está claro qual será a estratégia e o caminho vencedor. 

No entanto, é preciso ter atenção, porque foi nestas situações de alta polarização e incerteza social que surgiram e galvanizaram o poder em outras sociedades ocidentais, forças sociais e políticas fundamentalistas, obscurantistas e retrógradas, que sempre contaram com o apoio oportunista de amplos setores da elite financeira e iluminista, nacional e internacional. Os mesmos setores que depois derramam “lágrimas de crocodilo” na porta dos campos de concentração onde se tentou purificar e corrigir o mundo através da exclusão ou da morte dos impuros e dos hereges.

José Luis Fiori*é  professor e titular de economia política internacional da UFRJ. 

A direita odienta e o anti-Dilma e anti-Tudo

 

Biodiversidade – avanço no interesse nacional

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Neste dia 20 de maio, foi sancionada pela Presidência da República a Lei nº 13.120/2015, que define o novo Marco Legal da Biodiversidade, aprovado pelo Congresso Nacional no dia 27 de abril de 2015.

O assunto é estratégico e está na fronteira das oportunidades que tem o Brasil no contexto mundial, dada sua riqueza em biodiversidade e a força de seus pesquisadores na área.

Escolhi o “caminho do meio”, neste excelente artigo da Liana John, que alimenta o excelente blog de divulgação científica, o Biodiversa. Recomendo. Diretamente do blog Biodiversa.

Durante os últimos cinco anos, este blog Biodiversa trouxe notícias de pesquisas realizadas com a biodiversidade brasileira, com o objetivo de mostrar que as espécies nativas de plantas, animais e microrganismos servem de inspiração e base para alimentos, cosméticos, medicamentos, diagnósticos médicos, controle de pragas agrícolas, tratamento de água, materiais de construção, recuperação de fotografias, iluminação de semáforos e muitos outros produtos e tecnologias. Nossa ideia sempre foi comprovar o quanto somos todos biodependentes, nos mais diversos aspectos de nossa vida.

Precisamos tanto da biodiversidade, agora e sempre, que não podemos nos dar ao luxo de colocar redomas em cima de nossos campos, cerrados, florestas, rios, lagos, zonas costeiras, transformando a biodiversidade em coisa de museu, intocável. Também não podemos adiar todo tipo de pesquisa para um futuro distante. A biodiversidade é nossa riqueza e a hora de conhecer e usar essa riqueza é já. Mas, claro, tudo deve ser feito de modo ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável, conciliando produção com conservação. É possível e temos conhecimento científico para tanto.

O que nos falta é um caminho legal menos árduo para criar produtos e tecnologias a partir da biodiversidade brasileira, sem causar degradação ambiental ou ameaçar as espécies de extinção. E para colocar esses produtos e tecnologias no mercado, sem esquecer aqueles que detêm o conhecimento tradicional sobre os usos pesquisados.

Até ontem, o conjunto de regras e leis de uso da biodiversidade em vigor no País estavam mais para redoma e barreira do que para aproveitamento consciente da riqueza. Neste dia 20 de maio, foi sancionada pela Presidência da República a Lei nº 13.120/2015, que define o novo Marco Legal da Biodiversidade, aprovado pelo Congresso Nacional no dia 27 de abril de 2015. A nova lei ainda leva 180 dias para entrar em vigor, após sua publicação no Diário Oficial da União, mas já é festejada por simplificar o uso da biodiversidade.

De fato, aqui no Biodiversa, nesses cinco anos de contatos com os pesquisadores das espécies brasileiras, encontramos um grande número de profissionais punidos pela inflexibilidade e farta burocracia da legislação anterior – a Medida Provisória 2.186-16, de 2001 – ou por sua interpretação pelos órgãos governamentais, como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN).

Vários pesquisadores foram tratados como biopiratas ao solicitarem permissões de pesquisa, enquanto os biopiratas de verdade circulam pelos portos e aeroportos sem pedir licença alguma. Há casos de especialistas multados por motivos surrealistas. Alguns chegaram a mudar de ramo de pesquisa, cansados de tanta papelada. E um grande número de patentes – resultado do conhecimento gerado em muitos anos, com muito esforço – encontra-se sem uso, por que são poucas as indústrias que se arriscam a trabalhar com a biodiversidade brasileira, devido ao mesmo excesso de burocracia.

Em princípio, o novo Marco Legal da Biodiversidade tira um peso das costas dos pesquisadores e das empresas fabricantes de produtos inspirados ou baseados na biodiversidade. A exigência de licença prévia será substituída por um cadastro simplificado via internet e as multas aplicadas até agora serão retiradas. Também muda o prazo para definição da divisão dos recursos provenientes da exploração do patrimônio genético. E o CGEN passa a ser mais equilibrado, com representantes do setor privado.

Na opinião de ambientalistas, as novas regras prejudicam as populações tradicionais e indígenas, detentoras do conhecimento sobre o uso da biodiversidade no qual se baseiam muitas pesquisas. Talvez tenham razão. Porém há bons motivos para flexibilizar alguns procedimentos anteriores. Existem muitos usos populares de espécies brasileiras cuja origem é indeterminada e não há meios de estabelecer uma repartição de benefícios justa. É o caso, por exemplo, de alimentos como o maracujá ou a mandioca, com algumas pesquisas agronômicas emperradas por tal impasse.

O fato é que precisamos de regras racionais de uso da maior riqueza brasileira. Precisamos de uma fiscalização que não inviabilize a pesquisa e uma pesquisa que não favoreça a degradação. Precisamos de empresas que coloquem a biodiversidade brasileira no mercado e lucrem com isso sem serem demonizadas. Só assim teremos um mercado capaz de repartir benefícios com os autênticos detentores do conhecimento. Precisamos, enfim, juntar todos os elos das cadeias produtivas, sem pender mais para um lado do que para o outro. Precisamos de um caminho do meio, como reza a filosofia zen.

Se o novo Marco Legal da Biodiversidade será este caminho do meio, só o tempo dirá. Parece ter começado bem. Vamos ver se não descamba por desvios burocráticos ou interpretações distorcidas. Ficamos na torcida, como bons biodependentes que somos.

O RECADO DOS VETOS
O novo Marco Legal da Biodiversidade (Lei nº 13.120/2015), sancionado ontem pela presidente Dilma Rousseff, teve cinco vetos, que comento a seguir.

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Conforme texto publicado hoje (21), no Diário Oficial da União, dois desses vetos se referem aos órgãos a serem notificados; aos órgãos que ficariam encarregados da concessão de autorizações de pesquisa e aos órgãos responsáveis pela fiscalização. O Planalto considera que tais atribuições são prerrogativas do Executivo e não devem estar na lei.

O veto mais importante é o do parágrafo 10 do artigo 17, que isentava de pagamentos de royalties quem explora produtos acabados oriundos de acesso ao patrimônio genético, tendo iniciado a pesquisa antes de 29 de junho de 2000 (data da primeira legislação sobre patrimônio genético). Continuam isentas as empresas que iniciaram a exploração econômica de produtos derivados de espécies nativas antes dessa data.

O Planalto entende que seria difícil confirmar quem fez o acesso à biodiversidade antes de 2000 e, portanto, essa isenção seria uma porta aberta para fraudes. Já os produtos que estavam no mercado antes da legislação devem mesmo ser isentos. Não tem sentido cobrar royalties retroativamente, se não existia nenhuma lei de repartição de benefícios quando eles foram lançados.

Quem mais perde com o veto são as empresas que efetivamente fizeram o acesso ao patrimônio genético antes de 2000, mas só conseguiram colocar os produtos no mercado depois disso. As pesquisas para o desenvolvimento de produtos – medicamentos e cosméticos, por exemplo – demoram vários anos, devido à necessidade de testes clínicos. Podem existir muitos produtos nesta situação, portanto.

O consolo é saber que tais produtos não serão mais multados e as multas já aplicadas serão retiradas. Há diversos casos de empresas e pesquisadores multados por fazer pesquisa sem licença, sendo que os projetos foram iniciadas antes de existir a legislação de acesso ao patrimônio e as solicitações de licença foram feitas tão logo as leis entraram em vigor. Ou seja, na prática, eles foram multados por que não adivinharam as leis que só seriam feitas depois de iniciados seus ensaios.

Também é relevante o veto ao parágrafo 4 do artigo 19, que facultava a indicação do beneficiário da repartição não monetária de benefícios a quem explora economicamente um produto acabado ou material reprodutivo oriundo de acesso ao patrimônio genético. Quer dizer, o Poder Público quer para si a definição de quem recebe os benefícios repartidos, mesmo quando não há exploração monetária.

A boa notícia é que os vetos não mudam a essência da Lei nº 13.120/2015, absolutamente necessária para colocar o Brasil no lugar merecido como país megadiverso e cientificamente capaz de transformar essa riqueza virtual em desenvolvimento sustentável. Novos ajustes serão necessários, como ocorre com a maioria das leis, mas a base é boa e promete impulsionar novas pesquisas com a biodiversidade. Ou, pelo, menos deixar de atrapalhar.

Fotos:
Liana John (flores de escova-de-macaco, uma planta do Cerrado brasileiro, ao alto, e perereca da Floresta Amazônica, acima)

​Um pacto universalista na ​disputa do orçamento público

A iniciativa do presidente do Senado, Renan Calheiros, de propor mudanças no pacto federativo é coisa para se atentar. Quer dizer, o modo como se partilha o orçamento público e as responsabilidades de cada uma das três instâncias da Federação.

Não fosse a insegurança de que a iniciativa possa se transformar em mais um expediente da luta política no seio do governo, o assunto demanda atenção há muitos anos, e incide sobre uma situação das contas de Estados e municípios agoniante.

Há que se atentar, entretanto, para dois problemas.

O mais claro é que tais medidas, na ausência de entendimentos profundos entre Legislativo e Executivo – quaisquer que sejam seus ocupantes – pode gerar crise maior que o próprio problema.

Mas poderia vir a ser uma importante mudança no país se for enfrentada a questão de fundo: ainda não se produziu um consenso definido em tal assunto, e não se trata de matéria que possa ser improvisada.

Quando falo em consenso refiro-me, na verdade, à criação de uma correlação de forças favorável a determinadas mudanças.
As forças progressistas deviam estar alertas quanto aos riscos, portanto, mas também às oportunidades
de se alcançar, em função do projeto nacional e avanço do desenvolvimento econômico-social no Brasil, um pacto universalista.

O orçamento público é sempre alvo de uma disputa política. Nela atuam poderosos interesses. O atual ministro Nelson Barbosa os expôs recentemente, num debate bem atual.

Identificam-se as forças rentistas, interessadas nos juros da dívida pública e superávit fiscal – afinal, melhor parte do bolo orçamentário paga esses juros aos financiadores da dívida pública. Há as forças industriais, interessadas em desonerações e subsídios ou créditos, e dependente do câmbio. Há as forças trabalhistas – nela incluídas a subparte do funcionalismo público – interessadas numa partilha maior do orçamento para aumento de salários. Há as forças das esferas públicas, Estados e Municípios, que partilham orçamentos “carimbados” ou não.

A oportunidade estaria em forjar um novo consenso social e político, de atribuir poder nessa partilha aos serviços públicos – saúde, educação, segurança, mobilidade urbana. Seria um pacto universalista. Na verdade, seria o coroamento do espírito da Constituição cidadã de 1988, e tal pacto beneficiaria não apenas todos os presidentes, governadores e prefeitos, mas ainda mais substancialmente à população de todo o país, em particular os mais humildes.

Bem vistas as coisas, um pacto desse tipo já tem apoio na sociedade e nas ruas – desde as jornadas de 2013 isso ficou patente.

Sabe-se que disputas políticas magnas como essa demandam tempo para forjar um consenso amplo e dominante. Mas não custa tentar: seria um passo seguro na direção de melhorar as condições do povo e, igualmente, da produtividade do trabalhador brasileiro. A melhor parte do orçamento ser aplicada nesse pacto universalista seria injeção na veia na promoção do desenvolvimento econômico e humano do Brasil.

Será isso o que terão em mente os senadores do grupo de trabalho instituído pelo Senado?

* * *

Alberto Carlos Almeida, cientista social, pôs mais uma pá de terra no projeto do sistema eleitoral chamado Distritão. Com cálculos baseados nas últimas eleições – embora extrapolados porque se deram sob o atual sistema proporcional – ele chega bem perto da verdade. O Distritão desprezaria o voto de até 40% dos eleitores, já que entram apenas os mais votados. Os eleitores que votaram em candidatos não eleitos tendem a ser a esse número bastante expressivo. São votos jogados fora.

Quer dizer, reduz-se a representatividade das instituições do país escolhidas pela soberania do voto popular.

Tudo somado, não há sistema eleitoral perfeito, mas o atualmente vigente no Brasil é bom e pode ser aperfeiçoado. Entre outras coisas
, extinguindo o financiamento empresarial e manter sob normas o financiamento privado e deixando de excluir do cálculo do quociente eleitoral os que não o alcançaram.

walter

O que virá a seguir?

Constituiu-se um vazio político no país, carente de alternativas/estratégias para retomar caminhos de crescimento econômico, e de lideranças políticas para conduzi-las, superando a crise.

vira+seguir

O vazio é uma contradição em termos, porque nada é tão povoado quanto o vazio na política. Mas falta uma força e uma nova estratégia – sem o que se navega sem bússola – e aquelas lideranças que as empolguem.

O que está em discussão é o esgotamento do modelo de crescimento adotado no Brasil, no quadro de forças no mundo atual. O país vive, mais propriamente, uma crise macroeconômica, com o profundo desarranjo das contas públicas e atado, em muitas dimensões, ao tripé dominante dos juros, câmbio e superavit fiscal todavia dominante.

No Brasil, precisa-se transformar a economia de demanda – renda, emprego, consumo, crédito – numa economia de oferta, promovendo a produtividade da economia e sua competitividade mundial. Reconhece-se a acentuada desindustrialização precoce do país, face à chamada “doença holandesa” (maldição dos recursos naturais) que deixou o câmbio cronicamente apreciado, comprometendo os termos de troca da indústria nacional.

Precisa-se de inovações estruturais: promover reformas estruturais que, hoje, estão mais dificultadas que no passado recente, no quadro de forças do governo Lula; e investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Incentivar a indústria nacional depende de enfrentar a valorização crônica da moeda brasileira, o que implica numa equação macroeconômica para o desenvolvimento. E os serviços públicos precisam de um salto, em especial da educação e saúde, com financiamento e gestão que estão, ainda, dificultados no horizonte em face do orçamento público. É a isso que se refere a necessidade de uma nova estratégia. O que todos se indagam é como o governo Dilma sinalizará o que virá a seguir ao ajuste; certamente não faltam agendas positivas para o governo e possibilidades de recuperação de aprovação ao governo, mas a estratégia para a retomada do crescimento econômico pede mais clareza.

Mas do outro lado, do lado da oposição, também falta uma nova agenda para se dirigir ao povo. Fazer o que? Iam pôr ‘Levys’ mais duros na economia? Na verdade, o ajuste deles (embora o de Dilma-Levy os deixem na defensiva) é o ajuste de mercado, a austeridade, recessão assumida com desemprego para botar as coisas “em ordem”. Que novo crescimento econômico vão obter com isso? Que vão propor frente à desindutrialização? Eles precisam forjar um novo consenso, para encaixar nele o fim da partilha no petróleo, atrelar-se aos mercados financeiros de modo mais visceral, et etc. Vão propor isso? Com que cara?

Na verdade está claro: deixar o país e Dilma sangrarem para aplianar caminhos ao ‘novo’ consenso. Enquanto isso, suas usinas vão tentar forjé-lo. Suas usinas estão a pleno vapor, a realidade hoje está inclinada em seu favor – dado o quadro internacional e, nele, a realidade econômica do país.

A esquerda brasileira, capitaneada pelo PT, reconhece abertamente um “vazio teórico (sic) de análises, reflexões e iniciativas sobre o que vem acontecendo no Brasil e no mundo”, o que é só em parte o reconhecimento de limites de horizonte dessa força política como governo, como evidencia o esforço que concedeu às reformas estruturais, o eixo político em que assentou as alianças desde 2007 promovendo a descentração do núcleo de esquerda, a própria “teoria” dos social-desenvolvimentismo com que procurou fundamentar o caminho percorrido.

Nesse quadro econômico e macro-econômico, o ajuste promovido por Dilma não é agenda, mas precisa ser apenas mera preliminar para ganhar margem de manobra e depender menos da confiança financeira.

Mas é na política que a crise se conforma e é na política que se sai dela. De um lado e de outro faltam liderança, os que capitaneiem, dada a situação de Dilma neste momento, e tampouco a de Aécio, pois já não estamos em outubro passado.

No vazio da ação do Executivo, o Congresso ocupa espaço, tenta impor agenda própria, de corte conservador – refletindo comportamentos conservadores de nossa sociedade. Nesse sentido, não há outro modo senão o de Executivo e Legislativo se entenderem. Mas há o sentido partidário desse conflito, envolvendo o papel do PMDB e o do PT no governo.

O PMDB é o que é: o grande centro do espectro político, sagaz, experiente e profissional na ocupação de espaços. Por ora vão impondo sua agenda política própria, fazendo-se credores dos arranjos em curso. Argumentei em artigo anterior essa agenda se impondo na conjuntura.

O PT vive uma crise, tema de seu próximo Congresso. Precisa sustentar o governo, mas vastos setores, “autonomizados” como núcleos de poder paralelos à direção partidária buscam, contraditoriamente, descolar-se dele em certo grau. Não é por seus limites que o PT e a esquerda são atacados vilmente, mas eles existem e precisam ser enfrentados, notadamente quanto à obtenção de consentimento para liderar, e não apenas impor-se pela força, além de uma atualização da estratégia para a retomada do crescimento econômico.

Para o governo e para a oposição há dilemas pelo caminho, com altos e baixos, exacerbações e aparentes calmarias. Mas é, ainda, uma situação instável, perigosa e indefinida quanto ao desfecho, nesse vazio político.

O PMDB domina a agenda política

Em meio aos ziguezagues que se verificam no comportamento das forças políticas – a votação da MP 664 foi um exemplo, no tocante a muitos partidos da base de Dilma no Congresso –, e em especial o jogo que faz o PMDB com o comando da Câmara e Senado, o que devia estar mais claro é que o PMDB vem impondo a agenda política no país nesta conjuntura, seja por sua iniciativa, seja pelo fato de comandar as duas casas do Congresso.

Com unidade e luta entre três pólos – Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros -, com diferentes motivações e cada um dos quais com suas próprias idas e vindas, o fato é que o PMDB foi a âncora das últimas votações do Congresso. Daí resultaram as medidas da terceirização, da maioridade penal, das próprias medidas do ajuste fiscal – com o requinte de ter reptado o PT na votação -, da aparente dominância que parece ter a proposta do “distritão” na Câmara dos Deputados e, por fim, mas não menos importante, a proposição de um novo pacto federativo que reorganize a distribuição dos recursos entre os três níveis da Federação, em curso no debate do Senado.

As forças de centro ou têm o comando do governo ou são, classicamente, o fiel da balança no equilíbrio entre pólos dominantes. No caso do Brasil, tradicionalmente, sempre tivemos um centro muito forte. O PMDB é sua expressão mais característica, em que pese ser uma federação de interesses, em unidade e luta entre si, como referido. Sagaz e experiente, sabe ocupar espaço.

Com o enfraquecimento do governo e com a consequente reorganização progressiva do sistema político – ou ao menos da polarização primária PT x PSDB – é o PMDB que tem dado o tom. Ao fazê-lo recolhe uma pauta de ideário conservador que se manifesta na sociedade e se reflete na Câmara dos Deputados, notoriamente neoconservadora. Têm nas mãos a vice-presidência, e as presidências das duas casas do Congresso. Buscam credibilidade para gerir a crise política, se necessário alternativa, e constituir condições para afirmar seu projeto, que nunca contou com candidatura presidencial com um mínimo de viabilidade desde a redemocratização.

Se a situação não descamba para aventuras golpistas – cada vez menos no horizonte -, o PMDB vai se fortalecer e pode captar parte das forças que se desprendem do comando do governo. Em 2016, podem vir com força e conquistar terreno. O resto dos movimentos, pelas mesmas razões, também tendem a enfraquecer o desempenho do PT em 2016, como é o caso da fusão PSB-PPS e PTB-DEM. Muita água vai rolar, mas as chances do PT estão umbelicalmente ligadas a alguma recuperação da aprovação do governo Dilma, inclusive para 2016.

walter